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Tereza Paula Marques, também especialista em Psicologia da Educação, aqui conosco na Rádio Observador. Hoje foi conhecido um veredito do Tribunal da Califórnia. As empresas Meta e YouTube, gigantes das redes sociais, foram condenadas a pagar uma indenização de quase € 3 milhões a uma jovem que acusou estas redes sociais e ficou comprovado que estas duas empresas criam conteúdos viciantes para os menores e daí foram condenadas ao pagamento desta indenização por danos na saúde mental. Pergunto-lhe, antes de mais, se concorda com esta decisão.
Olhe, eu, à partida, não concordo. Eu acho que a regulação tem que ser nossa, não tem que ser do exterior. Ou seja, é o mesmo que começarmos a aplicar multas às lojas que vendem álcool. Nós sabemos que lá está, só consome quem quer e aquilo que nós devemos fazer é ensinar as crianças, e isso cabe aos pais, aos educadores no geral, ensinar aos jovens, neste caso até uma jovem adulta, a fazer uma utilização saudável das redes sociais. Punir só as redes sociais ou os donos das redes sociais, neste caso, não me parece que seja o melhor caminho. A meu ver, de facto, acho que os donos da Meta e das outras redes sociais devem ter algum cuidado. Sim, devem ter, mas associar uma coisa à outra, ou seja, a jovem teve problemas de saúde mental porque utilizou as redes sociais, não me parece que seja uma associação imediata. Possivelmente já teria antes e isto potenciou, é mais um gatilho, isso sem dúvida.
Mas há, de facto, impactos deste tipo de conteúdos a que as crianças estão expostas nas redes sociais para a vida e também para a saúde mental delas?
Sim, senhora. Porque vamos lá ver, as redes sociais estão elaboradas, estão feitas para viciar, tal como os jogos. Exatamente a mesma coisa. Se nós virmos, nós vamos percorrendo o feed das redes sociais e o nosso cérebro adora surpresas. O cérebro liberta dopamina sempre que há uma coisa agradável. E nós sabemos que quando vamos percorrendo o feed, surgem-nos vídeos engraçados, coisas engraçadas que provocam uma sensação agradável. Para além disso, temos a validação social, que para uns é mais importante do que outros. E então na adolescência, nós sabemos perfeitamente que a esmagadora maioria dos adolescentes necessita de ser visto e ser apreciado pelos outros. Não digo tanto os adultos, mas também há adultos que necessitam disso a vida inteira. Para além disso, temos o scroll, que é o feed, o facto de aquilo nunca acabar, é uma coisa infinita. Nós podemos estar dias e dias a puxar para baixo e nunca vai acabar. Portanto, é algo que nunca acaba. E depois temos o conhecido algoritmo, que vai aprendendo aquilo que nós gostamos de ver. Vai repetindo aqueles conteúdos que nós gostamos. Quanto mais usamos, mais o algoritmo é programado, neste caso, para que nos apareça cada vez mais conteúdos daqueles que nós gostamos. Para além disso, e talvez o último ponto, também igualmente importante, é que na adolescência nós necessitamos muito de pertencer a algo, um grupo de amigos ou uma tribo urbana, seja aquilo que for. E realmente as redes sociais trazem-nos isso. Para além de serem apelativas em termos estéticos, as coisas todas. De facto, temos aqui uma série de condimentos que todos juntos dão realmente um caldo que dá para viciar, sem dúvida nenhuma.
E tendo em conta todos esses elementos que acabou de enumerar, o feed, o scroll, o facto de não haver um fim, não deveria estar em cima da mesa um repensar do funcionamento interno destas plataformas ou pelo menos haver uma lei, uma regulamentação de como é que estas aplicações e estas plataformas se devem comportar?
Como disse há pouco, não são só as plataformas que se devem comportar de uma determinada maneira. Nós sabemos que nós é que devemos ser responsáveis por aquilo que fazemos e não colocar nos outros, neste caso, nas redes sociais, a responsabilidade de nos educarem. Nós é que temos que educar os mais novos para serem críticos, por exemplo, em relação aos conteúdos que veem, para se conseguirem autocontrolar, porque isto é muito comum na adolescência, nós não temos o autocontrole, somos mais impulsivos, somos mais contra as regras. Se os nossos pais nos impõem chegar à meia-noite, é certo e sabido que vamos chegar à 01h ou às 02h. Portanto, todas essas coisas têm que ser cada vez mais incentivadas nos jovens e o que se vê é que a educação está a ser cada vez mais permissiva É óbvio que das redes sociais, eu não nego isso, deve haver um cuidado nesse sentido e também de outras coisas, dos conteúdos de pedofilia, da questão de termos demasiada exposição de crianças, por exemplo, que nós sabemos que as redes sociais são um catálogo para os pedófilos. Todas essas coisas têm que ser regulamentadas, mas de fato não existe, por enquanto. Por isso, o trabalho tem que ser basicamente dos educadores e não da rede social, por enquanto.
E os pais são a peça-chave.
