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Os Caminhos de Santiago são cada vez mais percorridos por desportistas, por curiosos, por amantes da natureza ou simplesmente por grupos de amigos ou famílias que o fazem por curiosidade ou por desafio à sua capacidade física. E esses milhares de turistas, portugueses e estrangeiros, têm também curiosidade em conhecer um pouco mais sobre Portugal, as suas gentes, a sua história, a sua cultura e tradições, as paisagens e, claro, a gastronomia e os vinhos. A região dos Vinhos Verdes é o sítio certo para essas descobertas. Para nos ajudar a percorrer os Caminhos de Santiago, tenho hoje comigo na Rota dos Saberes e Sabores, com o apoio da Região dos Vinhos Verdes, Celeste Patrocínio, da Adega de Ponte de Lima, e Paulo Edmonde, da Adega Edmondo de Val. Obrigado por terem aceitado o nosso convite e bem-vindos. Celeste Patrocínio, toda a internacionalização é importante e é bem-vinda. Vocês têm alguma percepção da influência dos Caminhos de Santiago e dos seus caminheiros no fluxo de turistas que vos visitam?

Muito obrigada. Antes de mais, deixe-me agradecer a possibilidade de estar convosco para falar da Adega de Ponte de Lima. Em relação aos peregrinos, nós não temos nenhuma ação dirigida para os peregrinos, que passam aqui muito em Ponte de Lima, como é sabido. Mas nós temos um feedback interessante que eles conhecem os nossos vinhos na restauração, nas lojas, nos cafés, etc. E acabam por chegar à adega com as fotografias dos vinhos que beberam e comprar esses vinhos. É uma coisa interessante, cria-se aqui uma ligação interessante. Como sabemos, a adega está praticamente no meio da vila. E os nossos vinhos estão na restauração, nas lojas, nos cafés e também pelas aldeias por onde esses peregrinos vão passar. É o que eu posso dizer sobre isso. Quer dizer, que há consumo há, que há ligação há, e sobretudo fotografam as nossas garrafas, o que é muito bom, porque também assim as levam para os seus lugares de origem e lá encontrarão os nossos vinhos.

Muito bem, é verdade. Por outro lado, hoje em dia, como sabemos, os peregrinos estão longe de fazer todos os caminhos por motivos religiosos. Hoje em dia há muitos que fazem por passeio, com amizade, com amigos, com a família. E esses também são consumidores de vinhos, obviamente. Vocês não fazem nada, nenhuma ação específica junto desse tipo de turistas?

Nós temos visitas à adega, muitos grupos são desses turistas. Nós temos visitas à adega, temos provas na adega, temos provas fora da adega, inclusive na ponte velha. Que é muito interessante. Temos passeios de barco, temos jantares vínicos, almoços, nós temos isso e temos através de agências ou de grupos. Nós temos grupos que fazem os caminhos e que já nos visitam há anos, sempre os mesmos grupos. É interessante essa ligação.

Muito bem. E outra coisa, vocês recebem muitos estrangeiros?

Já recebemos. Às vezes até sem marcação. Então na altura da vindima e em agosto e setembro, recebemos muitos que querem mesmo ver a adega por dentro, que às vezes é um pouquinho complicado. Normalmente sou eu que faço isso, porque as pessoas estão todas muito ocupadas, eu também estou, mas enfim, estou menos um bocadinho em trabalhos mais técnicos, em tarefas mais técnicas ou operacionais. E faço muito isso, e eles ficam encantados por ver o processo da entrega da uva, das grandes filas dos tratores, dos caminhões. Hoje em dia já não são pequenas dornas. Já são grandes quantidades num transportador. E ficam encantados com o processo e com os nossos equipamentos, que temos vindo a modernizar. É também muito interessante. A vindima é muito rica, porque além do contato com os sócios e do trabalho em si, que é exigente, tem também esta parte muito boa de receber pessoas de fora que nos querem visitar e ver como é por dentro. E isso é muito interessante. Gosto muito dessa parte.

Muito bem. Falou também que muita gente prova os vossos vinhos na restauração, etc., fotografa para depois vos visitar e os comprar. Não acha que isso também se deve ao aumento constante da qualidade dos vossos vinhos? Dos Vinhos Verdes em geral, mas neste caso da Adega de Ponte de Lima.

Se se deve ao aumento da qualidade dos nossos vinhos? Eu julgo que os nossos vinhos estão com altíssima qualidade. Aliás, nós temos tido prémios internacionais, mais internacionais do que nacionais, digamos, que de facto confirmam esta nossa alta qualidade. Para a qual contribui, em primeiro lugar, o nosso enólogo, engenheiro Fernando Moura, cujo prestígio e competência é reconhecido por todos, e também pelos nossos técnicos que dão apoio aos nossos associados. Nós só fazemos vinho, produzimos vinho com uvas dos nossos associados, exclusivamente. Daí a nossa variação da produção. Uns anos é mais, outros anos é menos. Isso dá-nos a garantia de que os nossos vinhos são bons.

