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É precisamente a porta-voz da Ordem dos Psicólogos, Sofia Ramalho, que se junta em direto a este Jornal das 10. Bom dia, Sofia, obrigado pela sua disponibilidade. Sei que a Ordem já teve conhecimento público desta carta aberta. Que resposta é que a Ordem pode dar perante essas preocupações aqui manifestadas?

Bom dia a todos. Sim, de facto, a Ordem dos Psicólogos valoriza e acolhe todas estas iniciativas que possam promover uma melhor literacia e informação sobre estes temas e, portanto, acolhe a carta aberta e reconhece claramente a relevância e a legitimidade das preocupações que foram expressas nesta carta. Também é importante dizer que iremos tomar todas as diligências para reforçar todas as recomendações e formação especializada nesta área. De qualquer das formas, nós há desde agosto de 2022 que temos recomendações específicas para a participação e a relação dos psicólogos com os meios de comunicação social, com um conjunto de princípios e diretrizes sobre essas participações. E além disso, temos também os cursos de literacia que promovemos especificamente sobre a violência sexual, com orientações para as práticas dos psicólogos, mas também destinadas à população, porque é importante esta dimensão da literacia, sobre como falar sobre o abuso sexual.

Também devem ser dirigidas essas diretrizes aos profissionais da comunicação social, por exemplo?

Também, exatamente. Também temos orientações para a comunicação social para os mais diversos temas sensíveis e, portanto, não só a questão do abuso sexual, mas também outros temas, como por exemplo, o suicídio e outros temas que são difíceis de abordar. Portanto, há recomendações muito concretas. De qualquer das formas, vamos tomar diligências para orientar de forma muito específica recomendações sobre este tema, em particular do abuso sexual, porque não é não. Não é não, e o abuso sexual é crime. Portanto, há aqui uma responsabilidade acrescida não só dos profissionais de saúde mental, mas também de figuras públicas, jornalistas e todos os intervenientes. E portanto, quando se fala sobre essas matérias, e mais ainda quando se fala sobre casos específicos, é preciso que esta comunicação seja não só baseada do ponto de vista científico e técnico, para que seja rigorosa, mas que também seja uma comunicação responsável e ética.

Até porque, Sofia, estes são, sabemos bem, temas sensíveis. A forma como eles são abordados também tem impacto nas vítimas.

Tem um impacto. A revitimização é o maior impacto que tem e tornar a vítima ainda mais frágil, faz com que depois todos os impactos que nós podemos assistir do abuso sexual a curto e a longo prazo, possam ser vividos de uma forma ainda mais traumática. E portanto, isto altera ainda mais aquilo que é a visão que a vítima tem sobre si própria. E não só tem este efeito sobre a própria vítima, como também tem um efeito sobre a população, que no fundo, funciona como as testemunhas deste evento, e reforça muitas vezes também aquilo que é a visão e a perceção de todos os espectadores relativamente a estes eventos. E, portanto, nós estamos aqui a tornar novamente, a revitimizar a vítima, não só porque há uma figura pública que fala sobre o tema e que, no fundo, valida ou quase valida aquilo que aconteceu, como também depois há todos aqueles que assistem e que ficam com a perceção de que talvez pudesse ter sido feito algo de forma diferente. E portanto, aqui a perceção não pode ser essa, a perceção tem que ser de que um não é um não. O abuso sexual é crime. Tem que haver consentimento, não importa o momento em que ele acontece. E nós temos que permitir a autodeterminação, ou seja, que a pessoa tenha o direito de dizer sim e não, tenha o direito de decidir sobre o momento e a sua vida.

Sofia Ramalho, já explicou que há diretrizes que a Ordem já emitiu, mas a própria comunicação social devia ter um código de conduta ou ter, de alguma forma, um documento que ajudasse na forma de abordar estes temas, um documento consensualizado entre toda a comunicação social?

Sim, seria muito importante que houvesse código de conduta e eventualmente imagino que possa haver, mas não de forma generalizada, com diretrizes generalizadas para toda a comunicação social, para abordar estes temas e outros temas, porque a comunicação social tem aqui um papel importantíssimo, até do ponto de vista pedagógico, da literacia à população, e tem um papel importante de combate à desinformação. E isto passa só por um plano nacional de diretrizes e orientações para a participação da comunicação social nestas temáticas. E, portanto, têm que estar preparados os intervenientes, não só os profissionais de saúde mental, mas também a própria comunicação social.