Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Estamos parados no semáforo político e vamos continuar, porque o primeiro sinal vai ser vermelho para o que se está a passar nas urgências hospitalares. Ainda vamos também, fica prometido, aos discursos do 5 de Outubro. O condutor de serviço, Bruno Vieira Amaral, dá hoje boleia ao Ricardo Conceição, subdiretor do Observador. E começamos por ti, passageiro Ricardo. Se precisares de ir às urgências do Santa Maria, espero que não.

Estás muito rica. A gente está a ver as imagens.

É, espero que não tenhas de ir ao Santa Maria hoje, até porque podes bater com o nariz na porta.

Sim, olha, nós estamos aqui com ar descontraído e leve a falar disto, mas isto é mesmo uma situação muito preocupante e nós estamos aqui muito perto do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Estava precisamente a pensar nisso quando me estava a sentar nestes bancos altos e nesta altura, e agora estou a falar sério, se por acaso-

Se caísses

...se cair daqui do banco, o que é que faço? Porque não está garantida a assistência a doentes não urgentes, mesmo aqueles que estão na área do hospital. Vai ser indicado a esses doentes que vão ao centro de saúde ou que voltem amanhã ou depois. E isto porque o Hospital de Santa Maria, que é o maior hospital do país, é incapaz, não tem capacidade para receber mais doentes. É ao Santa Maria que afluem também doentes que são enviados de outros hospitais, aqui numa área grande, que vai, por exemplo, até Santarém. É pra cá que convergem muitos dos doentes e a principal razão para isto estar a acontecer prende-se com o facto dos médicos terem dito não a continuar nesta prática, que se arrasta há anos, de ultrapassar as 150 horas extra anuais. E isto leva a que não existam médicos suficientes, nem capacidade das unidades hospitalares, das unidades de saúde, de dar resposta à procura. E isto realmente é muito preocupante o que se está a passar. Não é por falta de aviso que está a acontecer. Poderemos estar aqui a assistir àquilo que, eu espero que esta imagem seja exagerada, mas eu não sei se não estamos a assistir aqui a uma pré-falência do sistema. E isto é responsabilidade de sucessivos governos, não é só deste governo. Acho que a Ordem dos Médicos também tem aqui uma quota de culpa na forma como também, ao longo dos anos, foi mantendo as restrições de acesso à profissão e dificultando o acesso à profissão de médico. Bom, isso é uma conversa que também entra pra aqui, mas tudo isto é mesmo muito preocupante, porque o Serviço Nacional de Saúde é uma joia da coroa que nós temos, é uma conquista dos portugueses, é algo que é muito caro, sai muito caro, mas que é uma conquista. E a possibilidade de tu teres a garantia de que alguém te trata de um problema de saúde, seja ele qual for, de forma gratuita e teres acesso a gratuito, é uma conquista civilizacional, é uma conquista do país que é muito importante, mas que se vê aqui no meio de incompetência em relação àquilo que é a gestão deste serviço, incompetência que se atravessa com também ideias preconcebidas, ideológicas, com a ideologia. Tudo isto se mistura e estamos neste momento em que estamos a falar e quem nos está a ouvir deverá assinalar este momento em que o maior hospital do país, o Hospital de Santa Maria, está a dizer: "Por favor, não venham pra cá, porque não sabemos se temos condições de lhes dar esta assistência." E um dos graves problemas disto é que isto não se resolve com estalar de dedos. Nem é com mais um caminhão de dinheiro, nem é estalando os dedos, é que não há forma de dar resposta. E chegamos a isto. E não foi por falta de aviso.

E não é só no maior hospital do país. Aliás, está a ser um fim de semana prolongado, com muitos constrangimentos nas urgências e muitas urgências mesmo a fechar. Vamos dar disso conta também na edição das seis. Bruno Vieira Amaral, já agora aqui a propósito das urgências, imagino que acompanhes este vermelho também.

