O portão verde fechado com um cadeado parece guardar apenas uma garagem. Mas quando entramos, pelas portas da cozinha, o espaço que encontramos tem, na verdade, ares de galeria de arte: as paredes decoradas com pinturas neoclássicas e tapeçarias; as poltronas, cómodas e secretárias com dezenas de gavetas distribuídas pelo salão; e as montras cheias de prataria, porcelana e esculturas das mais diversas. Quando chegamos, ainda decorrem os últimos retoques para a inauguração oficial (que foi na passada sexta-feira dia 30 de outubro), mas é nas instalações da nova leiloeira Mater Fine Art que o investigador e gemólogo João Júlio Rumsey Teixeira nos recebe para uma longa conversa de mais de duas horas — e que podiam ter sido muito mais, dado o entusiasmo com que fala. “A história é muito divertida, eu gosto muito de ser historiador”, diz-nos em determinado momento, enquanto vai revelando como desmontou alguns mitos sobre as joias da casa real portuguesa — como a data e o autor do Grande Tosão de Ouro de D. João VI ou a não existência de safiras na joalharia do século XVIII.
Joalharia na Casa Real Portuguesa (1777-1889) Uma periferia subversiva, lançado na semana passada sob a chancela da Documenta, é o resultado de anos de investigação e uma tese de doutoramento, vinda na sequência do trabalho realizado enquanto fez parte do comissariado do Museu do Tesouro Real. Pelo caminho, encontrou o diadema perdido de D. Estefânia, descobriu os brincos milionários que compunham o conjunto do infame colar de Maria Antonieta, e detetou na Casa Real sueca as pedras que há mais de 200 anos ornamentaram a primeira mulher a ocupar o trono de Portugal. “A forma humana mais próxima que nós temos hoje para olhar para o que seria a imagem de D. Maria I, é a Rainha Sílvia quando está com os diamantes brasileiros. Aquilo é tal e qual como D. Maria I se pode ter apresentado.”
▲ João Júlio Rumsey Teixeira, Francisco Franco de Sousa e Joana Varella Cid, os sócios da Mater Fine Art, a nova leiloeira
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Passados os anos de pesquisa académica, João Júlio Teixeira regressa ao “mercado” com os sócios, Francisco Franco de Sousa e Joana Varella Cid, amigos da faculdade e colegas de profissão. O trio prepara o primeiro leilão, para arrancar a 17 de novembro, mas antes vai abrir as portas da grande galeria ao público. Esperam os colecionadores tradicionais, mas também querem atrair um público mais diverso, e provar que “este negócio é como ir ao IKEA, só funciona num método um bocadinho diferente, em que as peças são vendidas todas no mesmo dia”. Garante que “estas peças são para todos”, sinalizando que há joias que começam a preços como 80 euros, ou conjuntos de cadeiras a 100 euros. Mas também há esculturas do século XV, um violino Gagliano do século XVIII, e joias que ascendem às centenas de milhares de euros.
O destaque na joalharia é, sem dúvidas, o conjunto completo neoclássico do início do século XIX. João Júlio Teixeira distribui as seis peças — colar, par de brincos, anel, alfinete de peito, prego de cabelo e guarnição de corpete — com muito cuidado num expositor. São mais de 900 diamantes, um deles com quase nove quilates, e que pertenceu a uma família proeminente de liberais, mas “poderia perfeitamente ter pertencido à casa real”, dada a riqueza das pedras. A provável primeira dona, Eugénia Cândida da Fonseca, Baronesa da Silva, ficou conhecida por “A Barbuda”. Mais tarde, foi herdada pelos condes de Podentes, permanecendo na mesma família por gerações, até chegar às mãos de Margarida Relvas, filha do célebre fotógrafo Carlos Relvas. Será mesmo uma raridade: um adereço completo como este dificilmente chega ao século XX sem ter as peças vendidas separadamente, sem alterações ou sem as pedras descravadas.
▲ O conjunto completo de joias de diamantes do início do século XIX que a leiloeira de João Júlio Rumsey Teixeira levará a leilão em novembro
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
No universo da investigação em joalharia, este pode ser um dos maiores desafios. João Júlio Teixeira passou os últimos anos a tentar seguir os passos das joias alienadas da casa real portuguesa através de recibos, documentos e correspondências entre embaixadores e guarda-joias. Os principais responsáveis pela dispersão terão sido os testamentos de membros como Amélia de Leuchtenberg, Fernando II e a infanta Isabel Maria. Da Suécia aos EUA, o paradeiro da maioria dos diamantes que cobriram os Reis e Rainhas portugueses é incerto, mas restam pistas. E para Teixeira, também fica a esperança de descobrir peças como estas no mercado dos leilões.
Como começou o seu percurso no mundo das joias?
Sempre achei extraordinariamente interessantes estas materialidades naturais que a natureza dá e que o homem transforma em coisas para pôr no seu corpo para parecer mais magnético. Georg Simmel, um filósofo alemão, diz que o corpo, quando está adornado de diamantes, é mais, porque irradia. E é verdade, porque os diamantes têm esta cintilação que quase moldura o corpo e dá uma certa aura de mistério. Fui estudar História da Arte em Lisboa e depois fui estudar Pedras e o Mercado de Antiguidades em Londres, onde me especializei em joalharia e no Mercado de Arte. Foi onde sempre quis trabalhar. Trabalhei algum tempo numa leiloeira e depois saí. Foi na mesma altura em que surgiu o convite para integrar o Comissariado do Museu do Tesouro Real.
Como foi o seu trabalho de investigação para o Museu do Tesouro Real?
