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Junta-se agora a este jornal o presidente da CAP, Eduardo Oliveira e Sousa. Bom dia, obrigada por estar conosco. Ouvimos aqui o presidente da EDIA dizer que é quase inevitável que a água vai ter que ficar mais cara para os clientes. Estão preparados para isso?
Muito bom dia. Olhe, é um pouco complicado explicar a razão da afirmação do presidente da EDIA. Eu retive a mais importante, que foi o facto da importância que é uma barragem com aquelas características, que vai garantir, durante um período de seca, a normalidade da vida a quem investiu e a quem está no terreno e, principalmente, às pessoas que vivem no local, que não terão falta d'água no seu abastecimento doméstico. Mas em relação ao preço da água da EDIA, repare que a produção de energia elétrica está a atingir picos de preços como nunca estivemos nos últimos anos. E põe-se a pergunta: se a EDIA produz energia elétrica, por que não consegue receber mais dinheiro pelo valor da energia e vai ter que aumentar o preço da água? A razão tem uma justificação: a EDIA não tem, neste momento, a produção de eletricidade a seu cargo por causa de um negócio ruinoso feito pela administração do governo Sócrates. Isso é um assunto que não compete explicar agora, mas se há uma decisão, que foi uma decisão política na época, terá que haver uma outra decisão política agora para não prejudicar os utilizadores dessa água, para pagarem esse erro do passado e que não tem a ver com os agricultores.
Estamos, de facto, a entrar num novo ciclo político, com o governo de maioria absoluta. Espera que possa haver uma nova forma de olhar, quer para esta questão do Alqueva, quer para os outros problemas do setor da agricultura, Eduardo Oliveira e Sousa?
Obviamente que sim, tenho essa esperança, porque uma das virtudes, vamos lhe chamar assim, do resultado eleitoral, é o fato de termos ficado libertos do garrote que o governo tinha no Parlamento à sua esquerda. Ou seja, agora pode haver maior objetividade nas decisões e a agricultura é um setor fundamental da economia. Veja-se o problema que se está a gerar no país inteiro, em que se o país ficar com uma perspectiva de falências atrás de falências, de prejuízos atrás de prejuízos, por causa da seca, o governo não pode ainda mais agravar as condições desse setor. Portanto, a seca vai trazer variadíssimos problemas ao país, a falta d'água para a rega, a falta d'água para abastecimento público, que neste momento está salvaguardada pelas medidas que o governo tomou, e bem. Mas nós precisamos de olhar para o conjunto do país e perceber que precisamos de voltar ao trabalho da engenharia para perceber onde é que vamos criar maior capacidade de armazenamento, para que todo o país usufrua de soluções idênticas àquela que o presidente da EDIA agora enalteceu. Estamos em seca e não tem água para dois anos e meio.
O que está a dizer é que as medidas que foram anunciadas esta semana pelo governo vão, conjunturalmente, conseguir ajudar os agricultores, mas é preciso mais e são precisas novas barragens, é isso que defende?
Eu não disse que as medidas vão ajudar os agricultores. As medidas vão salvaguardar as poucas reservas para que elas não possam ser utilizadas demasiadamente depressa e, portanto, criar uma situação dramática que possa vir rapidamente. Essa situação dramática, se o tempo vier ainda a trazer-nos alguma chuva, pode não acontecer e por isso são necessárias medidas de contenção. Foi isso que o governo fez. Limitou, proibiu algumas coisas pontuais, mas há uma coisa que nós não sabemos fazer, é a chuva. A água não se fabrica e, portanto, nós temos que saber geri-la. Estou, sim, a dizer que é preciso mais barragens, porque é a primeira vez, eu tenho perto já de 70 anos, e é a primeira vez na vida que eu olho pro mapa da seca e vejo o país 100% abrangido por esse mapa. Temos seca no Minho, coisa que eu nunca vi na vida. Seca em Trás-os-Montes, com a gravidade que eu vi, que eu estive lá na semana passada. A seca de Trás-os-Montes está igual à seca do Baixo Alentejo. Nalgumas situações, até quase pior, porque é uma zona de montanha e, portanto, associada à seca, está o rigor do inverno frio, que também queima. Ou seja, está criado um conjunto, uma mistura de acontecimentos que pode levar o país agrícola a entrar numa asfixia muito complicada. Pode ser que não seja muito longa. E se não for muito longa, as águas que estão reservadas nas barragens minimizam esse impacto. O território, a maior parte do território, não é de regadio. Imagine as centenas de milhares de animais que estão, neste momento, a não terem a sua alimentação natural. Estão a ter que ser alimentados com alimentos que são comprados. Isso é uma asfixia financeira para os agricultores e é também uma perturbação para a própria dinâmica dos animais. O regadio, nalgumas situações, poderá ser mantido devido às reservas acumuladas no ano passado. Lá está a importância das barragens a minimizar o impacto. Mas o território, as florestas. Temos falado pouco no problema das florestas em relação à seca. As florestas estão muito afetadas pela seca, não só em termos da sua capacidade produtiva, mas também pelo que a seca pode significar, pela secura que está a promover naqueles territórios, que vai dar origem a maior perigo de incêndio, como aconteceu agora na semana passada, em pleno mês de janeiro, que tivemos dezenas de fogos florestais.
E, portanto, a situação é mesmo difícil e rara, como estava aqui a dar conta, Eduardo Oliveira e Sousa.
Sem falar ainda nas questões do abastecimento humano, porque é necessário criar reservas e pedir às pessoas do mundo urbano, que são a maioria da população, que vive na faixa litoral do país, que cada vez que abre a torneira, tem que estar a olhar e a ter a responsabilidade de utilizá-la na devida conta e medida.