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Está conosco em linha Manuel Cajuda, treinador de futebol. Manuel Cajuda, boa tarde.
Boa tarde.
Este era um daqueles jogadores que não precisava de treinador.
Permita-me, antes de chegar ao Maradona, grande talento que desaparece hoje, chegar também a Reinaldo Teles. Eu tive o privilégio de o conhecer e tive o privilégio de usufruir da bondade do seu coração, porque sempre me tratou com um carinho enorme, com um respeito enorme. Cada vez que era adversário, era sempre recebido por ele com o talento de um grande dirigente, pela sua bondade. Aproveito para endereçar ao Futebol Clube do Porto, à família, naturalmente, e a todos os desportistas que souberam usufruir da sua amizade, as minhas condolências, porque é também, no contexto do dirigismo, tendo o bom e o mau, um talento que marcou muitos anos do futebol e da nossa vida. Em relação ao Diego Maradona, acabo por saber, inclusivamente por vós. Foi uma surpresa, é uma hora doente para o futebol, porque sabíamos que ele estava com problemas de saúde, aliás, há uns anos que ele vinha constantemente a ter problemas de saúde, mas não se pensava que ele se separasse de nós tão cedo. E acima de tudo, há uma coisa que nós temos o direito de fazer. Não basta recordar pela mãozinha de Deus, como se costumava chamar, mas recordá-lo sempre. E acho que vai ser sempre recordado, pelo menos aqueles das gerações que tiveram o privilégio de o ver jogar futebol e de nos deliciar com o futebol. Ele deverá ser recordado pelo parceiro, companheiro, o dono de um futebol de talento que nos acompanhou, pelo menos em termos de execução, ao mais alto nível, durante 10 anos. Maradona é, seguramente, com Pelé, dois jogadores que serão para sempre imortais. Serão inesquecíveis e imortais. É de lamentar. O futebol deve ficar triste. Acho que o futebol deve chorar hoje, porque perdeu-se um talento. É evidente que a mesma mágoa nós deveremos sentir por outro cidadão qualquer, porque a morte não faz bem a ninguém, a morte não é bem-vinda a ninguém como cidadão, como pessoa. Qualquer cidadão tem direito a merecer, no seu último suspiro, a bondade daqueles que cá ficam. Mas Maradona, pelo génio que nos ofereceu, pelos momentos glorificantes de alegria que nós tivemos de ver jogar, merece uma atenção especial. E a Reinaldo Teles e a Maradona, que Deus guarde um lugar bom, tranquilo, para que possam eternamente viver em paz, se é que viver ainda se consegue para além desta nossa vida.
Manuel Cajuda, peço que não nos deixe. Temos também a linha Manuel José, treinador de futebol. Manuel José, agradeço o tempo que esteve à espera. Também se sentiu tocado pelo génio de Diego Armando Maradona?
Boa tarde a todos. Claro que sim. Eu tenho 74 anos e acho que tive a oportunidade, a partir dos meus 16 anos, de ver jogar os melhores jogadores de sempre do futebol mundial. Antes dele era o argentino Alfredo Di Stéfano, que ganhou cinco Ligas dos Campeões seguidas com o Real Madrid. Era considerado o melhor jogador do mundo de todos os tempos. Depois apareceu o Pelé. Vi jogar o Pelé inúmeras vezes. Num jogo, eu era júnior do Benfica, num jogo fabuloso que ele considerou dos melhores jogos que fez na vida, para a Taça dos Campeões Europeus, para o campeão intercontinental, Benfica contra Santos, no Estádio da Luz, que o Santos veio ganhar 5 a 2 contra o Benfica. Ele fez um jogo absolutamente pasmado. Eu caí numa queixa, tinha 17 anos. Portanto, o Maradona está na linha do Pelé e do Di Stéfano. Costuma-se dizer que para um craque, um palmo de terreno é latifúndio. Era isso que era o Maradona, num palmo de terreno, ele resolvia o problema. Tive a oportunidade de o defrontar, eu como treinador, ele como jogador. Eu treinador do Sporting e ele jogador do Nápoles. E lembro-me que ele não jogou em Lisboa, como há pouco o Carlos Xavier disse, mas jogou em Nápoles. Nós tínhamos empatado 0 a 0 aqui em Lisboa, empatamos 0 a 0 também em Nápoles, mas eu disse aos jogadores: "Se marcarmos o Maradona homem a homem, vamos ficar 10 contra 10. Se o jogador que o ponham a marcar o conseguir anular." O que não vai ser fácil, mas 10 contra 10, o Nápoles é melhor do que nós, acabamos por perder na mesma. Portanto, fazemos zona mista. Entrou na minha zona de marcação, digamos assim, faço homem a homem, acompanho, quando ele entrar na zona de marcação com o companheiro de equipa, largo. Eu lembro-me que tinha o jogador brasileiro Valtinho, que tinha quase 1,90 m de altura e ele apareceu na zona de marcação dele e eu disse: "Marca-me pelo lado esquerdo, porque ele é canhoto e portanto há dificuldade, pois se a bola fosse para o pé direito, ele teria muito mais dificuldade." Mas não tinha, praticamente em cima da linha de meio-campo, o Valtinho não se esqueceu, o Maradona foi receber a bola e ele meteu-se em cima dele no lado esquerdo. Maradona passou a bola para a perna direita e depois de letra, como dizem os brasileiros, passando a perna esquerda por trás da perna direita, fez um passe praticamente a 40 metros e deixou um ponta de lança que o Nápoles tinha na época, que era o Carnevale, sozinho com o nosso guarda-redes, o Ivković. E o Ivković defendeu. Tem outro caso curioso nesse jogo: fizemos prolongamento, depois a decisão foi por penáltis e o nosso guarda-redes, o Ivković, apostou 100 dólares com ele, em como ele não marcava o gol.