O que me estava a interessar naquela altura era, a partir das materialidades dos diamantes, dos metais e das pedras, casar e fazer a história daquelas peças — um trabalho que estava todo por fazer. As peças existiam, mas não tinham história. Como é que num património do Estado vindo da Casa Real Portuguesa nunca tinha sido possível fazer o caminho daquelas peças até hoje? Achei que isto era a prioridade. Convidei o Rui Galopim de Carvalho para fazer o trabalho das pedras e pensei que precisava de me focar em ir para a Torre do Tombo perceber de onde é que tudo aquilo vinha. A grande mais-valia deste trabalho foi ter um olhar técnico sobre as peças: saber o que é um quilate, a qualidade dos diamantes e perceber na documentação dispersa que um determinado documento se refere àquela peça específica por mencionar o peso e a qualidade da pedra. A maioria dos historiadores de arte não têm a formação material e técnica em gemologia e artes do fogo. A partir daí deu para casar a documentação levantada ao longo de décadas com as peças reais.
Ao juntar as peças do puzzle, conseguiu também fazer, de alguma forma, algumas “correções históricas”.
Foi possível dar inúmeras atribuições novas, dar autor às peças, datá-las e perceber quem as tinha encomendado. A mais óbvia é o Tosão de Ouro, de D. João VI, que durante décadas foi mal datado e atribuído. Casou-se a peça com uma fatura do ourives da coroa que mencionava um Tosão de Ouro de 300 diamantes com no total 30 quilates, quando na verdade só um dos diamantes maiores do Tosão de Ouro de D. João VI tem quase 30 quilates e a peça tem mais de mil diamantes. Portanto, aquela fatura não era daquela peça, mas durante 30 anos, por causa desta fatura, a peça foi atribuída àquela pessoa e datada daquele ano.
Também “descobriu” entre o acervo peças que se julgavam perdidas.
Sim. Pelo caminho surgiu a tiara da Rainha D. Estefânia. Tive a grande sorte de o Palácio da Ajuda me ter aberto as portas para ver tudo o que estava em acervo. Percebi que em caixas diferentes das reservas havia elementos sem pedras, descravados, que eram destroços de joias parecidos uns com os outros e claramente feitos pela mesma oficina e pelo mesmo ourives. Felizmente, havia uma parte ainda da barra estrutural, os encaixes batiam, ou seja, era a mesma joia. E de repente nasceu uma tiara monumental e desconhecida.
Portanto, montou-a primeiro, e identificou-a depois?
Exatamente. Fiz a história de trás para a frente: onde é que isto estava em 1910, onde esteve antes? Descobri que estava guardada no quarto da Rainha D. Maria Pia e que era a tiara que ela tinha recebido no seu casamento — novidade para a história, ninguém sabia que aquela tiara era dela, a qual ela desfez ao longo da vida. E mais incrível ainda: era a tiara que Pedro V, o irmão de D. Luís (que era marido de D. Maria Pia), tinha dado a D. Estefânia alguns anos antes. É uma história conhecida que Pedro V e Estefânia morreram jovens, e D. Luís reaproveitou aquela tiara, ofereceu-a à sua noiva, Maria Pia. Portanto aquela era a perdida e famosíssima tiara.
E é verdade que era um diadema tão desconfortável que pode ter feito a cabeça da Rainha sangrar no dia do casamento?
Sim, existem relatos de que era uma tiara terrivelmente desconfortável. Sendo colossal e muito pesada, todo aquele trabalho de folhas na base era muito aguçado e fino. Se a tiara não levasse uma fita de veludo enrolada em baixo, tocava na cabeça e podia furar. Foi o que aconteceu no casamento de D. Pedro V com D. Estefânia: furou-lhe a testa, o que foi visto como um mau presságio, e tiveram de lhe retirar a tiara e colocar uma coroa de ramos de laranjeira.
▲ A estrutura remontada do diadema de D. Estefânia, descoberta por João Júlio Teixeira
Fotografia cedida por João Júlio Rumsey Teixeira
Como é que a Rainha D. Maria Pia utilizou essa tiara ao longo da sua vida?
D. Maria Pia usa-a em Turim no seu casamento por procuração, num dos recitais da ópera em Turim. Surge no seu figurino de rainha, que é sempre igual: o vestido azul e branco, que eram as cores nacionais, a banda das três ordens com as insígnias e depois as joias — neste caso era a joia que o noivo lhe tinha oferecido, que era a sua tiara. Ela fez-se retratar em estátua exatamente nesse figurino: existe o estudo em gesso e o busto final em mármore no Palácio Nacional da Ajuda. A tiara é percetível, mas teve que ser simplificada, porque é impossível fazer em pedra aquele trabalho de renda em metal.
Quando é que a peça começa a ser desmanchada?
Rapidamente ela começou a desfazê-la — também deve ter achado muito desconfortável. Menos de dez anos depois, já existem avaliações em que a tiara aparece descrita já sem algumas pedras. Os elementos maiores foram transformados em alfinetes. Mas a grande descravação ocorre em 1886, para o casamento do seu filho D. Carlos com D. Amélia de Orléans. D. Maria Pia quer uma tiara nova. Ela não devia gostar de usar tiaras grandes, tenho esta convicção; as que manda fazer ao longo da vida, como a tiara das estrelas ou a tiara de esmeraldas, eram discretas e leves.
Será um gosto pessoal ou uma imposição relacionada com o contexto da época?
Ao contrário do que o mito diz, ela não era uma amante de joias enormes. O grande fascínio da Rainha D. Maria Pia, onde gastava rios de dinheiro, era na roupa. As joias serviam para complementar os outfits e tinham de estar à última moda. Essa era a grande paranoia dela: estar na última moda. Portanto as joias foram sempre transformadas — mas não eram grandiosas, a não ser no casamento de D. Carlos.
