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São mais de 3500 km entre Lisboa e a Noruega. É o percurso que neste preciso momento o Sporting está a realizar para disputar a primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões. O adversário, o Bodo/Glimt, o 23º classificado da fase liga da prova milionária e que surpreendeu até mesmo os mais conhecedores do futebol nórdico ao eliminar, na fase de playoff, um gigante do velho continente, o Inter de Milão. Na fase de liga, esta formação norueguesa já tinha derrotado formações como o Manchester City ou também o Atlético de Madrid. Através de chamada, tenho comigo o Hugo Vicente. Ele é coordenador técnico do Viking, da Noruega, um emblema que milita na primeira divisão deste futebol norueguês e que costuma jogar contra o adversário dos Leões. Mais uma vez, Hugo, muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador. A primeira pergunta é muito simples. Para quem ainda não conhece este adversário, quem é o Bodo/Glimt e como é que em, pelo menos duas temporadas, não só na Liga Europa, mas mais recentemente na Liga dos Campeões, como é que esta equipa deixou a Europa do futebol a olhar para o círculo polar ártico?

Boa. Antes de mais, obrigado pelo convite. O Bodo/Glimt tem sido uma surpresa, até mesmo aqui a nível interno. Ou seja, temos o futebol norueguês que foi durante muitos anos dominado pelo Rosenborg. E depois houve um eclipse do futebol norueguês, portanto, quer a seleção, quer as equipas deixaram de ter presença assídua na Europa. Houve claramente uma queda naquilo que era a qualidade do jogador, das equipas e tudo mais. E houve aqui um processo de renovação do futebol norueguês que começou cerca de 2015, mais ou menos, entre os clubes, os próprios clubes juntaram-se e tentaram revitalizar o futebol.

E o que mudou?

O que mudou foi muita coisa. O futebol tornou-se mais profissional a nível de toda a Europa e na Noruega continua a ser um contexto em que se tu perguntares a alguém qual é o teu clube, eles vão dizer que é o Liverpool, é o Manchester City, é o United. Portanto, eles são muito anglofónicos, acompanham a Premier League como loucos. E o clube local acaba por ser como em Portugal, tu és ou do Sporting, ou Benfica, ou do Porto, depois acompanhas ali o clube na terra.

Quase como um escape ao fim de semana, propriamente dito.

Exatamente. Quem gosta de futebol, e eles são muito apaixonados por desporto e futebol, mas não havia aquela noção de que o jogo profissionalizou-se no resto do mundo e as coisas aqui continuavam a ser quase como um part-time. Continuavas a competição aqui, estou a ser um bocado extremista, mas era um bocado visto dessa forma, se calhar porque a prioridade, o fanatismo pelo futebol local não existe.

E a paixão desviava-se para outro tipo de modalidades, concretamente, por exemplo, o andebol, uma modalidade de pavilhão, não é necessário estar no exterior ou até mesmo alguns desportos de inverno que tiveram destaque agora nos últimos Jogos Olímpicos de Milão.

Sim, a Noruega foi no esqui e em tudo o que é, o país que mais medalhas ganhou, portanto os desportos de inverno. Mas atenção, isto não retira espaço ao futebol. O problema é que estamos a falar de 5 milhões de habitantes num país que tem uma densidade também brutal, mas o tamanho é brutal. Portanto, se pegares no mapa da Noruega e rodares, vais dar a Milão, de onde ele está, por exemplo. Para ter uma noção, a cidade mais próxima aqui, nós olhamos para o mapa com os mesmos olhos que em Portugal, mas as distâncias de uma cidade para a outra são, por exemplo, Bodo, as cidades mais próximas fica sempre a uma, duas horas, com caminhos cheios de neve, com uma dificuldade de acesso tremenda. Portanto, há esta dificuldade. O país é pequeno, e isto fez com que o futebol, se calhar, não fosse levado tanto a sério. Os clubes juntaram-se porque precisavam de ter um melhor produto. O jogador norueguês deixou de ser interessante para o mercado inglês, para o mercado europeu, como era antigamente. A seleção não entrava em lado nenhum, os clubes não tinham nada. E então, o que aconteceu, na prática, foi os clubes juntaram-se, criaram como se fosse a liga de futebol, que é dominada pelos clubes, e tiraram uma percentagem das receitas de televisão com o intuito de melhorar o produto interno. Ou seja, muito foco naquilo que era. Eu trabalhei no Viking, onde estou neste momento, trabalhei há coisa de 13 anos atrás, 10 anos atrás, algo assim, não consigo precisar, e eu consigo ver que a diferença entre a nossa academia naquela altura e agora é o dia e noite. Neste momento, eu posso dizer que estamos ao nível daquilo que acontece no resto da Europa. Há 10 anos atrás era como se trabalhasses num nível amador, eras tu e um saco de bolas. A realidade era completamente diferente. Houve todo este trabalho de revitalizar o que é a formação, o que é a forma de trabalhar e de se organizarem os clubes. E isto tem sido crescente desde 2015. Neste momento, a Noruega passou do ranking como o país 20. Houve uma altura que estava abaixo de Malta e das Ilhas Faroé e neste momento estamos quase no top 10.

