Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Os juros da dívida portuguesa há 20 anos atingiram ontem máximos de quase uma década. O governo português prevê um novo agravamento dos encargos no próximo ano.

Em causa estão os receios dos investidores em relação a uma subida das taxas de juro dos bancos centrais para controlar a inflação. Ontem, os juros da dívida portuguesa subiam cerca de três pontos base para o valor mais alto desde 2017. As subidas dos juros das obrigações de outros países são ainda mais intensas, como é o caso de França ou de Itália. De resto, também as taxas de dívida dos governos da zona euro têm estado em alta. O governo português estima que no próximo ano os juros da dívida portuguesa acrescentem mais €776 milhões à despesa do Estado. Junta-se a nós, em direto, Pedro Lino, analista de mercados e CEO da Optimize. Bom dia, Pedro Lino. Como é que estão hoje a negociar os juros da dívida?

Bom dia, Luís. Os juros continuam a subir. No caso português, estão a subir cinco pontos base, 3,68% para 3,72%, as obrigações a 10 anos. Nos Estados Unidos até estão estáveis nos 4,80%, mas em máximos de 20 anos. Na Alemanha continuam também a subir para 3,37%, máximos desde 2011. E a França, que já está a ser um problema para a zona euro e com as eleições aproximando, ainda pior, está nos cerca de 4,25%. Ou seja, a França, neste momento, paga mais de 0,5% acima de Portugal, que era algo impensável há uns anos atrás.

Percebemos que isto é um cenário idêntico em vários países. Aquilo que lhe pergunto, Pedro, é se há motivos para preocupação perante esta subida dos juros.

Há motivos para preocupação, ainda não de alarme, porque o que está a fazer os juros subirem? Temos dois fatores. Por um lado, o Índice de Preços ao Consumidor, que está a subir. Nós nos últimos dois dias tivemos o IPC em Portugal e o Índice Harmonizado de Preços ao Consumidor que mostraram uma subida da inflação de 3,3% no Índice de Preços ao Consumidor e 3,6% no índice harmonizado, bastante acima do objetivo do Banco Central Europeu. E mesmo na zona euro, 3,3% é uma inflação muito elevada. Isso tem a ver, sobretudo, pela subida dos preços da energia, petróleo e gás, que afeta toda a economia. Mas, por outro lado, temos também a oferta de dívida que está a ser na ordem dos trilhões de dólares ou de euros por ano. E temos os governos a precisarem de emitir mais dívida. No caso dos Estados Unidos, a dívida ultrapassou os $ 40 trilhões e com os juros mais altos, significa que só para financiar essa dívida vão ser necessários custos anuais e novas emissões de dívidas de cerca de $ 1,3 trilhão. Mas também temos agora a concorrência das empresas, incluindo a social. Para financiarem os ambiciosos programas de crescimento, todas estão a ir ao mercado. E nós vimos a Alphabet, empresas como a Amazon, a Broadcom, todas elas estão a ir ao mercado, a emitir dívidas, a SpaceX, na ordem dos milhares de milhões de dólares, porque precisam de se financiar os seus planos de crescimento. E, na realidade, o que estão a fazer é uma concorrência aos governos, porque se essas entidades precisam todas de emitir dívida, claro que os investidores vão subscrever as dívidas ou as emissões que pagam mais juros, e nisso os governos também vão ter que acompanhar. Por isso temos essas duas componentes: mais dívidas a ser emitidas no mercado e o Índice de Preços ao Consumidor, que irá espoletar uma subida das taxas de juro no Banco Central Europeu já na próxima semana.

E isso pode ter impacto também no momento em que o governo português prepara o orçamento do próximo ano, não só no agravamento da fatura com juros, mas também na necessidade de manter contas certas e contas equilibradas para não agravar essa tendência de subida dos juros?

Portugal está um pouco protegido. É verdade que a fatura com os juros vai subir dos cerca de 7,1 mil milhões este ano para quase 8 mil milhões no próximo ano, ou seja, pouco mais de 10%. Mas também não nos podemos esquecer que a economia portuguesa tem uma dinâmica muito diferente do resto da zona euro. E os dados do crescimento, que foram conhecidos na semana passada, demonstraram que Portugal está a crescer a cerca de 2,5%, enquanto a zona euro cresce a 1%. Este dinamismo da economia portuguesa pode fazer com que este aumento do peso dos juros da dívida seja relativizado. Mas de qualquer das formas, estamos num ambiente económico de muita incerteza, com a crise do Médio Oriente a prolongar-se, e vamos ver se isso não se torna numa Ucrânia, e todas as cautelas são poucas e o governo deve acautelar também no próximo ano manter as contas certas, porque é isso também que está a proteger o país de situações como, por exemplo, a França, que neste momento está a pagar juros muito superiores.

Pedro Lino, muito obrigado por ter estado em direto conosco, analista de mercados e CEO da Optimize.

Obrigado a ambos.

Bom dia, obrigado por nos ajudar aqui a olhar para as taxas de juro da dívida que, como percebemos, continuam hoje a agravar-se