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Está dado o apito inicial para mais um Sem Falta, como sempre com o ex-árbitro, especialista em arbitragem do Observador, Pedro Henriques. Boa noite, Pedro, bem-vindo.
Muito boa noite.
Pedro, vamos olhar para este Boavista x Sporting, um jogo que os Leões venceram por 2 x 0. Uma partida com arbitragem liderada por Fábio Veríssimo, assistência de Bruno Rodrigues e Sérgio Jesus. O quarto árbitro foi Hugo Silva, com o vídeo-árbitro António Nobre e ainda assistente de vídeo-árbitro Nelson Pereira. Vamos começar, como sempre, com a análise aos lances. Vamos olhar para um primeiro lance ao minuto 12, em que Angelo Gomes cai na área do Sporting. Não foi assinalada grande penalidade. Pergunto se foi uma boa decisão de Fábio Veríssimo.
Sim, boa decisão. O Angelo Gomes efetivamente cai na área. É um lance em que tem o Pedro Porro nas suas costas, mas o jogador do Sporting faz mesmo questão de levantar os braços e de dar a entender que não só não tocou, como não queria sequer tocar no seu adversário. E não tocou, porque obviamente que os defesas muitas vezes no encalce do avançado, mesmo sem querer, tocando e derrubando, isso é considerado falta. Não foi o caso. Nem sequer há contacto. O Angelo Gomes cai no chão, efetivamente, mas ninguém lhe tocou e aquela questão de ser ou não pontapé de pênalti ficou logo resolvida com as primeiras repetições. Não havia motivo para o pontapé de pênalti, boa decisão da equipe de arbitragem.
Vamos assim avançar 10 minutos, até o minuto 22, o gol do Sporting marcado por Nuno Santos, cruzamento de Nuno Mendes da esquerda. Nuno Santos dá um ligeiro toque. O árbitro, na altura o assistente, até acabou por invalidar o gol por fora de jogo, mas o VAR acabou por validar este gol do Sporting. Pergunto se o vídeo-árbitro teve aqui uma decisão correta ou se Nuno Santos estava mesmo em fora de jogo.
Neste momento, com as decisões ao nível de fora de jogo, sendo estas decisões ajudadas pelas tais linhas que são colocadas pela cidade do futebol, nós ficamos relativamente descansados em relação à decisão final. Embora ainda haja ali um lado humano na colocação das linhas, no sentido de que o vídeo-árbitro tem aquele papel de ver, neste caso concreto, que Gomes que tinha o pé, e é aí que ele vai ter que colocar a linha e o ombro, neste caso, de Nuno Santos, a partir daí, depois é a máquina que faz o resto, no sentido de dar, inclusivamente, quantos centímetros é que está ou não. Neste caso concreto, o árbitro assistente levantou a bandeirola depois da bola ter entrado na baliza, o árbitro apitou depois da bola já ter entrado na baliza, o que permite sempre reverter a decisão, é isso que está protocolado. De qualquer maneira, depois a análise com as linhas mostra que o Nuno Santos está em jogo por 10 centímetros e sendo assim, decisão correta do binômio. Portanto, binômio árbitro e vídeo-árbitro, porque neste caso, seria um gol anulado, mas felizmente, em termos de arbitragem, que hoje, com esta tecnologia, é permitido reverter lances que poderiam depois ser muito complicados em termos daquilo que seriam hoje polêmicas associadas a um anular de um gol como esta natureza. De qualquer maneira, boa decisão da equipe de arbitragem no global. O Nuno Santos estava em jogo por 10 centímetros e o gol foi válido.
E ao 1 minuto e 45, mesmo a pisar o intervalo, inverteram-se os papéis, marcou o Boavista, o gol foi invalidado, mas, neste caso, o VAR acabou por não inverter a decisão. Não contou mesmo o gol do Boavista. Pergunto, Pedro, se foi uma boa decisão.