E estão apuradas para o Campeonato do Mundo passado há alguns anos.

E apuradas para o Campeonato do Mundo e tu tens jogadores como, eu já disse isto uma vez, o Jørgen Strand Larsen, que era avançado do Wolverhampton, foi para o Crystal Palace, é um jogador topo. Neste momento, se calhar, nem é titular na seleção, porque tem o Erling Haaland e o avançado do Atlético de Madrid.

O Alexander Sorloth, sim

O Sorloth. Depois tens ainda o Martin Ødegaard. Tens jogadores com uma presença internacional que antigamente a Noruega não tinha.

E já lá vamos essa presença internacional do jogador norueguês e também do jogador concretamente escandinavo, da Dinamarca, da região mais a norte do velho continente, mas o Hugo pegou há pouco nesse contexto da formação, evolução que os emblemas noruegueses tiveram de ter a partir de 2015, 2016, como referiu, e há tempos numa entrevista referiu que há uma diferença e há uma abordagem completamente distinta àquilo que é praticado em Portugal, e o Hugo também tem esse conhecimento, porque esteve na formação do Benfica, esteve na formação do Braga, passou há pouco tempo também pelos quadros do Famalicão. A Noruega é um país, como já referiu, que tem cerca de 5,5 milhões de pessoas, mas que, por exemplo, os mais jovens são habituados desde o início a praticar desporto independentemente do que seja. Mas é uma prática alimentada principalmente pelos pais, ou seja, não há uma escola de formação, nem uma academia propriamente dita, ao que por exemplo, podemos observar em Portugal, e essas infraestruturas propriamente ditas, num contexto mais profissional, aparecem apenas numa idade entre os 13 e os 14 anos. Não lhe vou questionar qual é o modelo mais forte ou melhor em termos de comparação com o português, mas pergunto-lhe quais são os benefícios que este tipo de modelo, ou seja, a maior presença de uma figura maternal ou paternal, podem ter no crescimento de um jogador?

É assim, eu acho que o problema aqui é todo o lado cultural. Nós não podemos dizer, apesar da Noruega ter muito sucesso neste momento, mas tem muito sucesso em vários desportos, portanto, isto é uma coisa interessante, este modelo funciona, mas não podemos comparar aquilo que Portugal consegue, nós também somos só 10 milhões, aquilo que é o nosso produto de futebol e o que exportamos, nem sequer vamos comparar, a nossa realidade é formidável. Muito por quê? Porque nós realmente pensamos na formação do jogador de futebol, nós pensamos no desporto como não é algo como um produto de integração social. Ou seja, aqui as crianças quando fazem seis anos, participam nos esportes aqui do bairro, do teu local, do teu bairro, vais para o clube do teu bairro, não tens a mínima intenção de procurar qual é o melhor clube e juntam-se os miúdos todos desta idade, as atividades são geridas pelos pais e assim é até aos 12 anos. A própria lei não permite que haja seleções, nem nada abaixo dos 12 anos. Portanto, é suposto seres criança e tudo o que fazes é meramente recreativo. Não há nenhum processo de seleção. Tem sempre um pai mais maluco da cabeça que vai fazendo as coisas um bocado ao contrário, mas não é como em Portugal. Portanto, a ideia de ganhar, do meu filho ser o melhor.

Não há pressão de crescer tão rápido para uma realidade onde cada vez mais há jogadores a surgirem aos 16 e aos 17.

