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Temos estado ao longo da manhã a obter reações ao Prêmio Nobel da Paz. Ouvimos nos últimos minutos o Presidente da República. Prêmio Nobel da Paz atribuído ao Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas. O esforço no combate à fome e também o contributo para melhorar as condições pela paz são motivos apontados pelo Comitê do Nobel para esta atribuição. Conosco ao telefone está o presidente da Oikos, agência para a cooperação e desenvolvimento, parceira deste Programa Alimentar Mundial. João José Fernandes, muito bom dia.

Muito bom dia.

Perguntava-lhe se esta atribuição do Prêmio Nobel ao Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas o surpreendeu.

Por um lado, é uma surpresa porque não estava nas previsões que eram apontadas nos media a nível internacional em relação ao Prêmio Nobel da Paz. Mas pensando bem, não é uma grande surpresa. O Programa Alimentar Mundial, que já nasceu em 1961, tem desempenhado, de facto, um papel muito importante e que assumiu maior relevo nos últimos anos, em particular este ano tem sido uma instituição muito fundamental. Por quê? Primeiro, quando há conflitos armados, nomeadamente no continente africano, muitas vezes a alimentação é utilizada como uma arma de guerra, de arremesso. Portanto, cada vez que o Programa Alimentar Mundial consegue distribuir com os seus parceiros ajuda alimentar, diminui a pressão sobre a alimentação para usar. E esse é um dos critérios do Nobel, ou seja, diminuir o armamento e a belicosidade. E como eu digo, a ajuda alimentar foi frequentemente utilizada como arma entre exércitos, entre exércitos e guerrilhas, e portanto, é necessário que a cooperação internacional chegue e que possa por si mesma ajudar a suprir as necessidades alimentares.

João José Fernandes, como o Programa Alimentar se organiza neste apoio aos países e qual é também o papel, no caso da Oikos e destas organizações parceiras, neste trabalho?

O Programa Alimentar Mundial é a maior entidade multilateral e da agência das Nações Unidas, que faz tudo o que é a organização da logística e da distribuição da ajuda alimentar. Ou seja, faz toda a aquisição de bens alimentares a uma escala econômica enorme, portanto conseguindo preços obviamente mais competitivos, coloca-os nos países. Por exemplo, o caso de Moçambique, onde temos sido parceiros nos últimos anos do Programa Alimentar Mundial, e depois as organizações como a Oikos asseguram alguns armazéns e fazem a distribuição às comunidades. Mas o apoio logístico, por exemplo, em meios aéreos, é absolutamente fundamental e normalmente é providenciado pelo Programa Alimentar Mundial, tal como os alimentos que são encaminhados para os nossos armazéns, também é encaminhado através do Programa Alimentar Mundial.

Ora, a Oikos-

Nós conseguimos.

Sim, continue.

Dessa forma, nós conseguimos chegar a muito mais gente com muito menos recursos, porque de facto, se cada organização tivesse que comprar os alimentos e enviar para o país beneficiário, aquilo que gastaria, por exemplo, em transporte internacional, seria muito superior ao que é gasto com a coordenação a nível internacional. E portanto, nós conseguimos atingir muito mais pessoas. O Programa Alimentar Mundial atinge, neste momento, cerca de 90 milhões em todo o mundo e isso é uma figura que só é conseguida por esta cooperação internacional entre o Programa Alimentar Mundial e organizações como a Oikos, que estão no terreno.

Ora, e este Prêmio Nobel ganha uma relevância maior nestes tempos de pandemia que vivemos, sobretudo nesses territórios subdesenvolvidos?

