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Começa como uma brincadeira, experimentamos uma vez, achamos piada, depois de um mês experimentamos outra, e começa a se tornar parte da normalidade, porque já não sabemos sair sem utilizar determinadas substâncias.
O primeiro embate quando eu entrei em tratamento foi: "eu aqui sinto-me surdo". Acho que a expressão que me saiu na altura foi como se fosse o Harry Potter em Hogwarts a aprender magia sobre mim próprio.
Neste processo todo, há uma coisa que se chama negação. Nós achamos sempre que estamos bem e os outros dizem que não estamos. Eu hoje não vou beber, eu hoje venho para casa cedo. Isso não existe. A partir do momento em que começamos, e depois há uma coisa: a adição tem uma componente que é a compulsão, e a partir do momento em que começamos, não paramos.
Explicaram-me agora que eu sou adicto, que isto é, e assim serei ao longo da minha vida, que isto é uma doença de emoções. Como é que isto se resolve?
Digamos que é uma substância que nos está a fazer acreditar numa coisa que não está a acontecer. Basicamente, é desligar o botão o mais rápido possível e aproveitar o mais rápido que foi os dois dias que tinha de festa, porque segunda-feira estaria a trabalhar novamente.
E eu pensei na altura que o facto de estar a ir para tratamento foi num momento em que tu pensas que estás a ser fraco, porque te estás a render, porque não estás a conseguir sozinho. Pelo contrário, foi realmente o ato mais bonito que eu podia ter comigo próprio.
A partir do segundo copo, para mim já não existia limite. A partir do segundo copo, o meu cérebro dizia-me: "bebe mais e bebe mais e bebe mais e agora vais fazer tudo o resto". A partir daí, era assim que acontecia. Realmente havia já ali um padrão. E houve um dia que acordei e que disse: "não posso continuar nisto".
Eu nunca vou falar dos consumos no passado ou nunca vou falar da adição no passado. Isto pode me acontecer, eu tenho que estar sempre alerta.
Ana Nunes da Silva, é mesmo assim? Nunca se pode falar dos consumos usando o passado. É preciso estar sempre alerta?
Sim. Se a pessoa é adita, é algo que é para a vida e, portanto, é no presente.
Este é o Sair do Labirinto. Eu sou o Paulo Farinha e vou conversar com a psicóloga Ana Nunes da Silva sobre adição. Ouvimos as vozes de Pedro Barroso e José Carlos Pereira em alguns excertos das entrevistas que deram para a série Labirinto, conversas sobre saúde mental, que pode encontrar facilmente no site do Observador. Não falaremos hoje sobre as histórias destas duas pessoas em particular, até porque Ana Nunes da Silva não conhece estes casos. Vamos falar, isso sim, de outras histórias que conhece bem, pela experiência de mais de 15 anos em acompanhamento de pacientes com comportamentos aditivos e de investigação nessa mesma área. Psicoterapeuta, é doutorada em Psicologia Clínica e professora auxiliar da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Ana Nunes da Silva, bem-vinda. Tratar uma dependência pode significar tentar sair de um labirinto com muitas portas giratórias? Em menos nada, está-se novamente no corredor de onde se queria sair.
Olá, obrigada pelo convite. Sim, é uma boa metáfora. Quando se está, e como nós ouvimos nestes excertos, numa situação, e pensando em particular, de dependência de uma substância, seja ela uma substância ilícita, heroína, cocaína, álcool.
Tabaco.
Tabaco também. Ainda que o tabaco provavelmente não cause tantas limitações como as outras. Pode trazer constrangimentos, mas se calhar não tão gravosos para a vida da pessoa como o álcool e outras substâncias. Há uma sensação de poder não saber conseguir sair dali. Por isso é que se fala na questão de ser uma doença. A pessoa tem uma doença e precisa de ajuda nesse sentido. O que acontece muitas vezes é que as pessoas nem sequer têm consciência que estão nesse labirinto e que estão na porta giratória como se estivessem numa espécie de carrossel.
Quando falamos de adição, é a mesma coisa que falarmos de dependência, de falarmos de vício? Isto são três palavras para o mesmo conceito clínico?
Não. Nós quando falamos de dependência e adição, podemos estar a falar da mesma coisa. Vício não é um termo técnico. Eu lembro-me sempre de uma colega que dizia que vício é nós cuspirmos para o chão. A expressão dependência ou adição remete para uma doença e quando falamos destes casos, estamos a falar de doença.