E ganhou a aposta.
E ganhou a aposta. No final do jogo, estávamos tristes, como é evidente, ele entra e apostou 100 dólares e a camisola. E ele entrou cantando, com 100 dólares numa mão e a camisola na outra, e cantando: "Ó porteiro, tu ganhaste o dinheiro e a camisola, mas eu ganhei o jogo e ganhei a miniatura." Se calhar, não vamos aqui enumerar e dizer que é o primeiro, segundo ou terceiro, mas é de facto um dos maiores génios de sempre do futebol mundial, mas que foi um génio como jogador e como cidadão já não foi a mesma coisa, porque acima de tudo faltou-lhe, para alguém que nasceu pobre, que nasceu num meio difícil, faltou-lhe preparação mental para poder lidar com o protagonismo que tinha em qualquer parte do mundo onde ele fosse jogar. Eu lembro que uma vez eu estava a ver a televisão, Inter Nápoles, e ele ia marcar um canto e atiraram-lhe com uma laranja. E ele quando olhou, viu a laranja vir, matou, como se costuma dizer, a laranja no peito, deu três toques com ela no pé e depois deu um chute, arrebentou com a laranja e levou uma ovação de pé dos adeptos do Inter, que era da equipa da casa. Portanto, falar do Maradona, estávamos aqui um dia inteiro a falar de alguém que foi, de facto, um grande génio do futebol e como disse, vi os todos. Enfim, desde o Di Stéfano, até agora o Messi e o Cristiano Ronaldo.
Um privilégio que também Manuel Cajuda teve. Tanto Manuel Cajuda como Manuel José já fizeram referência a essa fase mais negra da vida de Diego Armando Maradona. Qual é o papel dos treinadores? Por que não foi possível aos treinadores que lidaram de forma direta com Diego Armando Maradona procurarem encaminhá-lo no outro sentido e tornar ainda mais esplendorosa uma carreira fantástica de Diego Armando Maradona? Manuel Cajuda, Manuel José.
Falo por mim, eu acho que o Maradona é um exemplo acabado do meio em que nasceu, que nunca se conseguiu libertar daquele meio, que não tinha uma preparação completa para lidar com aquele protagonismo de alguém que não conseguia dar dois passos na rua sozinho, porque vinha toda a gente para cima dele, que onde quer que ia, tinha imensos fotógrafos e jornalistas sempre. Qualquer coisa era notícia, portanto, ele nunca tinha descanso. E naquela altura, o aspecto psicológico é um aspecto fundamental na vida, seja de quem for. Naquela altura nem se usavam sequer psicólogos no futebol, portanto, ele nunca teve o apoio da parte psicológica, que era a parte mais importante para ele saber lidar com a sua vida extra futebol, como cidadão não comum, porque ele não era um cidadão comum. E portanto, ele acabou por descambar, fugir para aspectos que agora, na morte dele, que temos que lamentar, como é evidente, profundamente, porque faleceu um génio, estar a falar da vida desregrada que ele teve, acho que nem fica bem sequer e eu recuso-me a fazer isso.
É uma das fases da vida, porque nem todos somos perfeitos. Manuel Cajuda, o papel dos treinadores é importante no sentido de aconselhar. É hoje mais fácil? Estão os treinadores hoje em dia mais sensibilizados para a importância desse encaminhamento do que estariam na altura em que Diego Armando Maradona despontou?
Não. Acredito que todos os treinadores, sejam eles de que geração forem, privilegiam e têm um sentimento uniforme por todos os jogadores e todos desejariam ver que os seus atletas, que no fundo acabam com mais dureza ou menos dureza por tratar como filhos, verem seguir os exemplos bons da vida, mas a vida não é feita só de exemplos bons. A vida de cada pessoa tem os seus momentos altos, tem os seus momentos baixos. Eu penso que os momentos do Maradona altos são muito superiores àquilo que são os momentos baixos, embora tenha acabado a vida de forma não menos digna em relação ao estatuto que conseguiu alcançar. Mas acima de tudo, penso que devemos privilegiar. E o papel dos treinadores, é verdade que é importante, é verdade que cada treinador Procura, de forma firme, que os seus jogadores sejam, além de excelentes atletas, bons homens também. Mas é importante recordar que os treinadores, por cada ano, em cada equipe, há normalmente um, dois ou três por época e os jogadores têm centenas. Eu já não vou dizer centenas, mas digamos dezenas de amigos que fazem a vida e convivem ao mesmo tempo, partilham muitas situações. E acontece que, às vezes, muitos amigos ou os principais amigos, aqueles que deveriam, além do treinador, que juro, acredito que todos pretendem o melhor para os seus atletas, esses amigos, por vezes, são aqueles que acabam por destruir o trabalho fantástico dos treinadores e acabam por arrastar para uma vida menos bonita aquilo que é o trabalho do treinador. Portanto, eu penso que Maradona não terá tido nenhum treinador que não tentasse privilegiar a sua formação como homem, como cidadão, como parte integrante do mundo do bem, em detrimento de amigos que provavelmente, até pela riqueza, pelos ganhos que o Maradona tinha, mais usufruíram dele. Eu não tive esse privilégio, como teve o seu Manuel José, de defrontar o Maradona, mas tive o privilégio de o ver e parto, acima de tudo, do princípio de que na hora em que ele parte, deixou de fazer parte de nós.