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José Vera Jardim é presidente da Comissão de Liberdade Religiosa e falamos sobre este tema porque hoje, nesta segunda-feira, assinala-se o Dia Internacional para homenagear as vítimas de atos de violência por causa da religião ou crenças. José Vera Jardim, ainda há motivos para nos preocuparmos hoje em dia?

Há muitos motivos para nos preocuparmos. É difícil dizer ainda mais, porque a medida disso é sempre mais difícil. Se havia mais perseguição religiosa há 10 anos do que há hoje, é difícil sempre, mas temos bastantes motivos para nos preocuparmos, sobretudo com novos afloramentos que têm acontecido nos últimos anos, designadamente em África. Sobretudo na parte do Sahel, da Nigéria. A Nigéria é um país que levanta muitas preocupações nessa matéria. Também na Índia. Como se sabe, a Índia viveu sempre uma situação de relativo afrontamento, momentos de mais paz, momentos de mais afrontamento entre a comunidade hindu e a comunidade islâmica. Na China, obviamente, onde há naturalmente muita perseguição religiosa. Em geral, perseguição religiosa com um acentuado interesse ou motivo de preocupação na perseguição à comunidade uigur, que é uma comunidade muçulmana situada em certa zona da China e que tem sido objeto de estudos e observações várias muito preocupantes. No Ocidente, também vai havendo. Quando falo no Ocidente, falo da Europa, dos Estados Unidos, da América do Sul. Também tem havido alguns afloramentos, não tanto de perseguição religiosa, mas, por exemplo, antissemitismo, designadamente nalguns países. Tem sido notícia em vários órgãos de comunicação social ou na generalidade dos órgãos de comunicação social, a perseguição, por exemplo, a comunidades israelitas e judaicas em certos países da Europa. Afrontamentos também aqui e ali entre comunidades islâmicas, a propósito das mais diversas situações que continuam na ordem do dia. E continuamos a ter motivos de preocupação séria, sem dúvida nenhuma.

Portanto, ainda vamos tendo vários casos um pouco por todo o mundo, pelo que explicou agora. E a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre já diz mesmo que estes casos-

Publica sempre um relatório sobre o que é que se vem a saber.

Exatamente. E segundo os relatórios, os casos têm mesmo vindo a aumentar. Mas apesar disto, parece que há cada vez mais discussão, mesmo entre a população mais jovem, há uma maior abertura, uma maior tolerância. O que é que está aqui a falhar para que esta tolerância depois também não ajude a combater esta perseguição?

É difícil dizer. Razões históricas, porventura. Razões da própria estrutura do Estado. É o caso da China, por exemplo, que dificilmente admite o contraditório e opiniões divergentes daquelas do poder. Razões históricas no caso da Índia, para dar um exemplo. Alargamento de certos movimentos de origem islâmica, embora reclamando-se do Islão, mas muito do Islão não os aceite como verdadeiros islâmicos. Mas a verdade é que é um motivo de preocupação, como já disse, em certas zonas de África. A começar em Moçambique, para falarmos de algum país que nos é mais próximo, no norte de Moçambique, continua a ser preocupante a situação, embora não se trate, porventura, em certos casos, apenas de uma perseguição religiosa, mas também de certos fatores sociais. É o caso de Moçambique, em que há uma camada da população muito jovem, que infelizmente não tem encontrado as condições económicas e sociais que lhe permitam uma vida digna e, portanto, isso também abre caminho a movimentos que, sendo de origem religiosa, não são apenas de origem religiosa, mas também sociopolítica, se lhe quisermos chamar assim, que é o caso de Moçambique, na minha apreciação. É caso para nos preocuparmos. Fala nas novas gerações. É verdade que nas novas gerações se veem sinais de uma vivência mais adequada com religiões diferentes, com problemas de pessoas de etnia diferente, etc. Felizmente, em Portugal, falando agora de Portugal, também certamente queria falar de Portugal.

Sim, claro.