Muito bem. Os excertos que ouvimos e estes primeiros segundos da nossa conversa, falámos de substâncias, falámos de álcool, drogas, também tabaco. No entanto, quando falamos de adição ou dependência, podemos falar também de adição a jogo, de adição a jogo online, videojogos. É também um problema crescente? É também um problema que leva muita gente às consultas de psicoterapia para pedidos de ajuda?
Sim, ou seja, cada vez mais há outro tipo de dependências e nós podemos falar de dependências que têm uma dimensão mais física para além da psicológica e daquilo que são dependências mais comportamentais. Até se fala de comportamentos aditivos e dependências, fazendo esta distinção. E sim, em particular a questão dos videojogos, cada vez mais presente nos dias de hoje. A questão da dependência online também, que depois pode ter vários contornos, nomeadamente adição às redes sociais, adição a jogo online, adição a pornografia. Mas sim, o que elas têm em termos de semelhanças é esta questão da perda de controle associado à vontade do seu consumo ou do ato em si.
Muito bem. Já falaremos então de essas outras dependências. Falemos então, por enquanto, do consumo de substâncias. Consumir, consumir em excesso, ter uma dependência. São também três coisas diferentes. Clinicamente, presumo que estejam bem claros estes três níveis, mas para quem passa por isso, quais são os sinais de alerta que poderão levar uma pessoa a pensar: "isto se calhar já é demais"?
Nós podemos pensar nisto num espetro. Como nós ouvimos nas entrevistas, até pode começar de uma forma, vamos lhe chamar inocente, e portanto, recreativa.
Um consumo recreativo.
E há pessoas que o conseguem fazer sem passar para um consumo de risco. Quer dizer, todos os consumos têm risco. De qualquer das formas, sem que isso se coadune com um quadro de dependência, de qualquer das formas, quando a pessoa começa a descurar algumas responsabilidades da sua vida, quando começa a fazer a sua vida em função da substância ou dos contextos onde eu estou com a substância. Alguém que começa a dizer que quer sair mais à noite ou que quer estar mais no café, quer estar mais com aqueles amigos, ou até escolhe mais amigos que também consomem. De alguma forma negando a questão dos consumos, mas assumindo que é por uma questão recreativa, quando, no fundo, já estamos num cenário que pode ser problemático.
Admitindo então que esse passo foi dado, e estas nossas conversas chamam-se justamente Sair do Labirinto, o acompanhamento psicológico para controlar uma adição é um passo muito difícil que a pessoa tem que dar? Se for um menor, pode vir convencido ou arrastado pelos pais, mas para um adulto, esse primeiro passo, esse reconhecer que precisa de ajuda, é muito difícil?
Sim, muitas vezes, à semelhança de adolescentes, vêm arrastados também.
Vêm também arrastados.
Sim. É pouco comum, pode acontecer. É pouco comum a pessoa vir por iniciativa própria, ou seja, "eu venho porque acho que tenho um problema com uma substância, ou acho que tenho uma dependência ou um comportamento aditivo". E, portanto, é muito comum, mesmo que as pessoas venham sozinhas, venham porque foram empurradas ou foram chamadas a atenção por alguém. "O meu marido disse-me que se eu não viesse fazer um tratamento pro consumo de álcool, que se divorciava de mim". Como se houvesse uma motivação externa.
No entanto, o passo decisivo é da própria pessoa. Essa tomada de consciência para dar esse passo é uma coisa solitária?
Eu diria que em acompanhamento, nós pretendemos que não seja. Ou seja, esse é o objetivo do acompanhamento, e eu até tenderia a dizer, como psicóloga clínica, que o que nós queremos é que a pessoa deixe de criar uma relação com a adição e que passe a criar novas relações. Alguém dizia nas entrevistas que era uma doença das emoções. Eu diria que é uma doença também das relações. E portanto, de restabelecer outro tipo de relações com o próprio e com o outro. Claro que o primeiro passo pode ser vivido como muito solitário, porque o problema é do próprio e sou eu que me sinto no tal. É quase como se eu saísse de um carrossel e estou numa porta giratória.
Exatamente, e é preciso sair pra perceber isso. Cada caso é um caso, ou perante uma dependência de uma substância, há protocolos que estão previamente estudados e, portanto, já sabemos que perante determinados sinais, este é o caminho para largar aquela dependência, para trabalhar o fim dessa adição, ou há vários corredores para sair de um labirinto destes? O que faz depender qual o método ou qual a abordagem para aquela adição em particular?
