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Temos em direto neste jornal Gonçalo Órião, o Coordenador Nacional de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa. Muito bom dia, Gonçalo Órião, bem-vindo. Desde já, o que a Cruz Vermelha encontrou no terreno quando lá chegou?

Bom dia. A Cruz Vermelha está no terreno desde o início com as suas estruturas locais. Efetivamente, as próprias estruturas locais também foram afetadas e estão diretamente ligadas à comunidade com todo este cenário. Por isso, a nossa primeira preocupação foi reforçar a capacidade de resposta das nossas estruturas locais. Também tivemos bastante dificuldades a nível de comunicações, reforçando estas comunicações por rádio, por comunicações satélite, para conseguirmos também depois articular respostas locais. Paralelamente, nós temos uma equipa nacional que faz o reforço e que em articulação com o INEM e com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, tem reforçado sempre que há necessidade. Estamos a falar de ambulâncias, equipas logísticas, instalação de geradores, criação de zonas de abrigo para população, para pessoas que ficaram sem abrigo. E é neste trabalho que nós, no momento mais crítico, usando a nossa reserva nacional, fizemos a resposta. Entramos agora numa fase de avaliação de necessidades, perceber exatamente necessidades específicas da comunidade, da população, para junto com as equipas da Cruz Vermelha no local, podermos fazer respostas personalizadas e diretas.

Ou seja, ainda não está feito esse levantamento das prioridades, daquelas que são as maiores necessidades neste momento da população.

O levantamento de necessidades é algo muito dinâmico, ou seja, começa logo no momento do impacto e vai evoluindo. E é muito importante ser feito, quer pela Cruz Vermelha, quer em articulação com as restantes entidades. É o que nós estamos a tentar fazer, usando a rede de resposta para satisfazermos e alocarmos os recursos disponíveis onde há mais prioridade. É extremamente importante priorizar respostas para sermos mais eficazes.

Claro. Já aqui nos falou da criação de zonas de acolhimento temporárias para desalojados. Como é que estão a funcionar? Já há locais para isso? E que pessoas é que estão a precisar de recorrer a essas zonas?

Foi criada uma zona de reserva em Pedrógão Grande pela gestão do município, neste momento para 40 pessoas, mas sem um fluxo significativo. Nós percebemos que houve aqui uma grande resiliência da população e, naturalmente, uma vontade de sempre que possível permanecer nas habitações quando era possível, ou ir para habitações de familiares ou outras soluções de alojamento que conseguiram ter. Agora, situações mais críticas e perante a gravidade da situação, obviamente, temos essa capacidade e estamos sempre com uma reserva ativa para o que se verificar. O objetivo também agora aqui é apoiar a população no regresso à normalidade. E mesmo é preciso garantirmos que a nível de reparações, a nível da sua própria sustentabilidade, que exista essa capacidade, com foco nas pessoas mais vulneráveis. Nós aí também através da nossa rede social, em que apoiamos pessoas já num contexto normal com maior vulnerabilidade. Nessas alturas são pessoas que estão identificadas e que também tentamos dar um esforço extra, porque efetivamente são as pessoas que têm maior risco de serem afetadas perante um desastre que tem impacto direto na sua vida diária.

Gonçalo Órião, nestes dias temos ouvido falar muito da falta de geradores. Como é que está a situação? Ainda faltam geradores? É possível atender às necessidades?

Nós quando falamos de um desastre desta complexidade, provavelmente nunca vamos conseguir satisfazer todas as necessidades. E há aqui um esforço individual de cada indivíduo que vai ser extremamente importante para satisfazer. Nós obviamente olhamos para instituições, situações críticas, já apoiamos lares de idosos, já apoiamos equipas que andavam com bens que prestavam geradores e é nesse âmbito que nós estamos a trabalhar juntamente com a Autoridade Nacional. É para identificar as situações mais graves, para esta reserva ser devidamente utilizada onde há mais necessidade. Naturalmente que o regresso da eletricidade, o regresso da luz, é extremamente importante, é crucial para o dia a dia das pessoas ou o dia a dia das instituições.

E será um ponto muito grande de alteração na qualidade de vida de todos. Gonçalo Órião, para quem vê as imagens e ouve os relatos do que chegam na região, há alguma forma de ajudar? Há alguma campanha solidária que possa permitir que o resto do país possa ajudar estas populações?

Eu acho que o importante é efetivamente haver uma boa avaliação de necessidades, ou seja, toda a ajuda, toda a logística despendida, tem que ser com objetivos concretos. Não adianta estar a enviar para uma zona afetada, com muito voluntarismo, bens que depois não há uma capacidade. Porque neste momento a preocupação nas zonas afetadas é a recuperação, são as limpezas, são as pequenas reparações. Nós não podemos colocar mais carga logística, portanto, uma distribuição de bens. Por isso é extremamente importante campanhas organizadas a nível local e que várias organizações já se encontram a realizar, mas que dê uma garantia que efetivamente há um destino efetivo. E para isso também percebemos que tem que haver uma real avaliação de necessidades. Porque se estamos a enviar algo que, na verdade, não é uma necessidade, não é preciso, vai criar-se a sobrecarga logística. Por isso, reforce, o apoio de todos é extremamente importante. O voluntarismo é ótimo, mas vamos canalizá-los para campanhas devidamente organizadas e que sejam fidedignas, com informação de entidades oficiais que validem efetivamente essas necessidades.

A Cruz Vermelha está empenhada e envolvida em alguma dessas campanhas. Deixe-me só reforçar a ideia para quem quer mesmo ajudar, como é que o pode fazer? Pode dirigir-se à Cruz Vermelha e oferecer-se para contribuir?

Nós neste momento temos uma campanha interna e estamos a fazer uma avaliação de necessidades interna. E quando houver uma necessidade objetiva identificada de pedidos que consigamos escoar os produtos e as necessidades que nos são oferecidas, é nesse momento que a Cruz Vermelha também abre estas campanhas. Ou seja, nós estamos no terreno, estamos a analisar hora a hora, minuto a minuto, necessidades. Estamos a apoiar também outras instituições e caso identifiquemos necessidades específicas, vamos também comunicar para efetivamente conseguirmos receber esse apoio.

Muito bem, é muito importante também que o apoio seja assertivo. Sim.

Temos que ser muito transparentes nos apoios, temos que ser muito efetivos nos apoios e por isso é que também da parte da Cruz Vermelha, o nosso objetivo é todas as campanhas que nós abrirmos, é para sermos realmente, fazer realmente a diferença no terreno.