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Na ilha de Lesbos está, nesta altura, Fabiana Faria, uma jovem portuguesa de 23 anos que se junta agora a nós nesta emissão. Fabiana, bom dia. Qual é o ponto da situação neste momento?
Olá, bom dia. É assim, neste momento a situação é de caos total. Caos total não só no sentido do cenário pós-apocalipse que se está a passar neste momento em Moria, de que tanto no interior do campo como exterior só se vê tudo queimado, preto, pilhas de cinzas, fumo por toda a parte, papéis queimados, brinquedos queimados, é um cenário horrível. O mesmo se aplica à resposta que está a ser direcionada para tudo o que está a acontecer agora em Moria, no sentido em que não há uma coordenação das autoridades a dizer: "Ok, é este o plano, é isto que vai acontecer". Estamos todos a ter uma imensa dificuldade sequer a aceder ao campo. Há bloqueios policiais, não só no campo, também a alguns quilómetros do campo, na estrada que dá acesso ao campo, e é nesta estrada que Moria está cerca de 15 minutos a conduzir do centro da cidade. Entre Moria e o centro da cidade tem-se às centenas e centenas de pessoas que ontem à noite, obviamente, tiveram que fugir pelas suas vidas. Entre estes grupos de pessoas estão, obviamente, toda a gente que está em Moria é super vulnerável, mas mais do que nunca. Famílias inteiras, bebés recém-nascidos, crianças, pessoas em cadeiras de roda, menores acompanhados. Já para não mencionar que toda a população são sobreviventes de violência sexual, tortura, perseguição política, etc. É caos total e absoluto.
Portanto, os refugiados não estão a ser acompanhados, porventura encaminhados para um outro local até que possa ser normalizada a situação no campo de Moria?
Não, não está a haver neste momento nenhum esforço no sentido de providenciar alojamento temporário de emergência à população. O que aconteceu, inclusive, foi ontem à noite, a população tentou sair do campo porque estava em perigo de vida, tentou sair do campo e caminhar até à cidade. Houve esforços das autoridades para bloquear as pessoas que querem chegar à cidade. É muito preocupante não haver qualquer tipo de esforço a providenciar alojamento, principalmente tendo em conta o facto de que esta semana foram confirmados os primeiros casos de Covid-19 no campo. Além de que Mitilene, desde que as autoridades abriram a ilha ao turismo, teve muito mais casos confirmados de Covid-19. Portanto, temos não só pessoas muito vulneráveis a não ter um sítio onde estar, mas temos uma população, mesmo entre os requerentes de asilo e os refugiados de Moria, uma população saudável a misturar-se com uma população que já estava em quarentena, porque foram testados para Covid e não sabiam os resultados, mais a misturar-se com uma população igualmente saudável e de casos de Covid, Mitilene, isto eventualmente vai acontecer. Portanto, Moria não só é que com este ano de 2020, que já teve ataques da extrema-direita a organizações requerentes de asilo e refugiados, teve a adaptação toda à pandemia mundial, que resultou numa retórica e numa política das autoridades gregas confinarem todos os residentes de Moria ao campo, porque uma vez que pandemia, Lesbos não teve muitos casos, a população grega e internacional eventualmente voltou a ter o direito a sair, não houve tanto lockdown. Moria continuou a estender. Esta semana tivemos os primeiros casos confirmados e agora temos um incêndio que destrói o campo. É muito difícil ainda ter a percepção exatamente de todos os danos no campo, porque, como disse, as organizações não estão a ter acesso. Alguns médicos sim, muito poucos, equipas muito reduzidas, mas a maioria do campo está destruído. Portanto, se uma pessoa achava que 2020 não podia ser pior, acabou de piorar drasticamente. Desde o início do ano que Moria é uma bomba-relógio e agora a sensação é que estamos nos últimos segundos antes de tudo detonar.
Fabiana, ainda há refugiados no interior do campo de Moria?
Claro, as pessoas não têm para onde ir, temos uma população de, no mínimo, 14 mil pessoas. Como é óbvio, há tendas e há certas estruturas que sobreviveram. Portanto, há pessoas que preferem ficar no campo, porque ou é ficar no campo ou a alternativa é ficar na rua, literalmente na estrada.
Menores acompanhados.
Desacompanhados, menos acompanhados, ou seja, não há um esforço sequer para dar alojamento, para dar comida, para dar água, para dar medicação. A assistência médica, como disse, são as organizações que estão a pegar em alguns quantos voluntários e tentar ir a Moria e estão a deparar com grandes dificuldades com as autoridades, sequer para lhes permitirem acesso. É todo um sistema que não está a acontecer de todo. Ou seja, não há uma resposta coordenada nenhuma por parte das autoridades. Há muitas organizações a tentar ajudar um bocadinho. Esse bocadinho, inclusive, é super dificultado pela situação com as autoridades e mesmo com requerentes de asilo, ouvimos relatos de pessoas residentes no campo de abuso da força policial e de tentar utilizar a força para controlar, como é óbvio, podem imaginar, quando acabaram de sobreviver a um incêndio de horas, as pessoas estão muito agitadas. E fazer um controle de multidões utilizando força e gás lacrimogéneo, como ouvimos relatos, ainda que não confirmado, é muito problemático.
