Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Em direto neste jornal está Daniela Nunes, especialista em assuntos internacionais, também investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Bem-vinda, Daniela, obrigado pela sua disponibilidade também. Temos ouvido aqui uma condenação unânime àquilo que se passou ontem à noite. Tudo aquilo que se passou irá dar mais força à candidatura republicana de Donald Trump para as eleições de novembro?
Olá, bom dia a todos. Eu julgo que sim, até porque geralmente o que acontece depois deste tipo de episódios é que o candidato, ou o político, ou a personalidade aqui em causa, e que é vitimada por um ataque deste tipo, ganha repentinamente a solidariedade e a compaixão de uma fatia, geralmente também considerável do eleitorado, e depois acaba mesmo, em alguns casos, por conseguir a eleição. Nós temos dois exemplos, um mais recente, outro mais antigo, um mais grave, outro menos grave: um no Brasil, com Jair Bolsonaro, e outro na década de 80, cá em Portugal, com o doutor Mário Soares. Até novembro, dependendo do ponto de vista, falta muito tempo ou falta pouco tempo. Faltam três meses e meio até à eleição, mas eu julgo que, em matéria de esquecimento, não falta muito tempo para que as pessoas possam de repente esquecer-se do que aconteceu. O que é que isso significa? Significa que este episódio vai ficar na memória das pessoas, que como eu dizia, vão sentir-se solidárias relativamente ao candidato do Partido Republicano e que vão possivelmente passar a percepcioná-lo como uma espécie de símbolo de resistência a uma série de problemas sociais, como seja, por exemplo, o vandalismo e toda a questão que envolve as armas nos Estados Unidos, que são um problema e não apenas em matéria de ataques a políticos e a presidentes. Portanto, julgo que nesta matéria a retórica trumpista vai conseguir marcar pontos e Trump sai aqui deste episódio como uma figura brava e corajosa. Aliás, veja-se do ponto de vista da postura corporal, a forma como ele se levanta. Há todo um cenário heroico associado a levantar a mão numa espécie de "eu estou vivo, não me conseguiram atingir", ou pelo menos fatalmente não me conseguiram atingir. Tudo isto também contrasta muito com o que temos andado aqui a comentar também sobre a postura mais decadente de Joe Biden. Que apesar de os dois homens terem mais ou menos a mesma idade, a verdade é que um parece, e desculpem a expressão, estar para as curvas, e o outro está visivelmente mais embaixo.
Mais de um étado.
Quer do ponto de vista físico, quer também do ponto de vista emocional, com algumas gafes, alguns esquecimentos e algumas paragens no espaço e no tempo. A única coisa que Joe Biden pode ganhar aqui é algum descanso, porque agora em vez de estarmos aqui a escrutinar as gafes do senhor, vamos estar a escrutinar o que aconteceu com Donald Trump. Mas até esse descanso tem um reverso da medalha. Este midiatismo tende a jogar a favor de Trump, porque como eu dizia, ele é aqui a vítima no meio disto tudo.
E desde logo também, Daniela, na convenção republicana que vai decorrer já esta semana, vai acabar por marcar também essa convenção.
Vai, e eu só acho que há aqui uma questão que pode ser menos favorável para os republicanos, que é o fato de rapidamente se terem descoberto ligações, talvez não muito profundas, trata-se de um jovem com apenas 20 anos, mas o atirador, portanto, o autor deste ataque, parece ter alguma ligação ao Partido Republicano, o que faz com que caia por terra qualquer que fosse a tentação dos republicanos de imputar algum tipo de responsabilidade aos democratas, por causa do ataque ao candidato do Partido Republicano. Deixa de fazer sentido a partir do momento em que rapidamente se conseguiu associar este jovem ao Partido Republicano e não ao Partido Democrata. Depois também gostava de acrescentar aqui uma coisa que me esqueci há bocadinho. Acho que a campanha eleitoral agora, e talvez já a partir das convenções dos partidos, possivelmente vamos assistir aqui ao retorno de um grande assunto, de um grande pilar dos assuntos norte-americanos e das campanhas eleitorais nos Estados Unidos, que é a questão do armamento, do uso e posse d'arma. E há aqui uma curiosidade que faz com que talvez Trump, nesta matéria, tenha que treinar melhor o discurso para se desenrolar daqui deste novelo que são as armas nos Estados Unidos e a liberdade e a gratuitidade com que jovens e sem ser jovens usam e disparam, e são autores de episódios como o que vimos hoje. Geralmente, os republicanos são mais favoráveis a esse uso de armas indiscriminado e os democratas têm vindo, e na pessoa de Joe Biden, muito especificamente, têm vindo a lutar um bocadinho pela imposição de algumas restrições a essa liberalização do uso e posse d'armas. Há aqui uma curiosidade associada a ter sido Donald Trump, que é, de resto, o maior defensor desta política das armas do que Joe Biden, ter sido ele a vítima de uma coisa que ele próprio defende. Há aqui uma bizarria por detrás disto, o que significa que, de facto Faz algum sentido que este tema regresse ao debate da campanha eleitoral e designadamente para que as limitações possam ir avante e para que episódios como este não se repitam, embora isso seja difícil, como sabemos, nos Estados Unidos. Isso não acontece só no domínio da política, também acontece no domínio da educação, nas escolas e no domínio social da vida das pessoas, em centros comerciais. Volta e meia ouvimos falar deste tipo de acontecimentos e deste tipo de episódios de gratuitidade, de violência gratuita, aliás. Portanto, seria bom que este tema regressasse e que regressasse no sentido de haver mais restrições ao uso de armas, porque independentemente dos partidarismos e dos favoritismos, em democracia isto não é aceitável, não há nada que desculpe isto e é de lamentar, quer tenha sido Donald Trump a vítima do que aconteceu ontem, quer fosse outro candidato qualquer ou outra personalidade qualquer, independentemente do partido. Isto não faz sentido e sobretudo num país como os Estados Unidos, que deviam ser o garante da segurança e da proteção de alguns valores, como é, por exemplo, a liberdade de expressão, seja de quem for, com segurança, sem o medo que este tipo de coisas aconteçam, embora depois também pudéssemos acrescentar aqui a questão do corpo securitário, se falhou, se não falhou. Há aqui umas estranhezas apontadas.
Ainda há muita coisa para perceber do que se passou.
Sobretudo, parece que o atirador estava a meros 200 metros de Donald Trump, num telhado de um edifício mais alto ali nas redondezas. Portanto, 200 metros não é nada do ponto de vista do trabalho que este corpo securitário deveria ter feito, que pelos vistos fez, o que também alimenta aqui a teoria da conspiração de que isto pode ter sido orquestrado pelo próprio partido republicano. Mas se assim fosse, por acaso Donald Trump ficou apenas com um ferimento ligeiro, mas se tivesse acontecido alguma coisa pior, não sei se o próprio partido republicano arriscaria, e acho que não, colocar a vida do candidato Trump em risco. Mas de facto já se ouve falar desse tipo de teorias, porque é flagrante o atirador estar ali tão perto. Não faz grande sentido, tendo em conta a dimensão que sabemos que a segurança e que os serviços secretos norte-americanos têm. Todo o espetáculo que é montado, espetáculo assim com algumas aspas, sempre que existe um comício ou eventos até menores, de importância menor do que os comícios, geralmente os candidatos estão altamente protegidos para que estas coisas não aconteçam e desta vez a segurança falhou e falhou de forma flagrante.
Daniela Nunes, muito obrigado pela sua análise. Daniela Nunes, investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, a ajudar-nos aqui a olhar também para as consequências políticas deste ataque ontem à noite contra Donald Trump.