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Doutora Maria Sameiro Oliveira é especialista em psicologia criminal. Nesta semana foi publicado um relatório da parte do Ministério da Administração Interna que aponta para um aumento da criminalidade e numa das várias conclusões que o relatório apresenta, é associado esse aumento da criminalidade a um gênero musical específico ou a um gênero musical enquanto fator de agregação. Um desses gêneros musicais que é discriminado no relatório é o hip-hop e o outro é o drill. E eu começo por perguntar, doutora Maria Sameiro Oliveira, faz sentido associarmos um gênero musical ao aumento da criminalidade ou sequer à prática de crimes? Esta ligação faz sentido?
Eu, não conhecendo os parâmetros da investigação, acredito que o estudo tenha sido feito com determinados parâmetros e quem o fez para tirar essa conclusão, não penso que terá sido "levianamente". Não posso pôr em questão agora um trabalho que considero que teve uma base científica, qualquer trabalho desse tipo tem que ter uma base científica. Agora, o que eu considero, e penso que isso também vem explícito, é que não é só um fator, são os vários fatores. Quando falo em agregação, é em questão do fenômeno do grupo. Portanto, é preciso para haver uma identidade de grupo, que pode estar relacionada com gostos musicais, com interesses outros, também pode ser por interesse ligado, por exemplo, ao tema das armas, a determinados jogos violentos que existem bastante. Eu, pessoalmente, considero que às vezes há jogos, a nível da internet, de uma violência em que vidas perdem vidas. Penso que o valor da vida começa a ficar em um sentido muito desvalorizado, compreendo como desumanizado, às vezes pode-se dizer. E, portanto, isso também é um fator que tem que se levar em conta e fundamentalmente a questão da falha do sistema familiar, do meio em que essas pessoas se desenvolvem, aquilo que elas vivenciam relacionados com atos e com a violência. E isto eu acho que é o que este conjunto é que poderá, portanto, definir o aumento. Eu trabalhei nesta área durante muitos anos e, de facto, o que era muito notório eram falhas graves na interação familiar e no sistema familiar, e depois uma inserção deficitária no sistema escolar, depois, portanto, também na integração a nível do mundo laboral e o que, como eu dizia sempre, iam surgir nos estabelecimentos prisionais, na área que eu trabalhei, em que nós íamos pegar a falha dos sistemas todos. E isto, no fundo, para mim, é que é a grande questão. Portanto, há uma ação preventiva ou deveria haver uma ação preventiva, já desde muito cedo, em crianças, para que no seu desenvolvimento começassem a ter uma orientação diferente no que se concerne ao entendimento do que é ser um jovem integrado e que a violência não seja o valor principal, até ter que demonstrar, porque essas gangues, ou chamadas gangues, muitas vezes a "iniciação" , como a gente vê um bocado como cópia do que se passa, por exemplo, nos Estados Unidos e nos filmes mostram muito isso, a iniciação do indivíduo numa gangue tem muitas vezes que passar por um ato, pela prova, através de um ato violento. E tudo isso acho em conjunto. Agora, isoladamente, não é? E nem acredito que a investigação, que esse trabalho tenha conduzido para isso. É um dos, porque muitas vezes, nessas letras aparecem realmente umas letras que são uma contestação daquilo que socialmente acham que não está correto, de injustiças sociais, você pode dizer. E depois há outras letras, de facto, uma forma de transmitir, de facto, que só se resolve, seja o que for, através da violência. E, portanto, há que distinguir dentro desses estilos de música, também não há só letras em que se apela à violência em termos físicos e até a chegar ao máximo que é a morte de alguém. Portanto, também há que ver nessa perspectiva. Agora, como fator isolado, não creio sequer que a investigação chegou a essa conclusão. Será, portanto, uma conjugação de fatores.
Sim, de facto, o relatório aponta para vários fatores de agregação, digamos assim, entre os quais o gênero musical também é um deles.
Eu penso que é mesmo no sentido agregador. Para um grupo existir é preciso haver uma coesão. E há sempre um elemento de coesão. Como há outros grupos formados, por exemplo, vamos falar do oposto, grupos de jovens que se juntam para voluntariado Nós temos tido exemplos agora com a situação da guerra na Ucrânia, da Rússia, infelizmente a invasão da Rússia na Ucrânia, mas muitos outros casos em que vemos jovens a se agregarem, a terem como elemento de coesão o ser solidário. E também é importante que muitas vezes o que acontece quando o cidadão comum ouve essa notícia, começa: "Os jovens são violentos, a juventude é..." E isto não é justo com a juventude, ou seja, não é, felizmente, a maior parte, muito pelo contrário, da juventude que trilha esses caminhos. Há todo um outro resto, que também se agregam em grupos com orientações totalmente diversas. E também temos que valorizar isso, obviamente, mas esse estudo foi feito para exatamente perceber e ver o que está na cerne de determinado tipo de comportamentos e, de facto, se isso apareceu como um fator, mas nunca seria um fator único. É só pra mim, eu entendo, um elemento de coesão do grupo, que mantém o grupo com interesse.
