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Rádio Observador. O Mundial 2026 está à porta e, por isso, avaliamos desde já os impactos económicos que podem ter na economia portuguesa, não só com os jogos de toda a competição, mas principalmente daquilo que será a presença da equipa das Quinas, da Seleção Nacional Portuguesa de Futebol, neste Mundial 2026. E para analisar estes números, tenho comigo o professor Daniel Sá. Ele é o diretor e organizou um dos estudos que aponta uma mudança estrutural no modelo económico do futebol. Diz mesmo que este campeonato do mundo pode gerar quase € 1 mil milhões em Portugal, concretamente € 945 milhões. E juntou vários fatores, não só do consumo interno, também o papel do digital, que já lá vamos. Mas antes disso, professor, mais uma vez muito obrigado por gravar esta entrevista para a Rádio Observador. Como é que chegaram a estes € 945 milhões?

Nós acompanhamos este tipo de fenômeno já desde 2012, acompanhando sempre as presenças de Portugal em europeus e mundiais. E este é o modelo que, de alguma forma, estima os nossos pequenos comportamentos, os nossos e os das empresas, mas que todos somados acabam por dar valores muito significativos. Este estudo aponta-nos um intervalo num cenário mais pessimista. O cenário mais pessimista é a fase que estamos aqui a viver de estágio da seleção e garantidamente três jogos na competição. A fase mais otimista é colocar mais cinco jogos em cima. A nossa seleção deixa-nos encantados e conquista o mundial. E, portanto, naturalmente que o impacto está dependente da performance desportiva e ele pode começar nos € 380 milhões no cenário mais pessimista e num cenário mais otimista, que é a vitória na competição, chegamos aos tais quase € 950 milhões distribuídos em múltiplos comportamentos e atividades de empresas também.

E antes, só para também aqui indicar um número que este estudo aponta, mais ou menos para uma fase intermédia, poderíamos chamar, por exemplo, os oitavos de final, o impacto poderia atingir cerca de € 560 milhões. Este estudo fala muito naquilo que é uma mudança estrutural, naquilo que é o consumo do futebol. Muito ainda se faz em termos tradicionais, numa simples televisão, junto nos amigos com o café ou até, por exemplo, numa fan zone. Mas este mundial ficará muito marcado pela entrada com força das plataformas de streaming e, por exemplo, em Portugal, há detentores dos direitos televisivos do Campeonato do Mundo que vai apostar nas transmissões televisivas através, por exemplo, do YouTube. Pergunto-lhe se esta competição é quase como o pontapé de saída para uma nova forma de se ver futebol em Portugal.

Confirma-se. O estudo aponta claramente para isso, uma nova forma. Eu gosto de recuar 60 anos, aliás, até ao mundial de Eusébio, em 66, e quem quisesse naquela altura acompanhar o mundial tinha basicamente três opções. A primeira, ouvia o relato, a segunda, lia o jornal do dia seguinte, a terceira, a BBC começou a transmitir os jogos pela primeira vez. Sessenta anos depois, os 90 minutos de cada jogo são menos importantes. Por quê? Porque nós consumimos antes, durante e depois, tudo em tempo real, em múltiplas plataformas, 24 horas por dia e nos 50 dias da competição. Portanto, isto provoca um consumo distinto e, portanto, somando ao consumo tradicional, que é comprar uma camisola, comprar um cachecol, fazer uma coleção de cromos, beber umas cervejas e comer umas bifanas em casa ou fora para assistir ao jogo, apostando, ou seja o que for. A partir de agora, o consumidor partilha conteúdos, promove conteúdos e acaba por consumir não apenas os 90 minutos, mas todo o enredo que acontece antes, durante e depois de cada jogo. E, portanto, isto faz multiplicar a visibilidade mundial e as próprias marcas, que antigamente os grandes patrocinadores investiam apenas no mundo tradicional, acompanham esta atenção digital e canalizam os seus investimentos também para comunicação digital. E, portanto, é de todos estes comportamentos novos que resulta todo este valor significativo.

E o valor que este estudo aponta, por exemplo, um adepto casual que apenas se dedicava a ver o jogo a partir de mais ou menos uma hora antes de ver a partida, poderia lá estar, fazer essa coleção de camisolas. Há a questão também das cadernetas de cromos, que este ano, pelo menos ao que tudo indica, há um boom ainda maior e basta ir a papelarias e outros espaços comerciais que vendem, por exemplo, saquetas e vemos que estão totalmente esgotadas. Mas esse adepto casual, aponta o estudo, poderia gerar entre 40 a 70 € durante esta competição. Enquanto estes novos adeptos, podemos assim chamar, mais intensivos e mais digitais, atingem valores muito superiores. Estamos a falar de valores em que ordem?

O estudo aponta precisamente para três tipos de consumidor do mundial, precisamente que era poético achar que todos nós vivemos o mundial da mesma maneira. Evidentemente que não. E, portanto, se o tal consumidor casual, que normalmente vê apenas os jogos da seleção ou os grandes momentos, não passa dos 40 a 70 € de dinheiro que gasta durante o mundial de futebol, de fato, há outros dois tipos de consumidores onde a conversa é completamente diferenteO consumidor intensivo é aquele que acaba por dar atenção a praticamente toda a competição, vê a grande maioria, senão a totalidade dos jogos, acompanha com muito fervor e intensidade nas tais multiplataformas. Os gastos já podem começar nos €200 e podem parar nos €3.500. Isto por quê? Há gente que se mete no avião e vai para os Estados Unidos ver os jogos. Não é muita, mas há aqui, de facto, um conjunto pequeno, em termos de tamanho de adeptos, que o faz. E depois há a terceira linha, que é este adepto digital, este cada vez mais ativo e cada vez menos passivo neste consumo, que consome streaming, consome conversas de diferentes abordagens, interage, partilha nas redes sociais, gera atenção mediática e este consumidor, este adepto digital, também pode, nalguns casos mais extremos, até porque temos aqui um segmento hoje em dia muito forte que são os influenciadores, pode ir, em termos de gasto, até os €2.000 durante uma competição, que tudo junto entre o estágio e a final, estamos a falar de quase 50 dias do Mundial de Futebol.