Não há. O problema é que depois o outro lado da moeda é as academias, aqui para te dar o contexto, o Viking, que é o clube onde estou, é a melhor academia do país, neste momento, e foi também considerada a melhor há dois anos atrás, na última qualificação que houve, por causa deste projeto que se fez para revitalizar. Nós só começamos a ter jogadores a partir dos 15 anos. Antes disso, os jogadores treinam conosco duas vezes por semana, mas continuam a jogar nos clubes locais deles. Portanto, isto em Portugal, teres esta ideia não faz sentido. E qual é o motivo de não os trazeres para o teu contexto? É porque não os queres retirar do grupo de amigos, não os queres retirar do dia a dia, não queres profissionalizar as coisas demasiado. Mas depois, há o lado oposto, que é tu queres que eles estejam prontos para o futebol sénior o mais rápido possível.

Mas isso não traz outros benefícios? Ou seja, nós falamos muitas vezes, e voltando à questão do adversário do Sporting, essa cultura de equipa, cultura de um conjunto, de uma coletividade de jogadores que está muito presente e que pudemos observar na fase liga da prova milionária. Essa cultura de equipa, de um não joga por todos, mas uns fazem parte de um grande grupo, não pode ser mais benéfico a médio e longo prazo, por exemplo, num contexto de seleção?

Sem dúvida que mesmo a nível cultural, isto tem um impacto social tremendo. Portanto, eu acho que a nível de equipa, acho que todas as equipas norueguesas, até pelo poder de compra que temos aqui, tu não consegues ter as estrelas. Obviamente, tens sempre um jogador que se evidencia em relação aos outros, mas a própria cultura. Aqui, por exemplo, os jogadores limparem os balneários, fazerem coisas que durante uns tempos foi normal do Japão ser o campeonato do mundo, porque limpavam o estádio, limpavam os balneários. Aqui é uma coisa perfeitamente banal, ou seja, aqui não há o estatuto de ser jogador profissional, na Noruega, é uma coisa completamente diferente de que, por exemplo, se comparares com a Suécia, que tem a mesma cultura. Portanto, isto são dinâmicas, é um país escandinavo e na Suécia tu seres jogador de futebol, tu vais aos restaurantes, se calhar comes já à grande de borla. E tu aqui não tens isso.

Já é como uma superestrela e na Noruega, não.

Exatamente. E na Noruega, não. Há aqui dinâmicas culturais que são muito específicas, mesmo sendo dentro da Escandinávia, é diferente aqui, é diferente na Suécia, é diferente na Dinamarca. Mas no grosso, tu percebes que há uma noção de coletivismo muito maior do que em Portugal. E a nível de formação do jogador, obviamente, para nós, o que nos define, temos muita qualidade no que fazemos, temos muita qualidade, muita exigência no treino, no jogador, mas nós temos que ter noção que o nosso processo muitas vezes tem sucesso, porque nós juntamos à base do scouting, juntamos os melhores jogadores todos juntos, e eles mesmo com mau treinador, eles conseguem descobrir o caminho, porque se todos os dias treinares e jogares contra os melhores Tu consegues algo mais. Portanto, eu acho que o que nos falta aqui, falta-nos um bocado esse lado de sermos mais agressivos a selecionar os melhores, mas, por outro lado, tens muito mais paciência no trabalho com os jogadores, até porque se quiseres selecionar os melhores, por exemplo, nós aqui neste contexto, na cidade onde estamos, comparativamente com os clubes em Oslo, temos muito mais paciência, porque não temos jogadores para ir buscar ao lado. Ou seja, estás muito limitado enquanto que num contexto Sporting-Benfica, se este jogador não serve, no fim do ano vai embora e vem outro. E é assim que o futebol português funciona.

Essa mais paciência.

E os jogadores sabem disto e pronto, são dinâmicas diferentes, todas com lados positivos e todas com lados negativos. Portanto, acho que é um bocado por aí.

Então tendo em conta que passou pela Noruega há mais ou menos 10 anos, referia essas diferenças bem notórias naquilo que era o processo formativo. Vou pegar também no historial daquilo que era o jogador nórdico em Portugal e nos anos 90 a liga portuguesa teve muitos nos últimos anos e neste caso atualmente tem jogadores que se destacam nos três grandes. Eu pergunto-lhe muito concretamente, e é quase como um desafio, três, quatro palavras para definir desportivamente o jogador nórdico.