Boa decisão. O árbitro assistente também esperou que a jogada terminasse. Depois da bola ter entrado na baliza, levantou a bandeirola, o árbitro apitou. Nós na primeira repetição percebemos claramente que o Hélio estava muito adiantado. Portanto, esta é daquelas circunstâncias que nem é preciso pôr centímetros, porque fica em ângulo aberto a distância bastante grande que, neste caso, o avançado do Boavista tinha em relação ao último adversário. Portanto, boa decisão, neste caso, da equipe de arbitragem, nomeadamente o árbitro assistente.
Ao minuto 71, Angelo Gomes tem um livre direto à entrada da grande área do Sporting, um livre que foi desviado pela barreira leonina, mas houve ali alguns protestos de mão de um possível pontapé de pênalti neste desvio da barreira do Sporting. Havia motivo para um pontapé de pênalti do lado do Boavista?
Não, essa circunstância ficou logo esclarecida na primeira repetição, em que, mais do que estarmos a ver se alguém tinha tocado com a mão, era onde é que estava a barreira. E a barreira estava fora da área. Portanto, mesmo havendo uma eventual mão, nunca seria pontapé de pênalti, porque o lance era fora da área. O vídeo-árbitro também foi verificar isso e ao verificar que era fora da área, deixou logo, obviamente, de se intrometer no lance, porque só pode intrometer-se em situações de pontapé de pênalti. De qualquer forma, também não havia falta, porque há ali um ressalto, uma carambola entre as costas, coxa e até, eventualmente, o braço esquerdo do Coates. Mesmo tocando no braço do Coates, Coates tem o braço encostado ao corpo, portanto, não ganha volumetria, não tenta interceptar a bola. Decisão correta, não houve mão propriamente dita no sentido de ser penalizada e também o lance sendo fora da área, estaria resolvido aquilo que se pediria o problema maior, que era ser ou não ser pênalti.
E Pedro, ao minuto 76, entra no Sporting em campo João Palhinha, sai Nuno Santos, em apenas três minutos, o médio leonino, que até estava à bica, como se costuma dizer, em risco de falhar o próximo jogo, em três minutos, vê cartão amarelo mostrado por Fábio Veríssimo, que o deixa assim fora do derby contra o Benfica. Muitos protestos. Vimos também as imagens de João Palhinha no final do jogo a chorar por este cartão amarelo. Foi bem mostrada esta cartolina amarela a João Palhinha?
Não, foi mal mostrada. Em primeiro lugar, tenho algumas dúvidas, depois de ver a repetição, que tenha havido falta. O Palhinha estica o braço direito, o seu adversário estica o braço esquerdo e há ali um chega pra lá de ambos os jogadores E um contato ao nível das pernas de ambos. Mas mesmo aceitando que o braço do Palhinha é mais forte no sentido de ter tirado o jogador do Boavista da jogada, o motivo porque a falta, existindo, não deveria ser penalizada com cartão amarelo é porque, em primeiro lugar, é uma corrida na diagonal. Há mais jogadores do Sporting que podem interferir na jogada. Não é uma situação clara de um jogador que vai na direção da baliza e que é por trás, agarrado ou puxado, a chamada falta tática. Não, ali é uma disputa de bola clara, ambos têm a possibilidade de disputar a bola, ninguém leva a bola propriamente dito dominada ou controlada em posição vantajosa, e há uma falta meramente simples, portanto, a chamada imprudente, nem sequer era considerada negligente. Houve faltas durante o jogo mais duras ao nível de entradas, até mais perto do limite da área, que podiam consubstanciar o tal ataque prometedor, e que o árbitro, bem, no meu ponto de vista, as que penalizou, penalizou sem cartão amarelo. Portanto, eu acho que esta foi uma precipitação clara do Fábio Veríssimo. Para mim, nem sequer há falta, mas mesmo aceitando e admitindo a falta, nunca seria para cartão amarelo. E obviamente que um cartão amarelo mal mostrado num jogo não tem muita importância, a não ser que haja expulsão do jogador. Aqui a questão que se discute é exatamente a tal consequência, como tu já disseste, que é o que pode advir daqui se se mantiver a penalização, é que, como se sabe, o Palhinha fica de fora do próximo jogo e o próximo jogo é um Sporting-Benfica.
