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Amanhã as botijas de gás vão ter um grande aumento. Segundo a Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis, são €3 nas garrafas de 3 kg e €15 nas de 45. É um aumento de cerca de 20%. Desde o início do conflito no Médio Oriente, ao contrário do que tem acontecido com combustíveis como a gasolina e o gasóleo, o preço do gás tinha vindo, até agora, a escapar a estes aumentos, sem grandes oscilações no custo. Está comigo o engenheiro Gabriel Sousa, presidente-executivo da Fluena, maior distribuidora de gás em Portugal, para nos ajudar a perceber a que se deve este aumento e também a pensar eventuais alternativas ao gás natural. Desde já, senhor engenheiro, muito obrigado pela disponibilidade. Perguntava-lhe a que se deve esta subida neste momento, o que é que vai acontecer amanhã?

Muito boa tarde, antes de mais.

Boa tarde.

O que destacava é que, de facto, estas notícias que, em primeiro lugar, decorrem do conflito no Médio Oriente e o impacto que tem nos combustíveis, deixava aqui uma nota de destaque para aquilo que pode ser uma alternativa para as famílias portuguesas, que já hoje, se optarem pela utilização de gás natural, de gás abastecido a partir da rede pública, em vez de utilizar o gás de garrafa, o gás engarrafado, o GPL, já hoje em dia o gás natural apresenta um preço mais baixo, significativamente mais baixo, cerca de metade do custo para a utilização de uma família para aquecer os banhos e para cozinhar. Portanto, face a esta situação que se está a viver, eu reforçaria essencialmente essa mensagem. Os clientes que possam optar pelo abastecimento de gás natural a partir da rede pública e que, em particular, possam optar ou façam a sua opção também por um contrato com a tarifa regulada, que é a tarifa que é publicada pelo regulador, é talvez uma das formas de estarem mais protegidos, pelo menos no imediato, face à evolução dos preços nos mercados globais. Isto porque a tarifa regulada, que é publicada pelo regulador, é uma tarifa que está menos sujeita, menos exposta à evolução destes preços nos mercados globais e da oscilação do dia a dia. E, portanto, tem uma maior estabilidade e pode efetivamente ser uma maior proteção para as famílias portuguesas que possam ter essa opção, conforme eu dizia, de mudar do consumo de gás de botija para o consumo de gás natural, abastecidos a partir da rede pública e permitindo, de facto, esta estabilidade. Eu sublinhava os clientes que possam fazer essa opção, porque a rede de gás não está em todos os municípios em Portugal. Está num conjunto de municípios, mas não chega a todo lado e, no limite, também não será expectável que chegue a todo lado. Mas Portugal já tem cerca de 1,5 milhões de clientes abastecidos com gás natural, abastecidos a partir da rede pública. Ainda assim, os números apontam para que há mais clientes a consumir gás propano, gás de petróleo liquefeito, do que clientes a consumir gás natural. E, portanto, haverá ainda uma parte importante de clientes que possam tomar esta opção e proteger-se desta exposição de preços como aquela que temos vindo a assistir.

E acha que esta subida a que vamos assistir amanhã é a primeira que vai acontecer, ou seja, podemos esperar novos aumentos num futuro próximo?

Eu aí tenho alguma dificuldade, acho que estamos a passar por momentos onde a imprevisibilidade é muito grande. Não sabemos quanto tempo é que este conflito vai durar. O impacto que estamos a ver é um impacto crescente, mas acho que é difícil, de facto, termos uma bola de cristal para saber exatamente quanto tempo é que vai durar e com que aumentos no futuro e com que impactos no futuro. Por isso, o que me parece é seguramente termos esta medida que eu há pouco referi, que é mais de imediato, mais de curto prazo, para que as pessoas se possam proteger desta exposição. E depois, ao mesmo tempo, dar nota daquilo que nos parecem poder ser soluções mais estruturais, mais de longo prazo, mais soluções de fundo.

