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A Semana Europeia de Prevenção de Resíduos decorre entre os dias 22 e 30 de novembro, portanto, começa já amanhã. Esta semana acontece anualmente e tem como objetivo sensibilizar para a redução, reutilização e reciclagem de resíduos. Este ano, em específico, é centrada nos resíduos de equipamentos elétricos. Connosco temos Ana Matos, diretora de comunicação do Eletrão. Boa tarde, Ana. Sabemos que o país está longe de cumprir as metas europeias de reciclagem e a pergunta que lhe quero fazer é: o que é preciso para que os portugueses façam melhor, para conseguirmos ter melhores resultados?

Olá, Martim, boa tarde. Para conseguirmos fazer melhor, temos que fazer um esforço conjunto. Como nós gostamos de dizer, isto não é uma responsabilidade única do Eletrão, do país, é uma responsabilidade de todos os cidadãos. Assim, a primeira coisa que me vem à cabeça do ponto de vista de ação que cada um de nós pode fazer, e pode começar por fazer nesta Semana Europeia de Prevenção de Resíduos, é ir ver as suas gavetas lá em casa, perceber que equipamentos elétricos é que tem guardados, que já não funcionam ou que não precisam, o que é que tem avariado que se pode ver livre, seja numa lógica de reparação, seja numa lógica de reutilização, seja depois, no final, quando já se esgotaram estas hipóteses, na perspectiva da reciclagem. Porque aquilo que nós costumamos dizer é que ter equipamentos elétricos parados em casa é ter valor em termos de materiais, ter valor em termos de produção de resíduos aqui para o país, que podem ser aproveitados precisamente para ir buscar matérias-primas, que é, aliás, um dos temas que nós falamos nesta Semana Europeia de Prevenção de Resíduos. Além disso, naturalmente, e porque temos muitos cidadãos felizmente a fazer o trabalho de casa no que diz respeito a encaminhar os equipamentos elétricos e a prolongar o tempo de vida útil, há também um trabalho que tem que ser feito do ponto de vista das nossas entidades inspetivas, da nossa tutela, no que diz respeito a regular melhor este setor. Ou seja, nós temos muitas soluções de entrega de equipamentos elétricos, nomeadamente os locais de recolha, mas temos também o serviço dos municípios, que faz uma recolha de equipamentos elétricos de grandes dimensões, os frigoríficos que temos em casa, as máquinas de lavar e por aí fora. Isso significa que, obviamente, nós teríamos aqui bons resultados, não fosse haver um fenómeno que nós designamos por mercado paralelo. Ou seja, quando nós ligamos para a Câmara Municipal da nossa residência, muitas vezes eles vão-nos dizer para pôr o equipamento elétrico na rua, e nós assim o fazemos. E existe um conjunto de entidades que atuam à margem da lei, não sei se lhes podemos chamar entidades, são agentes que atuam à margem da lei e que conhecem este percurso que os municípios fazem para recolha e desviam estes equipamentos com impacto, naturalmente, para a nossa atividade económica e para o ambiente, porque eles não os tratam de acordo com aquilo que era suposto acontecer. Temos esta questão de realmente ter este mercado que atua contrariamente àquilo que são os circuitos normais, não só no circuito municipal, naturalmente, temos também outros circuitos, nomeadamente o da distribuição, onde isto acontece. Ou seja, se nós compramos um equipamento novo e pedimos para devolver o equipamento velho equivalente, a distribuição, quando vai à nossa casa, leva o antigo, o usado, para reciclagem, mas não há um controle efetivo entre aquilo que sai das nossas casas e que chega ao armazém destas grandes distribuidoras. Temos aqui um ponto crítico de saída de equipamentos elétricos, daquilo que são os circuitos formais, daquilo que são os circuitos que garantem o correto tratamento dos resíduos e que garantem também a contabilização dos mesmos e a recuperação dos materiais críticos. Estamos a falar aqui de pessoas ou de ações que implicam já alguma consciência. Implica depois também chegarmos às pessoas que, de alguma forma, ainda não têm a perceção daquilo que representam os equipamentos elétricos, seja do ponto de vista de potencial de recuperação de materiais que estão em escassez aqui no ambiente, seja do ponto de vista de perigosidade que esses equipamentos elétricos representam também e que provocam depois o impacto no ambiente, nomeadamente com as emissões de gases com efeito de estufa, com emissão de mercúrio, de pó de fósforo, por aí fora. Portanto, há que chegar também às pessoas que têm ainda alguma resistência ou até alguma preguiça em sair das suas casas e procurar o ponto Eletrão ou ativar estas outras soluções de encaminhamento que têm para os equipamentos elétricos e que, no limite, acabam por colocar os equipamentos elétricos no lixo e, portanto, isto naturalmente tem consequências muito nefastas para o ambiente.