Vamos avançar até o minuto. Aliás, no mesmo minuto, antes de avançarmos, há também um cartão amarelo mostrado a João Mário e a um elemento do banco do Sporting, precisamente por protestos por causa deste cartão amarelo dado a João Palhinha.
Sim, aqui não é uma questão de dizer que foi bem ou foi mal. O árbitro que está lá dentro é que sente. Obviamente que havendo protestos, por palavras ou por gestos, a lei é clara e o árbitro acaba por advertir João Mário e alguém da equipa técnica do Sporting, exatamente baseado nesses protestos. Portanto, aceitamos sempre como boa essa decisão.
Agora sim, avançamos até o minuto 87. Mais um cartão amarelo, desta vez mostrado para o lado do Boavista, para Paulinho. Foi bem mostrado?
Sim, é uma entrada negligente, uma entrada mais dura. Consubstanciada naquela questão que nós dizemos muitas vezes, que é não ter em conta o perigo a que se pode ser submetido o adversário, e aqui sim, esta merecia e o árbitro fez bem em mostrar o cartão amarelo a Paulinho.
Olhamos ainda para o minuto 90, para o caso de mais um amarelo, desta vez para Neitan Santos, do lado do Boavista. Pergunto também se foi bem mostrado este cartão.
Sim, é a situação típica, ele vai atrás do Matheus Nunes com o objetivo de destruir, ele vai tentar fugir ali já pelo corredor esquerdo e é aquela chamada falta tática, destruição apenas da jogada, sem a intenção de jogar a bola, e o árbitro, que de repente começou a apertar o critério, naturalmente que tinha que mostrar o cartão amarelo e este foi bem mostrado.
Pedro, antes de avançarmos para a classificação final, também aqui uma pergunta por curiosidade. Muitas vezes vemos estes protestos veementes, principalmente quando há estes cartões vermelhos ou amarelos que impedem os jogadores de poder jogar nos próximos jogos. Já o vimos, por exemplo, acontecer em competições a eliminar, quando um jogador fica fora de uma final. Há aqui alguma possibilidade de o Sporting poder pedir a reversão deste cartão amarelo a João Palhinha ou está completamente certo que o médio do Sporting vai mesmo falhar o derby?
O Sporting, até porque já li aqui na comunicação social, já mostrou intenção, penso que através do diretor de comunicação, de ir fazer esse tal pedido, de anular o efeito que tem deste cartão amarelo. Isso era quase lógico, que o Sporting iria com mais ou menos convicção tentar fazer isso. E é permitido, obviamente, o regulamento permite que se possa fazer esse pedido. Agora, aqui a questão que se coloca é: nós tivemos, não sei se foi há dois anos, o Bolasi, por causa de um cartão vermelho, que depois foi anulado. Essa situação era muito clara, porque o cartão vermelho é uma situação em que supostamente o que teria acontecido é que teria havido ali uma entrada que era violenta, uma agressão, e foi isso que o árbitro na altura viu e escreveu, e depois percebeu-se pelas imagens, que eram muito claras, que não tinha havido agressão. E esta é uma situação fácil, entre aspas, de se penalizar, porque um árbitro diz que há uma conduta violenta, uma agressão, e depois olha-se para a imagem e não há, portanto é fácil. Aqui pode ser um pouquinho mais complicado, porque eu deduzo que o árbitro vai escrever no relatório, até pelo desenho da jogada, que não é pela entrada em si, ele não vai dizer que foi uma entrada negligente, porque essa não foi. O mais que pode dizer é que ele, ao empurrar o adversário próximo da área, cortou uma jogada de perigo, um ataque prometedor. Eu acho que ele vai basear o cartão amarelo naquela questão do perigo da jogada, ou seja, pelo local da falta e não pela falta em si. E isto é sempre muito subjetivo e muito discutível. Não se trata de uma