Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Verde, amarelo, vermelho, é como na estrada. O semáforo político também intercala sempre entre estas três cores e na primeira viagem desta semana passamos por Vale dos Judeus, em Alcoentre, a propósito da fuga de cinco reclusos durante este último fim de semana. Contamos, para além da Judite França, também com o editor de sociedade do Observador, o Pedro Rainho, que vão, Miguel Vitor Mendes, sinalizar este tema.

Sim, Pedro, começo por ti. A Ministra da Justiça convocou uma conferência de imprensa para amanhã, terça-feira, às 17h. Quando toda a gente esperava ou quando toda a gente já reclamava por uma declaração do governo, o governo diz: "Damos, mas calminha que é só amanhã." O teu primeiro sinal é para a condução deste processo.

A primeira reação seria: até que enfim, porque ouvimos uns zunzuns de que ia haver desenvolvimentos da parte do Ministério da Justiça sobre este caso, que iam falar, que iam tomar uma posição, e nós pensamos: "Até que enfim, vamos lá ouvir o que é que têm para dizer." Quando abrimos a caixa de e-mail e abrimos o comunicado, pensamos: "Espera, afinal ainda não." E de facto é um bocadinho tempo a mais. Não quero fazer aqui a fita do tempo, mas temos uma fuga impressionante. Não é necessariamente pelo número de reclusos que fogem de uma prisão, mas é pelo tipo de presos que estão aqui em causa, presos, como o próprio diretor nacional da Polícia Judiciária disse, presos perigosos, que representam risco para quem possa vir a contactar com eles. E temos esta fuga no sábado de manhã. Depois há um tempinho até que a fuga seja detectada. Ao início da tarde apercebemo-nos de que sim, senhor, fugiram cinco homens da prisão de Vale dos Deuses. Ora, passam-se 48 horas, calma, a ministra ainda não falou. Peço desculpa, passam-se 24 horas e nesse momento a ministra ainda não falou. Temos responsáveis das várias polícias, da PJ, PSP, GNR, do próprio sistema de segurança interna, a dar algumas informações sobre a fuga, não tanto sobre a operação, porque de acordo com o diretor da PJ, é preciso alguma cautela, alguma prudência na disponibilização de informações a propósito da operação de recaptura.

E ainda nem chegaram todas, supostamente.

Ainda nem chegaram todas. Isto tem vindo a conta-gotas, mas vamos percebendo à medida que as coisas avançam um bocadinho mais sobre isso. Mas eu ia dizer, depois passam-se 48 horas e recebemos o tal e-mail, e o tal e-mail do Ministério da Justiça remete-nos para mais 24 horas de espera. Ora, não estamos aqui a falar de uma situação qualquer. Aliás, percebemos ao longo do fim de semana as várias vozes que se foram levantando ou que se foram fazendo ouvir a propósito do silêncio do Ministério da Justiça, porque o que está aqui em causa é, de facto, um assunto particularmente sensível. Certo, tivemos alguma mensagem, que nem foi propriamente tranquilizadora por parte das autoridades policiais. Até foi uma mensagem, eu diria, quente, preocupante, tendo em conta a definição do perfil destes homens. Pessoas que foram condenadas por crimes violentos, não é só tráfico de droga, posse de armas, mas também raptos, agressões, enfim, são pessoas efetivamente violentas e, portanto, temos, do ponto de vista das polícias, e eu percebo essa mensagem para a população, uma mensagem de cautela, ao mesmo tempo também uma mensagem de que está a ser feito tudo o que é possível fazer, do ponto de vista das polícias, para recapturar estas pessoas. E temos o silêncio absoluto por parte do ministério. Ontem durante o dia, nós, Observador, estávamos confrontados com este silêncio e questionámos o ministério sobre o que ia fazer a este respeito. Ia dizer alguma coisa, não ia dizer nada. Nós sabemos que na própria conferência de imprensa, o diretor dos Serviços Prisionais foi confrontado com a situação e questionado sobre: fica, não fica, tem condições para ficar. Ele disse que ficaria, também podemos falar sobre isso. E a resposta que recebemos ontem à noite é de que a ministra tinha pedido dados à Direção de Serviços Prisionais para perceber exatamente o que é que estava ali em causa e que a breve trecho tomaria, eu creio que a expressão era: ia tirar as conclusões e tomar decisões sobre este processo. Isto não quer dizer nada. Nem sequer um calendário é posto em cima da mesa. Ou seja, a ministra não deixa, nesse primeiro momento, e foi preciso fazer-lhe a pergunta, não deixa claro quanto tempo é que deu aos Serviços Prisionais para fazerem todo o levantamento do que era preciso fazer para que a ministra politicamente tomasse uma posição sobre isso. Não percebemos. Hoje recebemos a comunicação de que amanhã haverá uma tomada de posição. Eu estou muito curioso para saber o que é que a ministra vai fazer, porque, como eu dizia, é uma situação absolutamente atípica, é uma situação que deixa a população preocupada. Nós fizemos uma reportagem ali na aldeia ao lado, logo na noite da fuga, e o sinal era de alguma tranquilidade.

Porque eles aí não estarão. Estarão fugido.

À partida, ali perto não estarão e também é uma população que já lidou com outras fugas ali de Vale dos Deuses. Enfim, já tem algum calo sobre o assunto.

