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Temos conosco a Ana Gomes agora, em direto. Bom dia, Ana Gomes. Obrigada por estar conosco, sabendo que está muito abalada também com esta notícia. Foi mesmo importante o "Ai, Timor" e a forma como todos os elementos dos Trovante se envolveram na causa timorense para que se conseguisse a independência do território?
Eu ouvi mal.
Perguntava-lhe que importância é que teve o "Ai, Timor" e o envolvimento dos Trovante para a causa timorense, quando estávamos no processo decisivo e fundamental do referendo e do reconhecimento de Timor como território independente.
Olhe, antes de mais, deixe-me dizer que foi um duro murro no estômago esta manhã, a notícia da morte do Luís Represas. E lembrei-me imediatamente de um momento inesquecível, quando eu e ele nos encontrámos em Timor para a altura da celebração do aniversário do referendo, em 2019. E ele fez um concerto absolutamente memorável na Fundação Oriente, em Díli, que terminou com o padre João Falgueiras, o mítico herói da resistência. O padre João Falgueiras já muito velhinho, ele acabou de falecer este ano com 105 anos. Ele abraçou-se ao Luís Represas, e eu tenho algures o vídeo desse momento absolutamente emocionante, do padre João Falgueiras abraçado a Luís Represas, depois de uma atuação memorável, em que o Luís, obviamente, cantou e encantou, e fez toda a gente cantar o "Ai, Timor". Essa canção foi absolutamente mobilizadora do povo português para se juntar, se unir e dar força, como deu, à causa Timor e obrigar os governantes portugueses a fazer o que era preciso ser feito e que foi feito.
E terá contribuído, Ana Gomes, ainda mais esta canção do que alguns responsáveis políticos, porque foi uma canção que se tornou patrimônio da própria sociedade portuguesa e depois, claro, da sociedade timorense.
Felizmente, nessa altura, o governo de António Guterres, com Jaime Gama como Ministro dos Negócios Estrangeiros e com Jorge Sampaio como Presidente da República, estavam a fazer tudo o que era necessário fazer por Timor. E foi isso que levou ao aproveitamento da queda do ditador Suharto na Indonésia para se negociar nos termos, no quadro da ONU, um referendo, que se realizou a 30 de agosto de 1999. E foi nesse quadro, justamente, da mobilização do povo português que foi necessária, sobretudo quando a seguir ao referendo houve uma violência avassaladora por parte dos militares da potência ocupante. Sem dúvida, essa mobilização do povo português, através da canção "Ai, Timor", foi muito importante. Porque nessa altura, foi necessário toda uma frente diplomática ao mais alto nível, em todos os minutos, e isso ajudou. E ficou na memória.
Ficou na memória.
Nossa, dos portugueses, e ficou certamente na memória dos timorenses. E daí que esse abraço entre o padre João Falgueiras e o Luís Represa tenha sido uma coisa tão absolutamente memorável.
E obrigada por ter partilhado também esse momento. A música fica para a história, naturalmente, que Luís Represas vai continuar a ser ouvido muito tempo. Ana Gomes, obrigada. Um bom dia.