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Augusto Inácio, perdeu-se um grande jogador, um gênio da bola, o melhor jogador do mundo?

Boa tarde a todos. Obrigado pelo convite para falar convosco um pouco e com os nossos ouvintes. Estamos a falar do Diego Maradona, estamos a falar de um gênio do futebol que apareceu no seu tempo como uma grande figura e que perdurou durante muitos anos. Era realmente um jogador diferenciado de todos os outros, por isso é que ele era o melhor do mundo naquela altura. E quando se quer fazer a comparação se ele foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos, eu gostaria mais de dizer nas décadas que se jogou, porque as ferramentas que se tem hoje não se tinha há 20 ou 30 anos. A forma como se trabalha hoje também é diferente. Agora estamos a falar só do perfil do jogador. Dizer que é o melhor do mundo. Sinceramente, posso dizer que é um dos melhores do mundo. Dizer que é o melhor do mundo.

É uma discussão sempre altamente subjetiva.

Claro, estamos a falar de Messi, estamos a falar de Cristiano Ronaldo, estamos a falar de Eusébio, estamos a falar de Pelé-

Puskás.

E Puskás e Maradona. É muito difícil dizer que é o melhor jogador do mundo nesses termos.

O que diferenciava Diego Armando Maradona dos demais?

Acima de tudo, a sua imprevisibilidade que tinha nos lances. Ele era capaz de pegar na bola e ele sozinho resolver um jogo.

Como é que é o gol contra a Inglaterra?

Era isso que eu ia falar. Aquele gol que ele marca contra a Inglaterra fez-me lembrar quando o Porto jogou com o Heerenveen na Taça dos Campeões Europeus, em Viena, que o Futre tem uma jogada parecida com aquela do Maradona e só não fez foi o gol, mas o Maradona fez gol. E também tinha tanto de talento como também tinha de malandragem, porque aquele gol que ele marca, salvo erro, também à Inglaterra com a mão, que ele até disse que foi um gol com a mão de Deus, também tinha um pouco dessa malandragem e faz parte também de um gênio do futebol. Mas realmente era aquele jogador que para ele táticas era impossível, não havia.

O lance era defesa, como é que se marcava um jogador com estas características?

É dando-lhe umas porradas, é não deixar ele pegar na bola e ir para cima, marcá-se mesmo em cima para que ele não pudesse se virar, porque ele virando de frente, o defesa não tem hipótese nenhuma, ele defesa ou um adversário qualquer não tem hipótese nenhuma, porque ele era versátil no seu drible, era pra direita, era pra esquerda, ele passava a bola pra um lado, ia pro outro. Nesse aspecto do um contra um, havia muita também de parecenças com o Chalana. O Chalana também tinha muito disso, do um contra um, era quase impossível travá-lo, mas o Maradona era aquele que ia pra frente, rompia as defesas e marcava gols, importou-se de marcar gols. Mas era realmente aquele. O que é o talento, o que é o grande jogador? É aquele que quando pega na bola, as pessoas estão todas na expectativa: o que esse jogador vai fazer? Ninguém sabe o que ele vai fazer. Há aquelas jogadas que são estudadas, aqui vai buscar à frente, vai à direita, vai à esquerda, vai aparecer o primeiro poste ou não vai. Mas ele não, ele pega na bola e as pessoas estão na expectativa assim: o que esse homem vai fazer? Porque ninguém sabe o que ele vai fazer. Isso torna um jogador grandioso como ele foi.

Ainda por cima tinha aquela capacidade de controlar a bola com os dois pés.

Era com os dois pés e depois tinha uma coisa que é difícil de fazer, que é o controle de movimento e jogada de cabeça levantada. Ele não jogava com a cabeça no chão. Ele olhava o adversário de frente e dominava a bola com os pés, com o direito e com o esquerdo. Por isso é que muitas vezes as pessoas não sabiam o que ele ia fazer. Porque esse movimento de correr em velocidade com a bola e olhar pra frente, normalmente a tendência é olhar pro chão para ver o espaço onde está a pisar. É muito difícil essa combinação e ele fazia isso muito bem.

Lamenta não ter tido a oportunidade de o defrontar no México 86?

Eu lamento, porque gostávamos que Portugal fosse mais longe. E Portugal não foi. Mas jogar contra essas grandes figuras é aquilo que um jogador quer jogar, quer jogar aqueles grandes desafios. Naquela altura, a Argentina uma grande equipe e o Maradona era o melhor jogador do mundial naquela altura. E claro que gostaria, porque jogar contra os melhores jogadores é sempre, eu não digo uma motivação extra, mas é sempre alguma coisa que a gente aprende sempre. Depois, no futuro, em algumas situações, quando apanhamos aqueles jogadores menos talentosos, mais fácil desarmar do que aqueles que têm esse talento.

Já aqui falamos sobre a eliminatória do Sporting com o Nápoles em Alvalade para as competições europeias. Falamos aqui com o Sousa Cintra, da altura, presidente do Sporting, que esteve em Alvalade a acompanhar esse jogo.

Não, não estava cá. Acho eu que não estava cá.

Augusto Inácio, já falou no gol de Diego Armando Maradona contra a Inglaterra, em que ele passou por metade da equipe inglesa. Há um outro gol, um outro momento que recorde particularmente?

Não há, porque ele teve momentos brilhantes, ele no meio de tantos gols, marcou muitos gols brilhantes. Mas acima de tudo, era aquela capacidade de ele percorrer, por exemplo, 30 metros com a bola, a passar pelos adversários que aparecessem no caminho, e depois tinha a capacidade e o discernimento, depois no momento do gol, ele conseguia colocar a bola e meter a bola dentro do fundo da baliza. Ou seja, quem percorre tantos metros com a bola dominada, a driblar adversários e chegar à entrada da área ou dentro da área e escolher o ângulo onde quer marcar o gol, só está ao alcance daqueles que são os eleitos também fisicamente, porque ele fisicamente lá está tal coisa. E ele como não corria atrás dos adversários, tinha aquela capacidade e aquela resistência de do meio-campo pra frente marcar a diferença, porque nunca vimos o Maradona, por exemplo, a vir ajudar o lateral esquerdo ou vir ajudar o lateral direito. Não, do meio-campo pra frente entregue-lhe a bola que ele resolve. Era o que eu dizia, um pouquinho, não igual, mas para dar uma diferença, o Paulo Futre jogava no lado esquerdo comigo, mas o Paulo Futre é do meio-campo pra frente, mas pra vir pra trás eu chamava: "Ô Paulo, anda pra trás." Ele dizia: "Ô sócio, fica aí que eu agora não aguento mais." Pra recuperar forças do meio-campo pra frente, jogar outra vez e marcar a diferença.

Acha que Diego Armando Maradona teria um impacto diferente na forma como o futebol hoje é jogado?

Eu acho que ele ia ter mais dificuldade. Eu acho que ia ter mais dificuldade, porque as equipes trabalham melhor taticamente, também são mais resistentes. As marcações são muito mais rigorosas e antigamente o futebol, fim dos anos 30, há 30 anos atrás, tinha mais espaços, os setores não estavam tão interligados, não havia tanta contenção com a bola e depois, a partir daí, para ataques combinados ou rápidos. E ele, na minha opinião, não deixava de ser o grande jogador que foi, mas se calhar não marcava tanta diferença agora como marcou naquele tempo.

Agradeço-lhe. Augusto Inácio, antigo jogador do Porto, do Sporting e também treinador de futebol. Foi campeão ao serviço dos Leões, aqui a recordar Diego Armando Maradona, o astro argentino que morreu hoje aos 60 anos.