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Em direto ao telefone, junta-se também agora a nós neste jornal o professor Celso Cunha, diretor da Unidade de Microbiologia Médica do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa. Muito boa tarde, Celso Cunha. Mesma pergunta para si que já fiz há pouco ao Ricardo Mexia: o que é que muda neste momento com esta classificação de pandemia?

O que muda, essencialmente, é que a Organização Mundial de Saúde reconheceu que o vírus se encontra em transmissão contínua na população em geral. Nós passamos agora, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, de uma fase que era considerada de alerta de pandemia, em que havia focos maiores ou menores da expansão do vírus e transmissão do vírus entre humanos, para uma fase em que a Organização Mundial de Saúde considera que essa transmissão é uma transmissão já contínua e estabelecida entre a população em geral. E, portanto, no fim de contas, o que a Organização Mundial de Saúde está a reconhecer é que a situação se descontrolou para além daquilo que estava anteriormente previsto, chamemos assim. E que era o objetivo da Organização Mundial de Saúde, ou seja, conter o vírus numa fase que não passasse para pandemia se mantivéssemos numa fase de alerta de pandemia, até conseguirmos dobrar a epidemia que atualmente nos afeta.

Celso Cunha, tendo em conta que agora estamos nesta fase de pandemia, estamos hoje a acompanhar esta reunião do Conselho Nacional de Saúde Pública. Tudo isto pode levar também a uma alteração das decisões que poderiam ser tomadas?

Pode. Evidentemente, porque nós não estamos isolados de maneira nenhuma. Nós, no nosso país, ainda estamos, apesar de tudo, como disse há pouco o colega Ricardo Mexia, numa fase em que temos relativamente poucos casos e, sobretudo, o mais importante de tudo é que a origem desses casos, a cadeia de transmissão está identificada e, portanto, nós podemos ainda conseguir criar zonas de isolamento para esses doentes, sem grande dificuldade, porque ainda há camas suficientes, etc. Mas podemos caminhar também, dentro de algumas semanas, para uma fase em que os hospitais já não tenham capacidade para acolher todos os doentes que apareçam com diagnóstico de coronavírus e haja que optar pelo internamento apenas daqueles com sintomatologias mais graves ou que são mais débeis.

Portanto, estamos a encaminhar-nos para uma fase em que vamos ter que prestar atenção aos casos mais graves e serão esses que serão prioridade nas unidades hospitalares. Porque não haverá espaço para os outros casos considerados ainda menos relevantes.

Exatamente. Eu penso que neste momento ainda há capacidade para internar todos os casos com diagnóstico de coronavírus. No entanto, com esta nova definição de caso que o colega falou e com os novos testes, é possível que haja mais pessoas diagnosticadas e não se justifica, provavelmente, que a maior parte delas seja internada, porque tem sintomas leves da doença. Eu penso que, à semelhança do que está a acontecer também noutros países onde há uma grande quantidade de novos casos todos os dias, nomeadamente em Itália, que haja que optar por, como os colegas italianos estão a fazer, que é mandar para casa aquelas pessoas com menos risco e que têm uns sintomas mais leves e apenas optar pelo internamento os que têm os sintomas mais graves. Espero que isso não seja o que venha a acontecer em Portugal, porque seria sinal de que nós estamos a conseguir conter a transmissão do vírus no país. Mas num mundo como nós estamos, num mundo global, com as fronteiras abertas e apesar da redução do número de viagens de avião que se está a verificar, continuam a chegar pessoas de zonas afetadas com muitos casos e, portanto, o risco de disseminação da doença em Portugal continua num nível de alerta muito elevado. Portanto, todos os cuidados que nós possamos ter nunca são poucos nesta situação atual. Nós devemos manter-nos muito atentos. As pessoas, os cidadãos, devem manter-se muito atentos e seguir o protocolo tal e qual como a Direção-Geral de Saúde indica: lavar as mãos sempre que se chega a casa, com frequência no local de trabalho, etc. Evitar grandes concentrações de pessoas e por aí fora e por aí adiante. Portanto, se nós fizermos isso, nós estamos a retardar a transmissão do vírus e temos maior probabilidade de o conter.

Muito obrigado, Celso Cunha, já não temos mais tempo. O Celso Cunha, que é o diretor da Unidade de Microbiologia Médica do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa, neste jornal, também a ajudar-nos aqui a analisar, numa primeira reação, a este alterar da classificação por parte da Organização Mundial da Saúde em relação a este surto de coronavírus.