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Para nos falar deste prémio, temos conosco Rui Diogo, é especialista em Biologia Evolutiva e Antropologia na Universidade de Howard, nos Estados Unidos. Senhor Professor, boa tarde, bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado pela sua disponibilidade.

Boa tarde.

Senhor Professor, falávamos esta manhã com Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, antropóloga, que manifestava alguma surpresa pela distinção por este trabalho ser distinguido pelo júri do Nobel. Apanhou-o também de surpresa?

Sim, por acaso, sim, esta manhã quando vi, porque geralmente não ganham biólogos, muito menos pessoas que fazem mais trabalho em antropologia, em evolução humana. E então é algo surpreendente. Mas sim, há muitas ligações com medicina, como se está a ver nos últimos anos, por isso também tem a sua lógica.

E que trabalho desenvolveu Svante Pääbo para merecer esta distinção?

Sim, foi algo muito notável porque a única maneira de comparar o DNA, os genes dos humanos com outros seres vivos era comparar com os chimpanzés, que são o ser mais próximo de nós, e com outros animais. E os chimpanzés separaram-se de nós há seis milhões de anos. Ou seja, é demasiado tempo. E todos os humanos são igualmente diferentes dos chimpanzés. O que ele quis fazer e conseguiu fazer incrivelmente, foi dizer: "Olha, há humanos que são mais próximos de nós, que se separaram de nós há 600 mil anos só, que é muito menos que os chimpanzés, e podemos ver o DNA deles e aí saber mais ao detalhe como é que mudaram os humanos, as doenças, etc." E então essa é a grande diferença, é que conseguiu, incrivelmente conseguiu, o DNA de neandertais, que se separaram de nós há 600 mil anos.

Senhor Professor, e como é que isso é feito? Como é que foi decodificado o DNA de seres que já não estão entre nós há tantos anos?

Sim, parece ficção científica. Os ossos conservam um pouco de material ainda vivo. Vivo no sentido em que o DNA, as moléculas orgânicas, há partes que estão ainda lá. Só que o que passa é que é muito fragmentado. Só que ele conseguiu com técnicas incríveis, com truques, biologia, aumentar, de alguma maneira, esses fragmentos e, sobretudo, focalizar na mitocôndria, nos genes do DNA da mitocôndria, que é muito mais fácil para fazer esse tipo de estudo. E finalmente conseguiu, não tem o genoma inteiro, como temos o genoma inteiro de seres humanos vivos, mas o incrível é que ele conseguiu, com outros colegas, fazer essa extração do DNA dos neandertais.

Senhor Professor, e que importância tem esta descoberta? Que aplicação tem este conhecimento?

Sim, aí é que é muito importante, porque uma coisa interessante dos neandertais, sabe-se agora porque ele conseguiu fazer isso, é que, ao contrário dos chimpanzés, por exemplo, alguns humanos vivos ganharam mais DNA dos neandertais do que outros. Por exemplo, as pessoas da Eurásia, da Europa e da Ásia, que era onde estavam os neandertais, têm uma maior contribuição dos neandertais, cerca de 1% a 4% de muitos alelos, enquanto, por exemplo, as pessoas que estão na África não têm tanta contribuição. E isso é muito importante para a medicina de precisão, que é: sabendo de onde somos, a nossa etnia, etc, isso tem a ver com diferentes variações. E os neandertais mostram como as variações têm correlação com a medicina. Por exemplo, eles estavam mais adaptados para o frio, poderão ter doenças que estão mais relacionadas com esse tipo de adaptação, que pode ser boa para o frio, mas má em lugares onde está mais calor, por exemplo, em Portugal, etc. Uma reação do corpo que seja demasiado extrema. E então isso permite começar a personalificar a medicina. Nesse sentido, é muito importante saber mais sobre o gene dos neandertais.

Senhor Professor, muito obrigado pelas explicações que nos deu e por nos ajudar a decodificar este prémio e as razões que levaram à atribuição deste Nobel da Medicina. Estivemos à conversa com Rui Diogo, especialista em Biologia Evolutiva e Antropologia na Universidade de Howard, nos Estados Unidos.