Olha, robustez física é o ponto número um. Normalmente são jogadores com corpo atlético bastante diferente do nosso, mais porte físico. Muito mais auto-driven, já me está a faltar o português. Muito mais dedicados àquilo que é o seu próprio desenvolvimento e isto tem a ver com educação também, não é apenas o futebol.

Um esforço individual mais forte do que propriamente outro tipo de jogadores ou neste caso outro tipo de culturas.

Sim, tu tens mesmo na própria escola, ou seja, para dar um exemplo, na escola em Portugal nós damos-te a matéria e tu lês e aprendes e tem que ser assim. E depois podes descobrir outras coisas. Aqui dizem-te: "Olha, este é o caminho, este é o caminho, este é o caminho e tu agora abres a porta e vais explorar à tua medida". Ninguém te obriga a fazeres testes. E qual é o impacto disto? Isto na formação, se tu quiseres mesmo ser jogador de futebol, tu vais levar isto a sério. E em Portugal é um bocado diferente, o treinador é que manda, é assim que é, e aqui tens uma cultura mais aberta. Qual é a consequência disto? Acabas por ter jogadores taticamente mais flexíveis, acabas por ter jogadores com mais curiosidade e conhecimento do jogo. Mas estamos a falar de forma generalizada. Outro detalhe que eu acho que é interessante no jogador escandinavo, que eu tenho reparado sempre, é a capacidade de realmente dizerem aquilo que pensam. Porque em Portugal, às vezes, tu se calhar porque queres jogar, acabas por não dizer aquilo que achas, acabas por ter medo de falar em pleno. E aqui há uma cultura muito aberta de partilha, de discussão.

Acabam por deitar tudo cá para fora, independentemente de ser bom ou mau.

Sim, mas com à vontade, porque sabem que aqui ninguém vai andar atrás de ti. O intuito é sempre melhorar e discutir as coisas. Nas próprias organizações, tu raramente encontras o líder autoritário, que eu quero, posso e mando. E esse foi um dos grandes motivos que durante alguns anos, e mesmo o caso do Bodø/Glimt tem alguns jogadores assim, que saíram para contextos europeus de clubes top e acabaram por não conseguir funcionar. Por quê? Porque na Europa o papel do treinador em muitos contextos é assim e acabou.

E é por isso, já agora também, e passando novamente para o Bodø/Glimt, já regressamos a este adversário do Sporting, é por isso que muito do núcleo duro desta equipa norueguesa se mantém, incluindo o treinador.

Eu acho que esse é um dos segredos. Eu acho que o funcionar das coisas é realmente as decisões são tomadas por todos. Tu quando ouves aqui entrevistas do Kjetil Knutsen a falar, claramente que ele é o treinador, ele é que manda, ele é que toma as decisões, mas tu vês que as pessoas são envolvidas no processo. É uma forma diferente de fazer as coisas. E eu, quando vim de Portugal para os países escandinavos, foi um dos primeiros passos que tu tens. Eu em Portugal sempre me senti muito mais escandinavo, mas eu quando chego aqui sou muito mais português. E não é porque eu quero, é porque é normal, tu se estás a liderar um processo, és mais autoritário e aqui não é visto com bons olhos, aqui esquece. Eu acho que o Kjetil Knutsen tem realmente nessa dinâmica de grupo, e essa dinâmica de grupo, agora focando no Bodø/Glimt, tem um impacto naquilo que vês, que é a força da equipa. A equipa realmente é o seu todo. Tem jogadores com uma qualidade individual boa, muito elevada, como o Jens Petter Hauge, por exemplo, mas tem jogadores com uma cultura de trabalho. Por exemplo, eu treinei o Kasper Hauge, o avançado, no Stabæk. Ele era o nosso avançado. Um jogador que se tu me dissesses assim, um talento tremendo. Ele tinha duas características: era bom a finalizar e não parava de correr. Ele ia a toda a bola, porque ele tem desejo de trabalhar para os outros, tem desejo, porque ele sabe que se trabalhar para os outros vai ter mais bolas, vai conseguir finalizar mais e por aí fora. Uma mentalidade muito coletiva e eu acho que o Kjetil Knutsen conseguiu, fruto de estar lá há oito ou nove anos, ter essa estabilidade e o clube cresceu desta forma, um modelo de jogo assentado naquilo que era as ideias do Kjetil, aquilo que era as ideias do próprio treinador anterior a ele, que é um dos adjuntos do Kjetil Knutsen. Portanto, isto faz com que haja ali um projeto em que a cultura Ética de trabalho é a base e este é o segredo do Bodo/Glimt.