situação daquelas taxativas. Eu acho que não há cartão amarelo e o desenho da jogada implica que, não obstante estar relativamente perto da área, implica uma interpretação. E a minha interpretação é que não há cartão amarelo exatamente porque não há uma jogada de perigo propriamente dita no sentido de ataque prometedor. Há mais jogadores do Sporting que podem intervir, ele vai em corrida diagonal, ambos vão disputar a bola, não é um jogador que leva a bola perfeitamente controlada e vem alguém de longe que faz a falta, daí eu consubstanciar a questão de não haver cartão amarelo. Agora, não sei se vai ser fácil quem vai analisar esta circunstância de fazer essa despenalização, porque se trata daqui de uma interpretação daquilo que é ou não é um ataque prometedor e que o árbitro verifica e que mostra. Que é diferente de eu ver uma agressão e mostro o cartão vermelho, e depois, na prática, a gente olha pra imagem e não há nenhuma agressão. Isso é diferente. Daqui é uma questão de interpretação do que é uma jogada de perigo ou ataque prometedor. Vamos ver o que o árbitro escreve no relatório, isso é importante para justificar o cartão amarelo, e é também com base nisso que depois quem vai decidir vai tomar uma posição relativamente a isso. Não sei se vai ser fácil a despenalização Vamos ver. Mas temos aqui mais uma circunstância típica do futebol português que vai dar o que falar.
Vai dar que falar nesta semana.
Vai dar que falar e depois se vai a jogo ou se não vai. Se não for, vai dar que falar. Se for, e imaginamos que até marca um gol, vai dar que falar também.
Exatamente.
Enfim, todas as partes terão aqui matéria para falar.
Mas fica aqui mais uma vez esta explicação tão pedagógica do Pedro, que com certeza esclarecerá os adeptos do Sporting que quererão Palhinha no derby, mas também os adeptos do Benfica, que com certeza não o quererão nesse jogo. João Palhinha que tem sido um dos elementos mais decisivos do Sporting. Pedro Henriques, vamos avançar então para a classificação final. Ora, de 0 a 10, quanto é que merece esta equipa de arbitragem esta noite no Bessa, liderada por Fábio Veríssimo?
Eu tenho que olhar para o jogo em função daquilo que ele acertou e do que errou, não das consequências de um eventual erro. Portanto, olhando só para o jogo e não pensando que aquele cartão amarelo vai pôr o Palhinha fora do próximo jogo, o jogo tem uma nota positiva, porque ele acertou nas decisões, não teve realmente muito que fazer no sentido que o jogo não foi muito difícil, não teve lances de áreas, de pênaltis, etc. E portanto, o erro para mim é uma falta e um cartão amarelo e de resto ele esteve bem em tudo e por isso vou dar nota positiva seis. Não dou mais porque também não foi um jogo com grau de dificuldade em que ele tenha tido que estar bem e tenha tido decisões difíceis. Obviamente que pode parecer um contrassenso, dar uma nota que é positiva num jogo em que há um cartão que vai ser tão relevante e importante sob o ponto de vista das consequências. Mas de qualquer maneira, eu estou a dar a nota em relação a este jogo e não às consequências de um cartão amarelo mal mostrado e, portanto, nesse aspecto, nota positiva, nota seis.
Exatamente. Normalmente, Pedro, usas como justificação para notas mais baixas faltas que tenham impacto no jogo. Desta vez é quase o impacto num jogo futuro.
Pois, mas isso não posso.
Exatamente. Fica aqui uma classificação, quase com base no futuro desta partida entre a equipa do Boavista e do Sporting, uma arbitragem liderada por Fábio Veríssimo a merecer nota seis de 0 a 10. Pedro Henriques, voltamos no jogo da Taça de Portugal entre Benfica e Bessa, ainda esta semana. Obrigado.