Também agora, aqui na ótica desta Semana Europeia, e queria lhe fazer esta pergunta, porque no fundo vão às escolas e já têm 500 estabelecimentos inscritos nas escolas. Esta ação de sensibilização, creio eu, sendo para escolas, está potenciada um bocadinho para os mais novos. Esta sensibilização aos mais novos é já um aspeto de olhar um bocadinho para o futuro e ver se depois os mais novos, os mais jovens, quando crescerem, têm estas atitudes que querem sensibilizar?

Naturalmente que sim. Aqui no Eletrão acreditamos que a sensibilização começa com os mais pequeninos. Já vamos na 15ª edição da Escola Eletrão, que começou em 2009, não estivemos todos os anos, mas já temos um histórico grande de experiência no que diz respeito à sensibilização para esta temática ambiental nas escolas. Percebemos que para os mais pequeninos, do primeiro ciclo, funciona muito bem. Segundo ciclo e terceiro ciclo também. Depois entramos na fase da adolescência, em que, naturalmente, hoje em dia, com a exposição que os miúdos têm a todas as temáticas no digital, com a quantidade de informação com que são bombardeados todos os dias e até algumas questões que se prendem com os interesses deles, o tema do ambiente nestas faixas etárias é sempre mais difícil de transmitir, ou estas preocupações ambientais são mais difíceis de transmitir e de fazer com que eles tenham consciência daquilo que está a acontecer. Mas naturalmente que é um trabalho que é contínuo e que nós não podemos desistir de fazer, porque alguma coisa fica sempre, na realidade. Portanto, quando estes jovens se tornam adultos, naturalmente que a mensagem que receberam ao longo dos anos de escolaridade, ainda que não tenha provocado interesse naquele momento, poderá converter-se numa preocupação futura. É isso que nós fazemos todos os dias com estas campanhas das escolas e acreditamos que conseguimos chegar a uma franja muito significativa da população escolar com estas campanhas e sensibilizar para esta importância. Temos tido excelentes resultados no que diz respeito à própria participação das escolas com o desenvolvimento de vídeos que os alunos fazem sobre a temática da reciclagem, a desafios que as próprias escolas lançam que eles participam. Temos tido muito bom feedback. Sabemos que realmente há aqui uma faixa que é mais difícil de chegar e estamos todos os dias a tentar nos reinventar para encontrarmos uma forma. Mas sabemos que isto há de dar frutos e naturalmente que depois da nossa sensibilização, as campanhas de comunicação que fazemos não se extinguem na parte educativa, nós continuamos para os jovens adultos e para os adultos, e portanto, acreditamos que vamos sempre a tempo ainda de mudar comportamentos e de sensibilizar as pessoas para esta temática.

Agora queria falar um pouquinho na questão de números. Em 2024 foram enviadas para a reciclagem cerca de 57 mil toneladas de equipamentos elétricos e mais de 36 mil destas toneladas foram encaminhadas pelo Eletrão. E a pergunta que eu lhe quero fazer é: mesmo assim, estes números não estão a cumprir as médias europeias. Sabemos que têm vindo a tentar expandir a rede de recolha e também já expandiram a rede de recolha, mas julga que mais importante do que expandir a rede seria conscientizar um pouquinho mais a população, dar a entender mais à população que tem que fazer mais ações e que tem que agir um pouquinho mais relativamente a este problema, porque no fundo, apesar da expansão de rede, mesmo assim não estamos a atingir as médias.