Porquê?
No casamento de D. Carlos com D. Amélia, vieram as casas reais europeias todas a Lisboa. Como tinha de competir com as joias das famílias de Orléans, Sabóia e Bonaparte, ela encomenda à casa Leitão & Irmão uma tiara enorme em formato de um grande buquê de flores com rosas realistas, cujos diamantes vieram da sua tiara nupcial. Ela faz-se fotografar nesse dia e está carregadíssima de joias. Põe tudo o que tem: joias dela pessoais, como esta tiara, e joias da coroa. E, como disse, as rainhas usam sempre azul e branco — e o que ela usa são safiras e diamantes. E isto é outro mito que desmonto: há muita literatura anterior que diz que não havia joias com safiras em Portugal.
Qual o motivo para se ter pensado isso?
Dizia-se que não havia joias com safiras em Portugal, o que é uma mentira enorme; a Casa Real e a aristocracia estavam cheias de grandes safiras. As safiras eram pedras intermédias em valor: quando pequenas não eram caras, mas nas funções de corte usavam-se safiras muito grandes combinadas com diamantes. Como as joias são uma arte semi-efémera em que as armações vão sendo transformadas conforme o gosto, poucas peças com pedras azuis do século XVIII chegaram intactas ao século XX, pois foram convertidas ao longo do século XIX para vestimentas solenes de corte.
O mesmo vale para os diamantes: são poucas as joias no geral que chegaram intactas ao século XX. Porquê?
Nós não temos noção do valor louco dos diamantes naquela época. Fiz as contas: no início do século XIX, um único diamante de quase nove quilates valeria cerca de três contos, o equivalente a quase 800 mil euros de hoje. Não era incomum, era até vulgar, que as joias de uma grande senhora valessem sete, 10 ou 15 vezes o valor do seu palácio com a sua quinta principal. Por exemplo, o Grande Tosão de Ouro de D. João VI valia 60 contos na transição do século XVIII para o XIX, enquanto o palácio e a quinta de Seteais em Sintra foram vendidos por 10 contos. Era esta a proporção. Portanto, joias com diamantes não sobreviviam muito tempo, especialmente num país que esteve quase meio século em guerras consecutivas a partir de 1800 e que empobreceu brutalmente, as joias com diamantes dificilmente resistiam sem serem desfeitas ou vendidas.
▲ O hábito da Ordem do Tosão de Ouro de D. João VI ao detalhes
Fotografia cedida por João Júlio Rumsey Teixeira
Entretanto, por muito tempo Portugal teve uma fonte quase inesgotável de diamantes.
Os diamantes eram raríssimos no século XV, uma coisa mesmo de outro mundo. Porque vinham da Índia, eram poucos, difíceis de minar, tinham que ser transportados por terra e quando chegavam à Europa eram absorvidos pelas casas reais. A partir do final do século XVII — e eu quero frisar isto, porque a história até hoje é contada como sendo no século XVIII e não é — surgem diamantes no Brasil em quantidade inaudita. A coroa portuguesa vai tentar, até 1760, controlar a exploração. Só que nestes anos, entre o final do século XVII e os meados do século XVIII, há exploração descontrolada e os diamantes do Brasil chegam à Europa por vias não oficiais, normalmente via Holanda e Inglaterra, e inundam o mercado europeu. E o preço dos diamantes baixa muito. Mais: desenvolve-se a indústria da lapidação, porque há mais pedras, podem-se fazer mais experiências e desenvolve-se o talho em brilhante, que ainda é hoje o talho mais usado.
No livro menciona uma “reserva em segredo” do Rei de Portugal. O que era esta reserva?
Este afluxo de diamantes brasileiros é estabilizado na década de 1760, por D. José, que cria um enorme fundo diamantífero com mais de 200 mil quilates, que também é uma descoberta da minha tese. É uma “reserva em segredo”, uma caixa que está no quarto do rei com diamantes em bruto, que serve para o Rei de Portugal ter força para se instalar no comércio de diamantes europeu e dizer: ‘meus senhores, o monopólio dos diamantes do Brasil é do Rei de Portugal, que tem força para abrir ou fechar a torneira dos diamantes para a Europa e controlar assim os preços.’ Ele só consegue fazer isto: um, porque faz a reserva e tem essa força material; dois, porque faz um acordo com o cônsul holandês, Daniel Gildemeester, que era diamantário. Ele então tem o exclusivo da venda de todos os diamantes da coroa portuguesa em bruto, que depois faz lapidar na sua Holanda natal e distribui pelo resto da Europa. Este consórcio que é gizado e pensado pelo Marquês de Pombal na década de 1750, logo após o terramoto, e que é acertado e contratado em 1760, é o início desta história.
A descoberta da "reserva em segredo" do rei
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Sabia-se que a Família Real guardava diamantes em bruto, mas ninguém sabia por que razão nem para que serviam. A história que se contava era a de que havia uma caixa de diamantes lapidados no Palácio da Ajuda, mas não se sabia da existência da segunda caixa, com diamantes brutos.
Logo no início do meu trabalho, a investigadora Inês Líbano Monteiro, que também fazia parte do Comissariado do Tesouro Real, sugeriu-me que lesse um documento na Torre do Tombo sobre as partilhas de Dom João VI, onde vinham referidas as joias principais. Nesses apêndices surgiam referências vagas que usavam a expressão “reserva em segredo”, o que me chamou logo a atenção. A partir daí, fui investigando para entender a utilidade dessa reserva.
