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A previsão é de especialistas da Nova Information Management School. Mesmo com um confinamento semelhante ao de março do ano passado, o número de internamentos em cuidados intensivos deverá chegar aos 1154 na primeira semana de fevereiro. De acordo com o último boletim da Direção Geral de Saúde, estão hoje em cuidados intensivos 670 pessoas. E para nos falar sobre estas previsões, convidamos o presidente do Conselho Científico da Information Management School. Junta-se agora à nossa emissão Pedro Simões Coelho. Bom dia.

Bom dia.

Bom dia e obrigada pela sua disponibilidade. Transparece destas previsões que não há forma de evitar o aumento do número de internados em cuidados intensivos. É mesmo assim, já não está nas nossas mãos?

Muito bem. Vamos lá ver. Claro que está, potencialmente, nas nossas mãos. E eu acho que ainda está totalmente nas nossas mãos evitarmos a rutura do SNS. Como todos sabemos, a situação é de uma enorme pressão. A situação é, como alguns têm classificado, de pré-catástrofe, é dramática, mas nós ainda podemos fazer a diferença entre ficarmos aquém da capacidade instalada máxima do SNS ou passarmos essa capacidade. Entre um cenário de confinamento concentrado no tempo e mais intenso, que poderá levar a cerca de 1100, 1150 internados em UCI algures na segunda semana de fevereiro, ou um cenário menos confinado, provavelmente mais semelhante àquilo que observamos nos primeiros dias, em que vamos ter provavelmente 1250 ou mais. Naturalmente, que existe já uma grande diferença, porque pode constituir uma ultrapassagem ou não da capacidade instalada do SNS.

Pedro Simões Coelho, eu queria lhe perguntar: como é que chegaram a esta previsão de mais de mil internamentos em cuidados intensivos logo na primeira semana de fevereiro? Em termos matemáticos, em termos de fórmula, como é que chegaram lá? Para percebermos.

Muito bem. Estas previsões, que aliás estão disponíveis no Covid-19 Insight, baseiam-se numa extensão do modelo SEIR, que é o modelo mais conhecido para analisar este tipo de infeções, que divide a população em compartimentos, os suscetíveis, os infectados e também, no nosso caso, nos hospitalizados, é uma extensão do modelo SEIR, e naturalmente, com base na informação disponível e com base nos dados que vão chegando, os parâmetros do modelo são ajustados e vão fazendo essas previsões. O que se passa neste momento é que não é possível fazer uma previsão única sem criarmos alguns cenários sobre o que é que se passa relativamente à taxa de queda da transmissibilidade. E por razões que todos percebemos, a taxa de queda da transmissibilidade, se for muito rápida, produz uma determinada situação em termos de incidência e depois mais tarde, em termos de internamentos e de mortes. De qualquer forma, se verificará, mesmo sem confinamento, ela verificar-se-ia. O problema é que se for mais lenta, como nós já estamos numa situação de uma incidência muito elevada, vai levar a que essa lentidão da queda não seja compatível com a capacidade instalada do SNS.

Diga.

Nós acreditamos que, mesmo no melhor cenário, dificilmente teremos, na segunda semana de fevereiro, menos de 12 mil mortos e, em teoria, dificilmente teríamos menos de mil, cento e qualquer coisa, internados em cuidados intensivos. Ainda que eu acredite, depois, quando lá chegarmos, que o número efetivo de internados em cuidados intensivos possa ser inferior, por razões que todos percebemos e que têm a ver com o facto de à medida que nos aproximamos do esgotamento da capacidade instalada, também todos compreendemos que os critérios para internamento em cuidados intensivos vão sendo tornados mais rigorosos e, portanto, o próprio sistema vai pondo uma pressão para que algumas das pessoas que são um bocadinho borderline e que poderiam estar ou em cuidados intensivos ou em cuidados mais intermédios, possam não fazer essa transição.

Com estas medidas que nesta altura estão a ser adaptadas, que estão agora em vigor, imagino que estejam também colocadas nestes vossos cenários. Quando é que podemos prever que o número de casos e de internamentos também podem começar a baixar? Só para termos aqui também, já agora, uma boa notícia. É possível dá-la?

Posso. Vamos lá ver, num cenário muito semelhante àquilo que vivemos nos primeiros dias, eu penso que os casos não começarão a baixar, a incidência, portanto, os novos casos, não começará a baixar antes do final do mês, para os últimos dias de janeiro. Se tivéssemos um cenário de confinamento mais rigoroso e imediato, nós poderíamos trazer esse pico algures entre o final desta semana e o início da próxima semana.

E o que é que entende por um cenário mais rigoroso? Passaria também pelo encerramento das escolas?

