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Comigo tenho dois moradores desta aldeia de Germil, Ermelinda Dias da Naja e António Dias. Eu começo por vos perguntar como é que foi a noite de ontem.
A noite de ontem já esteve mais calma. Eles andaram por aí a matá-lo e já não veio para o lugar. Só que depois tivemos que ir lá para baixo para São Miguel, para não ficar nas casas, porque era um bocado arriscado. Podia vir de noite e não havia quem o matasse, nem assim o lume, porque as pessoas também já são todas idosas. Fomos para baixo e viemos outra vez de manhã, mas foi na carrinha, trouxeram a carrinha pra gente ir.
E como é que foram avisados da notícia de que tinham que ir dormir a São Miguel?
Foram as polícias. Estavam mais do que um carro da guarda, como estão aí agora, que está lá um, já está ali um carro e passou outro pra frente. E depois disseram que era o melhor para nós, que era tudo de bom para nós. E é, porque estávamos descansados. Estivemos descansados lá embaixo, mas era perto, era ali em São Miguel, Entre os Rios.
E houve pessoas que não quiseram sair das suas casas?
Ficaram poucas pessoas. Alguma pessoa que não queria.
Ficaram duas ou três, mas ao fim andar durante a noite ainda acabaram a matar o povo. De resto foi tudo.
Fomos quase todos, era uma carrinha cheia. Estivemos lá numa cadeira sentados, estava-nos bem. E não estava-nos com canseira porque estávamos protegidos. E era melhor, porque isto é muito nabueiro, isto não é bom pra pessoas mesmo idosas que sofrem. Há pessoas que sofrem e o fumo faz mal. É tudo isto, mas agora está mais calmo ele acolá, já parece que quer tornar a pegar. Mas estão aí as guardas e agora já não é para ter assim medo. Mas demais é um bocado perigoso, porque há casas até lá cima ou ao monte. Se não se combate, estamos arriscados a queimar casas.
Estavam a contar-me que o ponto de encontro da aldeia foi ali a igreja e depois seguiram nas carrinhas?
Sim, mandaram-nos sair pra beira da igreja e depois é que vieram as carrinhas e fomos para baixo.
Têm sido noites difíceis.
Têm. Já na noite de anteontem a gente não dormiu nada, passavam aqui os carros, a gente estava sempre a escutar e quando saiu de manhã estava tudo em fumo. Tem sido muito complicado. Mas graças a Deus, não teve ninguém em perigo, casas não queimaram, nenhuma. E não fomos só nós, foram de Lourido e nós de Ermida, já tinham saído lá uma altura que também lá andou.
Fomos de Lourido e de Sobredo.
Fomos de Sobredo e de Tamende. Era ontem. Mas os outros já tinham também saído os da Ermida, que a Ermida é lá mais acima, não sei se já lá têm passado, se já lá chegou a ir. Mas estes foram pra capela, puseram as senhoras na capela pra sair de casa. Tiveram que sair. Tiveram que sair porque é como eles dizem, é mais tranquilidade pra vocês, estão mais tranquilos. Está bem, a gente foi de acordo.
E regressaram a que horas hoje?
Hoje, quando aqui chegámos, devia ser 19h30.
E já tinha acalmado aqui o fogo?
Não, depois já andava daquela partida de acolá outra vez. E ali em cima tornou a pegar, que o meu marido até foi pra lá.
Foi também acabar de o matar, também ali em cima, quando já chegámos de baixo.
E parece-me que ele que já torna a andar pra lá.
Como fomos isso, fica assim na terra e ao fim começa a fumegar, mas agora já está controlado.
Acham que já está controlado?
Ele ainda anda assim um bocadito, mas já, graças a Deus, já é melhor. É tudo que sabemos, é isto. Não temos mais nada a dizer.
Muito obrigada. Ficamos com o testemunho destes dois moradores aqui de Germil, que viram as chamas chegar muito perto desta aldeia. Aqui de fundo conseguimos também ouvir os meios aéreos que estão a atuar a esta hora aqui, neste incêndio que não tem dado tréguas aos operacionais.