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Seguimos agora para a análise neste jornal com a Ana Cavalieri, que é especialista em assuntos internacionais. Muito bom dia, Ana. Já temos, depois dos acontecimentos deste fim de semana, uma percepção mais clara de como vai ser a Síria depois de Assad?

Muito bom dia. Eu penso que é muito difícil saber como é que vai ficar a Síria, porque a Síria como Estado, como país que nós temos em termos de uma concepção de Westfália, não existe. A Síria foi manufaturada pela França no início do século XX, sem nenhuma conexão ou compatibilidade com a diversidade religiosa e étnica que existe nesse país, sendo certo que são essas identidades que continuam a prevalecer nas alianças que se veem no terreno. Pelo que neste momento nós sabemos que vai haver uma luta por poder entre os rebeldes HTC e outras milícias rebeldes armadas que são islamistas e sunitas, que têm, naturalmente, uma relação de antagonismo com os alauitas, que são um offshoot xiita, ou seja, parte do Assad. Também existem curdos e todas estas etnias e religiões, no fundo, faces religiosas não se dão bem. Temos também os drusos, pelo que neste momento o que poderá e provavelmente irá acontecer é uma tentativa de reconstrução que os Estados Unidos vão tentar apoiar. Israel vai tentar defender a sua fronteira e já entrou naquela buffer zone para tentar manter a sua segurança e não ter essa parte da fronteira vulnerável. Mas neste momento, o que será provável que aconteça é uma grande instabilidade e principalmente, por exemplo, os cristãos que estão na Síria vão estar também em muito perigo. Mas o que é facto é que pior do que Assad é difícil imaginar. Nós não podemos esquecer que ele matou cerca de 600 mil sírios, foi responsável por milhões de sírios saírem e irem pra Turquia ou pra Europa, pelo que neste momento é possível que uma situação parecida com a Líbia irá acontecer, mas pior que Assad e aquela ditadura é difícil imaginar.

Mas podemos, de facto, temer que se repita na Síria o que aconteceu na Líbia, em que basicamente temos um país sem Estado?

Sim, também é relevante o fato de nós já termos passado pelo que aconteceu na Líbia.

Sim, já temos esse exemplo.

Exatamente. Os Estados Unidos e os aliados europeus, até próprio Israel. Temos de perceber que Israel é absolutamente fundamental em toda esta dinâmica. Assad só cai porque Israel elimina o Hezbollah, ou a cúpula de liderança e a capacidade militar do Hezbollah, que é no fundo o proxy do Irão e que está no sul do Líbano, como se sabia, foi a organização militar, juntamente com a Rússia e com o apoio do Irão, que faziam com que Assad se tivesse mantido no poder durante a guerra civil dos últimos 15 anos. Pelo que neste momento sabemos também que Israel irá, e penso que de acordo com os seus interesses, que serão válidos na região, tentar fazer com que haja uma certa estabilidade ou que pelo menos Israel não se sinta vulnerável naquela parte da fronteira. Mas a médio e longo prazo, é preciso reiterar que a Síria é algo inviável por natureza, por genes. É um país que nunca devia ter sido criado nos moldes em que foi criado, porque foi criado no ímpeto imperialista francês colonial do século XX, sem ter qualquer compatibilidade com aquilo que são as entidades que preponderam na região ou naquela arena, naquele país, que são étnicas e religiosas. Não podemos esquecer a influência da Turquia, porque daqui o grande objetivo é fazer com que os curdos não tenham nenhum ímpeto de independência nas regiões que ocupam na Síria, que possam transbordar depois para as regiões da Turquia em que os curdos são uma maioria significativa.