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Continuamos a recolher as reações, agora com a jornalista Maria João Avilez. Bom dia, Maria João.

Olá, Carla. Bom dia.

Muito bom dia. Num texto que escreve para "O Observador" e que está agora em manchete, descreve Pinto Balsemão como um príncipe do jornalismo. Isto por quê, Maria João?

Fui eu que escrevi? Agora, de repente, não estou a compreender.

Sim, é como descreve e classifica Francisco Pinto Balsemão. A marca dele é o jornalismo, a forma como olhou para a atividade.

Eu acho que ele foi político, e não foi político de somenos, uma vez que começou a querer fazer política com a vontade de acreditar que conseguiria, ao lado de Sá Carneiro e da Ala Liberal, em 1969, 73, que creio que a data é esta, começar a mudar ou conseguir alguns avanços no regime anterior, na altura liderado por Marcelo Caetano. E não era fácil nesse momento fazer isso. Tanto que acabaram depois por sair antes da legislatura acabar, sobretudo antes de abril de 74, saíram por ser impossível o regime não os deixar prosseguir nas modificações e medidas que eles sugeriram. E mesmo assim muito fizeram e muito se lhes deve. Portanto, começou na política, mas tinha o "Diário Popular", que foi onde ele realmente desabrochou o seu enorme amor pelo jornalismo. Eu acho que entre a política, o jornalismo, o empresariado, o conferencista internacional, o presidente de alguns órgãos internacionais, muitos instrumentos que ele tocou e bem, eu considero que ele foi, acima de tudo, um jornalista. E nesse sentido, é uma pessoa a quem eu estou muito grata. Eu vivi alguns dos melhores anos da minha vida no "Expresso", justamente, depois muito mais tarde, na SIC, ainda em Carnaxide, e vi o que era o Francisco Balsemão quando falava comigo como jornalista, ou depois sobre outros assuntos, ou quando ele agia politicamente. Perdeu-se um homem ímpar porque marcou o regime, foi um fundador da democracia, porque fundou o PSD com Francisco Sá Carneiro. Ora dizer de alguém que fundou uma democracia no seu país é o mais alto, talvez, que se possa dizer. Fundou um jornal que viria a marcar gerações e que introduziu a liberdade de imprensa, explicou-a, viveu-a, recheou-a. Foi fundado em 73, portanto durante um ano ainda foi à censura, mas era tão diferente, ou pelo menos mais diferente do que aquilo que já havia, e havia o "Diário de Lisboa" e outros jornais, e a "República", etc., que também tentavam fazer o mesmo. Mas o "Expresso", o formato, a equipe, as pessoas que lá estavam, foi de facto um acontecimento extraordinário em 1973. E aí era o jornalista em cheio que foi buscar as pessoas certas para os lugares que ele queria que brilhassem e as matérias que se tratavam. Foi um grande período o aparecimento do "Expresso" e as gerações que marcou. E alguns anos depois, algumas décadas depois, funda a SIC, a primeira televisão privada em Portugal, que é uma coisa extraordinária. Nós não sabíamos o que era, quer dizer, os portugueses, as pessoas não sabiam o que era poder escolher entre dois canais, entre duas empresas de televisão. É uma sensação, que eu agora estar a falar nisto, as pessoas dizem: "Agora eu quero aquilo de escolher". Não, porque agora eu escolho não sei quantos canais e até internacionais. Naquela altura havia a RTP com os seus satélites. E tudo isso foi, de facto, obra dele. Ao mesmo tempo, e eu queria referir isto, também o disse ontem na televisão, ele tocava bem vários instrumentos. O principal de todos foi a maneira como lutou pela democracia, começando antes, quando era mais difícil, antes, durante e até ontem. Mas também introduziu a liberdade de imprensa e bateu-se por ela e serviu-a da melhor maneira com o "Expresso" e com a SIC. Portanto, isto já é dizer muito de um homem que, além disso, fundou um partido e que, além disso, foi primeiro-ministro, foi deputado e representou Portugal muito bem no estrangeiro, na Europa, sobretudo, e nos Estados Unidos, porque era muito requisitado e muito convidado para conferências, para fóruns, para organismos que inclusivamente até dirigia, que eu não sei agora os nomes de cor. Mas viajava muito. Foi professor, dava aulas à segunda-feira às 8h, que era uma coisa que com certeza que havia de lesar os seus fins de semana, mas tinha uma coisa curiosa: era muito disciplinado. Era impontual, mas era muito disciplinado e ia fazendo as coisas Todas que ele amava, que criava e servindo também o país com elas. Eu acho que Portugal perdeu um homem muito especial, que tocava os tais vários instrumentos que eu digo. Serviu o país, fundou a democracia, fundou um partido, fundou um jornal, fundou uma televisão, era uma personalidade conhecida nos meios políticos, jornalísticos e empresariais no estrangeiro. Tinha uma característica muito engraçada: nas reuniões de redação à segunda-feira era muito exigente. Então dizia: "Mas que propósito é que é este título? Mas este título não condiz com o texto. Mas quem é que fez este título? Mas onde é que tinha a cabeça? E por que isso tem aqui uma vírgula?" Chegava aos pontos das vírgulas. "Mas por que não paginaram isto numa ímpar e puseram numa par?" Era a este ponto de miudezas, de pequenos detalhes, de vírgulas, de paginações e títulos. Mas sempre com um trato muito interessante conosco. Tinha a sua autoridade, mas não a impunha. Ninguém tinha medo dele. Tínhamos respeito, com certeza, porque não é nada a mesma coisa que medo. Nesse sentido, soube ser um patrão que exigia responsabilidades, que pedia responsabilidades, mas que não era autoritário, nem mandão.

Nem tinha medo. Maria João Velez, foi um privilégio ouvi-la relatar esses momentos. Muito obrigada por tê-los feito aqui.

Muito obrigada por me lembrarem. Bom dia