O sol continuou a brilhar para a hotelaria nacional nos meses de verão. No habitual balanço da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), o verão de 2026 levou nota “positiva”, mas com alguns “ses”. O preço médio cresceu face ao ano passado, “mas pouco” (3%) e a taxa de ocupação desceu ligeiramente, detalhou Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da AHP. Porém, tendo em conta a inflação, “percebe-se que as coisas não estão brilhantes”.
A região da Grande Lisboa é uma das principais preocupações do setor neste momento. Nos meses de verão contabilizados pela AHP no inquérito aos hoteleiros, Lisboa foi a única a registar uma quebra nos três grandes indicadores: taxa de ocupação, preço médio e receita por quarto. Esta já era a expetativa do setor antes do verão, e confirmou-se.
“Não nos surpreende. Este abrandamento já tinha sido sinalizado. Tínhamos atingido um planalto e já não teríamos muito mais por onde subir” em Lisboa, explicou Cristina Siza Vieira. Segundo a AHP, “a questão do aeroporto” Humberto Delgado é fulcral no desempenho da Grande Lisboa. “Por muito otimizada que esteja a ser a operação”, com a previsão de 10 novas mangas em 2027, “as coisas estão estranguladas”.
As imagens de enormes filas em Lisboa tiveram “muito impacto nos turistas fora de Schengen”, com as horas de espera no aeroporto a causarem “muito estrago”. Além do aeroporto, a AHP também ressalva que o verão “normalmente não é o período alto em Lisboa”. O facto de haver mais oferta também explica a quebra nos preços e na ocupação.
Chamados a classificar o desempenho dos proveitos totais face ao mesmo período de 2025, 57% dos hoteleiros inquiridos na Grande Lisboa afirmaram que foram piores ou muito piores, contrariando a tendência nacional. Ainda assim, a Grande Lisboa mantém-se acima da média nacional em todos os indicadores, com uma ocupação média de 82% de junho a setembro, um preço médio de 173 euros e uma receita por quarto de 142 euros. A nível nacional, a ocupação média foi de 80% no verão, o preço médio ficou-se pelos 171 euros e a receita por quarto nos 137 euros.
▲ Lisboa registou quebras, mas continua acima da média nacional
Para o abrandamento da taxa de ocupação a nível nacional contribuiu também o arquipélago dos Açores, apesar de ter continuado acima da média em todos os indicadores. Essa quebra é explicada pela saída da Ryanair no final de março, que tem causado fortes preocupações no turismo açoriano por ainda não haver substituto.
Ainda no verão, o “campeão” do preço médio foi o Algarve, com 228 euros, muito acima da média nacional. Já o Alentejo foi a região que teve o maior crescimento absoluto em todos os indicadores, apesar de ainda ficar abaixo da média.
Quanto aos mercados emissores de hóspedes, a AHP sinalizou “algumas surpresas” nos meses de verão. Desde logo uma quebra de turistas do Reino Unido. A associação pergunta aos hoteleiros quais foram os três principais mercados emissores de turistas nos seus estabelecimentos, e o Reino Unido surge logo a seguir a Portugal (que também registou uma quebra). Mas se no ano passado o Reino Unido esteve em 55% das respostas, no verão de 2026 constou apenas em 49%. “Há algo para nós que não está muito explicado”, admite a porta-voz da AHP.
▲ AHP não consegue explicar quebra na emissão de hóspedes do Reino Unido
O inquérito permite ainda perceber que os turistas norte-americanos continuam em quebra, e que se limitam a ficar hospedados numa pequena parte do território português: são o principal mercado emissor de turistas da Grande Lisboa e o terceiro do Norte e, este verão pela primeira vez, o terceiro do Alentejo. Surgem ainda em segundo nos Açores e em quarto na Madeira.
Também sem surpresa, agosto foi o melhor mês para a hotelaria em quase todo o país, com exceção de Lisboa e Norte (setembro) e Açores (julho). “Não há alteração climática que supra a busca dos destinos de sol e mar em agosto. Há uma distribuição interessante nos meses de verão mas o mês de excelência de sol e praia é agosto”, destacou Siza Vieira.
A AHP questionou ainda os seus associados sobre as perspetivas para o outono, concluindo que as reservas de “última hora vieram para ficar”. As reservas estão abaixo do ano passado, mas o preço está ligeiramente acima. Esperam-se quebras no mercado nacional e ainda no britânico, e subidas nos mercados da Alemanha, Espanha e Brasil, graças às novas rotas da TAP.
O “novo normal” da instabilidade
Na avaliação dos riscos que podem ter impacto nas operações dos hotéis, a instabilidade económica e política continua a ser a preocupação mais apontada pelos empresários, ainda que com menos expressão do que no inquérito que a AHP fez antes do verão. Para 61% dos inquiridos ainda é um risco, face aos 71% que o apontavam há alguns meses. “Eu acho que é um novo normal vivermos em instabilidade”, defende Cristina Siza Vieira.
Por seu turno, o aumento dos preços da energia preocupa agora mais os empresários, com 58% a apontarem este como um dos grandes riscos para a sua atividade, face aos menos de 50% do último inquérito. Aumento dos custos operacionais, capacidade aeroportuária, oferta excessiva de alojamento turístico e contenção nos consumos em turismo nos principais mercados emissores são os outros riscos que o setor teme.
O grau de confiança no turismo aumentou face a maio, mas é menor do que o verificado pela AHP em janeiro. “Há um relativo otimismo, o verão correu melhor do que se estimava. O Banco de Portugal (BdP) reviu em alta o crescimento da economia e diríamos que houve um impulso na perceção da confiança no turismo, acompanhado pela revisão em alta da confiança do BdP na economia”, concluiu a porta-voz da AHP. As projeções da associação, que reúnem os dados dos inquéritos da AHP, do INE e do BdP, apontam para um 2026 com uma subida de 1,5% nos hóspedes (32,9 milhões), de 1,4% nas dormidas (83,1 milhões), de 5% nos proveitos totais (7,4 mil milhões) e de 3% nas receitas (30 mil milhões).
Verão no Algarve sem “avalanche” de portugueses e cada vez mais à espera das reservas de última hora