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A TAP registou um prejuízo de € 1.230 milhões só no ano passado. São 12 vezes mais que os registados em 2019. Este resultado já era esperado?
Quero dizer, era esperado que 2020 fosse um ano de grandes perdas, tendo em conta o contexto pandémico e a enorme incerteza em volta da pandemia. Claro que parece que o que aconteceu foi uma surpresa negativa no último trimestre. E a questão aqui é pensar que a TAP já perdia dinheiro antes da pandemia e, portanto, era uma companhia que à partida, neste ano de pandemia, comparativamente com as suas congéneres, estaria em piores lençóis e não em melhores para ter resultados menos maus. Em segundo lugar, o que me parece muito importante é que qualquer cenário que se desenhasse para a TAP no ano passado, quando há um ano atrás o governo resolveu meter dinheiro na TAP, e qualquer cenário, aliás, que se desenhe neste momento, são sempre cenários de grande incerteza. E por isso nós temos sempre a ter em conta essa incerteza nas decisões que tomamos relativamente ao dinheiro do Estado, que é muito escasso num país excessivamente endividado e que tem sido tímido nos apoios à economia, onde temos um problema enorme do lado, por exemplo, das moratórias, somos o país da União Europeia em porcentagem do PIB, de longe, com mais moratórias. Mesmo que o cenário base fosse mais otimista, e isso acontece, é normal, mesmo em contextos normais económicos, qualquer investimento reveste-se sempre de vários cenários de incerteza. Portanto, isso não tem nada de mal. O que me deixa um pouco perplexa é que no ano de 2020, que era um ano, por definição, muito mais incerto, ninguém sabia e ainda ninguém sabe o que é que vai acontecer com este vírus nos próximos tempos, que essa incerteza não tivesse sido pesada de uma maneira mais cautelosa e mais importante na tomada de decisão política e dizer: "Num cenário destes de incerteza, o melhor, se calhar, é não metermos lá o nosso dinheiro". Por quê? Porque agora estamos sempre neste problema que acontece em Portugal, que é o problema do custo afundado, é o problema da ausência de reflexão quanto ao custo afundado, que é o seguinte: pensar: "Tudo bem, o ano passado já fizemos um empréstimo de € 1.200 milhões." Mas agora, conhecendo a maneira de decidir típica do Estado português, quando começa a meter dinheiro num setor ou numa empresa, não há um momento em que dizem: "Mas pronto, mas agora se calhar já não vale a pena meter mais nenhum euro e vamos lá deixar cair isto." O que vai acontecer é que vamos continuar a pensar: "Não, mas agora já metemos € 1.200 milhões no ano passado, agora vamos meter mais." Não sei, agora foi um pedido urgente para a Comissão para pôr na ordem dos € 400 milhões, algo assim, já não me recordo, o desta semana. E isso é persistir no erro. Acho que nalgum momento, o que era mesmo bom era, apesar do erro passado do ano passado, de se ter investido na TAP, e eu repito, as decisões devem avaliar-se no momento em que são tomadas. Não é porque a TAP agora se revela um investimento pior do que aquele que se imaginava há um ano atrás, ou que o governo imaginou, que isso torna a decisão tomada na altura errada. O que torna a decisão tomada na altura errada, ou pelo menos problemática, foi o fato de não se ter considerado que estávamos num contexto de grande incerteza e de grande escassez de dinheiro público e que a combinação das duas nos devia ter levado a ser muito mais cuidadosos. E neste momento, podemos estar no risco de cair nesta situação, que é muito comum em Portugal, que é a incapacidade de parar, de parar de meter dinheiro atrás do dinheiro que já lá foi. E, portanto, nalguma altura dizer-se: "Olha, realmente, a incerteza que se revelou e que veio a mostrar este prejuízo muito superior em 2020, pode ainda vir a repetir-se no futuro e, portanto, vamos lá realmente pensar se não foi uma boa decisão este voluntarismo, esta fuga para