Acaba por não existir uma relação direta entre a música, não podemos dizer isso?
Não, dizer direta, só isso, não. Direta, não. É um dos elementos agregadores de um grupo que se tornará por si violento, porque é totalmente diferente um indivíduo isolado, porque nós temos em casos isolados, tem muito mais a ver dentro da nossa tipologia de crimes, questões passionais, quando são atos isolados, passionais ou de outro tipo, de crimes, de assaltos, que podem correr mal, em que acaba por haver também realmente uma morte. Mas, de facto, os indivíduos isoladamente, muitas vezes nunca seriam capazes de determinado tipo de atos. Dentro de um grupo, muda-se a dinâmica, inclusivamente, tem repercussões na dinâmica individual. Eu quando fiz também um trabalho sobre os skinheads, lembro bem dessa fase dos skins. Eu tive, pronto, a possibilidade de fazer um estudo de um caso, que eles mataram um indivíduo ali na Rua da Palma, não sei se já é muito antigo.
Por acaso não me lembro.
É um caso muito antigo. E tinha também uma conotação, se pode dizer, relacionada também com o gênero, a raça. De facto, quando eu contatava com eles isoladamente. É totalmente diferente depois do que o fenômeno grupo tem como importância dentro desse tipo de contextos. É mesmo mais uma questão do fenômeno grupal.
E doutora, só que uma última questão. Já percebemos que a música atua enquanto fator de agregação. Poderá, obviamente, conduzir-nos a grupos talvez mais violentos, mas não acontece em todos os casos. Pergunto agora se este tipo de comunicação como este, que está a ser feito com este relatório, não poderá levar a população em erro, em associar, em fazer esta tal associação direta.
Obviamente, quando se vai falar do relatório e só se tira partes. É o que eu digo, está sempre sujeito a leituras totalmente distintas, como eu estava a dizer, haverá até quem diga que essa juventude está perdida. E depois vão ligar logo a questão também racial, porque depende dos sítios, de que grupos as pessoas se estão a referir. Poderá vir daí várias leituras, que de facto não sei se será de interesse tão grande entrar tanto em detalhe, compreende? Quando se comunica fora do contexto científico e de uma plateia, um público mais entendido dentro do assunto, compreende?
Talvez não fosse necessário especificar aqui os gêneros musicais.
Especificar tanto, exatamente, a dizer que haveria, no meu modo de ver, um aumento da delinquência juvenil, o fenômeno grupal, em que vários fatores estão associados. E depois, pronto, quem quisesse ver mais em pormenor, poderia ou não, como diz, é público o relatório, as pessoas poderiam. Mas tirando isoladamente algum fator, obviamente isso poderá ter impacto, entre aspas, no entendimento das pessoas que relacionaram diretamente. Se ouvir um jovem, ouvir uma música desse estilo, já obviamente ele é um delinquente, compreende? Isto é que, de facto, não deveria acontecer. Esperemos que não, que haja um entendimento, mas, como digo, é muito relativo, porque é muito difícil as pessoas, de facto, conseguirem perceber, verem a situação na dimensão correta. O que é que, de facto, significa tudo isso que foi feito nesse estudo. Que é, de facto, a prevenção. Eles fizeram o estudo para prevenir. Primeiro pra conhecer a realidade. E espero que conhecendo a realidade, haja todo o trabalho da prevenção, que foi uma área que eu sempre tentei, obviamente, também funcionar e participar em projetos, etc. Mas isso são falhas que temos como sociais, a nível de falha de alguns sistemas, como eu falei, e que levam, porque antigamente era assim, eu fui diretora de um estabelecimento de menores, há uns anos atrás, logo em que Quando eu estava, antes disso, nos anos 80, estava na psiquiatria e tinha casos também já de problemas de comportamento, que se chamavam na altura, eram jovens que estavam em bairros de lata, antigos bairros de lata, mas eram todos de origem mesmo portuguesa. De pais que vieram da zona rural, que se instalaram na cidade de Lisboa em condições muito precárias. E eram esses jovens que, entre aspas, ocupavam as antigas casas de correção, que depois foram centros de educação, foram mudando de nome, felizmente. O que foi acontecendo? Essa população foi sendo substituída, em alguns aspectos, pelos imigrantes. Pelas mesmas condições, pela falta de condições socioeconômicas e culturais, aí nesse caso também. Porque a adaptação também é cultura, além do déficit que havia socioeconômico. Também a questão da adaptação cultural e da identificação, muitas vezes, com aqueles símbolos, por exemplo, da cultura americana. Tudo isso via-se claramente depois que foram sendo, entre aspas, substituído o tipo de população, mas a questão não tinha a ver com a questão racial, tinha a ver com esse leque de fatores que eu estou aqui a enunciar. Mas a tendência é ligarem só a um fator. Isso que é o risco, às vezes, da transmissão da informação não ser talvez tão clara ou não tão necessariamente para ser dita. Para que não haja, de facto, uma leitura depois muito simples, muito pouco profunda do que é realmente esse fenômeno.