Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Junta-se a nós neste jornal João Antunes, que é o diretor-geral da Médicos Sem Fronteiras Portugal. Muito bom dia, João Antunes. Este frio que começa agora a chegar é já uma dificuldade acrescida ao trabalho das organizações humanitárias no terreno?

Muito bom dia. Exatamente, é um fator adicional a tornar ainda cada vez mais difícil a vida da população palestiniana, que está a viver toda esta situação já há alguns meses. Temos que ter em conta que 85% da população total da Palestina é população deslocada, isto é, teve que abandonar as suas casas e encontrar abrigos, muitas vezes improvisados ou até mesmo a dormir na rua. Obviamente que, tendo em conta a situação de segurança e a situação de dificuldade a nível, como já referiu, da água, energia, comida, tudo isso vai fazendo com que a vida e a saúde dessas pessoas se vão degradando dia a dia. Já estamos também a observar nos hospitais onde estamos presentes, um aumento de doenças relacionadas com a baixa qualidade de vida ou com a falta de itens básicos de sobrevivência. Estamos a falar das doenças respiratórias, estamos a falar muitas vezes também de infeções de pele e surtos de doenças infecciosas, como pode ser a hepatite. E tudo isto já é algo que temos que acrescentar a tudo o mais que já estaria a acontecer. Tem sido largamente documentada a situação nos hospitais, mas também há sempre outros fatores que achamos interessante trazer aqui ao conhecimento geral. As dificuldades que estamos a ter nos hospitais para prestar consultas e tratamentos aos ferimentos que estamos a receber. Muitas vezes os ferimentos são tratados de uma forma possível. O risco de infeções desses mesmos ferimentos são muito elevados e a população que está a viver na rua ou em abrigos improvisados ou em baixa qualidade de vida. É como se tivéssemos aqui quase um ciclo de sofrimento a que a população palestiniana está condenada desde que o rescaldo do conflito começou.

A ONU, de resto, tem vindo a alertar para as dificuldades na entrega de ajuda humanitária por causa dos combates que se verificam no terreno. Não abrandaram de forma alguma, os tais corredores de segurança não estão a funcionar.

Exatamente. Aqui são duas questões. A primeira é a quantidade de ajuda humanitária que conseguimos fazer entrar dentro da Palestina, e isso também tem sido largamente documentado, que aquilo que tem chegado não é suficiente para as necessidades. Da parte da Médicos Sem Fronteiras, falamos com conhecimento de causa, já conseguimos fazer entrar cerca de 50 toneladas de equipamento médico. Estamos à espera de enviar mais 25, mas obviamente, é um processo que demora muito tempo. Há uma longa lista de espera, há uma série de barreiras administrativas que obviamente faz com que essa ajuda humanitária chegue sempre tarde e não em quantidade suficiente. Este seria o fator número um. O segundo, entrando dentro da Palestina, é que obviamente, que essa ajuda humanitária chegue aos pontos onde ela mais seja necessária. Não é o mesmo estar no ponto X do que no ponto Y, que é onde se concentra a maior parte das populações e onde obviamente necessitam de receber esse apoio humanitário. Não havendo a possibilidade de fazer o transporte do sítio X para o sítio Y, obviamente conseguimos perceber que ainda que entre esta ajuda humanitária, que já é de si insuficiente, não chega aos sítios onde é mais necessária. Podemos, por exemplo, referir a situação no norte do país, que obviamente tem sofrido deste problema desde o princípio de outubro.