frente de salvar a TAP, para a qual nem sequer se consegue arranjar um CEO." Portanto, claramente, tudo indica que é um muito mau negócio para dinheiro público, que eu repito, é muito escasso, também temos que pensar sempre nisso. Se nós tivéssemos maior disponibilidade de fundos públicos para gastar, mas isso não acontece. Nós somos dos países que menos gastou em ajudas diretas à crise. Temos a tal situação das moratórias. Temos uma economia frágil, temos o problema do turismo, que nós ainda não sabemos quando é que ele vai voltar a funcionar a plenos pulmões. E a nossa economia é uma economia muito dependente do turismo. O FMI veio dizer há três semanas que as economias mais dependentes do turismo, e Portugal estava lá, as que iam ter mais cicatrizes desta crise. Tudo isso junto leva-nos a dizer: "Vamos lá ter cuidado. Se realmente estamos num contexto de grande incerteza, com muita dificuldade de fazer previsões e em que estes cenários piores realmente têm uma probabilidade elevada, se calhar é melhor não andarmos a meter lá dinheiro." Mas eu estou a dizer isto, não tenho esperança nenhuma que isso aconteça. É mesmo wishful thinking de economista.
Sabemos ontem que a TAP quer despedir mais 500 trabalhadores, para além dos 800 já anunciados. Estes valores, estas perdas do ano passado podem fazer com que a reestruturação seja ainda maior.
Pois, claro que sim. A reestruturação é desenhada num determinado cenário, que é um cenário base, que é aquele cenário que quem os desenhou entendeu que seria o mais provável. Se neste momento o que acontece é que normalmente nós utilizamos a informação nova que vem para atualizar as nossas probabilidades base. A isso chama-se fazer atualização de probabilidades, uma coisa de um matemático, que é o senhor Bayes, mas isso é um detalhe. Portanto, o que é que acontece? Havia um cenário base. Com base nesse cenário base Foi calculado que seria necessário injetar não sei quanto capital, despedir não sei quantos trabalhadores, renunciar os salários em não sei quantos por cento. Tudo bem. Neste momento, nós temos nova informação, que em 2020 aquilo correu pior do que era o cenário base. Isso aumenta a probabilidade daquilo que se vier a revelar em 2021, 2022, 2023 em diante, em todo caso em 2021, vamos dizer, seja também pior do que aquilo que estava previsto no cenário base. Portanto, aconselha mais uma vez a prudência e o fato de nós estarmos a lidar com dinheiro público, que em Portugal é escasso, faz falta às empresas e às famílias para nos tirarem do buraco. Aconselha a prudência que se redesenhe o cenário base integrando esta informação e dizendo que se calhar vai ser pior. E sendo pior, provavelmente o que é preciso é fazer um novo plano de reestruturação mais adequado a um cenário base que nós esperamos que seja atualizado para ser uma coisa pior. Seria o que faria sentido do ponto de vista da gestão desta reestruturação da TAP. Mas, mais uma vez, aquilo que aconteceu com a TAP não foi uma decisão consciente, racional do ponto de vista do gasto dos recursos públicos, foi uma decisão emocional. A TAP é muito importante, é um desígnio nacional, é a nossa companhia de bandeira e já não sei mais o quê, mas era uma decisão emocional. No momento ia salvar, pois eu acredito que os cenários de reestruturação foram feitos, espero eu, com mais alguma racionalidade. Mas era bom que agora essa racionalidade, que apesar de tudo está subjacente, espero eu, a este desenho destes cenários, agora nos leve a fazer uma atualização do cenário base para um cenário mais pessimista e, sobretudo, a termos muito mais cuidado com esta questão da incerteza. Ou seja, em um cenário de grande incerteza, em um país que tem um problema de endividamento, que tem um problema de falta de recursos, não consegue ajudar as pessoas e as famílias neste momento de grande crise, está, se calhar, na altura de dizer que a TAP foi uma má ideia e de não continuar a meter lá dinheiro.