Estamos novamente a falar do técnico do Bodo/Glimt, Kjetil Knusen, quase oito temporadas ao serviço desta equipa norueguesa. Como já referiu, esteve no primeiro ano no Bodo/Glimt como adjunto e muitas pessoas já o têm associado a outros emblemas europeus, inclusive também emblemas portugueses. Falou-se muito brevemente do nome do Kjetil Knusen como possível técnico do Foco do Porto. Pergunto-lhe como é que um técnico com um pergaminho em termos de história no futebol norueguês, em que esteve na segunda divisão e agora está a fazer furor nas provas da UEFA, como é que ainda não deu o salto? Ou seja, será que se sente muito confortável no Bodo e que não consegue ter essa proposta irrecusável para dar o salto para outros países da Europa?

Não, ele tem tido propostas e eu sei pessoalmente que ele tem tido propostas para contextos bem mais acima, mas há aqui uma paixão. Sendo um país megademocrático e muito baseado naquilo que é o coletivo, é um país também muito nacionalista, que defende muito aquilo que é a identidade norueguesa, aquilo que são os valores do país. As pessoas têm um orgulho muito grande naquilo que é local, naquilo que é nacional. E o Kjetil tem claramente a missão de querer ser, porque foi a bandeira no primeiro ano daquilo que era o futebol norueguês, acabou por ser uma locomotiva que puxa os outros, e ele tem tido quase como uma missão de continuar a enaltecer aquilo que é o futebol norueguês. Eu não sei o que é que vai na cabeça dele e o que é que são as propostas que ele teve, mas sei que já teve coisas bem concretas e ele acabou por querer: "Não, eu vou ficar mais um ano porque nós temos de consolidar aquilo que é o futebol norueguês, temos disto e aquilo". Há claramente, e tu notas aqui, por exemplo, neste trabalho que foi feito pelas academias, nós temos completamente a porta aberta. Entre nós, nós temos discussões regulares mensais com os coordenadores da academia e que realmente falamos de como é que tu fazes, como é que eu faço, visitamos uns aos outros.

Essa partilha de conhecimento.

Isto em Portugal esquece. Quando acontece é de uma forma muito plástica, de uma forma de não quereres, tu não queres realmente dizer tudo o que fazes, porque este é o meu segredo. E aqui as pessoas percebem que tu ganhas a desafiares uns aos outros e a partilhar uns com os outros. Esse tem sido o segredo do crescimento. Há uma cultura de partilha que é tremenda e isto reflete-se em outra coisa. E eu acho que esse é o motivo do Kjetil ainda não ter dado o passo, mas acho que vai chegar a uma altura que ele vai ter de o fazer, porque a Noruega começa a ser pequena demais para um trabalho destes. Se bem que este ano teve o desafio, e ainda bem, que o campeão da Noruega neste ano é o clube onde eu estou, é o Viking. Fomos campeões, vamos à Liga dos Campeões também, se tudo correr bem na pré-eliminatória. E a partir daí espero que o Viking possa escrever uma história e consolidar, tal como o Bodo/Glimt está a fazer. Mas é perceber que também há um clube como o Brann, que na Liga Europa também, muito semelhante àquilo que é o Bodo/Glimt, tem estado e ainda está em competição. Portanto, não é um caso isolado, é apenas um caso que tem se visto mais pelos nomes dos clubes com quem eles jogam contra e têm tido sucesso.

É um fruto do trabalho, como já referiu, dos últimos 10 anos. E eu pergunto-lhe, tendo em conta também esse trabalho, não só em termos internos, nomeadamente essa subida dos emblemas noruegueses para outros patamares em termos do futebol europeu, mas pergunto-lhe também em termos de jogadores, até porque em Portugal há um jogador norueguês, Fredrik Austnes, há outros jogadores que estão a deixar marca em termos de campeonato português provenientes do futebol nórdico. Estou a falar do capitão do Sporting, Morten Hjulmand, de Alexander Bah, do Benfica, Frold, um dos já classificados como melhores jogadores deste campeonato português. Eu pergunto-lhe se, e atendendo àquilo que conhece do futebol nórdico em termos da Europa, se era algo que já estava à espera e já agora, se Portugal deve continuar a olhar para os valores que podem ascender do futebol norueguês.