Sim, sem dúvida. Os nossos pais são a nossa peça-chave, são eles os nossos guias, são eles que devem conversar conosco, explicar os riscos e também as oportunidades, porque também existem muitas coisas positivas nas redes sociais. Portanto, explicar a ser crítico, como eu disse há pouco, também ajudar a construir a identidade no sentido de o jovem fortalecer a autoestima pra não se deixar levar, seja por aquilo que for. Até mesmo em termos de modelos de beleza. Nós sabemos que hoje em dia, sobretudo as meninas, são muito levadas a colar-se àqueles modelos de beleza, que às vezes até nem são reais, porque são fruto de filtros. Os limites saudáveis, os nossos pais têm que nos impor limites. As regras só estruturam a personalidade de uma criança e fazem-na crescer de uma maneira saudável, não são negativas. As pessoas, de fato, têm que compreender isso, que as crianças têm que ter regras. E também modelar o comportamento das crianças através do nosso próprio exemplo, porque se os pais vão fazer um uso excessivo, por exemplo, das redes sociais ou da internet no geral, estão a transmitir à criança esse modelo. E nós vemos, de fato, às vezes até nos restaurantes, que vemos uma mesa com uma família e que estão os pais no telemóvel e estão as crianças no telemóvel e está um completo silêncio ali, num momento que devia ser de partilha, que se podia usar até para este sentido crítico. E cada um está no seu mundo. Portanto, assim não dá.
Já aqui disse que é um facto que as redes sociais estão construídas para agarrar todos os utilizadores, não só crianças, mas também todos aqueles que as utilizem. Foi agora também já provado em tribunal, com esta condenação à Meta e ao YouTube, de que são, de fato, viciantes, mas uma vez que as crianças já estão a apresentar estes indícios de estarem viciadas, no fundo, há alguma coisa que se possa fazer pra reverter esta situação?
Como eu acabei de dizer, é uma questão de educação. Educá-las no sentido de utilizarem as redes sociais de uma maneira saudável. Vamos lá ver, tudo o que é excessivo acaba por não ser saudável. É um pouco como o povo costuma dizer, a diferença entre o remédio e o veneno, que é a quantidade. Portanto, as redes sociais são, de fato, um meio muito interessante de nos abrir uma janela pra o mundo, digamos assim, pra nós conhecermos outras pessoas, de outros locais, que antes não era tão acessível assim, pra conhecermos outras realidades. Sim, senhora. Mas também devem ser utilizadas com moderação e, sobretudo, com crítica. É aquilo que eu acabei de dizer há pouco, é de fato ensinarmos os jovens a serem críticos em relação às coisas. Há muitas coisas que são mentiras, que são fake news, que rodam nas redes sociais e que os miúdos assumem como verdades. E também a proliferação de ideias de ódio, de mensagens de ódio, também o radicalismo. Nós sabemos que tudo isso existe nas redes sociais e que acaba por atrair sempre os grupos mais fracos. E dentro das crianças e dos jovens, há alguns que são, de fato, pessoas estruturalmente mais fracas, digamos assim, mais frágeis. Eu não gostaria de chamar fracas, mas sim frágeis, que são facilmente cativados por esse tipo de conteúdos, até porque andam à procura de quem são, da sua identidade, andam a procurar construir a sua identidade, que é uma das grandes funções, digamos assim, da adolescência. Portanto, quando se deparam com esse tipo de conteúdos, acabam por consumi-los. E lá vamos outra vez à mesma questão: o algoritmo está feito de maneira a aprender rapidamente aquilo que nos agrada e acaba por depois reduzir os conteúdos àquelas temáticas que nos agradam. Ora, sendo temáticas nocivas, não só o discurso de ódio, mas sabemos que existem muitos grupos, por exemplo, de apologia à automutilação, ao suicídio, enfim, coisas muito graves e muito sinistras, digamos assim. E esses jovens mais fragilizados acabam por ser captados por esses grupos, porque esses grupos são constituídos por pessoas também que não têm um grupo de pertença. Portanto, foram mesmo excluídos da maioria dos grupos. Então que se juntam todos, juntam-se os excluídos. E, de fato, isso tem tudo para dar em problemas mentais. De fato, sem dúvida, e é muitíssimo preocupante. Acho que os psicólogos e as psiquiatras e todos nós que trabalhamos na saúde mental temos que nos deparar com isto de uma maneira muito séria e tentar ver o que fazer para reverter aqui um bocadinho a situação. Já pra não falar na inteligência artificial também, com tudo que traz de positivo, mas também de muito negativo.
A proibição do uso das redes sociais por menores, como já foi aprovado noutros países, é uma boa medida?
Eu acho que tudo que seja proibir não é uma boa medida, porque como é que se proíbe uma coisa dessas? Teoricamente, a maior parte das redes sociais são proibidas para jovens abaixo dos 14 anos. E eles estão lá. Portanto, há sempre maneiras de driblar estas regras. Se não for pela educação, se não for pela instrução, se não for, de fato, pelo espírito crítico, só pela proibição, acho que não vamos chegar lá a nenhum lado.