Isso é ótimo. Os milhares de turistas, incluindo os caminheiros, claro, que passam por Ponte de Lima, e são muitos milhares durante o ano e durante o ano todo, normalmente fazem ali uma refeição ou duas, pelo menos. É feito algum trabalho junto da restauração? Já me disse que os vossos vinhos estão por toda a restauração. Vocês fazem algum trabalho específico dirigido sobretudo para os turistas estrangeiros?

É, nós até fazemos aqui provas dirigidas à restauração E fazemos também nos restaurantes. Recebemos os nossos turistas com jantares vínicos ou almoços nos restaurantes daqui da vila, onde estão os nossos vinhos. Como digo, ações muito específicas dirigidas aos peregrinos de Santiago não temos, mas o que temos é para o turismo em geral, para os turistas em geral, e onde esses estão abrangidos. E que vêm cá muitos, alguns até de bicicleta passam por aqui. Enfim, trazem a sua identificação de peregrinos.

Isso é muito interessante. Finalmente, na sua opinião, o que poderia ser feito mais para motivar os turistas estrangeiros, incluindo os peregrinos, claro, a parar em Ponte de Lima para provar os vinhos verdes, juntamente com a excelência da gastronomia tradicional, claro, daquela gastronomia que nós conhecemos? O que se poderia fazer mais? Eu sei que já se faz muito, mas na sua opinião, acha que há algo mais que poderia ser feito?

Talvez, mas nós estamos em toda a restauração. Já estamos e os nossos vinhos são vendidos aqui, poderíamos fazer. Mas eu acho que da forma como a Adega funciona, com uma ligação muito estreita à restauração e às lojas, diretamente ou através dos nossos distribuidores, que funciona. Aliás, há muitas feiras e promoções aqui em Ponte de Lima, dos vinhos verdes e da gastronomia, etc. Nós estamos também sempre presentes aí, mas não sei se poderá haver alguma ação específica. Mas enfim, acho que já temos aqui algum resultado desta ligação que temos e do que fazemos aqui.

Portanto, a Adega de Ponte de Lima pode também funcionar como um exemplo para outros produtores, mesmo na dimensão daquilo que se pode e deve fazer para divulgar os vinhos verdes.

É porque há aqui uma coisa também interessante que nos diferencia. Nós temos aqui algumas características diferenciadoras. Uma é essa, a primeira, de produzir vinhos exclusivamente com uvas dos nossos sócios. Isso em primeiro lugar. Em segundo lugar, também estamos aqui numa região de minifundo, em que os nossos associados, muitos deles, não estou a falar só do turismo de habitação, que já existe há mais tempo, mas do turismo rural, que existe e que é muito importante para essa divulgação, para a promoção do vinho verde e também, e sobretudo, para aumentar o rendimento dos nossos associados. Isso é um ponto muito importante. E esses nossos associados, que também têm turismo rural, e que é muito simpático ter os turistas na vinha, nas suas atividades normais, verdadeiramente, genuinamente. Depois esses associados remetem, digamos assim, passe a expressão, os seus turistas para a Adega de Ponte de Lima para nos visitar. Pronto, que é interessante esta ligação próxima desses sócios e que acaba também por ser uma forma de divulgação dos nossos vinhos muito interessante.

E todos têm a ganhar com isso, obviamente.

Exatamente. E como digo, este aspecto do turismo rural e esta atividade que complementa o rendimento do viticultor e do nosso associado é muito importante. E o que eu já lá iria, não sei se me permite, mas um dos problemas que eu não queria falar, não posso deixar de falar. Eu não gosto de tapar o sol com a peneira. Para além do mais, os tempos não andam muito solarengos. Mas não gosto. E um dos problemas que pode conduzir ao decréscimo, senão ao abandono do cultivo da vinha, é o problema do rendimento que o viticultor tem. Portanto, a valorização do vinho verde é indispensável, é imprescindível para se manter o cultivo da vinha. Porque se por um lado há o abandono pelo efeito do envelhecimento das pessoas, dos sócios. Por outro lado, não é possível estar a atrair jovens se o rendimento não for suficiente, se não for compensador. E portanto, esse problema existe. Estas atividades que os associados têm, para além do cultivo da vinha, como é o turismo rural, para aqueles que podem, que têm casas que o permitem. Segundas casas ou nas próprias casas, mas sobretudo nas segundas casas que tenham nas suas propriedades, é muito importante, porque ajuda, de facto, ao rendimento, ajuda a complementar o rendimento e, portanto, dificilmente essas pessoas abandonarão. Porque os novos têm chegado a sócios da Adega por uma outra via, que é a via do arrendamento das terras. Nós hoje podemos ter dois ou três ou quatro sócios que estão a abranger cada um uns cinco ou seis terras arrendadas. Portanto, este foi o meio, digamos, que nós também contribuímos um bocadinho para isso. E temos aí jovens que têm essa atividade, o que nos permite manter as terras cultivadas e as vinhas a produzir. E portanto, tendo menos sócios, não descemos a produção. Com menos sócios, nós temos a mesma produção, que este ano foi superior à do ano passado, com menos sócios a entregar.

