Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Junta-se a nós agora aqui nesta emissão da Rádio Observador e neste jornal, Maria João Brito, que é diretora do serviço de infectiologia do Hospital Dona Estefânia, com as notícias que revelam muitos ajuntamentos de jovens que não cumprem as medidas de segurança. Ouvimos há minutos António Costa referir uma série de medidas para contenção de agrupamentos em Lisboa, muitas destas medidas orientadas para ajuntamentos de jovens e festas ilegais. Pedir-lhe uma ajuda perante este cenário de ajuntamentos e festas ilegais que tem vindo a lume, tem sido notícia nestes últimos dias. Que consequências é que podemos ter? Que consequências é que podem advir destes ajuntamentos ilegais?
Muito boa tarde, obrigada pela oportunidade de estar aqui em direto e de poder partilhar algumas destas questões. No que respeita à juventude, à adolescência, e nós aqui no hospital temos realmente, ao longo do tempo, criado uma vivência do que é trabalhar por um lado com crianças, mas, por outro lado, trabalhar com crianças mais velhas, e depois com adolescentes e depois com jovens. Portanto, a pediatria hoje vai até aos 18 anos e estes grupos etários são muito diferentes, têm características muito diferentes. Aquilo que se passa com a juventude, e eu acho que a maior parte das pessoas ainda se lembra de quando foi jovem, é que os jovens têm uma particularidade e uma alegria de viver, que é única numa altura da nossa vida. Portanto, a juventude e a adolescência é uma altura de descoberta e em que nós nos sentimos que nada nos acontece. Nós somos invencíveis, nós somos imortais.
E por isso é mais complicado conseguirmos conter estes jovens em casa, é isso?
Isso mesmo. Portanto, por um lado, nós temos esta sensação de poder perante a vida e de que os problemas são sempre para os outros. Por outro lado, faz parte da maneira de estar na adolescência, o estar em grupo. As pessoas têm uma ligação com a sua família, mas criam grandes laços em relação aos amigos e o estar em grupo, a descoberta do grupo, é também muito importante neste grupo etário. Criam-se aqui duas condições ótimas para que os jovens possam ser, como passa na comunicação social e como temos visto, inconsequentes em relação ao Covid-19. Por um lado, ao risco de eles próprios poderem infetar e, por outro lado, de eles se infetarem e poderem depois transmitir a outras pessoas que eles gostam, que são a família, que são algumas pessoas de risco que os rodeiam. Isto é um pensamento que não passa habitualmente junto dos jovens. Eles não fazem muitas vezes este tipo de atitudes por maldade ou com o intuito de contaminar ninguém. Isto passa muitas vezes um bocado inconsequentemente da maneira de eles serem neste grupo etário.
Doutora, pode-me ajudar aqui a perceber que efeitos é que a Covid-19 pode ter nestes jovens, pode ter num jovem quando ele o apanha? Esta ideia de invencibilidade. Ajuda.
Isto é em relação a todas as doenças no geral. Em relação a todas as doenças no geral, os jovens são um pouco mais difíceis às vezes de tomar medicação quando têm uma doença crônica. Se tiverem uma epilepsia, se tiverem uma diabetes, nem sempre cumprem. São alturas da vida difíceis por esta maneira de eles pensarem. Agora, há uma coisa que as pessoas jovens são, é que são pessoas afetivas, são pessoas com grande ligação de amizade às pessoas que as rodeiam, e de amor, e mesmo às suas famílias. E portanto, aqui tem que haver uma campanha. Eu percebo que há o intuito de punir as pessoas, e realmente as pessoas não podem pôr as outras em risco, há coisas que são consideradas crime, mas eu acho que tem que haver uma campanha também de juntarmos, tentar compreender como é que são os jovens e de tentar intervir a esse nível. Porque, primeira coisa, aquilo que se pensou durante muito tempo e a ideia que nós tínhamos da pandemia quando ela veio da China, é que esta doença não atingia a pediatria. Estou a falar de criança e estou a falar de jovens e adolescentes. E nós hoje sabemos, à medida que a pandemia se espalhou pelo mundo, que isso não é verdade. Há um americano que escreveu agora um artigo até muito bom, em que ele diz: "Covid na idade pediátrica, afinal não é tão benigno assim".
Ou seja, estes jovens correm riscos.
Isso mesmo. Portanto, por um lado, eles não são invencíveis, são pessoas suscetíveis, menos suscetíveis que o adulto, muito menos suscetíveis, mas isso pode acontecer a qualquer pessoa, mesmo que ela seja saudável, pode acontecer a qualquer jovem. Nós aqui no Hospital Dona Estefânia, eu penso que hoje é o nosso caso número 205, desde que começámos aqui no início de março a ter crianças infetadas e algumas tiveram bastante doentes. Algumas passaram nos cuidados intensivos, algumas estiveram mesmo em risco de vida e eram crianças saudáveis. Portanto, isto é uma espécie de roleta russa. Ou seja, não podemos pensar que o vírus só vai atacar e só vai provocar uma doença grave nos idosos ou nas pessoas que têm comorbilidades. Não, isto pode acontecer a qualquer um. Pode não acontecer a mim, pode acontecer a si. E pode acontecer aos jovens. E portanto, essa é a primeira ideia que temos que passar. Não é muito frequente, mas acontece. E nós aqui no hospital, isso aconteceu-nos e penso que durante o tempo que isto vai continuar, que ainda poderemos vir a ter casos destes com alguma gravidade. A segunda situação é realmente em relação às pessoas que os rodeia. Ora, os jovens têm avós e têm habitualmente muito boa relação com os avós, com os seus pais, e não ficariam de modo nenhum tranquilos se algum dia pensassem que podiam ter provocado a morte de uma pessoa que os rodeia e que lhes é muito querida. E portanto, é preciso pôr as pessoas a pensar, a refletir um pouco neste aspecto.
E evitarem, desta maneira, estes ajuntamentos e estas ligações.
Claro. Aqui também devo só dizer, desculpe, só se me puder ainda terminar, é que eu penso que os pais têm um fator também de peso aqui nesta situação. Houve um tempo de confinamento e é muito difícil manter os miúdos em casa e durante muitos meses. E agora os miúdos querem sair, e está sol, e está calor, e querem estar uns com os outros, e querem se tocar, e querem se divertir, e querem esquecer que houve Covid. Mas os pais são pessoas essenciais e de ligação para esclarecer que é verdade, estamos numa fase diferente, mas que nesta altura ainda temos Covid e infelizmente vamos continuar a ter Covid nos próximos tempos. E portanto, é preciso não passar do oito pro oitenta, que eu penso que aqui foi o que aconteceu. Tem que haver um meio-termo e os pais têm que ajudar.
Rádio Observador. 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Aconteça o que acontecer.