Percebi que ela tinha sido criada em 1760, no mesmo ano em que a Coroa firma o acordo com Daniel Gildemeester e começa a receber muito dinheiro da extração brasileira. Cruzei esses dados com um estudo do investigador brasileiro David Rabelo, que analisou no Tribunal de Contas em Lisboa a documentação sobre as vendas e o que entrava de diamantes do Brasil. Essa documentação revelava que a Casa Real tinha a prerrogativa de, sempre que chegava um carregamento do Brasil, o rei escolher todas as pedras que quisesse para usar em joias e para alimentar a reserva. Ao juntar os pontos, percebi que a grande mais-valia dos diamantes estava justamente nessa reserva estratégica e em todos os diamantes que a Coroa usava para si própria e para distribuir em presentes.
Ou seja, os diamantes eram extraídos do Brasil e vendidos em bruto por Portugal para serem lapidados e vendidos posteriormente pela Holanda?
Exatamente. É um problema que ainda hoje acontece na indústria portuguesa. O valor da matéria-prima ficava na Casa Real mas o valor acrescentado da lapidação, que era quatro vezes o valor do bruto, ficava para os holandeses. Na verdade, ficava para o Gildemeester. Ele manteve o monopólio durante mais de 20 anos. Constrói Seteais, o palácio dele, e faz uma das maiores fortunas do mundo.
E por que Portugal considerou que este era um bom negócio na altura?
Foi um excelente negócio inicial para a Casa Real Portuguesa, que finalmente passou a receber muito dinheiro com a extração no Brasil. Contudo, o processo esconde também uma enorme ironia histórica. No século XVI, Portugal tinha sido um dos centros de lapidação de diamantes mais importantes da Europa, com o negócio maioritariamente controlado pela comunidade judaica. Quando os judeus foram expulsos de Portugal no século XVI, a grande maioria emigrou para a Holanda. No século XVIII, os maiores diamantários holandeses eram precisamente os descendentes desses judeus expulsos — e tinham todos apelidos portugueses. Ao fechar o negócio, Gildemeester e essa elite garantiram o supply de bruto vindo do Brasil para encher os cofres da Coroa, mas deixaram claro que o valor acrescentado da lapidação pertenceria aos holandeses, impedindo que Portugal desenvolvesse a sua própria indústria de lapidação. Sempre que Portugal tentou criar uma indústria local, foi travado. Apenas na década de 1780 é que a Rainha D. Maria I terminou o contrato com Gildemeester, em bons termos, para tentar iniciar uma fábrica de lapidação em Lisboa.
Por falar em presentes, qual era o papel das joias e, especificamente, dos retratos com molduras de diamantes, nas relações diplomáticas do século XVIII?
A maioria da produção de diamantes da Coroa era para distribuir como presentes pelas potências europeias e pela corte, em situações como nascimentos, casamentos, ou até a assinatura de um tratado. Havia, por exemplo, a tradição do retrato em miniatura do soberano, moldurado por diamantes. Isto é muito divertido, porque o século XVIII é, de facto, o século da delicadeza e que opera nas subtilezas e no não dito. O diplomata ou ministro recebia e agradecia o retrato, mas a prática corrente era retirar e vender os diamantes valiosos. Depois, substituía-os por pedras sem valor ou vidros e mantinha o retrato régio — ainda que a retribuição financeira tivesse sido recebida.
O primeiro-ministro português que quis rejeitar um retrato de Catarina II da Rússia
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Essa história não está na tese, só está no livro. Surgiu há poucos anos no mercado uma caixa que foi oferecida pela Catarina II da Rússia ao Aires de Sá e Melo, que é o grande primeiro-ministro de D. Maria I. Foi na ocasião da assinatura de um acordo comercial entre Portugal e Rússia, e a Catarina, a Grande, oferecia o seu retrato ao embaixador e ao rei, ou seja, à D. Maria I, mas também — o que não era comum, mas um costume que ela tinha — mandava ao primeiro-ministro do soberano do país amigo. Portanto, manda informar que vai enviar uma caixa com o seu retrato ao Aires de Sá e Melo.
Mas nas correspondências, Aires de Sá e Melo faz-se muito rogado, diz que não quer. O embaixador insiste: ‘o senhor vai querer, e o senhor vai receber, e o senhor vai agradecer.’ E depois de algum tempo, já devia estar um bocado irritado com esta falsa modéstia, que lhe escreve: “Os diamantes em que o retrato estará montado, posto que de preço, não se consideram aqui por causa alguma enquanto ao valor do presente, que só consiste no retrato da imperatriz”. É a única vez que a menção aos diamantes aparece, porque isto é uma história que opera no não dito — toda a gente sabe que o que se agradece é o retrato e não são os diamantes.
A Catarina II soube desta correspondência, claro, e manda dizer ao Horta Machado, que era o embaixador de Portugal em São Petersburgo, que já que o primeiro-ministro tinha problemas em receber uma caixa muito rica, mandaria fazer uma caixa que não era decorada com diamantes, porque ‘não se podia mandar diamantes para o país de onde eles vinham’. E então, o que é que ela faz? O retrato, de facto, está no centro e tinha diamantes, mas depois, a caixa em si, é toda com pedras russas, como pedras da lua e ónix.
Ainda neste tema dos presentes, os casamentos eram alturas de grandes produções e trocas de joias entre casas reais. O que foi a encomenda de joias para o episódio conhecido como a “Troca das Princesas” em 1785?
