Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Hoje é dia de eleições nos Estados Unidos. Quase 100 milhões de pessoas já votaram antecipadamente. Trata-se de quase 70% do total de votos das presidenciais de 2016. No último dia de campanha, os candidatos esgotaram os últimos cartuchos numa corrida às presidenciais que não deve terminar logo a seguir à contagem dos votos. Para perceber o que pode vir a acontecer esta madrugada, junta-se a nós Diana Soller, investigadora e especialista em assuntos internacionais. Muito boa tarde, Diana Soller.

Olá, boa tarde.

O que pode acontecer depois destas eleições ou depois do ato eleitoral, caso os números fiquem muito próximos entre Trump e Biden?

Eu acho que o problema nem vai ser os números ficarem muito próximos, o problema vai ser que há Estados que fazem parte dos famosos swing states, principalmente a Pensilvânia, o Wisconsin e o Michigan, que não vão ter resultados eleitorais esta noite. E principalmente a Pensilvânia vai ser absolutamente essencial para o desfecho destas eleições. E, portanto, eu penso que nós não vamos ter resultados eleitorais, nós não vamos saber quem é o presidente dos Estados Unidos ainda hoje. Vamos ter que esperar ainda alguns dias.

Trump falou neste último discurso que vai tentar demonstrar que as sondagens estão erradas. A exemplo do que aconteceu já nas últimas eleições, em 2016. Será que vamos ter uma surpresa nestas eleições ou não?

As empresas de sondagens tentaram melhorar consideravelmente de há quatro anos pra cá, porque como se sabe, falharam miseravelmente, todas apontavam pra uma vitória clara de Hillary Clinton. Tentaram ajustar uma série de parâmetros, entre eles, principalmente o da educação. Tentaram ter esse fator em conta, que não terão tido em 2016. Mas ainda assim, as sondagens têm sempre riscos de falhar e as sondagens das eleições norte-americanas não têm sido muito confiáveis ao longo de vários anos. Este último ano, enfim, estas últimas eleições, muito menos confiáveis ainda. E apesar de haver essa nova tentativa de parametrização mais exata, pode haver, de fato, erro nas sondagens. Pode não ser um erro tão clamoroso, mas eu penso que devemos contar com a margem de erro normal em qualquer sondagem, e depois com a possibilidade de num país tão diverso, com nichos tão diversos em cada um dos estados, que haja, de fato, uma margem de erro que pode ainda ter alguma importância. Há outro fator fundamental, que é aquilo que nós muitas vezes chamamos o hidden vote, o voto escondido, o voto silencioso, o voto envergonhado, que não é possível de controlar através de sondagens, que é um fenômeno que aconteceu em 2016 e que pode voltar a repetir-se agora em 2020, que é um conjunto alargado de eleitores que votam em Trump, mas que mentem nas sondagens e dizem ou que não sabem em quem vão votar ou que vão votar democrata, e depois chega a hora da verdade e votam em Donald Trump.

E pode ter expressão neste ato eleitoral?

Eu penso que sim. Eu penso que pode ter expressão, até porque apesar da polarização agora ser grande e cada vez maior, e não ser só antirrepublicana e anti-Trump, mas ser também antidemocrata e anti-Biden, Trump ainda é uma figura que socialmente cria alguma fricção. E portanto, eu acho possível que esse voto escondido ainda se mantenha de alguma maneira. Vamos ver até que ponto.

O tema das eleições, das sondagens e dos atos eleitorais são matéria muito específica de análise dos politólogos de todo o mundo. Não sei se saberá responder a esta dúvida que eu tenho. Poderá haver um grande número de eleitores nestas eleições americanas que, perante a indecisão, Biden ou Trump, vote pensando no conforto, na continuidade?

Isso normalmente é verdade. Normalmente, o presidente incumbente ganha as eleições. É o que acontece na maioria das vezes, apesar de estar a acontecer cada vez menos. Agora, eu acho que neste caso em particular, o número de indecisos é muito reduzido. O número de indecisos até hoje é muito reduzido e tem vindo a reduzir-se ao longo da campanha eleitoral, mas é muito reduzido praticamente desde o princípio. Portanto, eu diria que se houver uma surpresa eleitoral, não é por aí. Se houver alguma surpresa eleitoral, será eventualmente relacionada com estes fatores que fomos falando antes deste presidente incumbente.

Esta foi uma campanha marcada por esta crise sanitária. Que impacto é que esta crise sanitária teve na campanha e que pode vir a ter nesses resultados? Qual destes dois candidatos soube lidar melhor com esta pandemia?