Muito bem. E têm sócios mais jovens, o que é realmente uma boa solução. Dois irmãos galegos recuperaram a sua origem no Alto Minho e exploram a Adega de Mondeval, não muito longe do Rio Minho. Paulo, vocês também são visitados por caminheiros que se dirigem ou que regressam de Santiago de Compostela?

Sim, a verdade é que temos muitas visitas de peregrinos Normalmente o que eles fazem é dormir em Tui ou Valença do Minho e depois agendam uma visita à nossa adega.

Que tipo de comunicação vocês utilizam para tentar atrair mais turistas? Sobretudo esses turistas. Vocês fazem comunicação. Que tipo de comunicação vocês usam para conseguir esses turistas?

Principalmente, o mais usado, por suposto, é o Google, as resenhas de Google. E depois o que fazemos é deixarmos cartões, flyers, em locais onde sabemos que esses peregrinos vão dormir e também em alguns restaurantes na zona de Valença e de Tui e também nos centros de atenção ao turista.

A rota de Santiago passa perto de vocês, não é?

De feito, sim. Passa justo ao lado. Às vezes temos que modificar as flechas amarelas para que passem justo pelo meio da quinta.

Isso é engraçado. Mas vocês também têm outros turistas, não é? Qual é o tipo de turistas que vocês recebem mais?

O tipo de turistas que mais recebemos são, sobretudo, portugueses e galegos, pela cercania. E depois muito inglês. Ultimamente está vindo muito belga e gente de todo o mundo, inclusive franceses, japoneses, e há pouco, australianos. Eu acho que muita gente o que faz é buscar no Google recomendações de adegas e suponho que quando está perto, o Google recomenda a nossa.

E esses turistas que vos visitam vêm ver a quinta também, mas vêm sobretudo por causa dos vossos vinhos, não é?

Vêm quase 100% provar os vinhos. O que querem é enoturismo. Visita pura, eu acho que nenhuma. Sempre quando ligam, porque nós sempre pedimos que façam o favor de agendar uma visita. Normalmente, sempre o que buscam é a visita de enoturismo. Querem provar os nossos vinhos, nos perguntam: "Que vinhos têm? Têm branco, têm tinto? Como é a visita? Quanto dura?".

E vocês vendem muito vinho à porta da adega? Ou seja, esses turistas, esses visitantes compram vinho para levar?

Vamos ver. Eles compram, mas tampoco compram muito, porque a maior parte deles o que faz é vir de avião e tampoco podem andar a levar muito vinho. O que acontece é que é uma grande ajuda, é uma forma de promocionar a adega sem gastar muito, porque realmente eles vêm, provam o vinho, tiram uma foto conosco, colocam no Instagram. E realmente as visitas não são para vender, são para promocionar.

Muito bem. Vocês fazem, já me disseste, enoturismo, portanto vocês dão a provar vinhos, os vossos vinhos aos turistas, mas dão a provar só o vinho ou também acompanham com alguma comida?

Nós o que tratamos é de dar a conhecer a gastronomia regional a essas pessoas, tanto a de Galiza como a de Portugal. Às vezes damos uma galega ou tortilha e às vezes também bolinhos de bacalhau ou um bacalhau fácil de fazer, um Gomes de Sá, e dar a conhecer a gastronomia regional, que por suposto que parece muito bem com o nosso vinho.

Claro, muito bem. Paulo, como é que os caminhos de Santiago podem ajudar a divulgar a região dos Vinhos Verdes e os seus produtos, na vossa opinião? Neste sentido, sabes o que é feito na Galiza?

Sim, vamos ver. Na Galiza agora estão se volcando muito nesse tipo de turistas, porque há uns anos, há já muito tempo, tinham o olhar assim como dizendo: "Vêm com mochila, não trazem dinheiro". Mas depois se deram conta que no final sim, que gastam, que dormem, que é gente já de uma certa idade, vai gastar, vai tomar um vinho, vai comer. Tui, por exemplo, está completamente volcado com os turistas do Caminho de Santiago. Apareceram três ou quatro novos hotéis, hostales, e está sendo uma via de enriquecimento muito bom. Aqui em Portugal, eu acho que também se está trabalhando muito bem e se calha, não digo em Portugal, digo em Valença do Minho, mas também se está tratando de promocionar o mais possível o Caminho Português. O que mais incidiria é promocionar mais forte o Caminho Português e nada mais.

Muito bem. Aproveitar toda a dinâmica dos caminhos de Santiago pode ser uma mais-valia para uma maior divulgação da qualidade dos vinhos da região dos Vinhos Verdes. Agradeço aos dois terem estado aqui comigo. Voltamos a ver-nos no próximo episódio.