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Tencionamos partir dia 31 de agosto e chegar a Gaza para entregar ajuda humanitária em meados de setembro. Sobre quantas pessoas vão e quantos barcos, ainda não é claro. Ainda se estão a acertar os últimos detalhes, mas serão certamente dezenas de barcos, centenas de pessoas, vêm delegações de mais de 40 países. Portanto, vem muita gente e nós, especificamente, vamos partir de Barcelona, mas há gente a partir de outros portos até no norte de África, como o porto de Túnis.

Além destas duas figuras que eu mencionei, Mariana Mortágua e Sofia Aparício, há mais alguém de destaque que vá nesta missão também para ajudar neste objetivo?

Sim, há muitas personalidades, muitas figuras públicas de vários países, atores de cinema, existem deputados, eurodeputados, vem a Greta Thunberg, a ativista que esteve também presente nas últimas flotilhas. E a razão para trazermos tanta gente conhecida é que essas pessoas trazem consigo as suas plataformas e conseguem passar a mensagem a muita gente ao mesmo tempo. Portanto, conseguimos espalhar a nossa mensagem, a mensagem da flotilha, o máximo possível e, para além disso, também garantimos proteção para nós e para a ajuda humanitária tão necessária que carregamos e que tencionamos deixar em Gaza. Portanto, quanto mais olhos estiverem sobre nós, mais difícil será o Estado israelita fazer aquilo que tem feito nas últimas flotilhas, que é a captura violenta e o rapto ilegal de todos os tripulantes.

Ou seja, a Greta Thunberg também vai nesta missão, é isso?

Sim.

E aproveitava para falar desse último ponto que mencionou, se de alguma forma a própria Greta, por exemplo, participou na Flotilha da Liberdade no mês de junho, que acabou, como diz, interceptada pelo exército israelita. Perguntava se existe também algum receio da vossa parte desta flotilha sofrer o mesmo destino, também ser interceptada e impedida de navegar.

Esse é o resultado mais provável. Porque se nós considerarmos o que tem acontecido nos últimos anos às últimas flotilhas, isso é o que acontece quase sempre. Aliás, houve já uma instância em que a intervenção do exército israelita resultou na morte de vários ativistas. Portanto, existe certamente esse risco. É um risco calculado que estamos dispostos a aceitar, para conseguir levar ajuda humanitária. Ainda assim, exigimos absolutamente que esta ajuda humanitária tão necessária seja deixada chegar a Gaza. Nós essencialmente transportamos comida e medicamentos e bem sabemos, qualquer pessoa que leia as notícias hoje em dia sabe, que o povo palestiniano está a ser submetido a uma fome imposta pelas forças israelitas. Também há um bloqueio marítimo sobre Gaza, ilegal, e o que nós vamos fazer é desafiar esse bloqueio ilegal para trazermos ajuda humanitária, para darmos nem que seja um pouquinho de alívio a estas pessoas que já tanto sofreram às mãos do exército israelita, não só ao longo do genocídio que tem estado a decorrer nos últimos anos, mas ao longo de décadas de ocupação e apartheid que o povo palestiniano, como bem sabemos, tem sofrido às mãos do Estado israelita.

O Miguel Duarte tem muita experiência já nestas missões de ajuda humanitária e tendo em conta esse cenário provável do navio acabar interceptado, eu perguntava-lhe que diferença é que pode fazer esta missão humanitária, com este objetivo de levar ajuda até Gaza, o que é que pode surgir de diferente desta missão, com que espírito é que partem?

O que nós estamos a organizar agora é uma ação de dimensões sem precedentes. Portanto, vão dezenas de barcos com centenas de pessoas de mais de 40 países. O objetivo é que nos deixem chegar a Gaza e abrir um corredor humanitário, que é tão necessário neste momento. O objetivo certamente não é parar por aqui. Se por acaso conseguirmos chegar a Gaza, e espero que consigamos, então entregaremos a ajuda humanitária e certamente abrir-se-á ou tentar-se-á que este corredor humanitário se mantenha aberto para suprir as necessidades mais imediatas do povo palestiniano em Gaza. Agora, certamente também estamos a tentar trazer o máximo possível de atenção sobre o tema e com delegações destes países todos, o que nós queremos atingir é certamente uma ação por parte dos nossos próprios governos. É absolutamente fundamental, do ponto de vista moral até, que os governos europeus cortem imediatamente laços diplomáticos, bem como comerciais, com o Estado israelita. É preciso absolutamente aplicar sanções a este país que está a cometer um genocídio há anos, o mais depressa possível. Em parte, também é o nosso objetivo chamar a atenção sobre este tema e garantir pressão suficiente para que os nossos Estados façam finalmente alguma coisa relativamente a isto. É preciso ver que isto é uma ação da sociedade civil num tom quase de desespero, não é? Porque os nossos Estados simplesmente não respondem à gravidade da situação. E a sociedade civil viu-se obrigada a intervir. E este é o resultado.

E por falar no governo, fazer referência a isso que disse, perguntava-lhe a importância de envolver políticos nestas missões. Por exemplo, neste caso, a coordenadora do Bloco de Esquerda vai integrar esta flotilha. Perguntava-lhe a importância de envolver a política portuguesa diretamente nestas flotilhas, ou seja, com uma deputada única da Assembleia da República a participar neste tipo de missões.

A importância é como já lhe disse, precisamos de pessoas que tenham uma plataforma significativa para conseguirmos fazer chegar a mensagem ao maior número de pessoas e também para a nossa própria proteção, quanto mais olhos estiverem sobre nós, menos provável é que o Estado israelita cometa ataques violentos à própria tripulação. Por outro lado, envolver a política portuguesa especificamente é absolutamente urgente, no sentido em que não só este governo, mas sucessivos governos portugueses têm tido uma atitude absolutamente insuficiente no que toca à solidariedade com o povo palestiniano. Volto a dizer, é absolutamente necessário, para já chamar genocídio ao que é um genocídio, que é o que está a acontecer agora. Depois é preciso aplicar sanções, é preciso cortar cortes diplomáticos e comerciais com Israel. E é preciso chamar as coisas aquilo que elas são e é preciso garantir solidariedade com o povo palestiniano. Infelizmente, o Estado português tem sido absolutamente insuficiente no que toca a isto e esperamos que isso possa mudar.