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Os pedidos de ajuda ao Banco Alimentar quase que duplicaram nos primeiros quatro meses do ano. Falamos de que valores?
Em comparação com 2022, entre 1 de janeiro e 20 de abril, em 2023 tivemos 3330 pedidos de apoio, que se comparam com 1725, em igual período do ano passado. A maior parte destes pedidos foram feitos por pessoas que trabalham.
O que representa este aumento?
Para mim é muito preocupante, porque são pessoas que trabalham, portanto têm o seu tempo ocupado e uma remuneração, e aquilo que ganham não chega para pagar todas as despesas do agregado familiar. Muitas vezes são pessoas que tinham as contas equilibradas e o orçamento familiar equilibrado, e que, porque as taxas de juro aumentaram e a prestação do crédito da casa aumentou, ou porque já viviam sem qualquer folga, hoje não conseguem ter comida na mesa para todas as refeições de que necessitam e, portanto, pedem ajuda diretamente à rede de emergência alimentar. A maior parte destas pessoas são portugueses, 63%, 26% são brasileiros e, portanto, são pessoas que trabalham e que são consumidores normais, mas que pedem ajuda para poderem aguentar-se até ao fim do mês.
É uma situação de alerta e preocupante esta notícia e este aumento?
É muito preocupante quando sabemos até que as taxas de juro ainda vão aumentar e quando sabemos que todas as medidas que têm vindo a ser tomadas são balões de oxigênio que não resolvem, de forma mais estrutural, o problema da pobreza no nosso país. É muito preocupante perspetivar-se que vamos ter mais pessoas em situação de pobreza e que parte destas pessoas que estão em pobreza conjuntural vão passar para uma pobreza estrutural. Com isso nós não nos podemos conformar. As campanhas do Banco Alimentar servem precisamente para dar um alerta à sociedade em geral, para sensibilizar a comunidade para esta situação com a qual não nos podemos conformar. E portanto, fazemos este apelo para que quem pode, mesmo que pouco, partilhe um alimento. Quem não puder colaborar, que seja voluntário e que ajude a levar alimento à mesa de outros.
Exatamente por esse ponto, apesar do Banco Alimentar da Madeira ser um organismo diferente do Banco Alimentar de Portugal continental, saiu também hoje a notícia de que há falta de voluntários nesta campanha do Banco Alimentar da Madeira. Isto é algo também verificado no Banco Alimentar de Portugal continental?
Ainda não sabemos, porque ainda não tivemos a campanha. Mas até agora, deixamos aqui o apelo é que todas as pessoas que puderem, que participem como voluntárias, seja nos supermercados, seja nos armazéns do Banco Alimentar da sua região, porque este tipo de campanhas não se fazem sem muitos voluntários. É um fim de semana que sabemos que vai haver calor, também sabemos que é o Dia da Mãe, mas é preciso não esquecer que há muitas pessoas que precisam deste tempo e deste donativo em alimentos para poder ter comida na mesa.
E vão fazer algum tipo de parceria para conseguir ajudar o Banco Alimentar da Madeira perante esta falta de voluntários?
O Banco Alimentar da Madeira tem os voluntários que existem na Região Autónoma e muitas vezes temos o apoio dos escoteiros, de escolas e de empresas, pessoas a título individual, e este apelo com certeza que vai fazer com que mais pessoas possam participar.
Isabel Jonet, quais é que são as regiões do país onde se verifica um maior aumento do número de pedidos de ajuda ao Banco Alimentar?
A região onde se verificou maior aumento foi em Lisboa e Setúbal, porque são zonas onde as pessoas dependem mais do dinheiro para se alimentar e onde há mais concentração de pessoas da classe média baixa. Depois temos a seguir a região do Algarve e a região do Grande Porto. Mas a situação realmente mais gravosa é em Lisboa e Setúbal. Quase 50% dos pedidos são da região de Lisboa e Setúbal.
O que o Banco Alimentar pode fazer também para responder este aumento? Vai aumentar o número de ajudas?
O Banco Alimentar aquilo que procura fazer é não falhar com a ajuda e angariar mais alimentos para poder entregar através das instituições parceiras. E portanto, essas campanhas de recolha são muito importantes, mas para além dessas campanhas de recolha, temos os produtos que podemos obter com os donativos à rede de emergência alimentar e temos doações diárias, seja da indústria agroalimentar, seja dos mercados, seja das cadeias de distribuição ou também dos agricultores. Infelizmente, não tem havido retiradas de fruta e legumes. E portanto, penso que o Ministério da Agricultura poderia fazer com que houvesse maior incentivo a que os frutos Que não são colocados no mercado, porque têm um tamanho pequeno ou porque para o preço não baixar, pudessem ser encaminhados para doação. No primeiro semestre, não houve fruta, praticamente, destas retiradas de fruta. Mas, apesar de tudo, aquilo que procuramos é não diminuir a quantidade de alimentos que há no cabaz. No entanto, se há muito mais pedidos, cada pessoa ou cada instituição recebe menos para dar a mais bocas. E isso significa que tem que se dividir o que há por mais pessoas. É por isso que temos que garantir que estas campanhas têm um resultado que nos permita manter este apoio alimentar.
Portanto, mais do que nunca, é necessário que haja mais pessoas a ajudar, mais voluntários, não só nos supermercados, mas também nos armazéns.
Sim, e é também por isso que temos na campanha online, em alimentaerstaideia.pt, ainda até ao dia 14 de maio, a possibilidade das pessoas, seja quem vive em Portugal, seja quem está no estrangeiro. E o apelo que deixamos a tantos portugueses que foram procurar melhores condições de vida no estrangeiro, nomeadamente mais jovens, que não deixem de ter em atenção todos os portugueses que ficam cá em Portugal e que não têm as mesmas oportunidades.
As pessoas podem contribuir para o Banco Alimentar também de que outras formas?
Podem contribuir através do canal online, em alimentaerstaideia.pt, ou comprando um vale que está disponível nos supermercados. Mas neste fim de semana, o grande apelo é ao voluntariado e à doação de produtos aos voluntários que estão em todas as lojas, devidamente identificados com a camisola do Banco Alimentar, que as pessoas aceitem o saco de alimentos e que coloquem dentro desse saco de alimentos, um, dois, três alimentos igual ao que vão comprar para sua casa. Nós privilegiamos os alimentos básicos, que permitem um tempo de distribuição, como o azeite, o óleo, o arroz, a massa, enlatados, cereais de pequeno-almoço, açúcar, farinha. Mas se as pessoas tiverem vontade de partilhar algo diferente, porque é aquilo que comem em casa, como leite para bebês, chocolate, o que seja, todos os alimentos são bem-vindos. O tema aqui é precisamente este incentivo à partilha. Eu vou partilhar com outros que não têm, aquilo que eu como na minha mesa. E portanto, nós esperamos assim também poder reforçar a solidariedade. Os portugueses doam mais aquilo que comem e, nas campanhas de recolha, os produtos que são mais doados é o leite, é o arroz, é o azeite, as massas, mas como lhe digo, todos os alimentos fazem falta.