Foi o maior e mais denso capítulo da tese, uma das encomendas mais caras do período estudado. Em 1785, Dona Maria I e Carlos III de Espanha acordam o casamento cruzado dos infantes: a infanta D. Mariana de Portugal casa com o infante D. Gabriel de Espanha, e a infanta D. Carlota Joaquina de Espanha vem casar com o futuro D. João VI. Atenção, os infantes não são herdeiros diretos, ou seja, não estão na primeira linha de sucessão ao trono.
Não seria uma troca de rainhas, portanto.
Exato, seria uma troca de infantes, porque à altura existia D. José, que era o herdeiro da coroa portuguesa. Ora, Portugal vivia uma década dourada e quis transformar o evento num momento de afirmação política e diplomática. E D. Maria I faz uma encomenda de joias extraordinárias para impressionar a Europa inteira. Foram tirados cerca de 200 contos em diamantes dos cofres da Coroa para fazer as joias mais importantes em Lisboa, mostrando a Paris e à Europa que a corte de Lisboa tinha ourives tão qualificados como os franceses. Só o adereço de diamantes oferecido à jovem Carlota Joaquina — composto por um colar rivière, brincos com peras enormes e um medalhão — valia 90 contos, o equivalente a metade do valor de avaliação dos palácios de Queluz e Caxias, mais as duas quintas.
▲ João Júlio Teixeira investigou por anos a origem das joias presentes no acervo do Museu do Tesouro Real
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Ao mesmo tempo, foram compradas muitas joias em Paris. Porquê?
Estes grandes casamentos faziam-se presencialmente, porque as cortes iam as duas à fronteira ao rio Caia. A Rainha de Portugal ficava em Vila Viçosa e depois do casamento fazia-se a troca das princesas. E o séquito português oferecia ao séquito espanhol presentes e vice-versa. Ou seja, eram centenas de pessoas que recebiam presentes. Nada disto se fazia de cabeça: havia a chamada lista concertada do preço dos presentes, em que era esperado que aquilo que os portugueses davam aos espanhóis tivesse o mesmo valor que aquilo que os espanhóis davam aos portugueses. Portanto a Rainha manda comprar joias em quantidade, muito mais baratas, a Paris. Ora, o embaixador em Paris, D. Vicente de Sousa Coutinho, é incumbido de comprar centenas de peças — desde joias relativamente opulentas, como uma tiara com espigas, a uns brincos muito grandes em girândola com diamantes. Ele vai usar uma coisa que em Paris tinha imensa força, que era o mercado secundário. Compra muito no Monte da Piedade, que fazia leilões de penhores não reclamados. E acontecem histórias hilariantes. Há um leilão das joias de M.lle de Beauvoisin, que era uma daquelas cortesãs da corte do Luís XV, uma mulher que nunca casou, conhecida pela sua liberdade sexual e que pagou ao Marquês de Sade para ter um romance escaldante. As joias principais são compradas por D. Vicente para que a Sua Majestade, D. Maria I, a piedosa, mais temente a Deus que qualquer um, oferecesse em seu nome aos espanhóis.
Os brincos do "caso do colar de Maria Antonieta"
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Claramente, o embaixador entusiasmou-se imenso com estas encomendas todas, e vai comentando com o guarda-joias de D. Maria I, o Pinto da Silva, o que é que há em Paris. E diz-lhe que de facto a arte da joariaria em Paris tinha chegado a um ponto tal que não era possível fazer ideia em Lisboa. É a única vez, nestes anos todos de correspondência, que o embaixador se dirige ao guarda-joias como receptor final — geralmente dirige-se ao guarda-joias como intermediário do que quer dizer à Rainha. Portanto, ele escreve: ‘Para que Vossa Senhora veja o que é esta corte, vou lhe remeter dois desenhos das joias mais caras que circulam em Paris. Que é este colar e este par de brincos — um par de brincos que faz parte do conjunto e que ninguém sabia que existia até hoje.
Depois percebe-se que Sousa Cotinho acalentou a ideia de que a Rainha ia comprar aquilo — claro que não ia, porque as joias daquela magnitude eram para fazer em Lisboa — e então o guarda-joias agradece muito e descarta logo a ideia. Meses depois acontece a prisão do cardeal Rohan e na mesma altura está a acontecer a troca de princesas. E quando os desenhos foram arquivados, o guarda-joias escreve: “Este colar mandou D. Vicente. Penso que é este colar que deu origem à prisão do cardeal Rohan”.
A novidade das novidades é que o colar existiu com um par de brincos, também absolutamente extraordinários, que custavam meio milhão de libras francesas. Brincos esses que os joelheiros, Bohemer et Bassenge, ao contrário do colar, conseguem vender neste contexto da troca das princesas ibéricas, à corte de Madrid. Agora, a quem é que o Rei de Espanha os deu? Se foi à D Mariana? Pode perfeitamente ter sido.
Destaca muito a figura do guarda-joias. Qual era a importância desse cargo na corte portuguesa?
O guarda-joias era a sombra do Rei. No reinado de D. Maria I, o guarda-joias era João António Pinto da Silva, um homem de erudição e cultura extraordinárias. Além de gerir as joias, as pratas e os tecidos riquíssimos da Casa Real, ele acumulava a direção dos teatros e óperas reais. Foi ele quem geriu a bolsa de estudo do pintor Domingos Sequeira em Roma, aconselhando-o a não regressar cedo a Portugal porque a sociedade portuguesa apreciava mais a joalharia, os tecidos e o mobiliário do que a pintura. Após as conspirações absolutistas de D. Carlota Joaquina em 1805/1806 para afastar D. João, o regente criou uma nova nobreza de serviço para se proteger da nobreza antiga. Destacam-se os dois guarda-joias nomeados: o Visconde de Santarém e o seu cunhado, o Visconde de Vila Nova da Rainha, que era Francisco Lobato. Os seus filhos, os irmãos Lobato, Matias, Bernardo e Francisco, eram servidores íntimos de D. João VI, viviam e dormiam nos seus aposentos.