Podemos ter vários quadros. Quer em função da substância, quer em função da gravidade. Eu, se calhar, vou me focar um pouco mais na gravidade. Em função daquilo que possa ser a gravidade do quadro de dependência e depois também os recursos da pessoa e da comunidade, nós podemos fazer um tratamento em ambulatório, a pessoa vem à consulta, normalmente há sempre a intervenção médica, isso é muito claro nas adições e há sempre um trabalho esse nível. Podemos ter também acompanhamento psicológico, que é essencial, por isso que já falamos das questões mais relacionais e emocionais, como é que eu reaprendo a viver a minha vida e uma vida sem uma substância. Podemos pensar em internamentos, e pode ser, mais uma vez, em função da gravidade ou outra dimensão, nomeadamente, eu tenho uma adição, tenho uma família desestruturada e preciso ter um período de retirada desta família, por exemplo.
E estar longe desse ambiente, que pode também potenciar esse consumo, pode ser uma boa ideia. Mas nem sempre é então necessário dar início ou ter um internamento numa clínica, naquilo que habitualmente chamamos uma clínica de reabilitação. Há casos de dependências que são controladas sem implicar um internamento ou apenas em ambulatório?
Sim. Posso falar da minha experiência, quando trabalhei particularmente em alcoologia, mas também apanhávamos situações com consumos de outras substâncias, álcool e H, álcool e cocaína, pessoas que tinham sido dependentes da heroína, que estavam em programas de metadona, mas tinham atualmente consumos de dependência de álcool. E existem casos onde é possível, mais uma vez, se não for um caso muito grave e se tiver uma boa estrutura, vamos imaginar uma pessoa que tem uma boa rede familiar, que mantém o seu trabalho, mas que tenha esta dependência, é possível fazer um tratamento em ambulatório.
E perante pessoas e potenciais ouvintes que nos estejam a escutar neste momento e que sintam ou que tenham vontade de dar esse passo, é possível então, havendo uma boa rede de apoio, dar início a um processo de desabituação, se posso colocar as coisas neste termo, sem naturalmente que isso implique um período de internamento e de estar longe da sua família e estar longe do seu ambiente. Assim haja um bom acompanhamento externo e familiar?
Em ambulatório? Sim, ou seja, provavelmente isso vai depender da substância. Estou a pensar, se calhar, aqui na questão do álcool, onde isso, se calhar, é mais fácil, principalmente se a pessoa não tiver sintomas da abstinência, ainda que se possa fazer um protocolo com acompanhamento médico, com o apoio da família, sem estar em internamento.
Quando falamos de substâncias ilícitas, quando falamos de cocaína, de heroína, aí é recomendado um internamento?
Pode ser mais difícil. Não é impossível, mas pode ser mais difícil.
E como saber escolher uma clínica de reabilitação? Perante uma decisão dessas, o que é que habitualmente influencia? Perguntar a um profissional de saúde é sempre uma boa dica que poderá dar boas sugestões?
Sim, perguntar a um profissional de saúde será importante para perceber. Esse profissional poderá fazer uma primeira avaliação das dificuldades da pessoa. Por vezes, existe não só a questão da substância, mas podem existir outras dificuldades que a pessoa tenha. Acompanhei, por exemplo, pessoas com dependência de álcool que tinham quadros de perturbação de estresse traumático, que tinham estado na guerra, ou pessoas com perturbações de personalidade. E, portanto, a escolha dessa clínica ou desse espaço pode também estar-
E das condições que têm para receber pessoas com essas ou aquelas patologias ou comorbilidades.
Exatamente.
O tempo é essencial aqui num processo destes. Há aqui um horizonte temporal para que se possa atirar para dar início a um processo destes?
Depende muito, mais uma vez. Quando nós pensamos em clínicas e, portanto, em espaços de internamento, estou a pensar no álcool, nós temos estruturas públicas que estipulam quatro semanas, no mínimo, usando o programa Minnesota, mas pensamos em comunidades terapêuticas, normalmente três meses a seis meses ou um ano. E, portanto, isto vai variar, mais uma vez, vai depender daquilo que seja a gravidade, os recursos da pessoa.
