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O que se pode esperar da participação de Mario Draghi no Conselho de Estado hoje? O que Marcelo Rebelo de Sousa pretende com esta consulta ao italiano?

Julgo que, sobretudo, é um bocadinho na linha do que tem sido nesse aspeto, a forma como o Presidente da República tem gerido estas reuniões do Conselho de Estado, de trazer a Portugal personalidades, especialistas e referências em matérias de relações internacionais e internacionais, e nomeadamente no âmbito da União Europeia. A visita de Draghi julgo que tem, sobretudo, a ver, e será sobretudo isso que o Marcelo pretende, com uma explicação e para todos os efeitos, aproveitar o Conselho de Estado para discutir aquela que é a estratégia Draghi, que decorre do relatório Draghi. Isto é, de que forma é que a Europa e portanto, Portugal, nesse aspeto, e é sobretudo por aí que se pode interpretar esta visita e esta presença no Conselho de Estado, de que forma é que Portugal pode contribuir para esta agenda, para esta mudança que o relatório Draghi propõe para a forma como a Europa encara o seu futuro, se quisermos, e de que forma é que se vai realizar e como é que o nosso país pode participar nela, em que termos, até onde, com que recursos. É, sobretudo, essa perceção e essa compreensão que esta visita poderá permitir, de uma forma potenciada pelo facto de se passar e de haver uma reunião com os conselheiros de Marcelo Rebelo de Sousa, do Presidente da República, numa reunião do Conselho de Estado.

A outra questão que eu tenho para lhe fazer é relativamente à estratégia da Comissão Europeia para fazer frente a Estados Unidos e à China em diversos setores. Vai ser apresentada hoje e gostaria de saber quais é que são as perspetivas para este documento.

Nós estamos a assistir, diria que quase dia a dia, a uma espécie de corrida, uma espécie de constante alteração dos pressupostos. Já agora, para lhe dizer, por exemplo, que este acontecimento dos últimos dias, este surgimento de uma startup chinesa que no fundo, no âmbito da inteligência artificial, vem também causar uma grande revolução. Com a Nvidia, por exemplo, a cair no mercado bolsista de uma forma dramática, isto é, a ideia de que os grandes investimentos em inteligência artificial seriam o futuro, enfim, e uma mudança quase tão grande como foi a própria internet. Essa ideia de que esses grandes investimentos e essa estratégia, nomeadamente nos Estados Unidos, representaria uma grande preocupação e a grande aposta para o futuro. Essa ideia parece estar posta em causa. Estamos a assistir quase dia a dia a transformações. A União Europeia tem neste momento uma agenda e essa agenda é uma agenda que está bem definida, repito, é o relatório Draghi, sobretudo, mas também o relatório Beretta. Há um conjunto de instrumentos, mas vai tendo também todos os dias que se adaptar a uma nova realidade. Esse instrumento, essencialmente, aposta em quatro áreas: a inovação, a descarbonização e uma descarbonização competitiva, se quisermos, ou servindo para reforçar a competitividade europeia. Depois, a competitividade em si mesma e, portanto, de que forma é que a Europa se pode reformar, pode alterar os seus pressupostos de funcionamento. Bom, nomeadamente questões como a desregulação, que estamos a assistir em todas as áreas, até neste momento no próprio Reino Unido, a ministra das Finanças inglesa também já vai aparentemente nesse caminho. Portanto, há neste momento um discurso comum, um discurso generalizado na Europa, no sentido de cortar os chamados red tapes e portanto, cortar aqueles limites, aqueles bloqueios, aqueles impedimentos ao crescimento. A ideia é um bocadinho essa, um bocadinho também se quisermos, na esteira daquilo que é a administração Trump e o seu projeto. E finalmente, na área da segurança. A Europa precisa de facto apostar aí também, quer no nível da segurança, se quisermos em termos militares, em termos da sua defesa, quer também em termos da sua dependência ou criar uma economia estratégica da sua dependência em relação aos recursos energéticos. E portanto, essa agenda e o investimento, onde é que se vai buscar os recursos para fazer. Essa é a agenda que vai naturalmente ser desenvolvida nos próximos dias. E vai ser desenvolvida, repito, sempre tendo em conta a atualidade e, portanto, no âmbito da inteligência artificial, neste momento, o tal grande drive, a tal grande linha, a tal grande tendência por onde a Europa também vai ter de entrar e sabendo que o pode fazer, estas notícias que vêm da China, se quisermos, são notícias que acabam por, para todos os efeitos, potenciar essa aposta. E, portanto, o que podemos assistir no fundo, para cortar um discurso mais longo, é dizer que podemos esperar que a Europa consiga, de facto, desenvolver a sua nova estratégia, a sua estratégia de alteração do seu modelo em muitos aspetos, e isso também muito motivado por aquilo que vem pelas notícias e pelos sinais que vêm já há algum tempo dos Estados Unidos, conseguir fazer, de facto, tornar muito mais competitiva de novo a sua economia, ser capaz de se defender a si própria, tornar, no fundo, voltando a ser, se quisermos, um competidor ao nível dos Estados Unidos e da China, que neste momento está longe de ser, apesar dos discursos otimistas que continuamos a ouvir