Eu já lhe ia perguntar sobre essas alternativas. Gostava só, antes disso, de lhe fazer uma pergunta mais básica, de certa forma, que é: o que justifica a diferença de preços entre Portugal e Espanha? Por exemplo, vê-se muitos portugueses que vivem perto da fronteira até preferirem ir comprar as botijas ao país vizinho. Isto é só uma questão de impostos ou há outros fatores que justificam?

Seguramente que a componente dos impostos contribui para isso e, portanto, tem a ver também com a política energética, a forma como depois se formam os preços no cliente final, nomeadamente no setor do gás engarrafado. É uma realidade que não é de hoje, é uma realidade que já acontece há alguns anos.

E o governo anunciou também o relançamento do programa da Botija Solidária, passa a comparticipar 25 € em vez de 15 por botija. Isto nos próximos três meses, ou seja, estabelece aqui esta baliza temporal. Isto parece-lhe uma boa medida?

Acho que é uma medida de apoio e estas medidas, no contexto que estamos a viver, faz muito sentido que possam existir medidas temporárias direcionadas para os clientes mais vulneráveis e que estejam expostos, de facto, a situações mais delicadas. Eu, de toda a forma, sublinhava aquilo que há pouco referi, há opções por parte das famílias que podem ser ainda mais vantajosas Só para lhe dar um número muito aproximado, não me tome aqui pelos números, mas são dados que é possível consultar na informação e no site do regulador, uma família em Portugal, falando de um consumo médio para aquecer a água do banho e para cozinhar com o gás natural e com a tarifa regulada, que eu há pouco referi, pode já ter um custo anual na ordem dos €380 por ano. A mesma utilização de energia para a mesma finalidade feita com gás de petróleo liquefeito, com gás propano, com gás butano, com gás butígio, os números apontam para um custo significativamente mais elevado, quase o dobro. Portanto, esta vantagem deveria ser mais amplamente divulgada. Independentemente dos apoios e dos mecanismos que o Estado tem vindo a definir e que, sem dúvida, são apoios importantes para clientes numa situação mais vulnerável, não queria deixar de sublinhar que, de facto, existem opções onde as famílias podem economizar com as opções que possam fazer.

Portugal importa grande parte do gás que consome. Devemos então começar a pensar em alternativas a este gás que importamos, o que é que precisamos de fazer e se já temos infraestruturas para tal ou se teríamos que fazer aqui um upgrade às infraestruturas.

Esse era exatamente o ponto que eu ia referir das soluções de fundo, das soluções mais estruturais que me parecem importantes para fazer face a estes problemas. E, desde logo, a medida que nos parece mais relevante e que vemos acontecer noutros países, Dinamarca, França, Itália, já com um nível de desenvolvimento muito elevado e com grande sucesso, que é de facto acelerarmos a produção de gás em território nacional, neste caso estamos a falar de gás verde, de gás renovável, que também permite reduzir as emissões de CO₂, porque na prática o biometano pode ser produzido, e já hoje em dia é produzido em território nacional, nas diversas regiões onde existam estações a tratar dos resíduos sólidos urbanos, dos resíduos do setor agropecuário. Portanto, ao mesmo tempo, esta valorização dos resíduos, num contexto de economia circular, que resolve um problema da sociedade e que ao mesmo tempo tem esta capacidade e este potencial para gerar, produzir energia verde no nosso território, reduzindo as importações, reduzindo a exposição a estas oscilações de preços, fatores que nós não controlamos e que estão sujeitos a impactos globais e conflitos geopolíticos. E ao mesmo tempo, conforme referiu na sua pergunta, e em particular o biometano, nós de forma mais genérica, quando falamos de gases renováveis, falamos do biometano, falamos também do hidrogénio.

Que é o gás produzido a partir de resíduos, é isso?