As vantagens de um programa desses e de uma imersão numa instituição com essas características é que permite estar longe de uma série de condições que poderão ser propícias ao consumo, mas são também, elas próprias, umas viagens espirituais. Há pouco, ouvimos no início da nossa conversa, o Pedro Barroso falar que se sentia como o Harry Potter quando deu início ao seu processo. O Harry Potter em Hogwarts a aprender magia sobre ele próprio. É um pouco assim, esse espaço de segurança onde há tanto para descobrir e para conhecer sobre as próprias pessoas?
Eu achei curiosa essa descrição. Eu penso que é um processo de desenvolvimento. Imagino que exista também um lado negro, um lado de desafio associado a isso e, portanto, é quase como se a descrição que ele faz fosse de uma fase de namoro. E eu assumiria que há flutuações, não é só de namoro, mas sim, muitas vezes este tratamento implica, nós estamos a falar que parece que é paragem específica só dos consumos, mas o problema normalmente é muito mais profundo que isso. E o tratamento não é propriamente parar os consumos, até porque isso muitas vezes pode ser a parte mais fácil do trabalho. A questão é eu conhecer-me e manter esta paragem, manter uma vida sem ter esta substância. Isso é todo um processo de desenvolvimento pessoal.
Essa era uma questão que eu tinha justamente pra lhe colocar. Falamos de um interregno da vida da pessoa, sim, haja condições financeiras, familiares, para isso, claro, mas depois há toda uma vida que continua. Quando findo um determinado período de tempo, como é que se desencadeia esse processo? Que fases é que isso implica? Há consultas regulares a cada semana, a cada 15 dias? Há aqui um acompanhamento que, findo o período de internamento, caso haja um internamento, pode demorar quanto tempo mais? Ou pode ser pra vida?
É assim, pensando na lógica da adição ser pra vida, eu vou ser sempre adicto. Podemos pensar num processo que é pra vida. Em termos de tratamento, o que nós normalmente estipulamos, eu com os meus clientes, aquilo que tento estipular é, após pararem dos consumos, um trabalho que seja duradouro até dois anos sem consumir. Dependendo da pessoa estar a fazer, por exemplo, um processo só de prevenção de recaída e ter só estratégias pra lidar com a dificuldade em não consumir, podemos fazer um trabalho mais pontual. Se tivermos um processo mais psicoterapêutico, podemos ter sessões semanais. Também vai variar relativamente àquilo que seja os objetivos terapêuticos no pós-alta. Existem comunidades terapêuticas também que estipulam, por exemplo, grupos de pós-alta e de 15 em 15 dias ou uma vez por mês, as pessoas têm grupos terapêuticos. Existe uma panóplia de oferta de intervenções.
Quando falamos dos grupos de Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos, são programas que entram dentro dessa designação, pra quem nos está a ouvir e pra quem não esteja familiarizado com estes termos, entram dentro da designação de grupos terapêuticos?
Os grupos de autoajuda não são bem grupos terapêuticos. Nós quando falamos de grupos terapêuticos, normalmente falamos de grupos que são dirigidos por um terapeuta, por um profissional de saúde. Os grupos de autoajuda podem ter profissionais se forem eles também aditos. Mas regra geral, são grupos auto-organizados, de pessoas com doença aditiva. Existem vários grupos, incluindo também, pode ser uma informação importante, grupos para famílias. Também dentro daquilo que são os Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos, existem também grupos para as famílias.
Onde as famílias podem também obter ajuda, apoio e acompanhamento no sentido de esclarecerem as suas dúvidas e terem quem os encaminhe. No meio de todo este processo de uma adição e de perceber que há uma adição e que se quer largar essa adição, há uma série de coisas que se vão perdendo, nomeadamente, não são coisas, são pessoas, são as pessoas que vão ficando pelo caminho. Sair do labirinto de uma adição é também perceber que há pessoas que, e ouvimos isso também no início, têm o direito a ficar chateadas conosco, porque já tiveram sua vida, ao longo de muitos anos, muito afetada ou ao longo de um certo período de tempo, afetada pelos nossos próprios consumos. Um processo terapêutico é também um processo que ajuda a pessoa doente a gerir esta relação com os outros, nomeadamente com as pessoas que perdeu e que eventualmente poderá já não conseguir recuperar de volta pra sua vida?
Claramente, o processo psicoterapêutico acaba por Poder ajudar a pessoa nesse sentido. Ou seja, eu aceitar que apesar de eu ter feito uma mudança grande na minha vida e neste momento já não estar a consumir, que isto pode ter criado danos em relações prévias e que as pessoas também têm o direito a não me desculpar ou a não quererem reatar uma relação comigo, mesmo que isto seja uma doença e que muitas das ações que eu tive poderei não ter feito por vontade própria, mas por estar sob a ação dessa doença.
