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Manhã de sexta-feira, o governo vai avançar com parcerias público-privadas em cinco hospitais: Braga, Loures, Amadora-Sintra, Vila Franca de Xira e Garcia de Orta. Este último é a primeira vez na sua história que irá receber um sistema deste feitio. Estou com Pedro Sousa, da Comissão de Utentes de Saúde da Amadora. Muito obrigado por aceitar o convite da Rádio Observador para esta entrevista. Estamos a falar de um hospital que nos últimos tempos viu o seu diretor de serviço de urgência demitir-se e alegar motivos pessoais. Esta demissão teve efeitos desde o primeiro dia de fevereiro. A questão que eu lhe coloco é se este regresso às PPPs pode ser benéfico ou prejudicial para o Amadora-Sintra.

Começo por dizer que está a colocar bem a questão. De facto, trata-se de um regresso. À semelhança do que vários outros hospitais que mencionou, vai passar a ter uma gestão privada. Lembremo-nos que quando essa iniciativa entrou em funcionamento, foi no caso do Hospital Fernando Fonseca durante muito tempo. E quer do ponto de vista financeiro, como do ponto de vista operacional, teve muito maus resultados, ao ponto de os governos atrás posteriormente terem mesmo que acabar com essas parcerias público-privadas. Eu penso que foi o primeiro governo de António Costa, se não estou em erro, também não é importante agora situar essa questão. A questão relevante é a seguinte: quando falamos de parcerias público-privadas, estamos a falar de duas situações complicadas que no fundo estão inter-relacionadas. Quando a parceria público-privada, no fundo, trata-se de uma gestão privada, o ministério delega, passa os orçamentos para os privados, os privados gerem o hospital. A questão aqui é a seguinte: quando estamos a gerir com uma empresa privada, estamos a ter aqui no meio um obstáculo que antes não tínhamos, que é o lucro. Esse lucro retira eficácia ao serviço. Do ponto de vista dos utentes, é péssimo, porque o investimento que nominalmente pode até ser superior, acaba por ser bastante inferior e isso verificou-se no passado. Isto vê-se também pelas condições que depois são dadas. Do ponto de vista profissional, condições de trabalho, horários, salários aos profissionais de saúde, acaba por ser bastante prejudicial, como aliás já se verificou. Portanto, aqui a questão é: vamos ter mais do mesmo. Sendo que nós temos poucos médicos, eles vão continuar a preferir, se calhar ainda mais rapidamente, estar nos hospitais privados, eles mesmos de raiz privados, saírem do país, do que propriamente permanecerem num hospital público, que na verdade não é público, que está a ser gerido por privados e com os interesses privados.

Pedro Sousa, só introduzir aqui um novo dado, até porque a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, falou concretamente do Hospital Amadora-Sintra no Parlamento, no mês passado, a 12 de fevereiro, a referir que o Amadora-Sintra nunca mais se endireitou e a ministra já na altura queria recuperar esta parceria público-privada. O Amadora-Sintra deixou de funcionar em PPP em 2009. Sabendo que o Pedro Sousa discorda da opinião da ministra, questiono-lhe: em que dados a Ana Paula Martins se baseia para proferir esta afirmação de que o Amadora-Sintra nunca mais se endireitou depois de ter deixado esse sistema de parceria público-privada?

Digamos que o que a ministra diz, apesar de ser falso, porque basta ver os relatórios de quando os governos de António Costa entraram em funções, os relatórios internos que foram emanados e que foram públicos. Basta ver que, em boa verdade, seria ao contrário, uma vez que houve mais orçamento disponível e até do ponto de vista como utente e como imaginamos, nós conversamos e falamos com muitos utentes da Amadora, de Sintra, etc. As condições não diria que terão melhorado, mas não pioraram consideravelmente. Mas por outro lado, a ministra tem onde se apoiar, uma vez que a situação grave de falta de médicos, falta de profissionais de saúde, de instalações, no caso do Hospital Fernando Fonseca, como aliás já aqui várias vezes referi, são bastante exíguas para o segundo maior concelho do país em termos de população e para o concelho com maior densidade populacional. Estamos a falar de Sintra e Amadora. O próprio hospital é muito pequeno e quando foi construído já estava a ter capacidade para apenas metade dos utentes que deveria ter. Isto já é um problema de raiz, já era exíguo. Por um lado, de facto, as condições, a oferta e os serviços do hospital têm-se degradado sempre, mas não se degradaram a partir de 2009. Já antes estavam a degradar-se. Não é verdade que o hospital nunca se endireitou.

Pedro Sousa, e para concluir então esta entrevista, já referiu o problema da ausência de médicos, que apesar destas parcerias público-privadas, os médicos, ou pelo menos os novos médicos, vão continuar a preferir até mesmo emigrar. A pergunta que eu lhe coloco é: para além da falta de médicos, do reforço de médicos, neste caso, que outras soluções sugere para o Amadora-Sintra?

No fundo, eu sugiro para o Amadora-Sintra um hospital que seja, na medida do possível, racionalizado, o Fernando Fonseca, e a criação de um efetivo hospital, não uma pequena clínica que vai tirar médicos, desconcentrar médicos, mobilizar, mover as populações, quando muitas vezes elas têm dificuldades em fazê-lo. Como está a ser criada e cuja inauguração está prevista, digamos assim, para as calendas gregas. Eu diria que, respondendo à sua pergunta, são precisos dois hospitais para servir dois dos concelhos com mais população do país.

Pedro Sousa, mais uma vez muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador e bom fim de semana.