Eu acho, o estar à espera, eu sempre disse que da forma como se trabalha na Escandinávia, que é muito focada naquilo que é o desenvolvimento e não o ir buscar os melhores apenas. Não estou a dizer que nós em Portugal só fazemos o apenas, atenção, não quero fazer controvérsias, porque eu sei que trabalhamos muito bem em Portugal, mas aqui realmente há mais paciência e há mais espaço para explorares, há mais espaço para falhares, porque a concorrência não é assim tanta. E depois aquela individualização do processo, que o jogador tem mais autonomia em crescer sozinho. Tu vês Alexander Isak, da Suécia, tens o Rasmus Hojlund, que foi um dos meus jogadores no Copenhagen também. Eu sempre vi jogadores com qualidade. Eu lembro-me de falar disso numa entrevista há pouco tempo, quando estive no Famalicão, chegamos a olhar para alguns destes jogadores, mas o campeonato norueguês era muito fraco e tu tinhas um bocado de receio de perceber se este jogador realmente, se o puseres nesse contexto, se conseguia dar o salto ou não. Eu acho que neste momento o jogador norueguês ou escandinavo é mais visto fruto por vários fatores, não apenas Por vários fatores. Um deles é que aparece um Håland e um Ødegaard e começa a tornar-se um mercado que tu vais olhar para lá, porque há nomes que aparecem no futebol do topo.

E já agora, que nomes também podem aparecer? E tendo em conta que o Viking é uma das maiores, senão mesmo a maior academia na Noruega, que outros nomes é que os emblemas portugueses devem estar atentos para um futuro próximo?

Há vários. Se olhares para a seleção, tu tens o Oscar Bobb, que passou pelo Porto até com 14 anos ou 15 anos, se não estou em erro, que esteve no City e está agora no Fulham com o Marco Silva. Nós aqui no Viking temos malta nova. No ano passado, fomos a equipa que mais pôs jogadores a jogarem na primeira liga abaixo dos sub-23. Temos um jogador como o Edwin Aasborg, que é um jogador que desequilibra tremendamente. Portanto, há muitos jogadores nos vários clubes noruegueses agora a disputar. Mas uma coisa que acontece, e é interessante para reflexão do futebol português, é que aqui a quantidade de minutos que o jogador norueguês tem nas equipas de topo, na primeira liga e segunda liga, é bastante elevado. Se compararmos isto com o número de jogadores portugueses que jogam atualmente na primeira liga.

É uma diferença muito grande.

Se calhar, faz-nos ver que o nosso futuro vai continuar a ser de topo, porque temos sempre clubes de topo que desenvolvem jogadores com muita qualidade, Benfica, Sporting, Porto, Bragas e por aí fora. Há mais, mas são estes que puxam a carroça e os outros não desenvolvem, não conseguem formar jogadores, porque há uma dificuldade tremenda, porque perde jogador constantemente. Por exemplo, na Dinamarca, os clubes têm um acordo que não contratam jogadores entre si em idades de formação. Isto em Portugal é inconcebível, mas qual é o objetivo disto? O objetivo é realmente focares-te na formação dos jogadores e focares-te em teres adversários em idades de 16 anos para baixo, sobretudo. Adversários de qualidade, porque se tu secas o poço, vais jogar contra equipas fracas.

E acabas por ter apenas dois, três jogos competitivos ao longo de uma temporada.

Exatamente. Portanto, há toda esta reflexão que aconteceu na Escandinávia há uns anos, que foi fruto de um período de seca, tal como aconteceu na Alemanha, quando também não se qualificaram para o Campeonato do Mundo. E eu espero que não aconteça a Portugal, mas, por outro lado, é importante haver uma reflexão profunda daquilo que são os nossos quadros competitivos, daquilo que são as nossas regras de scouting, daquilo que está a acontecer na primeira liga, perceber onde é que estão os nossos jogadores. Mas, por outro lado, Portugal tem jogadores a jogar nas ligas de topo com fartura. Portanto, será um problema ou não? Neste momento não é, mas poderá ser a nível futuro. Isto é uma coisa interessante a debater.