Exatamente. O biometano é produzido a partir de resíduos sólidos urbanos, a partir de resíduos da agropecuária, e tem esta grande vantagem que é uma molécula, é um produto exatamente igual ao gás natural. A única diferença é que em vez de vir da Nigéria ou da Argélia e desde chegar ao terminal de Sines, ele é produzido nas estações de tratamento de resíduos e de valorização orgânica em território nacional, nas diversas regiões do país, e é injetado diretamente na rede de gás. Mas não precisa de nenhuma adaptação. Os queimadores, os esquentadores, os fogões, os fornos industriais utilizam o biometano da mesma forma que utilizam o gás natural.

Ao contrário do hidrogénio, por exemplo.

O hidrogénio tem algumas características. Na atividade de distribuição de gás da Ren, na zona do Seixal, temos um projeto piloto que tem vindo a operar com uma mistura de hidrogénio. E tudo o que vemos é que a mistura de hidrogénio, se for distribuída até cerca de 15% a 20% do volume de gás, não tem nenhum problema. E nós temos, de facto, neste projeto piloto do Seixal, cerca de 80 clientes, alguns deles industriais, que estão a consumir esta mistura sem qualquer problema e sem qualquer necessidade de fazer adaptação. Mas se estivermos a falar de redes com uma percentagem maior de hidrogénio, aí já teríamos que considerar alguma adaptação nos equipamentos ou alguma adaptação no sistema de queima dos clientes. Enquanto, conforme eu referi, o biometano é absolutamente indiferente. Podemos ter 30%, 50%, 10%, a variação pode ser de um dia para o outro, não é preciso alterar. Eu costumo dar a seguinte analogia, é quase como a eletricidade verde que nós utilizamos nas nossas casas ou em qualquer outro sítio. Nós quando ligamos o interruptor, não sabemos se aquele elétron veio de uma central fotovoltaica ou veio de uma central termoelétrica. É um elétron, é a única coisa que sabemos. A molécula de gás CH₄, de metano, venha ela do gás natural da Nigéria, do terminal de Sines, ou venha de uma estação de resíduos do Alentejo ou do Norte, de tratamento de resíduos urbanos, é a mesma coisa, é a mesma molécula.

Já que falou de eletricidade, perguntava-lhe aqui também, um jeito de provocação, a passagem para a eletrificação dos consumos não é uma alternativa melhor e mais sustentável do que inclusive os gases renováveis?

O ponto é exatamente quando falamos desta sustentabilidade da descarbonização. O que nos parece é que se só tivermos uma via de descarbonização, ficamos mais dependentes. Ficamos mais dependentes de problemas no abastecimento. Nós tivemos em 2025 e já este ano em 2026, a evidência, de facto, a complementaridade dos sistemas É um bem muito interessante para as populações, para a indústria, para as famílias. Se, ao mesmo tempo, considerarmos que dois sistemas, o sistema elétrico e o sistema de gás, podem operar com energia verde, começamos a acrescentar mais uma vantagem. Temos dois sistemas que podem ser complementares, que aumentam a resiliência e a segurança do abastecimento, e que ambos podem contribuir para a redução das emissões e para a descarbonização. Em terceiro lugar, se ainda juntarmos que a descarbonização, se for feita apenas por uma via, por uma total eletrificação, será mais dispendiosa, será mais cara para as famílias, para as indústrias, para a economia em geral, eu diria que é mais uma terceira razão para considerar uma descarbonização balanceada.

Híbrida, digamos.

Dando a melhor utilização das opções que estão disponíveis, seja o sistema elétrico, que hoje em dia em Portugal já é um caminho assinalável na descarbonização e uma grande utilização de eletricidade renovável, seja no sistema de gás, que estamos a dar os primeiros passos e é importante acelerarmos, e há uma série de medidas que já estão em curso, mas é importantíssimo apanharmos a velocidade de países como a Dinamarca, a França, Itália. Só para lhe dar de exemplo, na Dinamarca, cerca de 40% do gás que é consumido é já produção no território dinamarquês.

