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Como é que reages ao facto de se querer dar o nome de Dom Manuel Clemente à ponte, como é esta petição?

Completamente incrédula, porque há tantas personalidades que nós temos em Portugal e que fizeram tanta coisa boa pela sociedade e em prol da sociedade. O senhor Cardeal limitou-se a fazer o seu trabalho e malfeito, como é público, e como temos algumas pessoas na nossa petição que fizeram queixa às dioceses. Portanto, ele remeteu-se ao silêncio, encobriu os abusos e proferiu as palavras que proferiu após o resultado da comissão independente. Acho extremamente vergonhoso, com dinheiros públicos, a Câmara de Lisboa ou quem de direito, ou o Estado, pôr o nome desse senhor que envergou a Igreja e a sociedade. Estou perfeitamente incrédula, mais uma vez, sem palavras. E se esse senhor, como sempre, vai dizer que a culpa não é dele, é óbvio que a culpa não é dele, se lhe querem dar o nome. Mas se ele tivesse um pingo de dignidade, não iria aceitar, porque há gente que fez muito mais e faz diariamente. Há bombeiros que morrem, há heróis. Ele limitou-se a fazer o trabalho dele e muito sujo, muito mal feito. E depois das declarações dele há bem pouco tempo, o único nome onde ele devia estar escrito era precisamente na campa dele.

E diga-me uma coisa, concorda com esta petição, obviamente?

Claro que concordo, fui uma das impulsionadoras. Claro que concordo. Assim que soube, achei completamente escabroso, completamente fora do contexto, porque normalmente homenageiam-se pessoas pelo seu trabalho feito em prol da sociedade, em prol de alguma coisa boa. Esse senhor limitou-se a ter a sua profissão de cardeal e mal feita. E depois ainda teve a hombridade de dizer aquelas enormidades todas que disse após o relatório. Até me feriu vê-lo ao lado do Papa com aquele sorriso depois de tudo o que ele fez. Acho vergonhoso e acho uma ideia horrenda, sinceramente.

Uma última pergunta, Cristina Amaral, precisamente sobre a vinda do Papa Francisco a Portugal. Como é que viu as palavras do Papa Francisco sobre os abusos e o encontro que também teve com vítimas?

Com vítimas das quais comigo.

Sim, precisamente.

Eu estive presente. Vi o encontro, vi um homem realmente arrependido, um homem cheio de remorsos, um homem com muita dor, que carrega uma dor gigante. Um homem que transpirava sofrimento ao ouvir os nossos depoimentos e os nossos pedidos. Eu ia e nós íamos enquanto comissão com muita esperança, mas também limitou-se a dizer que pediu perdão, atenção, eu fui a primeira pessoa a intervir e fui a primeira pessoa que estava aqui que ficasse reportado estas palavras. Eu disse: "Sua Santidade, obrigada por nos ter recebido, porque para a Igreja nós não passamos de meros nomes, uma lista de nomes. E como o senhor está a ver, nós temos rosto, temos corpo, temos voz, falamos e estamos vivos." Nenhum membro, nem sequer o sacristão da paróquia, nem o padre da paróquia onde estivesse, e agora com as redes sociais que o senhor fala tanto, nem um e-mail recebemos de pedido de desculpas, quanto mais de perdão. Somos logo recebidos pelo chefe máximo da Igreja. É muito caricato esta situação. A Igreja em Portugal não tem tempo para nós. De repente, vem o chefe da Igreja e tem todo o tempo para nós, porque nós falámos tudo o que quisemos e ele ouviu-nos. Fez um discurso bonito, como é óbvio, mas também já estávamos à espera. Ele também referiu algumas palavras que pouco haveria ou nada a fazer, porque o mal já estava feito. Isso não vi com bons olhos, sobretudo no sofrimento que estávamos. Ia com muita esperança, mas acredito que isto é mais do mesmo. Tinha muita esperança, gosto imenso deste Papa. Nós gostamos todos imenso deste Papa, os que estávamos lá, mas depois percebemos que, eu pessoalmente e algumas pessoas com quem falei, ficamos um bocadinho desiludidas com o tipo de discurso. Aquele discurso conciliável também, que é o perdão, o andar pra frente. Disse que os reparos que podiam fazer daqui pra frente eram muito poucos ou nenhuns. Um pouco com esperança, quero acreditar que sim. Pedi-lhe, por tudo, pra ele não deixar isto para o próximo papa, acreditava muito nele, mas depois o discurso foi um bocadinho Estão aquém daquilo que estávamos à espera. Inclusive, houve uma colega que também disse que se não havia pouco ou nada a se fazer, a ideia também é quando um homem mata uma pessoa, um homem ou uma mulher, que é melhor libertá-lo da cadeia, porque não traz a pessoa de volta. Fizemos um bocadinho essa analogia. Mas vamos ver. Também temos muita esperança, mas foi um discurso conciliador conosco e com a Igreja, mais do mesmo, que já estamos habituados a ouvir falar, mas vamos ver se sairão novas novidades. Nós não vamos deixar de lutar por aquilo que achamos que é um direito nosso. Conforme eu lhe disse, era as Jornadas Mundiais da Juventude e a mim, nomeadamente, e a muitos que lá estavam, aliás, a grande maioria nem jovens puderam ser, porque tiveram abusos aos cinco, seis anos. Portanto, na idade em que deveriam estar a brotar de alegria, estavam a brotar de sofrimento. Eu levei comigo vários testemunhos, de várias pessoas. Levei ao todo 16 testemunhos de pessoas que não podiam lá estar e, portanto, honestamente, espero mais. Estou à espera de mais, tenho esperança, estou à espera de mais. Sim, sinceramente, é isso, estou à espera de mais. Agora, o motivo pelo qual também me pede que fale. Eu volto a reiterar, acho que o senhor deveria retirar-se sem nenhum tipo de homenagem ou nome onde quer que seja, porque ele foi um dos homens que envergonhou a Igreja e o Santo Padre disse-o, que todas as pessoas que foram cúmplices e que cometeram os crimes eram iguais. Portanto, se esse senhor, está provado, que ocultou várias décadas de crimes e teve o desplante de dizer que eram só meras carícias resolvidas com boas palavras, que não passavam disso, que eram carícias. Portanto, esse senhor merece muito pouco o ar que respira, quanto mais ter o nome numa ponte.