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O ainda presidente dos Liberais diz que vai continuar como deputado, mas o Observador sabe que uma candidatura ao Parlamento Europeu ou ao Bloco são hipóteses em cima da mesa para o futuro. Em direto ao telefone está agora o politólogo e comentador do Observador, André Azevedo Alves. Bom dia, André.
Bom dia.
Bom dia. Em cinco anos de vida, a Iniciativa Liberal prepara-se já para escolher o quarto presidente. Isto revela alguma instabilidade nas lideranças do partido?
Neste caso, acho que não, porque se virmos, à exceção do primeiro líder, que antecedeu Carlos Guimarães Pinto, quer Carlos Guimarães Pinto, que foi o segundo líder, quer João Cotrim de Figueiredo, creio que saem tendo conseguido os principais objetivos para o partido. Carlos Guimarães Pinto conseguiu a representação parlamentar, conseguiu que o partido basicamente passasse, para todos os efeitos, a existir no Parlamento e na arena partidária portuguesa. E João Cotrim de Figueiredo presidiu ao crescimento do partido de um para oito deputados, à sua passagem à quarta força política, à sua consolidação. E portanto, não me parece que desse ponto de vista haja uma instabilidade, ou pelo menos uma instabilidade que afete o crescimento e o desempenho do partido.
No entanto, agora como sucessores, a questão é se quaisquer candidatos que venham a surgir, para além do nome já assumido de Rui Rocha, têm notoriedade suficiente para o eleitorado comum.
É verdade, e Rui Rocha tem esse handicap, digamos assim, tem esse risco. Também é verdade que no interior do partido, muito provavelmente, só Carlos Guimarães Pinto e, eventualmente, Tiago Malhanha, por ter sido candidato nas presidenciais, mas enfim, para todos os efeitos, essencialmente, provavelmente só Carlos Guimarães Pinto teria níveis de notoriedade comparáveis com João Cotrim de Figueiredo e parece-me que um regresso à liderança de Carlos Guimarães Pinto seria uma opção bastante imprudente por parte da Iniciativa Liberal e do próprio Carlos Guimarães Pinto, que a meu ver demonstrar bastante bom senso a não ceder essa tentação. Também é verdade que quer com Carlos Guimarães Pinto, quer com João Cotrim de Figueiredo, antes de assumirem a liderança do partido, os níveis de notoriedade eram ainda mais baixos do que os de Rui Rocha. É verdade que, ainda assim, considerando o posicionamento que o partido hoje tem, o efetuar essa troca de liderança e os baixos níveis de reconhecimento de Rui Rocha serão um desafio importante a superar.
E parece-lhe que o argumento que Cotrim de Figueiredo avançou para sair da liderança nesta altura, que é uma eventual crise política e uma eventual queda do atual governo, faz algum sentido nesta altura?
Eu parece-me da comunicação de João Cotrim de Figueiredo, esse é o ponto menos relevante. Acho que a saída neste timing, como o próprio Cotrim de Figueiredo refere, é benéfica para o partido no sentido em que se é para sair, este é um bom timing para sair. Mas parece-me que o mais provável é que a saída tenha a ver, pelo menos em parte, com conflitos ou tensões internas que ao longo das últimas semanas e dos últimos meses dos quais fomos tendo alguns sinais. A mim, pessoalmente, a saída neste momento surpreende-me. Portanto, apesar dessas tensões, o facto de se ter avançado para a saída surpreende-me, mas creio que esse será também um elemento, e aliás no mesmo comunicado também há uma referência, não me recordo das palavras exactas, mas ao estilo de liderança e ao que é necessário para o partido agora. E portanto, admito que tenha também pesado, para além de algum desgaste, que é natural, a percepção de João Cotrim de Figueiredo que, face à discussão interna, ele próprio não se sentiria como sendo o melhor protagonista para a nova fase na vida do partido. A referência à maioria absoluta, sendo tudo dados que já eram conhecidos há algum tempo, parece-me menos relevante. E depois há um outro elemento que é o facto de o anúncio ter sido feito por Rui Rocha praticamente de imediato, o facto de ter havido, eu creio que até ao momento, encontrei apoio de quatro outros deputados a Rui Rocha. Portanto, dentro do grupo parlamentar, de onde à partida teria que sair o novo líder, uma maioria de apoio e a própria declaração de não apoio a ninguém de Carlos Guimarães Pinto, digamos, neutralidade, que neste contexto acaba por ser quase uma declaração também tácita de apoio, no sentido em que se a estrutura do partido está a apoiar um outro deputado que se posicionou e se o próprio Carlos Guimarães Pinto não avançando, declara neutralidade, de alguma forma também está a facilitar essa solução. E como foi referido na peça, temos o silêncio de Carla Castro e de Rodrigo Saraiva, que é o líder do grupo parlamentar. Isso sugere que houve uma articulação interna e uma tentativa de estabelecer uma solução que ainda que propiciada em parte pelas tais tensões internas e visões internas diferentes que eu falava há pouco, seja ainda assim uma solução de continuidade e não leva a uma espécie de guerra civil no interior do partido em termos de exposição pública.