Sim, a Dinamarca são entre os 40% e 50%, pelo que vi. Deixe-me então fazer aqui duas perguntinhas, também apontar para o futuro. Um estudo pedido pela Fluene indica que Portugal tem potencial para produzir cerca de 60% do gás que é atualmente distribuído pelas redes por biometano. No entanto, o Plano Nacional de Biometano tem uma meta modesta para 2030, que prevê apenas 9% de injeção de biometano na rede de gás. Apelo à sua capacidade de síntese, sei que isto pode ser uma resposta muito longa, mas estamos a ser pouco ambiciosos? França, Itália, Espanha, todos eles apontam para valores acima.

Muitas vezes, a definição também destas medidas, depois também pode gerar compromissos e alguns incumprimentos, no caso de não verificarem. Eu, ainda assim, destacava o seguinte: o plano de ação de biometano português prevê em 2030 9%, prevê em 2040 cerca de 18%. Portanto, o caminho, se me permite a expressão, faz-se caminhando. Este estudo feito pela Goldenberg aponta para que será possível chegar a 2050 com 50% a 60% do gás distribuído nas redes de Portugal a partir de biometano. Portanto, aqui temos esta aproximação, este build up, este crescimento, que o que está oficialmente no plano de ação do biometano, para já, é os 9% em 2030 e os 18% em 2040. Se conseguirmos acelerar estes projetos, a implementação das medidas, eu acredito que possamos fazer o caminho mais depressa.

Certíssimo. Última pergunta que gostava de lhe fazer. Também temos bons exemplos em Portugal de boas práticas com a utilização deste gás renovável, nomeadamente Évora e Portimão, que são abastecidas totalmente ou em grande parte através de biometano. Como é que funciona aqui nestas duas situações e se podemos aplicar o modelo a outras cidades portuguesas?

Podemos e iremos aplicar o modelo a outras cidades. E, de facto, o que se passa é a existência de projetos de produção de biometano que já existem em Portugal e que entregam nestas cidades, conforme eu há pouco referia, sem qualquer alteração. Os clientes não alteraram nada, não sentem absolutamente nada. Mas o que é facto é que são cidades que hoje em dia recebem gás que não vem da Nigéria, não vem dos Estados Unidos, não vem do terminal de Sines, é produzido no interno, em território nacional.

Ok. Daí dar para serem sustentáveis deste modo e não seria possível, por exemplo, em Gaia ou em Bragança?

Sim, será. Aliás, outras regiões irão descarbonizar com tantos outros projetos que estão em curso. A Fluene até ao final do ano vai ligar à rede de gás mais cinco projetos de injeção de biometano e temos um conjunto de contratos de injeção que já estão assinados e que nos próximos anos, em 2027, 2028, entrarão em funcionamento. A nossa perspetiva, olhando mesmo ao nível nacional, não só da Fluene, mas também das outras distribuidoras, a perspetiva que temos dos contratos que já estão assinados e os outros que estão em cima da mesa, e eu acredito que muito em breve se concretizem, Portugal está relativamente próximo daquilo que tem como ambição para 2030 de chegar aos 2,7 TWh, cerca de 9% do volume de gás distribuído nas redes.

Muito bem. Última pergunta, senhor engenheiro, é inevitável que os preços continuem a aumentar? Podemos esperar novos aumentos enquanto estiver em curso o conflito no Médio Oriente ou as coisas podem não estar assim tão relacionadas, pelo menos no caso de Portugal, que não importamos tanto daqueles lados?

Eu penso que o facto de não importar tanto destas regiões reduz alguma dependência física, de logística daqueles produtos. Não deixa de ser um conflito que afeta os preços globais no mundo inteiro. E, portanto, eu diria que, no caso que diz, porventura, menos do que um choque ou um risco de abastecimento, de logística, mas estaremos seguramente expostos aos riscos de preço e de variação de preço associadas ao conflito e de preços globais. A melhor forma, de facto, de fazer face a esta exposição a preços é ter maior produção nacional e ter menos dependência destes preços globais.

Senhor engenheiro Gabriel Sousa, presidente executivo da Fluene, muito obrigado por se ter juntado à Rádio Observador. Obrigado pelos seus esclarecimentos.

Obrigado.