Fabiana, já se percebeu o que é que esteve na origem destes incêndios? As notícias que temos lido estabelecem um nexo de causalidade entre a detecção dos primeiros casos de Covid, da obrigatoriedade das pessoas a quem foi detetado o novo coronavírus terem de cumprir um período de quarentena e o início destes incêndios. Esta relação faz sentido ou é abusivo pensar que uma situação decorre da outra?
É assim, eu não posso dar nenhuma resposta em relação à causa, infelizmente, do incêndio, mas gostava só de deixar a reflexão que parece muito estranho, é possível que a causa tenha sido É um acidente. Fogo posto por quem? Moria é um contexto muito difícil, neste momento muito estressante, tendo tanta gente fechada no campo há meses. Mas também gostava de deixar a reflexão que Lesbos está a ser vítima de ataques da extrema-direita desde o início do ano. É muito fácil para grupos de extrema-direita criar esta retórica de "vamos queimar o campo" e dizer que são os refugiados e os requerentes de asilo a fazer isto a eles próprios. Portanto, convém que as pessoas tenham um pensamento muito crítico ao ler as notícias e que tenham, neste momento, em mente que ninguém tem informação confirmada do que aconteceu em Moria.
Uhum. Fabiana, está integrada numa organização não-governamental. Há quanto tempo está em Lesbos?
Eu estou em Lesbos há cerca de dois anos e meio, neste momento.
Uhum. E qual é a ONG a que pertence?
Eu trabalho na organização Phoenix Humanitarian Legal Aid. Nós providenciamos apoio legal e serviços sociais a requerentes de asilo e refugiados. Portanto, isso significa que nós somos uma equipa de advogados e de case workers, é melhor o termo do que assistentes sociais, ou mais preciso. Preparamos pessoas para as suas entrevistas de asilo, trabalhamos em casos de reunificação familiar em outros países europeus, mas ao mesmo tempo temos uma perspectiva de apoio legal, tem que ser o mais holístico possível. Portanto, temos esta equipa de case workers que também tenta providenciar alojamento, assegurar acesso a cuidados de saúde mental. Às vezes coisas tão simples como assegurar que uma pessoa tenha acesso à roupa que precisa, porque quão bem é que um advogado pode preparar um cliente para a sua entrevista de asilo, se na noite anterior esta pessoa esteve o tempo todo na sua tenda a morrer de medo de sair, porque é uma mulher solteira e prefere usar uma fralda do que ir à casa de banho. Se está a ter o momento da entrevista, depois de horas e horas do advogado a prepará-los para essa entrevista, se tem alucinações, se está com tanto frio que nem sequer consegue pensar. Por isso, esta é a abordagem da nossa organização, que não é só ter advogados a preparar para as entrevistas de asilo e a dar apoio, ou seja, em geral, no caso legal, é também ter uma equipa a cuidar de todas as outras necessidades que uma pessoa num contexto de crise humanitária tem.
Fabiana, ao longo destes dois anos de permanência em Lesbos, tem notado alguma evolução nas condições de acolhimento dos refugiados?
Para melhor ou para pior?
Para melhor. Parto do pressuposto para melhor.
Não. Foi exatamente o que expliquei, que só este ano de 2020 as coisas têm ido de mal a pior, mas de uma forma que ontem estávamos a ter reuniões de equipa a discutir toda a situação desde o início do ano, como é que podemos ajustar mais e mais a nossa maneira de trabalhar às condições que vimos aqui no campo. Já estávamos a refletir sobre todas estas situações que mencionei anteriormente, em relação a ataques de extrema-direita, pandemia, casos confirmados de Covid-19 no campo, e a pensar: "2020 não pode piorar." Piorou imenso. Nos outros anos, houve um passo para frente a melhorar, três passos para trás. É sempre a lógica em Moria. Este ano nem nos permite sequer pensar como é que foi 2019, porque parece uma realidade longínqua, como se fosse há 20 anos. Tem que haver mais esforços de coordenação entre os Estados europeus para assegurar que há uma resposta apropriada a esta crise humanitária, porque muito que continuemos com esta retórica de ajudar os mais vulneráveis, vamos evacuar os menores acompanhados, vamos evacuar as famílias com situações médicas muito complicadas, a realidade é que todas as pessoas que estão no campo de refugiados, que entram num barco para passar da Turquia e chegar a Lesbos, todas elas são vulneráveis. O que aconteceu em Moria é uma consequência de os Estados europeus não estarem a responder completamente às suas responsabilidades em termos de ajuda humanitária e de direitos humanos.
Agradeço. Fabiana Faria, uma jovem de 23 anos, integra uma organização não-governamental, está há dois anos e meio em Lesbos e traça aqui este retrato cru e cruel do incêndio que afetou o campo de refugiados de Moria e que obrigou a que milhares de pessoas, mais de 12 mil pessoas, tenham sido obrigadas a abandonar este campo afetado por um incêndio durante a madrugada.