Dentro do quarto do Rei?
O quarto do Rei não é uma divisão só, são várias, mas neste caso nós sabemos que o Francisco Lobato, ou o Matias, quando o Rei queria, dormiam na cama do Rei, ou dormiam em dependências à volta. O Rei D. João VI tinha imenso medo de trovoadas, e eles iam dormir com ele. Na verdade não tenho o mínimo problema em dizer, há uma relação conjugal entre Francisco Lobato e D. João VI, e provavelmente também entre os outros irmãos Lobato e o Rei. É uma história que, claro, ficou abafada, mas há mais do que indícios e mais que o suficiente para termos a certeza de que não só o D. João VI seria bissexual, como tinha uma relação íntima com Francisco Lobato, que assumiu o cargo de guarda-joias no Rio de Janeiro. Há aqui uma relação umbilical do D. João VI com o seu guarda-joias — o Francisco Lobato atinge um nível de poder tal na corte, há vários registos que o dizem, e é muito mais poderoso do que a maioria dos ministros.
Como ficam as encomendas e a produção de joias com a mudança da corte para o Brasil?
Durante séculos a coroa portuguesa tentou cercear a criação de joalharia no Brasil, porque na obsessão de mandar o metal todo para Portugal, era proibido haver ourives no Brasil. Só que esta proibição nunca aconteceu. Os negros escravizados, sobretudo de uma zona específica da África, levavam um know-how de metal extraordinário para o Brasil, e dominavam na maior perfeição as artes da fundição, da cinzelagem. Portanto, quando a Coroa chega, percebe-se que há quem saiba fazer cá, até melhor. É quando surge António Gomes da Silva, a personagem mais transversal de toda a tese. Ourives português vindo de Lisboa, associou-se a Francisco Lobato no Rio de Janeiro e monopolizou toda a joalharia e tesouraria da Casa Real. O seu filho, conhecido como o Chalaça, tornou-se o melhor amigo de D. Pedro IV e uma figura chave na independência do Brasil. Quando D. Pedro ganha a guerra, o António Gomes da Silva é exonerado, mas é feito tesoureiro da Casa Real — mas, mais importante para nós na história, ele permanece o grande ourives da Casa Real. É por ele que passam todas as encomendas de tesouraria, até à morte dele e de D. Maria II, que acontecem mais ou menos na mesma altura. Serviu a Casa Real de 1808 até à sua morte, com quase 100 anos, em 1852.
É ele o responsável pela encomenda da coroa para a aclamação de D. João VI no Rio de Janeiro, em 1818?
Sim. Em 1818, depois de ser regente por duas décadas, Dom João VI é aclamado Rei do novo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves — um império transatlântico e uma experiência política que estava a correr muito bem. Pela primeira vez na história, a coroação de um monarca europeu decorria nas Américas. E era preciso fazer este ponto. D. João manda executar um novo conjunto de insígnias reais — coroa, cetro e estoque. Ele não precisava de provar a ninguém no mundo que era o senhor dos diamantes. Mas ele precisava de provar que era rei de um reino europeu, porque ele vivia há mais de 10 anos no Brasil, e ia ser coroado no Brasil. Então manda extrair ouro das minas da Adiça, na Costa da Caparica, e envia esse ouro português para o Rio de Janeiro para confecionar a coroa, sem um único diamante.
Quem é o ourives responsável por confecionar a coroa?
A coroa é uma obra perfeita de ourivesaria. Foi executada por Inácio Luís da Costa, um ourives mulato que trabalhava para António Gomes da Silva. Como os negros não podiam ter marcas de ourives registadas, ele gravou à mão livre, numa anilha escondida por baixo da estrutura da coroa, a inscrição: “Inácio Luís da Costa a fez em 1817”. Esta peça e as restantes insígnias encontram-se hoje no Museu do Tesouro Real.
▲ A coroa de D. João VI, toda em ouro português, e a assinatura feita à mão pelo ourives brasileiro, Inácio Luís da Costa
Museu do Tesouro Real
Com a Revolução Liberal de 1820 e a morte de Dom João VI em 1826, como se deu a divisão entre joias da Coroa e joias privadas?
É uma revolução em todos os sentidos dentro da estrutura da Casa Real. Porque com o rei absoluto, apesar de já existir a ideia do património que pertence ao Estado e o património que pertence à esfera privada do rei e dos membros da Família Real, a questão não se punha na prática. O rei dispunha de tudo e, na sucessão, era o seu filho mais velho que herdava tudo. Mas a partir de agora, quando o rei morre, o que é património da coroa tem que ser identificado, porque esse património não entra na herança do rei. Isso causa o caos absoluto, porque até então não havia essa distinção. Então, as partilhas de D. João VI são um fascinante processo jurídico, rapidíssimo, que ocorre em um ano e pouco, e que é gerido pela infanta regente Isabel Maria, que é a filha mais velha em Portugal quando ele morre.
E quais foram os critérios usados para distinguir os patrimónios?
Primeiro estabeleceu-se que os diamantes em bruto e os diamantes lapidados soltos pertenciam à coroa. Já as joias, o que as distingue é a função para a qual foram feitas: se as joias foram feitas para atos solenes, como a aclamação, são da coroa. É o caso das grandes insígnias das Ordens Militares. A maioria das outras joias, de uso pessoal, foram consideradas património privado. Claro que isto cria imensas ondas cinzentas. Por exemplo, a presilha rica era usada no chapéu da aclamação e foi considerada da coroa, mas não era usada sozinha: era usada com outra presilha de diamantes, que tinha um grande diamante de cor-de-rosa. Esta foi considerado um bem pessoal e foi herdado pela Infanta D. Maria da Assunção. Porquê? Não consegui perceber.
