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Logro, mentira, incoerência. O PS partiu ao ataque as propostas do PSD para baixar os impostos. Os partidos acusam-se mutuamente de um andar a reboque do outro. O Presidente da República, entretanto, também já veio falar, diz que há margem para o governo fazer mais cedo ou mais tarde. Ainda está de férias no Algarve, mas Marcelo Rebelo de Sousa apanha sempre o comboio da atualidade. E ainda vamos falar deste meio de transporte no semáforo político. O colunista do Observador, André Abrantes Amaral, junta-se ao Bruno Vieira Amaral para sinalizar a atualidade. Para já, vamos parar mesmo na política. André, obrigada por estares conosco. Que sinal é que te merece esta troca de acusações e a substância das propostas do PSD?

O PSD deu-se conta que a receita fiscal aumentou bastante em 2022 e continua em crescimento durante o ano 2023, e percebeu que havia aqui uma folga para se baixar impostos. Isto ainda foi mais acentuado, essa necessidade do Partido Social-Democrata de vir a palco pugnar pela descida dos impostos, porque a iniciativa liberal tem tido uma predominância neste discurso, nesta matéria. Aliás, a iniciativa liberal vai apresentar, na abertura do debate do orçamento, uma proposta que é de uma taxa única do IRS para a classe média. E o PSD sentiu essa necessidade de não deixar fugir o eleitorado da classe média para um outro partido, quando sabemos que o PSD é o partido que representa ou tem representado o setor mais dinâmico da sociedade portuguesa.

Sendo que Rui Rocha já veio reagir falando numa proposta frouxa por parte do PSD.

Sim, porque o PSD acaba por apontar que poderá baixar alguns pontos em determinados escalões, nos escalões mais baixos. Aliás, não se percebe muito bem a crítica do Partido Socialista quanto nesse ponto, vem dizer depois que a proposta do PSD vai favorecer os que têm ou obtêm menores rendimentos, quando a proposta do PSD visa precisamente isso, ou seja, reduzir os pontos percentuais um ponto e meio no primeiro escalão, dois pontos no segundo e três no terceiro ao sexto, mas a partir daí já não haverá alterações. Mas o que acontece é que a Iniciativa Liberal, o que vai ter que julgar é que a sua proposta, agora bem ou mal, é mais ambiciosa do que a do PSD, e o PSD o que vê é que havendo uma pequena folga, pode baixar impostos. No que diferencia do Partido Socialista é que o PS prefere ficar com o dinheiro e distribuí-lo ele próprio, ou seja, que seja o governo a decidir para onde é que vai essa folga, através das ajudas estatais e dos subsídios, etc. E o PSD quererá dizer que não, isso não é a melhor maneira de ajudar as pessoas, porque isso aí poderá ser discriminatório e contraproducente em alguns setores. O melhor é nós reduzirmos os impostos de uma forma equilibrada e equitativa para todos, neste caso, até determinados escalões, e depois as pessoas, por sua livre iniciativa, utilizam o dinheiro que ficam a mais nos seus bolsos, nas suas carteiras, conforme considerem conveniente, e a economia a partir daí poderá ou não responder positivamente. Estas são as diferenças entre esses dois partidos, o PS e o PSD. Relativamente à iniciativa liberal, o que se nota é um plano muito mais ambicioso de descida da carga fiscal de uma forma mais acentuada, porque implicaria uma taxa única do IRS.

Isto é o PSD a querer marcar aqui claramente a agenda política.

Sim, a querer marcar uma diferença relativamente ao Partido Socialista e também apropriar-se um pouco daquele que tem sido o discurso da Iniciativa Liberal dos últimos, já não vou dizer meses, mas anos, e que o PSD sente necessidade de recuperar.

E qual é que é a cor de semáforo que escolherias, André Abrantes Amaral?

Para o PSD, eu escolheria aqui um amarelo, porque de certa maneira, se se diferencia do PS porque defende uma redução dos impostos, de certa forma aquilo que o partido de Luís Montenegro vem dizer é que havendo uma folga, não vamos muito mais que isso. Ou seja, esta descida dos impostos não é acompanhada de uma redução da despesa, de um plano de redução de despesa, e não acredita muito numa possibilidade de, se houver uma forte descida dos impostos, que a economia possa responder bem a isso. E o PSD ainda está muito preso, isto é o que retiro do discurso de Luís Montenegro, da proposta do PSD, à ideia das contas certas de que o Partido Socialista se apropriou. É muito importante que não haja déficits orçamentais, mas também é importante que se perceba que havendo esta folga, se poderia ir mais além do que aquilo que o PSD porventura esteja a apresentar.

E o PS teve, Bruno Vieira Amaral, necessidade de falar três vezes sobre isto, uma delas ainda antes de Luís Montenegro ter apresentado as tais propostas.

Sim, e algumas das coisas que foram ditas por membros do PS Me pareceram estranhas. Por exemplo, o João Torres falou da necessidade de ter esta carga fiscal elevada para que o Estado consiga responder a situações excepcionais inesperadas como a pandemia ou a guerra. Parece-me um pouco estranho defender o esbulho fiscal a pensar em eventuais catástrofes. Podem acontecer, certamente, mas isso não será a razão. Isso faz-me lembrar um pouco a política do Estado Novo, de ter os cofres cheios enquanto a população passava mal. Aqui é um pouco essa ideia de que é bom o Estado ter os cofres cheios, não vá dar-se mais uma guerra ou surgir mais uma pandemia e depois o Estado não ter dinheiro para apoiar as famílias. E outra questão é mesmo o apoio às famílias, ou seja, o PS dizer que é preciso esta carga fiscal elevada para depois dar apoio às famílias. Isso é propositado, é uma política que assenta nessa redistribuição dos impostos recolhidos, mas que eu acho que, em primeiro lugar, o que deveria acontecer era esse dinheiro ficar no bolso dos contribuintes antes de ir para o Estado para o poder redistribuir. Agora, muito rapidamente para finalizar, parece-me que isto é pouco para ser uma bandeira ou a principal bandeira do PSD nesta rentrée política, porque me parece, como dizia o André, um pouco circunstancial. Ou seja, neste momento, sim, podemos baixar os impostos porque há condições favoráveis para isso, mas as bandeiras políticas não podem ser circunstanciais, uma questão de meses ou de um ano. Têm que ser bandeiras que defendam projetos mais profundos do que uma simples redução ocasional dos impostos.

Vamos ainda apanhar uma viagem muito rápida de comboio. Bruno, tens um verde para a Renfe.

Para a Renfe, a empresa pública espanhola de comboios, e esta é uma notícia que gera sentimentos contraditórios. A empresa espanhola tem planos para operar em Portugal, uma ligação a Évora já em 2025, e tem também planos para haver ligações entre Lisboa e Porto e também para fazer ligações diárias entre Lisboa e Madrid e Porto e Madrid. Por um lado, sim, é uma ótima notícia. Tudo o que seja para melhorar o serviço e melhorar a mobilidade é bom. A pena é que seja a operadora espanhola a vir com estas ideias quando o serviço da CP está cada vez pior e as ligações, a principal ligação do nosso país entre Lisboa e o Porto ser muitas vezes ou quase sempre por Nora.

Este verde, e é um amarelo também no semáforo político de hoje. Obrigada, Andreia Brandão de Amaral e Bruno Vieira Amaral. Obrigada. Voltamos a parar no semáforo amanhã.