Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Em directo neste jornal temos agora João Diogo Barbosa, que é especialista em assuntos europeus. Bom dia, João Diogo Barbosa. De acordo com o que sabemos, Puigdemont apareceu em Barcelona, discursou, fugiu. O que é que pretenderá Puigdemont com esta espécie de toca e foge?
Bom dia. Eu acho que hoje estamos a assistir ao nascimento da lenda de Puigdemont, o homem que fugiu no Honda branco depois de discursar e de entrar numa espécie de manifestação. Acho que Puigdemont foi muito hábil a gerir toda esta situação. Vale a pena recordar que a polícia catalã tinha oferecido a Puigdemont a possibilidade de uma detenção serena e discreta, que rapidamente foi recusada, porque Puigdemont é um homem da rua, é um político, e conseguiu fazer mais do que isso. Conseguiu aparecer perante uma multidão, discursar, inserir-se na multidão e escapar à polícia. E o facto de ter conseguido escapar à polícia, pelo menos até agora, ajuda a dar força a esse mito e a reforçar aquela que me parece ser a grande intenção de Puigdemont ao regressar agora. Que é, por um lado, tentar forçar uma resolução do seu problema judicial e jurídico, tentar forçar os tribunais a decidir a favor da sua anistia, e, ao mesmo tempo, reforçar a sua causa política. Puigdemont arriscava-se a perder não só o controle do seu movimento, como também a sua carreira política. Vale a pena recordar que a tomada de posse na Catalunha é para um governo regional socialista. O movimento independentista estava a perder força e, contudo, toda esta atenção mediática, toda esta capacidade de Puigdemont tornar-se uma figura maior do que o seu movimento, ele consegue novamente recuperar a narrativa e consegue tornar-se o grande assunto do dia, não só em Espanha, como também um pouco por toda a Europa. E essa criação da lenda, do mito, pode ser muito útil, se não para a causa catalã, pelo menos para a sua causa própria. Vale a pena recordar que Puigdemont tem problemas com os tribunais. Apesar de tudo, é algo que lhe pesa, seguramente, na vida quotidiana.
Mas isto quer dizer que Puigdemont tem, de facto, ainda ambições políticas.
Sim, seguramente. Nós vimos o discurso à multidão. Não é propriamente de despedida, não é de alguém que está pronto a ceder à sua causa, à sua grande luta. Mas também vale a pena notar que Puigdemont não é uma espécie de Navalny, não é alguém que fugiu a um regime ditatorial e regressa agora com grande coragem para enfrentar as autoridades e para protestar a partir de dentro. Puigdemont é muito hábil neste tipo de movimentos, é um homem capaz de surpreender e de gerar narrativas à volta da sua figura. Agora, com tudo isto, o objetivo parece ser, por um lado, dar nova força ao movimento independentista e, por outro, obrigar e pressionar os tribunais a decidir a favor da sua anistia. E a verdade é que há uma lei de anistia, mas que foi interpretada pelos tribunais, e pelo Supremo Tribunal em específico, de uma forma muito restritiva que tem dado bastante polêmica e vai ser mais difícil para o tribunal, mesmo em caso de detenção de Puigdemont, decidir que a anistia não vale se houver um grande movimento político, se houver uma grande pressão nas ruas, como houve hoje de manhã. E é por isso também que Puigdemont age desta forma, porque consegue pôr a rua. Se as instituições não funcionam, Puigdemont recorre à rua e a partir daí tenta reforçar o seu peso, quer político, quer também judicial.
E, portanto, isto de alguma forma contamina a vida política espanhola.
Seguramente. Desde logo porque a lei da anistia foi uma condição para o governo de Pedro Sánchez, este último, ter uma maioria parlamentar, uma maioria frágil. E Sánchez até tinha sido alguém que, com grande crédito, tinha conseguido esvaziar a questão independentista, que foi um grande tema no governo de Rajoy do PP, mas depois com Sánchez, com alguma habilidade, a questão foi desaparecendo, foi perdendo força e Puigdemont sentia isso, também porque Puigdemont estava longe e não estava a conseguir regressar. Mas agora com a lei da anistia, o assunto volta. Sánchez não tem grande habilidade, porque a partir do momento em que a lei está aprovada, o assunto passa para os tribunais, ou volta a discutir uma emenda à lei, uma nova lei que permita dar mais força quando a questão seja discutida nos tribunais, ou vai ter de suportar esta oposição de Puigdemont, o homem que consegue fugir à polícia, estar no exílio, regressar, fazer um discurso perante milhares de pessoas e mesmo assim escapar às autoridades. É muito difícil para um governo nacional e para um governo que, mesmo que não tanto quanto o governo do PP, queira manter a unidade nacional, é muito difícil para um governo lidar com este tipo de figuras e com uma figura que se arrisca a ser muito popular, pelo menos na Catalunha.