As filhas secretas de D. Isabel Maria
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Há uma coisa que é óbvia: a D. Isabel Maria gera o processo de distribuição do património de D. João VI, e as melhores joias femininas ficaram para ela. Ela era a mais velha, vê-se que levava muito a sério o facto de ser a regente, e mais: tinha a perfeita consciência de que aquelas joias eram o futuro dela. Ela não era casada. Já tinha tido uma filha, mas não é uma história conhecida.
Quando houve a Abrilada, o Rei e as filhas foram salvaguardados numa fragata inglesa e estiveram lá uns meses. Nessa altura, Isabel Maria apaixonou-se por um almirante e ficou à espera de bebé. E o pai não a deixou casar porque nesta altura D. João VI estava a negociar o casamento dela. Aparentemente soube-se em França, porque o marido era francês, que ela já não era virtuosa, e aquilo foi um problema.
E ela ficou sempre muito magoada, até porque pouco depois a irmã, Ana de Jesus Maria, cai de amor pelo Marquês de Loulé, fica à espera de um bebé, casa-se grávida de oito meses, apadrinhada pela mãe, que lhe dá imensas joias e pratas para ela ter uma vida condigna.
Já no caso de Isabel Maria, dá à luz um par de gémeas em que uma sobrevive. E essa que sobrevive é feita empregada da casa real. Toda a gente sabia que era uma prima dos reis; chamava-se Maria Francisca. Era uma das criadas preferidas da D. Maria II, que, quando casa com D. Fernando II, casa esta Maria Francisca com um alemão que veio no séquito de D. Fernando, que era o Wenceslaus Cifka, um artista, ceramista e muitas outras coisas, e um dos responsáveis pela qualidade da coleção de arte de D. Fernando.
No fim da guerra, já Lisboa tinha sido liberta, D. Isabel Maria compra o convento de São Domingos, em Benfica, e o palácio ao lado. E ela recolhe-se lá o resto da vida. E é muito interessante, porque ela começa a sofrer do mesmo mal da D. Maria I: começa a duvidar que se vai salvar, acha que vai para o inferno, começa a ser cada vez mais beata, cada vez mais temente a Deus. Vai três vezes a Roma ver o Papa, enche-o de presentes e dedica o resto da sua vida a tentar salvar a sua alma. É um fim de vida triste, muito atormentado. E no fim faz um testamento muito interessante em que deixa a um padre só, inglês, do Convento dos Inglesinhos, tudo o que resta da sua fortuna. E ela diz que deixa tudo a este padre para que ele faça aquilo que em privado ela lhe disse para fazer. E nós não sabemos o que é. São estes grandes mistérios do século XIX.
As heranças são também uma das principais formas de dispersão do património de joalharia da casa real portuguesa. É o caso de Amélia de Leuchtenberg?
Sim, essa foi a maior dispersão. D. Pedro IV e D. Maria Leopoldina casam-se em 1817. É um casamento dinástico, neste período imperial transatlântico, portanto D. João enche D. Leopoldina de diamantes. É talvez a noiva que recebe mais diamantes de todos os Bragança: o seu medalhão ficou lendário, as suas joias nupciais valiam mais de 100 contos. Quando ela morre, D. Pedro herda uma parte, compra a herança dos filhos e oferece tudo à sua segunda mulher, D. Amélia de Leuchtenberg. E manda fazer a tiara de Bragança, com muitos diamantes, é atualmente uma das grandes tiaras da Europa. E quando ele morre, não se sabe exatamente o porquê — o testamento de D. Pedro IV é motivo de fúria para os investigadores — a sua segunda mulher, que era novíssima à época, e a filha que eles tiveram que depois morre, herdam mais de 60% da herança. D. Amélia viveu até 1873 em Lisboa, recebendo uma dotação paga pelos contribuintes portugueses. Ao morrer, não deixou nada às casas reais de Portugal ou do Brasil. Deixou a totalidade do seu acervo à sua irmã.
Por que motivo D. Pedro deixa tanto a D. Amélia e esta depois escolhe entregar tudo à irmã?
Acho que D. Pedro pensou: ‘Eu vou deixar esta mulher, que é a mãe dos meus filhos (porque a mãe deles morreu), muito bem, com todos os tesouros desta dinastia dos Bragança, que agora rege em dois países, para que ela vá gerindo isto e vá cuidando desta obra dinástica que eu criei.’ Ora, o que acontece é exatamente o oposto. Nós nunca nos podemos esquecer que D. Amélia vem do contexto dela: de uma família que também tinha uma questão dinástica, que também estava num período crítico e o casamento dela acontece porque os Leuchtenberg precisam de se afirmar. Ela vive a vida toda nos fantasmas do D. Pedro e da filha, D. Maria Amélia, que morrem. A família imperial brasileira e a família imperial portuguesa, nem uma nem outra, gostavam muito dela. D. Maria II não tinha a mínima paciência para ela. Às tantas quis visitar o Brasil e não deixaram, disseram que era um perigo para o império. Vive a vida toda em Lisboa, de uma renda paga pelos contribuintes portugueses, sem nunca ter sido rainha de Portugal. Ela tem um lugar estranhíssimo no protocolo, que nunca existiu nem vai voltar a acontecer. Ela foi casada com um Rei de Portugal, nunca foi rainha de Portugal, mas era a duquesa de Bragança. Era a matriarca da família que era soberana de Portugal.