Pronto, vamos lá ver. Sobre isso, há aqui uma componente que não é técnica, que é política. O cenário mais rigoroso para nós é um cenário que tivesse um efeito muito próximo do de março, cerca de 90%. Dito isto, também percebemos que há diversas maneiras de atingir esse objetivo. Naturalmente, é uma decisão política fechar determinadas atividades ou não fechar outras, e podemos atingir o objetivo por diversas formas.

Mas será mais lento.

Poderá ser mais lento. A título meramente pessoal, a minha opinião é que no momento em que estamos, já será impossível fazê-lo sem o fecho das escolas, pelo menos, como tem sido dito, a partir de um certo nível, nem sempre, provavelmente, como têm sido referidos por aí Coelhos, depois dos 12, 13 anos, onde há menos evidência de que a transmissibilidade seja mais baixa, eu penso que já não conseguiremos atingir estes cenários mais otimistas sem o fazer. Eu acho que vai ser inevitável. Mais dia, menos dia, vai ser inevitável o fecho das escolas. E com isto quero dizer algo que todos sabemos. Isto não significa que as escolas sejam um veículo predominante de transmissibilidade, não significa que as escolas não tenham todos os cuidados e até não significa aquilo que todos sabemos, que é o número de casos de transmissão em escolas registado parece ser relativamente baixo. Mas não é só a própria transmissão da escola, é, como todos sabemos, tudo aquilo que gravita em torno da escola: as deslocações dos alunos, as deslocações dos pais, as deslocações dos professores, as saídas temporárias dos alunos da escola e toda uma dinâmica social de milhões de pessoas, tudo o que é proporcionado pela escola. Portanto, acho que hoje em dia ninguém tem dúvida nenhuma que se fecharmos a escola, naturalmente vamos ter menos casos. Por muito que se diga assim: "Não há uma evidência muito forte sobre qual é o efeito da escola." Eu também concordo, não há. Mas a verdade é que quando estamos numa situação desesperada, já não estamos à procura de evidências. Não há tempo para fazer testes e pensar: será que esta atividade é mais ou menos arriscada? Quando estamos desesperados, temos que fechar tudo, temos que conter e depois mais à frente, com mais tempo, poderemos perceber melhor quais foram os efeitos das várias componentes. Eu acho que a única solução é mesmo um confinamento curto no tempo e muito intenso, e depois ir progressivamente abrindo as atividades econômicas até um ponto em que comecemos a ver outra vez a pandemia a subir. Porque se fizermos isso, provavelmente até o próprio efeito económico na economia é menor. É menor sofrermos mais umas duas ou três semanas do que sofrermos mediamente durante dois ou três meses.

Colocaram alguma vez esse cenário de voltarmos outra vez ao tipo de confinamento que tivemos em março, ou seja, nos 80%, como já falou aqui, se tivéssemos esse confinamento de 80%, os números reduziriam em quanto tempo? Há esse cenário já criado ou não?

Sim, neste cenário de 90%, como lhe disse, a partir do final desta semana, a incidência começaria a diminuir e naturalmente que ainda teríamos que esperar algum tempo. O número de internados e o número de mortes ainda continuaria a subir e provavelmente só algures na segunda semana de fevereiro, porque há um leque temporal, naturalmente, entre os novos casos, os internamentos e as mortes, só algures na segunda semana de fevereiro é que estes números de internamentos, de saída e de mortes começariam a descer, neste melhor cenário. Em qualquer dos outros cenários, naturalmente, que este pico dos internamentos e das mortes se vai também prolongando no tempo.

Ora, nesse cenário dos 80, 90%, seria de quanto tempo? Quanto tempo é que teríamos que manter esse confinamento? Duas semanas, três semanas?

Na minha opinião, neste momento, um cenário de confinamento forte poderá ser limitado ainda a três semanas, sendo que a partir daí poderíamos progressivamente ir abrindo as atividades econômicas. E eu até sou da opinião de que se tivermos os resultados esperados com o confinamento forte em três semanas e conseguirmos baixar o nível, a partir daí, se conseguirmos também um outro objetivo que é extremamente importante, que é o de ter uma testagem significativa e, sobretudo, ter a identificação e o isolamento dos infectados, e isso significa não haver atrasos nos inquéritos epidemiológicos e não haver atrasos nos rastreios. Portanto, se nós tivéssemos um sistema de rastreagem muito próximo do perfeito, eu penso que a partir dessas três semanas, quase que o país poderia passar a viver uma vida normal, porque teríamos posto os níveis de transmissibilidade dentro de valores que são geríveis e com esse mecanismo de um rastreamento muito efetivo, conseguiríamos ir controlando a evolução da pandemia.

Muito obrigada, Pedro Simões Coelho, por estes esclarecimentos e pela sua disponibilidade para se juntar à emissão da Rádio Observador.

Com todo o gosto.

Estivemos à conversa com Pedro Simões Coelho. Ele é presidente do Conselho Científico da Information Management School. Estivemos aqui à conversa com ele, uma entrevista do Aníbal Rebelo acerca dos números desta pandemia.