Não temos casos, por exemplo, não temos perseguição, não temos casos de antissemitismo de Estado, embora possamos ter casos de antissemitismo de pessoas individuais, mas muito pontuais. Aliás, as comunidades israelitas em Portugal não estão muito presentes na sociedade portuguesa e isso também ajuda a compreender o fenómeno. Começa a haver alguns casos episódicos, eu diria, de incompreensão mútua entre o Islão e algumas faixas da sociedade portuguesa, visto que a presença do Islão tem aumentado nos últimos anos, como é sabido. Dada a imigração Que se tem verificado e que em muitos casos é de origem islâmica ou pratica a religião islâmica. Mas enfim, são casos pontuais. Já tivemos algumas queixas na comissão, a propósito sobretudo de relações de trabalho. Mas são coisas episódicas. Felizmente são coisas episódicas no que diz respeito à perseguição religiosa. Depois há, naturalmente, problemas étnicos, mas isso já é diferente propriamente da perseguição religiosa.

E abrindo aqui um pouco o leque, não falando só de Portugal, mas falando mesmo do cristianismo, porque já deu aqui vários exemplos da China, da Índia, de África, mas dentro da Europa e nos países onde o cristianismo é a religião principal.

Sim, que é a generalidade dos países europeus.

Exatamente. Também se notam estes tipos de casos ou também é algo mais esporádico? O cristianismo é aqui a exceção à regra.

É a exceção à regra, mas têm acontecido casos pontuais relacionados sobretudo com os valores cristãos e os valores atuais das sociedades contemporâneas. Dou-lhe o caso de uma senhora finlandesa que foi muito falado, que tinha sido uma política e era também pastora protestante e foi condenada por um tribunal. Isso está em recurso. Sabemos que ela ganhou o primeiro recurso, vamos ver o que é que sucederá. Por ter criticado certos aspetos das sociedades contemporâneas que não estão de acordo com os valores da sua religião. Neste caso, tratava-se de alguém de uma religião protestante. Mais concretamente ao que se põe evangélica. Tem havido alguns poucos. A Europa é ainda, nesse aspeto, uma das partes do mundo em que a perseguição religiosa não tem características tão violentas e tão generalizadas como noutros continentes, mas temos alguns motivos de preocupação, naturalmente. Em relação à Igreja Católica, não tenho conhecimento. Pode haver um caso esporádico de alguma perseguição. Tem havido, naturalmente, como sabemos, até atentados, muitas vezes de origem de radicais islâmicos, não do Islão, mas de radicais islâmicos, certos movimentos em relação a cristãos, até igrejas católicas ou cristãs de um modo geral. Mas eu diria que a Europa, juntamente com os Estados Unidos também, embora nos Estados Unidos também haja atentados que muitas vezes têm motivos, às vezes são motivos religiosos, mas também misturados com motivos diversos. Políticos, étnicos, etc.

Sim, e temos visto casos desses também na Europa nos últimos anos, infelizmente. Estou-me agora a lembrar, por exemplo, do caso do Charlie Hebdo, mas há muitos semelhantes. E eu pergunto por isso também, já nesta parte final da entrevista: o que é que a Europa ainda pode fazer? E aqui a Europa, digo os países ocidentais, mas mesmo a própria Igreja Católica. O que é que ainda se pode fazer para ajudar outras partes do mundo onde a perseguição religiosa é um problema, a resolver, de facto, essa situação?

A Igreja Católica, designadamente pela voz do Papa, tem feito um grande esforço no sentido da convivência entre religiões, não há dúvida nenhuma. É, porventura, até a religião que tem tido uma atividade mais profunda e mais alargada no sentido do diálogo entre as religiões. Do ecumenismo, desde logo, entre as religiões cristãs, porque também há problemas entre as religiões cristãs, por vezes violência. Ainda recentemente, no Egito. Isso não foi um problema religioso, mas tem havido perseguição da religião copta, por exemplo. E o Papa, designadamente o Papa, mas não só, obviamente, e de um modo geral os líderes da Igreja Católica, a chamada hierarquia, e não só, têm feito um esforço muito grande, quer no sentido do ecumenismo, que abrange o diálogo entre as religiões cristãs, quer no sentido mais vasto do diálogo, por exemplo, com o Islão. Já há anos houve um célebre encontro entre o Papa e um líder religioso islâmico do Egito, precisamente nesse sentido. E tem havido vários encontros e várias tentativas dos católicos e dos cristãos em geral para esse diálogo inter-religioso. É isso que a Igreja Católica e que as igrejas cristãs, de um modo geral, poderão continuar a fazer e, porventura, acentuar essa tónica.