O que é feito do património de D. Amélia?
D. Amélia de Leuchtenberg não deixa nada a Casa Real Portuguesa nem nada à Casa Real Brasileira. Entrega tudo à irmã, Josefina, Rainha da Suécia e da Noruega. O grave em questão patrimonial é a prata: vão coisas que nós não sabemos, porque não temos acesso às coisas que pertencem à esfera pessoal. Ou seja, não são das coleções reais suecas, nem dinamarquesas, nem norueguesas, pertencem sempre às esferas pessoais. Aquilo que eu consegui perceber na tese, os dois maiores diamantes que fazem parte da coroa sueca, que são um par de brincos enormes que a Rainha Sílvia da Suécia usa muito, eram de D. Maria I. Foram oferecidos a D. Leopoldina, passaram para a D. Amélia, e então para a irmã. Os colares rivière grandes da Suécia, também eram de D. Maria I. É uma informação que não era pública. A tiara Bragança sim, mas essa era óbvia, não é? Porque essa tinha o nome Bragança e sabia-se que tinha sido um presente a D. Amélia, que D. Pedro lhe tinha dado quando ela casou com ele. As outras joias também eram presentes que o D. Pedro lhe tinha dado, só que eram da avó dele — que também era bisavó de D. Pedro II do Brasil e de D. Maria II. Essas eram joias dinásticas. Aliás, a forma humana mais próxima que nós temos hoje para olhar para o que seria a imagem de D. Maria I, é a Rainha Sílvia quando está com os diamantes brasileiros. Aquilo é tal e qual como D. Maria I se pode ter apresentado.
▲ Silvia da Suécia com o conjunto de diamantes que pertenceu a D. Maria I e a tiara de Bragança
Clément Morin/ Casa Real da Suécia
Que outro processo de dispersão ocorreu após o reinado de D. Maria II?
Se D. Amélia foi a maior dispersão, D. Fernando II foi a segunda maior. Era um Saxe-Coburgo, primo da Rainha Vitoria, e tem este papel de um príncipe culto que vem da Alemanha, que olha para as artes decorativas e para todas as expressões artísticas portuguesas e diz que isso tem muito valor. Faz uma coleção extraordinária de artes decorativas portuguesas do século XVI. Vieram fotografá-la do Vitoria and Albert, à época, no século XIX. D. Maria II morre em 1853 e ele só morre na década de 1880. Recebe uma dotação de 100 contos, até morrer, por ano. Portanto, ele tinha muito dinheiro disponível — dinheiro que era público. E ele casa uma segunda vez, com a Condessa d’Edla, que era uma mulher também muito interessante, que tinha sido cantora de ópera. D. Fernando, quando morre, deixa um terço da sua herança à Condessa d’Edla, expressamente incluindo o parque e o Palácio da Pena. Foi um escândalo brutal porque o Palácio da Pena foi construído com dinheiro público de D. Maria II e dele. E não deixa uma única peça à coroa. Aliás, nenhum Bragança durante o período constitucional se lembrou de deixar uma peça que fosse à coroa. Só a venderam. É extraordinário perceber como é que esta família, que está incumbida da soberania do país, não entende a coroa como imortal. O Estado Português viu-se obrigado a comprar o Palácio da Pena à Condessa d’Edla para evitar que o palácio e o parque fossem retalhados e vendidos.
E quanto às joias?
D. Fernando, quando D. Maria II morre, não quis receber joias, só algumas coisas que ele escolheu por lembrança. Mas, quando os filhos morrem, em 1861 — porque é uma tragédia enorme, apanham todos aquelas febres do século XIX e morrem praticamente todos, só sobram D. Luís e D. Augusto — aí D. Fernando já faz questão de receber não só aquilo que lhe cabia como herdeiro dos filhos, como retém 100 contos de joias que não lhe cabiam, que eram da herança de D. Maria, que nunca dá aos filhos. A única filha viva, D. Antónia, herda muita coisa, e manda vir um perito, conservador de museu, da Alemanha para Portugal, para escolher o melhor possível, e ele leva coisas ótimas. Os Sigmaringen, que é esta família com quem ela se casa, venderam há uns anos um lote grande de prata, que era da herança de D. Fernando. Têm aparecido no mercado muitas coisas, o Palácio da Pena vai comprando várias: apareceu em leilão um relógio muito giro em prata, muito grande, que está no Palácio da Pena. Outras coisas estão em Londres, em grandes coleções internacionais.
É possível que algumas dessas peças estejam em Portugal?
Sim, sim, certamente. A parte de Amélia de Leuchtenberg, já sabemos onde é que estão; as coisas da Condessa d’Edla, as joias também, mas não eram nada de extraordinário, sobretudo a prata que era boa. Agora, o mistério continua a ser as joias de Isabel Maria. Para onde é que foram, onde é que estão? Sei que aquelas grandes safiras que estão no Tesouro Real eram de Isabel Maria, foram compradas por ordem de D. Luís. Há um grande relógio, uma coisa monumental que foi vendida por mais de um milhão de euros, que está hoje num museu de relógios em Utreque. Houve muitas vendas do património das coisas que estavam no Palácio de Benfica. E eu sei que, após a morte dela, entre 1876 e 1879, as joias de Isabel Maria foram avaliadas em Londres, pelos Hancocks, que à altura era uma casa muito grande, hoje é pequenina. Eu contactei-os para saber, mas não têm o arquivo inventariado, então não conseguiram ajudar-me. Mas acho que, quem quiser investigar, deve ir por aí. Há de haver avaliação das coisas dela lá.