E por vezes há situações, cada caso será um caso, em que perceber que deixar essas pessoas partir ou não gastar muita energia a tentar trazê-las de volta pra nossa vida poderá ser um caminho mais eficaz pra recuperação dessa pessoa?
Eu, enquanto psicoterapeuta, diria que mesmo quando não há substância, isso pode ser uma aprendizagem importante na nossa vida. E portanto, eu aceitar que nós estamos em momentos diferentes ou fases diferentes e que, por muito que possamos ter estado ligados no passado, que a pessoa tem o direito a seguir a sua vida e se calhar eu tenho que seguir a minha vida de outra forma.
E o medo da recaída é um receio, como alguém dizia nas entrevistas Labirinto, é uma montanha que pode cair sobre nós ou sobre aquela pessoa que tem um problema de adição e é um fantasma que está sempre muito presente durante um processo de recuperação.
Eu penso que, de alguma forma, as pessoas que eu tenho acompanhado, muitas vezes algumas dizem que até precisam desse receio para se manterem quase conscientes.
Para se manterem alerta.
Para se manterem alerta. De qualquer das formas, nós também fazemos um trabalho a esse nível, ou seja, em termos de aceitação de alguma imprevisibilidade da nossa vida e também que a pessoa sinta que tem as ferramentas adequadas para lidar com as adversidades da vida e também sentir a segurança de que isso não é a primeira hipótese na lista quando ela vive uma situação difícil.
Falávamos no início da nossa conversa sobre outras dependências, que não apenas a dependência de substâncias. No caso, há uma muito flagrante, de que cada vez se fala mais: a dependência online, a dependência de videojogos ou a dependência de redes sociais, que têm também um forte poder de atração perante o tempo que se passa agarrados aos ecrãs. Vão sendo preocupações cada vez mais crescentes nos últimos anos ou atingimos um pico tal que se tem mantido? Como é que um psicólogo recebe cada vez mais pessoas com estas características?
Com dependências ou comportamentos de dependência online, sim, é um problema crescente. Claro que nós vivemos numa sociedade e portanto, até agora no pós-pandemia, que esta questão de estarmos online e estarmos ligados faz parte do nosso dia a dia e portanto, é muito difícil detectar estes casos e muitas vezes o próprio ter consciência dessa dificuldade. E depois a dependência online também tem várias variações. Que tipo de dependência é que eu tenho de redes sociais? É dependência de jogo? É dependência de pornografia? E portanto, há aqui uma série de desafios naquilo que é a detecção e a intervenção naquilo que é a dependência online.
E pra quem nos está a ouvir, quais são habitualmente os sinais de alerta, e agora reporto-me muito concretamente à dependência de videojogos e pais de crianças ou de adolescentes e jovens que nos possam estar a ouvir, preocupados com o tempo que os filhos possam passar fechados no quarto durante muitas horas do dia agarrados ao computador, há alguns sinais de alerta que uma família deva estar particularmente atenta?
Sim, a questão de, por exemplo, havendo outras atividades ou outros estímulos, o jovem não estar disponível para participar. Haver um desejo muito intenso e uma limitação, ou seja, é como nas outras dependências, como falávamos há pouco, a minha vida estar em torno do jogo ou estar em torno do tempo que eu passo no jogo, e portanto eu precisar de estar cada vez mais horas e mais tempo a jogar, e a minha vida acabar por estar condicionada ou limitada a jogar. Isto seria, pra mim, o sinal mais-
Um sinal mais evidente. A propósito disso, e no seguimento do projeto Mental, que o Observador lançou no mês de março, há uma crônica que convido os nossos ouvintes a ler, do psicólogo João Nuno Faria, justamente sobre adição online. Ana Nunes da Silva, muito obrigado por nos ter ajudado a perceber um pouco como se sai do labirinto da adição, independentemente da substância ou da situação que nos possa ter levado até lá. Foi um gosto. Muito obrigado.
Obrigada.
Eu sou o Paulo Farinha. Este foi o Sair do Labirinto, hoje sobre adição. Até à próxima.
Mental, uma parceria Observador, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e Hospital da Luz, com a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e Ordem dos Psicólogos Portugueses.