Sim. Estamos com pouco tempo nesta entrevista, ainda queria tocar em pelo menos dois aspectos, para além da partida da próxima quarta-feira. Para além da equipa em si do Bodø/Glimt, há outro adversário das restantes formações europeias que passam pela cidade de Bodø: é o frio. Estamos a falar de uma cidade que tem cerca de 50 mil pessoas, está no Círculo Polar Ártico. A equipa do Rui Borges está a viajar neste momento, estamos a gravar na tarde de segunda-feira, dia 9 de março, e um dos grandes fatores foi esse do frio, e também tentarem se habituar ao relvado sintético do estádio do Bodø. Eu pergunto-lhe se o frio neste momento é o principal adversário do Sporting e também enquanto equipas, como é que tentam contornar estes períodos? Sabemos que o calendário do Campeonato da Noruega é diferente do calendário, por exemplo, da Liga Portuguesa, mas pergunto-lhe, em termos de processo formativo, como é que contornam este problema?

Aqui não se costuma dizer que há mau clima, há apenas más roupas. Portanto, o frio aqui faz parte do dia a dia. As pessoas aqui não pensam no frio. É chato, o inverno é chato, toda a gente sabe disso e toda a gente o diz, mas as pessoas não pensam no frio como nós pensamos. E é interessante que mesmo dentro de Portugal, se tu viveres no sul do país ou no norte do país, tens uma relação diferente com o frio. Mas aqui tu percebes que, por exemplo, o Sporting não vai ter grandes problemas esta semana, porque no fim de semana vai estar bem pior do que a meio da semana. Estão para aí quatro, cinco graus, não negativos, o clima começa a ficar mais ameno, mas continua a ser muito frio para nós, portugueses. Nós não estamos habituados a isto. Portanto, esse é um pormenor. Acho que pode ser desafiante, mas sobretudo por não teres hábito, o teu corpo não estar habituado a trabalhar nestas temperaturas.

E faz bem o Sporting em viajar dois dias antes e, neste caso, estar até quinta-feira à noite, sexta-feira de manhã, na Noruega?

Sim, minimiza o impacto. Não é o mesmo que trabalhar em altitude e não estamos a falar de menos 10 neste momento. Se fosse no inverno, era pior. Nós aqui, o nosso calendário, por exemplo, temos uma pré-época de três a quatro meses. Nós começamos a treinar em janeiro e só começamos com jogos oficiais a partir de abril, fim de março, abril. Por quê? Por causa da neve. Eu estou na zona sul, aqui quase não há neve, naquilo que é o padrão. No norte, em Bodø, está neve a toda hora, quase, o que faz com que o frio ainda seja maior. Mas neste momento, a adaptação que o corpo tem e ao contexto, eu acho que se eles estiverem dois ou três dias a treinar e a explorar Pelo menos o impacto não é tão grande. Eu acho que o frio é um adversário, o sintético vai ser também outro adversário, porque queremos quer não, temos de minimizar o problema do sintético. Nós estamos a falar das gerações que neste momento jogam no futebol sénior em Portugal, cresceram quase todos com o sintético. Portanto, o sintético já não é um elemento tão estranho da vida do atleta como era em gerações anteriores.

E muitos campos de treino também têm esse relvado sintético, muitas vezes também ainda para a formação e que acaba por ser alocado à equipa principal.

Exatamente. Portanto, acho que já não é como antigamente. Agora, há diferenças no comportamento da bola, há diferenças na velocidade que a bola ganha na relva, quando bate, é diferente do quando bate aqui. Tu jogas muito por instinto, portanto a tua reação no jogo é feita por coisas que tu vivenciaste e calculas da bola. E essas pequenas coisas vão fazer com que tu possas julgar trajetórias da bola de forma diferente, que vão, se calhar, dificultar duelos. Outra coisa que é em espaços curtos, o primeiro toque é mais fácil em espaços reduzidos no sintético, porque tu consegues em um toque explorar melhor, não precisas de usar dois para controlar a bola. Fazes com mais facilidade. Portanto, o Bodø/Glimt, estando habituado a isto, juntamente com o frio, já estamos a ter aqui duas variáveis que podem ter algum impacto naquilo que é o jogo. Mas eu acho que a variável principal, o Sporting já minimizou pela importância do jogo, que é o facto de poder ser o candidato, mas como o Bodø/Glimt tem sido um tomba-gigantes, entre aspas, eu acho que já está-

Já vêm com o estado de alerta.

