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Neste jornal das 10 está agora João Antunes, diretor-geral da Médicos Sem Fronteiras Portugal. João Antunes, muito bom dia, obrigada por estar conosco em direto. Sabemos que as comunicações com Gaza estão muito difíceis, mas que informações é que têm acesso e que vão chegando do terreno?

Exatamente, isso é algo que nós queremos sempre trazer e mostrar que realmente falar hoje com os nossos colegas que estão dentro da Faixa de Gaza é cada vez mais desafiante. A situação também é dinâmica, faz com que esteja sempre a mudar de hora para hora e ter sempre a última atualização da situação é extremamente complicado. Se pensarmos, não há eletricidade em muitos dos locais que nos estamos a referir e as pessoas podem ter dificuldade em carregar os seus próprios telemóveis, o que faz com que obviamente esta comunicação seja difícil. Daquilo que temos recebido dos últimos testemunhos, são situações obviamente distintas entre o norte e o sul de Gaza. O norte, para nos recordarmos, foi a zona onde foram lançados os alertas israelitas para uma evacuação quase em tempo recorde de milhares, se não até milhões de pessoas, e onde obviamente a situação neste momento é verdadeiramente dramática. Nós tínhamos presença antes deste escalar de conflito dentro desta área, apoiávamos quatro hospitais e geríamos a nossa própria clínica. É verdade que essas atividades tiveram que ser reduzidas, muitas vezes não tivemos mais condições de segurança para operar. Ainda que alguns dos nossos colegas palestinianos consigam ainda prestar consultas e estar ainda a fornecer esta ajuda médica. Dentro daquilo que nos contam, dentro dos hospitais, na área norte é uma situação onde já praticamente falta tudo, onde há pouco ou nada para garantir o cuidado de saúde a pacientes graves, pacientes crônicos, pacientes que não têm capacidade de se deslocar e onde o mais básico, falamos de eletricidade, falamos de água, mas também de analgésicos. Algo que pode ajudar as pessoas um pouco na dor que estão a passar dos ferimentos, já não há e literalmente vê-se pessoas a gritar sem qualquer tipo de podermos assistir esse tipo de pessoas e obviamente a situação é extremamente difícil. De referir também, não só para os pacientes que estão em estado grave nos hospitais, pessoas também novos feridos, pessoas que queiram aceder a hospitais, porque obviamente os bombardeamentos continuam, a violência continua ainda de uma forma até indiscriminada, faz com que obviamente tenham muito receio em procurar essa ajuda nos hospitais. Praticamente já não há nada a nível de medicamentos também nas farmácias e realmente as pessoas se não têm ajuda nos hospitais e se não conseguem ter esse apoio, ficam em casa, correm risco de vida ficando em casa e têm receio, um terror em movimentar-se das suas casas até aos hospitais por obviamente ter esta dificuldade, por esse receio de ser também bombardeado. Não só isso, mesmo as pessoas que estão dentro dos hospitais e que têm que sair por algum tempo para buscar abastecimento, para buscar algo que lhes permita, estamos a falar água, comida, os medicamentos mais básicos, ir às farmácias buscar as suas receitas médicas, obviamente também têm esse grande receio. Então aquilo a que se está a assistir é uma situação verdadeiramente dramática no norte, onde as pessoas estão praticamente encurraladas e têm como quase um único destino morrer sob as bombas em Gaza. E isso, obviamente, para nós não é uma situação aceitável e que apelamos, neste caso, às autoridades israelitas para que mostrem humanidade nesta situação. Estava a referir uma situação mais a norte, mais a sul. Lembramos que foi a zona que foi declarada pelas autoridades israelitas para as pessoas evacuarem. Também é uma situação extremamente difícil. Podemos pensar que é onde existe talvez uma maior segurança, mas a situação não é assim. Ainda que em menor escala, continuam a existir bombardeamentos nesta zona. Também continua ainda a haver essa sensação de insegurança, onde praticamente dentro da Faixa de Gaza não há qualquer sítio que possa ser considerado seguro. As pessoas vão chegando, as pessoas vão se mantendo em campos improvisados, escolas, procuram abrigo em qualquer canto, vêm com muito pouco, obviamente que ainda a uma distância de algumas dezenas de quilómetros, porque as vias de comunicação vão ficando cada vez mais afetadas. As pessoas muitas vezes chegam a pé com pouco ou nada em cima e obviamente quando chegam a estes campos não há propriamente uma assistência humanitária a ser preparada e questões básicas como a água, comida, cuidados de saúde, abrigo, não está a ser garantida e isto obviamente faz com que a situação também seja per si uma emergência humanitária também a sul.

João Antunes está a descrever-nos o norte da Faixa de Gaza como, de facto, uma zona muito cercada e muito inacessível nesta altura, mas nessa zona sul que está a descrever, aí há capacidade para chegar ajuda humanitária e, sobretudo, também material médico?

Neste momento, como aquilo que tem sido muito noticiado, para até chegar material médico, tem que haver a abertura de um corredor, abertura de vias seguras.

Que não existem.

Exatamente. O que acontece é tudo aquilo que tínhamos e a Médicos Sem Fronteiras tinha material posicionado já dentro da Faixa de Gaza, porque pelas nossas operações temos essas regras, ter pelo menos três meses de estoque de itens médicos, mas obviamente quando acontece uma violência a este nível, estes estoques médicos são rapidamente consumidos e não conseguimos reabastecer, isto é, não conseguimos trazer mais ajuda humanitária para dentro da Faixa de Gaza, porque nada entra, ninguém entra, ninguém sai. E então, obviamente, com esse bloqueio e encurralando as pessoas na Faixa de Gaza, é totalmente impossível para a Médicos Sem Fronteiras e para qualquer outra organização humanitária fazer chegar estes bens essenciais a essas pessoas.

Tem ideia, tem números de quantos médicos da vossa organização ainda continuam na Faixa de Gaza?

Neste momento temos uma equipa de mais de 300 pessoas, 367 para ser preciso, entre staff nacional e staff internacional. A não ser garantida a evacuação de nenhuma equipa, de nenhuma nacionalidade e de pessoal humanitário, obviamente que todas as pessoas neste momento encontram-se dentro da Faixa de Gaza, ou estão no norte ou estão no sul. Neste momento, todas as nossas equipas que se tinham de encontrar em Gaza pré-conflito, digamos assim, que começou no dia 8 de outubro, ainda estão dentro da Faixa de Gaza, a sul, com as dificuldades que enumerei anteriormente, e no norte, com esse cenário verdadeiramente horripilante, custa-nos já encontrar adjetivos para descrever aquilo que está a acontecer. Não precisamos a precisar quantas pessoas dessas é que estão no norte, porque obviamente que essas comunicações são difíceis de manter dia a dia.