Nós no Eletrão, a nossa rede de recolha está em constante crescimento. Atualmente já temos mais de 1500 locais de recolha por todo o país, incluindo as regiões autónomas, e estes locais podem ser consultados numa plataforma que nós temos, que criamos precisamente para que haja alguma proximidade no que diz respeito à deposição dos resíduos elétricos pela população, para que isto possa estar próximo, para que as pessoas possam saber. Essa plataforma é o ondereciclar.pt. Contudo, como dizia, muito bem, apesar deste esforço, e do esforço conjunto das várias entidades, nós ainda estamos muito aquém daquilo que é a média europeia. Apesar de termos vindo a crescer, as 36 mil toneladas que recolhemos em 2024 representam um aumento de mais de 30% relativamente ao ano anterior e mais de 50% relativamente a 2022. Estamos a conseguir um incremento muito significativo, mas não é suficiente. Nós precisamos de recolher mais. Como eu comecei por dizer no início da entrevista, temos que olhar para as nossas casas e ver aquilo que temos guardado e que já não tem valor para nós e pôr a economia a circular neste contexto dos equipamentos elétricos, seja numa perspetiva de prolongar a vida do equipamento, seja numa perspetiva de fazê-lo chegar ao fim de vida. Temos que, em conjunto, todas as entidades responsáveis pelo setor, fazer alguma coisa para combater o mercado paralelo e temos que chegar àquelas pessoas que realmente têm dúvidas. E esta é a parte mais difícil, na realidade, porque em Portugal já falamos de reciclagem há muitos anos. Especialmente no caso das embalagens, dos equipamentos elétricos. O Eletrão faz 20 anos este ano, precisamente, e também já temos um longo histórico de sensibilização e de tentar criar uma consciência maior. Mas eu acho que, em concreto, no caso dos equipamentos elétricos, porque não temos um ponto Eletrão de conveniência à porta de todos os prédios, de todas as casas de Portugal, isso infelizmente não é possível de fazer. Mas temos muitos pontos de recolha e portanto há que fazer as pessoas perceberem a importância de se deslocarem até um destes locais ou de usarem todas as outras formas Que tem ao seu dispor para depositar equipamentos elétricos. E é preciso explicar isto. As pessoas não têm perceção do impacto provocado pela gestão incorreta de equipamentos elétricos, e eu falo de gestão incorreta quando nós colocamos no lixo, quando abandonamos na rua ou quando o equipamento é desviado pelo mercado paralelo. Quando isto acontece, o impacto que é provocado pela incorreta gestão de equipamento elétrico tem efeitos diretamente em nós e é preciso que as pessoas percebam isso. Naturalmente que quando pomos o equipamento no lixo, não temos uma faca a acertar-nos na pele. Mas eu costumo usar esta analogia porque não é naquele momento, mas em algum momento, isso se vai refletir numa ação prejudicial para a nossa saúde, numa ação prejudicial para o modo de vida que nós conhecemos atualmente com os níveis de consumo que temos. Nós temos materiais críticos nos equipamentos elétricos que estão em escassez na natureza e que vão acabar num período que já não é daqui a 30 anos, será daqui a cinco anos, com toda a certeza, ou menos até para alguns desses materiais. Portanto, a única forma que nós temos é de realmente ganhar esta consciência que precisamos de fechar o ciclo, precisamos de pôr os equipamentos elétricos numa lógica circular, fechando o ciclo, para garantir que realmente minimizamos os impactos na natureza e minimizamos o impacto na nossa saúde. Nós acreditamos que é por aqui, mas é difícil de explicar isto às pessoas, portanto o nosso trabalho é contínuo e naturalmente aproveitamos sempre estas oportunidades, como a Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, para fazer chegar a mensagem, no caso, através das escolas, mas também temos diversos municípios com quem temos parcerias que estão ativos nesta campanha e com quem partilhamos materiais, com quem partilhamos informação, com quem estamos a colaborar. Destaco aqui o município de Guimarães, por exemplo, que tem uma ação com uma exposição de equipamentos elétricos e estamos todos os dias a reinventar-nos para de alguma forma conseguirmos com as nossas campanhas também. Fazemos muitas campanhas, além da escola, temos uma campanha que é o Quartel Eletrão. Temos aqui uma associação aos bombeiros que são muito acarinhados pela população e temos tido muito bons resultados também nessa perceção. Quando as pessoas ligam que a entrega do equipamento elétrico proporciona um bem para os bombeiros, tem resultado muito bem. Procuramos sempre reinventar-nos, procuramos sempre chamar a atenção para esta temática e explicar isso da melhor forma possível, mas é um trabalho contínuo que não vai parar.

Até porque também, falando de sensibilizar um pouquinho as pessoas, estava aqui a especificar que era um pouquinho difícil sensibilizar as pessoas e dar esta realidade às pessoas, também dar aqui um dado que em Portugal, por exemplo, Portugal está a gastar mais dinheiro com matérias raras, como por exemplo, o lítio, e se reciclássemos mais estes eletrodomésticos, poderíamos poupar um pouquinho mais no dinheiro que gastamos nestas matérias raras, correto?

Corretíssimo, é isso mesmo. A União Europeia lançou inclusive um regulamento que tem a ver com as matérias-primas críticas e que de alguma forma nos empurra, enquanto Estado-membro, para essa questão. Ou seja, nós estamos dependentes de países terceiros, muitos deles em contexto geopolítico muito complicado, para fornecimento destas matérias-primas críticas. E portanto, a única forma que nós temos de desipiscar é através da reciclagem, neste caso, de equipamentos elétricos, que são onde estão a maioria destes materiais que estamos a falar, das baterias também. E naturalmente, é preciso que isso aconteça e que estes materiais não vão parar a aterro, porque se vão no meio do nosso lixo aqui de casa, vão parar a aterro e perdem-se. Portanto, a única forma que nós temos é fazendo realmente a colocação destes equipamentos no sítio certo para que estes materiais possam ser recuperados e para que nós possamos ter alguma independência no que diz respeito ao fornecimento destas matérias críticas para a produção. E falo de Portugal, mas falo da Europa também, precisamente com esta temática do regulamento que foi criado para fazer face a esta questão da dependência de países terceiros.

Ana Matos, diretora de comunicação do Eletrão, aqui a explicar como vai ser e qual o objetivo desta Semana Europeia de Prevenção de Resíduos, com enfoque na reciclagem de equipamentos elétricos. Muito obrigado, Ana, por esta entrevista. Agradeço imenso. Obrigado.

Obrigada, Martins