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Temos agora ao telefone o presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, Pedro Costa Ferreira. Boa tarde, obrigado por estar aqui conosco. Começo por lhe perguntar: a notícia de Portugal voltar a integrar a lista negra do Reino Unido chegou ao final da tarde. Até agora, 24 horas depois, já houve muitos cancelamentos de viagens de britânicos?

Boa tarde. É um prazer, como sempre, estar convosco. A minha resposta é não, mas porque já aconteceram. Vamos lá ver. Claro que há cancelamentos, mas devemos ter em conta que esta notícia não é totalmente inesperada. Há oito dias, muito se comentou sobre a possibilidade dos corredores virem a ser fechados e, na altura, julgo que tendo-se mantido aberta a porta, ficou-se com a ideia que ela iria ser fechada com alguma rapidez. Pelo menos, foi isso que os mercados leram, porque a verdade é que já há uma semana que o impacto nas reservas foi muito grande e o impacto nos cancelamentos também foi muito grande. Portanto, desse ponto de vista, realmente a notícia é negativa. Ela impacta de uma forma desagradável sobre uma realidade que já está muito fragilizada e que é todo o setor turístico nacional, mas sobretudo no Algarve, tem uma consequência muito clara. O Algarve teve um verão bastante abaixo, como todos sabemos, do que é normal e dos anos anteriores. Tinha agora uma esperança que a abertura da época do golfe, com a abertura dos corredores britânicos, lhe viesse a dar alguma recuperação neste inverno. Ela não acontece, é negativo, mas eu diria que o mundo não tinha sido salvo. Eu gostava de acrescentar aqui três notas, se me permite. O mundo não tinha sido salvo por esta medida e, portanto, o mundo também não acabou hoje.

Era isso que eu queria perceber. Não tendo acabado hoje o mundo, como é evidente, o que é que as agências de viagens estão nesta altura a fazer para salvarem também? No fundo, é isto. É disso que estamos a falar.

Não são as agências de viagens, temos que ser todos. A primeira nota de resposta à sua pergunta é exatamente esta, é o significado, é o que é. Nada ficava salvo. A crise é tão grande e tão profunda que a recuperação não é nem uma medida, nem uma notícia, é um processo. E, portanto, esta notícia, quando foi a notícia da abertura, necessitava de consistência para se formar num processo. E afinal não foi nenhum processo, foi apenas uma boa notícia que se transformou numa má notícia. O que chama muito pra natureza da recuperação. A recuperação desta crise econômica é uma recuperação incerta, é de avanços e recuos. Por quê? Porque depende da confiança das pessoas para viajar, depende da mobilidade internacional e isso só vem quando vier a resolução da pandemia, quando vier a resolução da questão da saúde pública.

Até lá, o que esta área pode fazer?

Face a esta natureza de recuperação, o mais importante é a nossa atitude perante o que pode ser feito. Eu acho que há dois níveis muito importantes: um a nível europeu e um a nível nacional. O que já permite pensar que, quando eu falo em nível europeu e nível nacional, é que nada disto pode ser resolvido por uma entidade, por uma empresa, por uma associação. É todo um setor, toda uma economia, toda uma Europa que tem que resolver este assunto. A nível europeu, eu julgo que temos que passar desta inconsistência que representa este caleidoscópio, esta orgia de decisões mais pra frente, mais pra trás, mais pro lado, que é constante. São restrições diferentes de país para país e restrições de viagem que além de diferentes de país para país, estão constantemente a mudar no próprio país. Aqui está um bom exemplo. Temos que transformar isto em algo mais consistente.

E é possível fazer-se isso?

É possível pelo menos fazer uma coisa, que é promover restrições às viagens que estejam harmonizadas a nível europeu.

E isso não está a acontecer?

De todo. Dou-lhe um exemplo: quão mais seria inteligente que, em vez de andarmos aqui com parâmetros médicos e põe máscara, tira a máscara, pode entrar no país, não pode entrar no país, quão mais inteligente seria aprender a viver com o vírus e fazer testes uniformes à partida de qualquer país para qualquer país. E, portanto, um teste negativo permitiria viajar. Isto daria muito mais consistência na recuperação. É um exemplo. Dou-lhe outro exemplo. Eu sou um turista francês e venho de autocarro a Portugal e atravesso França num autocarro cheio. Atravesso Espanha num autocarro cheio e chego a Portugal e tenho que me dividir por dois autocarros, porque em Portugal só pode um por cada.

O que está a dizer é que as medidas europeias que nesta altura cada país faz a sua medida, cada cabeça a sua sentença, neste caso. É isso que está a dizer?

É tudo isso. Cada país faz a sua medida e pior, e ao fazer as suas medidas, altera-as constantemente.

E para o viajante, qual é a forma de segurança? Ou seja, se eu hoje comprar uma viagem, por exemplo, agora para o Reino Unido, se tivesse agora uma viagem marcada amanhã, saberia que já não iria fazer ou iria optar por não a fazer devido a esta situação. Teria lugar a reembolso? Também há esta segurança, há um seguro também para o viajante em situações destas, numa alteração imediata, isso já está incluído.

Existem condições gerais de viagem e, portanto, se a reserva for feita numa agência de viagens ou se for uma viagem organizada, o reembolso estará garantido de acordo com a lei. Existem, além do fundo de garantia, se a coisa correr mal.

Em situações destas, isto para precaver estas alterações imediatas de uma situação de risco, como hoje em dia viajar é um risco neste tipo de situações.

Absolutamente, o risco é muito grande. E é por isso que as condições harmonizadas trariam muito mais consistência, porque eu, se marcasse uma viagem pra um país, sabia que tinha que fazer um teste e sabia que não ia correr, não ter a surpresa desagradável. Vou lhe dar um outro exemplo caricato. Eu faço um teste, dou negativo e vou, por exemplo, pros Açores. Eu vou sentado alguém que não fez o teste e que chega aos Açores e faz o teste e dá positivo.

E isto pode acontecer?

Pode acontecer e quem deu negativo provavelmente vai receber um telefonema a dizer que tem que entrar de quarentena. Tudo isto temos que alterar. E isto é algo que não depende da vacina, não depende da proliferação de casos, depende apenas da nossa inteligência em conseguir concertar esforços e ter uma estratégia europeia.

Obrigado.

E isso pode ser feito.