Exatamente. E por ser também a fase da Champions League que é. Portanto, eu acho que esse poderia ser um dos grandes adversários e neste momento, eu acho que isso já é secundário. O frio e o sintético vai ter um impacto, mas não podemos esquecer também que é um jogo a duas mãos e que depois quando for o caso contrário, a relva tem o mesmo impacto ao Bodø/Glimt que tem o piso sintético para o Sporting.

Antes de fecharmos esta entrevista, pergunto-lhe o que é que o Sporting tem de fazer para, como referi há pouco, pelo menos trazer esse resultado ou pelo menos a eliminatória ainda em boas condições para Lisboa?

Eu acho que dois pontos fortes do Bodø/Glimt que não podem ser ignorados é a capacidade que a equipa tem nos momentos de transição, quando recupera a bola. Consegue encontrar muito rapidamente um primeiro passe de progressão para os avançados, combinar para trás e depois a partir daí muitos movimentos de rutura com os médios e com os extremos. Portanto, isso é um ponto que também é um ponto forte do Sporting, é uma coisa engraçada. Acho que este jogo vai ser quem explorar melhor a transição ofensiva, porque é uma característica das duas equipas, poderá beneficiar muito com isso. E depois é a questão de no último terço, o Bodø/Glimt tem uma característica que põe muita gente na área. Não é raro tu em situações de potencial cruzamento, tu veres cinco, seis, às vezes sete jogadores dentro da área. Portanto, qualquer cruzamento pode ser perigoso, porque há muita gente. Se não consegues ganhar o duelo por qualidade, vais fazer mossa pela quantidade de pessoas que ali pões. E é um risco, porque se não ganhas a segunda bola, podes ser apanhado em transições, mas é muito perigoso e tem sido uma característica que o Bodø/Glimt tem explorado com muita qualidade nos jogos. Portanto, acho que são dois pormenores que certamente quem faz o trabalho de observação no Sporting reparou e que vão ser momentos-chave no jogo, creio eu.

E já agora, para terminarmos esta entrevista, Hugo, pergunto-lhe já agora um resultado e marcadores desta partida.

Opá.

Enjeito o desafio.

Aí já é desafio, porque eu, como embaixador do futebol norueguês, tenho todo o prazer que o Bodø/Glimt siga em frente porque dá-nos pontos e, por exemplo, este ano o meu clube vai ter de jogar uma pré-eliminatória para chegar à Champions League. Se nós conseguirmos ganhar mais pontos, isso já não vai acontecer. Como português, tenho todo o interesse que o Sporting também siga em frente, ainda para mais que tem jogadores com quem trabalhei lá desde pequenos, que gostava que tivessem sucesso. Como o Trincão, por exemplo, e o Pote. Eu não sei, eu sinceramente acho que um resultado positivo, um empate ou uma vitória, ou mesmo uma derrota por um golo, tendo em conta a instabilidade que o Sporting tem tido em jogos fora, se isso acontecer, eu creio que é completamente fácil dar a volta em Portugal, mas, por outro lado, eu sinceramente acho que é um jogo interessante e que é complicado. Como diria o outro, eu não sou muito de prognósticos.

Só no fim do jogo.

Eu estou mais curioso a ver como é que o jogo vai ser no confronto de duas equipas que acabam por ter na transição ofensiva e na pressão a arma principal do seu futebol. E acho que vai ser engraçado ver esse duelo entre os dois e que ganhe o melhor, neste caso, que ganhe o melhor.

Muito obrigado. Hugo Vicente é coordenador técnico do Viking, um emblema que no ano passado, na época de 2025, ficou no primeiro lugar, venceu a Liga Norueguesa e por isso certamente pode encontrar alguma equipa portuguesa já na próxima temporada nas competições europeias. Por agora, há esse Bodø/Glimt-Sporting, emblema norueguês que vai receber os Leões num encontro já nesta próxima quarta-feira às 20h. Hugo, mais uma vez, muito obrigado.

Obrigado eu. Até à próxima.