Só houve um dos candidatos que teve que verdadeiramente lidar com esta pandemia, que foi o Donald Trump, que é o presidente dos Estados Unidos da América ainda. Obviamente que Joe Biden aproveitou O facto de Donald Trump ter sido terrivelmente desajeitado na maneira como lidou com a sua comunicação relativamente à pandemia, para o responsabilizar pelas 230 mil mortes por Covid-19 que se verificaram nos Estados Unidos desde o início da pandemia. Agora, há duas coisas que é importante frisar. A primeira é que nos momentos em que Trump aparecia praticamente diariamente a fazer conferências de imprensa, a sua preferência nas sondagens baixou substancialmente e voltou a subir um pouco a partir do momento em que ele se deixou de expor tanto relativamente à questão pandémica. Portanto, pelo menos em determinada altura, Trump foi de facto prejudicado, mas eu penso que ele não foi prejudicado pela pandemia por si, foi prejudicado pela forma como ele geriu a sua imagem pública e a sua comunicação pública durante a pandemia. Há uma segunda questão que é preciso frisar, que nunca é demais frisar, é que quem tem jurisdição relativamente às medidas contra a Covid-19 não é o presidente dos Estados Unidos da América, são os governadores dos estados. Ou seja, as medidas são diferentes de estado para estado, porque precisamente quem tem jurisdição para impor estados de emergência, confinamentos, etc., são os governadores, são as autoridades estaduais. Portanto, o presidente dos Estados Unidos não tem possibilidade de agir nesse particular. Agora, no fundo, Trump foi vítima de si próprio, quer dizer, quis intervir na pandemia e não o fez da melhor maneira do ponto de vista eleitoral.

Estas eleições, estamos a ver, pelo menos para já, que há aqui um aumento muito grande de eleitores. Isso irá beneficiar ou prejudicar Trump, neste caso?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. As campanhas geralmente são muito mais expositivas, muito mais explicativas daquilo que são as propostas dos candidatos a presidente. Esta campanha teve uma característica muito diferente, que foi uma campanha essencialmente mobilizadora, foi uma campanha em que os temas dos debates quase desapareceram, e o que nós assistimos, até um bocadinho de parte a parte, foi o ataque ao outro, quer seja na sua competência política, quer seja até na sua vida pessoal. Portanto, nós não conseguimos saber até às exit polls, que só vão estar cá fora daqui a uns dias, quem é que foi o candidato que verdadeiramente ganhou a batalha da mobilização. E provavelmente o candidato que ganhar a batalha da mobilização vai ser o candidato que vai ganhar as eleições presidenciais, porque desta vez o que estava em questão era precisamente ser capaz de fazer com que as pessoas, a abstenção é muito grande nos Estados Unidos, desta vez se levantassem do sofá pelo menos para ir ao correio votar. E nós não sabemos ainda quem é que verdadeiramente foi capaz de fazer essa mobilização mais eficazmente. Sabemos uma coisa: que tradicionalmente os votos por correspondência, que são muitos, se me deixar olhar aqui pro meu papelinho, eu posso dizer que foram quase 64 milhões de votos por correspondência. Esses votos por correspondência tendem a vir de um eleitorado mais urbano, de um eleitorado mais preocupado com Covid-19.

E estará mais próximo então de...?

Estará mais próximo dos democratas. Agora, isto são conjunturas. Nós não sabemos quem é que votou por correio, por quê, por que o fez. Sabemos apenas que 64 milhões de pessoas o fizeram, que esse voto veio essencialmente das áreas urbanas e que, por maioria de razão, as áreas urbanas tendem a votar, se não falarmos dos subúrbios empobrecidos, tendem a votar Biden.

Mas isso será também por haver um certo cansaço pelo estilo do atual presidente?

Eu não sei até que ponto é que o cansaço pelo estilo do atual presidente é um fator que tem ou não tem impacto nestas eleições. Há cientistas políticos que dizem que estas eleições também são referendo a Donald Trump, e não me parece que seja verdadeiramente assim. Eu acho é que estas eleições são a escolha entre dois modelos de Estados Unidos que são completamente opostos em praticamente tudo, numa América que está profundamente polarizada, quer seja ideologicamente, quer seja eticamente, quer seja identitariamente, que é a questão mais importante aqui nestas eleições. E, portanto, é muito difícil nós neste momento sabermos Quem verdadeiramente foi capaz de apelar a esse voto emocional, que aparentemente é aquele que é maioritário desta vez, em oposição ao voto racional que costumava ser, segundo os cientistas políticos, a maior razão da decisão de voto nestas eleições. Por um lado, nós temos um candidato que é altamente energético, mobilizador e que tem, à sua maneira, carisma. Mas que está a falar para um eleitorado muito específico que é o seu, que é aquele que ele sabe que lhe pode dar a vitória. E temos um outro candidato que é menos carismático, menos energético, mas que está a tentar falar para uma América mais plural, que está a tentar encontrar eleitores ao centro, ainda que eu não tenha a certeza que haja centro nos Estados Unidos nesta altura do campeonato. E vamos ter que perceber, entre hoje e os próximos dias, qual das propostas de Estados Unidos vai ganhar. Ainda que os números, evidentemente, sorriam a Joe Biden. Agora, os números também não são suficientemente conclusivos para termos a certeza que Trump perde as eleições.

Teremos de esperar e resta saber quantas horas ou quantos dias. Pelo menos há essa certeza.

Eu diria mais dias.

Mais dias. Pelo menos há essa certeza, um homem, um voto. É o princípio da democracia liberal dos Estados Unidos. Diana Soller, muito obrigado por se ter juntado a esta emissão na Rádio Observador.

Obrigada pelo convite.