Sim. E eu pergunto-lhe muito diretamente, até porque estamos a falar aqui de nove tipos de adeptos, pergunto-lhe como é que as marcas, tradicionais ou novas, reagem a estas constantes mudanças daquilo que é o comportamento dos adeptos. E quem diz marcas, diz, por exemplo, também, órgãos de comunicação social que, mais uma vez referindo essa nova vaga de plataformas de streaming, terão que certamente mudar aquilo que é a abordagem à cobertura do Campeonato do Mundo.

Sem dúvida. Também aí o que nós temos assistido é uma mudança significativa. Recuando de novo ao Eusébio, há 60 anos, digamos, um canal de televisão transmitia o jogo e fazia aquele relato convencional do jogo. Ora, quando avançamos pra frente, vemos que praticamente todos os órgãos de informação, e o Observador é um excelente exemplo disso mesmo, acaba por se desmultiplicar em formatos, em ângulos, em plataformas que utiliza e nos canais que utiliza também, precisamente para ir decompondo, fragmentando os diferentes momentos que o Mundial de Futebol tem, para o entregar à sua audiência, que também é distinta, como é evidente. E no caso dos patrocinadores acontece o mesmo. Antigamente, uma das grandes marcas que investisse no Mundial de Futebol como patrocinador da seleção, criava um anúncio publicitário, fazia um outdoor e um anúncio de rádio e de imprensa e investia na repetição dos anúncios, que eram iguais praticamente o tempo todo. Hoje em dia as marcas não fazem nada disso. Acompanham em tempo real o que está a acontecer e vão comunicando em função disso, porque, de novo, já não interessa só o jogo. Claro que interessa o resultado, ele é importantíssimo, mas o público hoje não consome apenas o resultado desportivo, consome como é que está o Ronaldo, como é que está o estado anímico, como é que está o selecionador, como é que foi a viagem, vamos ganhar, vamos perder, vamos empatar. Há polêmica, há VAR, alguma picardia com algum adversário.

Muito mais variantes, exato.

Nós consumimos muitos momentos de uma longa-metragem, na verdade.

E para terminar esta entrevista, até porque este estudo já aborda o Mundial 2030, que será organizado em Portugal, em Espanha e também Marrocos. Há uma fase inicial que se vai organizar nos países da América do Sul, creio que Argentina e Uruguai, mas há certamente muitas aprendizagens que vão ter que ser tomadas e tem que ser, neste caso, aprendidas, passo aqui o pleonasmo, daquilo que decorrer deste Campeonato do Mundo. Este Campeonato do Mundo também vai ser organizado num grande mercado de mídia, não fosse o país os Estados Unidos da América, mas por isso estes números do impacto que Portugal pode ter no Campeonato do Mundo, ou seja, a economia portuguesa pode beneficiar em 945 milhões de euros. Apesar deste número já ser bastante elevado, não quer dizer que se o Mundial apenas for transportado em termos geográficos para Portugal, que este impacto seja o mesmo. Pergunto-lhe que aprendizagens é que Portugal enquanto país deve ter para conseguir ter um impacto ainda maior.

Essencialmente, aprender com esta nova forma de consumo de futebol e ter uma estratégia para maximizar. Ora, se Portugal organizasse este evento há 20 anos atrás, ou quando tivemos a oportunidade de organizar o Euro 2004, o grande objetivo nesse período era maximizar ao máximo a presença das pessoas que nos visitavam. Portanto, que os nossos restaurantes estivessem cheios e que os nossos hotéis estivessem cheios com os adeptos que cá vinham. Essencialmente, o Euro 2004 terminava quase aí o esforço de maximização. Hoje em dia, nós não estamos apenas dependentes das pessoas que virão cá, mas, de novo, este peso do consumo digital vai seguramente crescer nos próximos quatro anos, porque a tecnologia em quatro anos vai permitir ainda novos formatos de consumo que nós ainda hoje não temos noção que eles podem acontecer. E, portanto, o grande conselho que eu deixaria era uma estratégia integrada de físico com digital para esse mundo de 2030, que nós ainda não sabemos muito bem qual vai ser.

É estar certamente atento às novas tendências e acima de tudo aos novos-

E antecipá-las, sobretudo.

Assim fica esse conselho. Professor Daniel Saião, que é diretor-executivo do IPAM, esta organização que organizou, passo novamente o pleonasmo, um estudo sobre os impactos econômicos que a economia portuguesa pode ter no Campeonato do Mundo, em caso de conquista, ou pelo menos em caso de chegada ao jogo derradeiro desta competição, a economia portuguesa pode beneficiar em quase 950 milhões de euros. Professor, mais uma vez, muito obrigado.

Obrigado, foi um enorme prazer.

Obrigado.

Foi uma bela conversa. Bom trabalho. Obrigado