Sim, claro. Nós aqui em vários programas, e falando com diversos responsáveis, médicos, sublinhámos um problema, os convidados sublinharam o problema de termos um sistema urgentocêntrico. E quando um sistema urgentocêntrico tem as urgências a falhar, eu não vou tão longe se calhar quanto a pré-falência, mas é muito preocupante que o centro desse sistema, que são as urgências, estejam a falhar. Nós já sabemos que o resto falha. Falham as consultas, falham os centros de saúde, as listas de espera para as cirurgias, mas quando as urgências falham, e falham em grande, porque estamos a falar do maior hospital do país, então não Tão longe, falando de pré-falência, talvez tenhamos razões para estarmos preocupados. Hoje foi divulgada uma sondagem do Expresso que diz que os portugueses gostavam de pagar menos impostos, mas não querem pagar menos impostos se isso significar desinvestimento em áreas como a saúde. Mas estamos a financiar este sistema para ter estes resultados? Ou qual é o nível de impostos que é preciso cobrar para que o sistema funcione? Essa é que é a grande questão que devemos colocar todos nós, porque é de facto um bem inestimável termos um Serviço Nacional de Saúde que nos permite, a qualquer cidadão português, e não só a cidadãos portugueses, recorrer a serviços como as urgências, quando funcionam. Mas a questão é: como é que este sistema vai sobreviver?

E não notas no discurso político da semana passada, ou foi esta semana, com feriado pelo meio é sempre confuso, o primeiro-ministro esteve na CNN, naquele town hall, em que há uma enfermeira que lhe faz uma pergunta sobre os cuidados paliativos e os cuidados continuados, e o primeiro-ministro diz: "Não, há esta medida, esta e aquela, aquela, aquiloutra." E a enfermeira responde: "Mas não funciona." E o primeiro-ministro diz: "Mas vai funcionando." Ou seja, esta coisa do vai funcionando, perante situações destas tão extremas, e eu aceito, Bruno, que a imagem da pré-falência possa ser um pouco exagerada, mas nós não estamos a ver nada de bom no fundo deste túnel.

Vai funcionando até não funcionar.

É um vamos indo, vamos vendo e temos mesmo também de acelerar aqui no Semáforo Político. Bruno, traz um amarelo para o discurso do Presidente da República nas comemorações do 5 de Outubro e um verde para Carlos Moedas, para o autarca de Lisboa.

Eu creio que a reação do PCP acertou na musca em relação ao discurso de Marcelo. Elogiou a consideração genérica sobre os problemas institucionais que Marcelo apontou, mas também apontou a ausência de soluções políticas concretas. Não sei se é isso que se espera do presidente, mas percebo que se sinta que o presidente tenha sido demasiado vago e mencionou problemas demasiado vagos numa altura em que, como nós estamos a ver, há problemas muito concretos. E quando falamos das dificuldades institucionais, estamos a falar do quê? É suficiente fazer comparações com os anos 20 do século passado? Quem é que tem contribuído para a degradação das instituições? O que não tem sido feito ao certo que abre espaço a respostas radicais? Que reformas são necessárias para que não apareçam as contrarreformas que Marcelo Rebelo de Sousa mencionou? E de onde é que virão estas contrarreformas? Quais são os grupos que representam uma ameaça para a democracia? Não podemos deixar morrer a liberdade, disse Marcelo Rebelo de Sousa, mas quem é que está a matar a liberdade todos os dias e como? Marcelo Rebelo de Sousa, quanto a mim, foi demasiado vago neste diagnóstico, para além de não ter apresentado qualquer solução. O verde para Carlos Moedas, que esteve melhor, quanto a mim, falou de problemas concretos, de soluções, como a redução dos impostos, da necessidade de criar empregos para os jovens, para os fixar e numa vertente mais política, referindo a celebração do 25 de Novembro. O 25 de Abril é a data fundadora da nossa democracia, sem dúvida a mais importante. Não é isso que está, nem deve estar em causa, mas o 25 de Novembro também é uma data fundamental para o regime, ou devia ser. Enquanto o 25 de Abril exclui a extrema-direita, que sempre teve grandes dificuldades para aceitar e para conviver com a data, o 25 de Novembro exclui a extrema-esquerda. E por isso é que é muito difícil perceber o incômodo do PS com o 25 de Novembro, a não ser para não desagradar aos amigos da extrema-esquerda, ou então, outra hipótese, para não ferir a memória daqueles que hoje estão no PS, mas na altura do 25 de Novembro estavam um bocadinho mais à esquerda.

Ricardo Conceição, 30 segundos.

Trinta segundos só para dizer que enquanto o 25 de Abril tiver donos, o 25 de Novembro vai continuar também a ter donos e isso é péssimo. E eu anseio pelo dia em que o 25 de Abril seja um dia de celebração para todo o país, sem donos, porque os donos são os portugueses.

E nós aqui somos donos do Semáforo Político, que vai ficar desligado durante o fim de semana, mas estamos de volta na segunda-feira.