Ganha, porque os dois setores que foram mais afetados pela pandemia são a educação e a alimentação. A educação, porque obviamente o confinamento em muitos países levou ao cancelamento das aulas presenciais. Obviamente, quem não tem meios, nem humanos, nem professores, nem tecnológicos para ter tele escola ou para ter acesso remoto via novas tecnologias da informação, enfim, como ocorreu em Portugal, o que não ocorre nesses países, portanto a educação foi afetada. Mas a alimentação é ainda mais importante. Por quê? Porque ninguém pode ficar confinado e morrer à fome. Nós assistimos, por exemplo, na América Central, a episódios em que as pessoas depois de serem confinadas, como não tinham alimentação, quando tinham a possibilidade de sair, saíam e havia lutas fratricidas, e portanto homicídios, etc. Porque as pessoas realmente precisavam de alimentos. Portanto, o Programa Alimentar Mundial, o trabalho de ajuda alimentar que a própria Oikos tem feito em Moçambique, mas também em São Tomé, por exemplo, recorrendo à pesca artesanal, à compra de peixe e à distribuição de peixe às populações carenciadas. É absolutamente fundamental, porque em tempos de pandemia, não se pode morrer do vírus, mas também não se pode morrer ou não se deve morrer de fome. E portanto, isso é absolutamente fundamental. E sabemos nós que as tensões que existem quando há situações de confinamento, etc, são sobretudo tensões econômico-sociais. As pessoas que não têm o que comer ao almoço, obrigatoriamente vão ter que ir trabalhar, vão ter que ir velar pela alimentação da sua família e portanto, a alimentação acaba por ser o elemento absolutamente fulcral para manter as sociedades minimamente pacificadas, mobilizadas em termos da luta contra a pandemia. Eu acrescentaria ainda um outro lado, que é muito importante. Creio eu que foi bem interpretado pelo Prêmio Nobel da Paz Que tem a ver exatamente com essa noção de fraternidade entre as nações, que é um dos critérios do Nobel da Paz. Ou seja, o Programa Alimentar Mundial, a cooperação internacional, as ONGs que trabalham na cooperação internacional representam um valor de solidariedade internacional, da cooperação, de multilateralismo que muito é necessário neste tempo, nomeadamente tempo de pandemia, mas também um tempo em que os países tendem a fechar-se sobre si próprios e sobre as suas fronteiras.

Ia nesse sentido a minha próxima pergunta. Ouvimos nos últimos minutos o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, dizer que era necessário que os países mais ricos ajudassem as Nações Unidas. Parece-lhe que a atribuição deste prémio Nobel vem trazer mais luz sobre esta agência das Nações Unidas, sobretudo porque ela é um motor do cumprimento do objetivo número dois para o desenvolvimento sustentável, que é acabar com a fome no mundo, objetivo que as Nações Unidas quer alcançar em 2030?

Sem dúvida, é uma força motriz para a realização e o cumprimento do objetivo número dois. E é absolutamente fulcral, não apenas pelos aspetos que mencionei, mas também exatamente porque sendo uma agência das Nações Unidas, ganha peso este apelo à solidariedade internacional. E depois tem também uma outra relevância que é, sendo o trabalho feito em cooperação entre várias organizações com uma agência das Nações Unidas, muitas vezes é-nos permitido estar em terrenos bastante mais perigosos. Eu recordo um incidente que tivemos muito recentemente em Cabo Delgado, onde, por exemplo, uma equipa da LOCOS ficou isolada na província perante um ataque de bandas armadas e terroristas que tem havido no norte de Moçambique, e tiveram que ser resgatados exatamente pelo Programa Alimentar Mundial através de meios aéreos, porque a única passagem era através de uma pequena ponte que tinha sido atacada e, portanto, só a via aérea era o único meio de resgate. Portanto, a paz, a ajuda alimentar é absolutamente fulcral neste momento, quer por causa da pandemia, quer por causa dos conflitos armados que continuam a existir. E esta mensagem que é na ausência de uma vacina que possa ser imediatamente aplicada, a cooperação neste momento deve ser feita sobretudo ao nível da assistência alimentar, para evitar maior conflitualidade e para que sirva de exemplo para que os países também no momento em que existam outros meios de ataque à própria pandemia, se possam organizar nesta solidariedade internacional, para que não sejam apenas os países ricos a beneficiar, mas o benefício seja de todas as comunidades, independentemente do país onde elas se encontram.

João José Fernandes, presidente da Oecos, muito obrigado por se ter juntado a esta emissão a reagir à atribuição do Prêmio Nobel da Paz ao Programa Alimentar Mundial. Muito obrigado.

Muito obrigado.