Acaba por equalizar.

Já estão um bocadinho habituados. Mas, de facto, este silêncio da parte do ministério, eu não sei se é comprometedor, mas é pelo menos estranho. Eu percebo que seja preciso ter os dados na mão, mas também não temos todo o tempo do mundo para tomar uma posição política sobre este assunto.

Mas quando não temos os dados na mão, alguém tem que falar ao país. Mesmo sem ter os dados na mão ou porque ainda não tem os dados na mão, deve falar ao país, nem que seja para dizer isso.

E não precisa de ficar à espera de ser confrontada com essa questão para tomar uma posição. Aliás, eu estou aqui a falar do Ministério da Justiça É um caso suficientemente grave pra que o próprio primeiro-ministro venha dizer alguma coisa. Até agora eu ainda não o vi.

E se calhar, numa primeira instância, podia ser uma mensagem apenas de tranquilidade e não de resposta política, e agora já vai ter que dar uma resposta também à questão política.

Natural.

Vem o presidente da República dar um comentário de tranquilidade, que também não foi bem um comentário de tranquilidade, foi mais um comentário a pedir silêncio aos órgãos de comunicação social pra não atrapalharem as investigações. Como se fosse por escrever nos jornais que atrapalharia a investigação. Também há alturas em que pediu pra não se criar alarido, como se a responsabilidade de criar alarido ou a responsabilidade de os senhores terem decidido fugir da cadeia fosse dos jornais. Não é dos jornais.

Mas há este hábito de cada vez que há uma situação de crise, tentar-se de alguma forma descomprimir a situação, retirar pressão sobre os intervenientes, neste caso, serviços prisionais, Ministério da Justiça, como se o problema não estivesse já criado à partida. As perguntas surgem na sequência de-

E o papel do presidente da República também não é esse. Porque de repente parece que vem aqui dar uma ajuda ao governo. Eu sei que também já teve um passado de ajuda ao PS, não sei se agora está a tentar compensar, mas acho que também não faz muito sentido.

O teu sinal, Judite, é também pra ministra da Justiça.

É pra ministra da Justiça.

Isto é na antevisão do jogo. Amanhã temos o rescaldo do jogo.

É pra ministra da Justiça, exatamente porque eu acho que quando há presos a fugir de uma prisão de alta segurança, a ministra deve falar, tenha ou não tenha os dados, deve dizer alguma coisa, é a cara de um sistema e, portanto, deve aparecer. E aparecer, mesmo que não possa responder, estamos a recolher os dados, as pessoas entendem isso, não são tolas, portanto, conseguem entender. E vai falar quatro dias depois, uma coisa que faz muito pouco sentido.

Porque ali ouvimos que o tempo da política não é o tempo dos fugitivos.

Não é o tempo dos fugitivos, exatamente não. Nós sabemos várias coisas, que o tempo dos fugitivos, pelo menos, é terem duas horas de avanço antes que a PJ vá pro terreno. Só isso é altamente bizarro. Onde é que eles já não estarão? Com duas horas de avanço, onde é que eles já não foram? E depois, há uma série de coisas que não se percebe, que vamos tentar ficar a perceber nos dias que correm. Fomos confrontados com uma série de situações que achamos bizarras, como a eletrificação da cerca, que manda abaixo a luz do quadro lá dentro da cadeia. Tudo isso são acontecimentos estranhos que nós ficamos a saber, ou ficamos a saber com detalhe agora.

Deixa-me só acrescentar um detalhe que eu acho que é preocupante do ponto de vista da gestão e do controle e vigilância daqueles reclusos. São 500 a 600 reclusos em Vale de Judeus. E deitou-se abaixo umas torres de vigilância, que permitiam fazer ali algum controle mais humano, mais direto, e substituiu-se isso por dois ecrãs, em que um guarda está de frente pros ecrãs, sentado na sua secretária. Imaginemos dois ecrãs de computador com 200 quadradinhos, que era o correspondente à quantidade de câmaras de vigilância na prisão, olhar pra aquilo e tentar detectar alguma coisa durante 24h por dia. Acho que é um trabalho um bocadinho complicado.

E tem sido das críticas do Corpo de Guarda Prisional é o fim das torres de vigilância.

Exatamente.

Sim, precisamente. A questão que se põe aqui é: o relatório de 2017 já dizia que havia um continuado desinvestimento no sistema prisional, precisamente na área de equipamentos de segurança, bem como a depauperização dos recursos humanos. Portanto, o diagnóstico foi feito há sete anos. Vale de Judeu estava nesse diagnóstico e, portanto, o Ministério da Justiça tem os dados pra avançar. Pode, eventualmente, ser preciso voltar a olhar, porque entretanto, se nada foi feito ou se muito pouco foi feito, as coisas estão ainda piores. Isto tudo parece uma enorme falta de planeamento, uma espécie de protocolo. Quando fogem presos, o que é que acontece? A mim parece-me que não há um esquema posto em prática imediatamente, uma caça ao homem. Eventualmente, há uma série de coisas que correu mal e o que eu não entendo é por que há silêncio à volta disso. Não devia haver.

Porque talvez, se não houvesse silêncio, desculpa, Judite, mas se não houvesse silêncio, íamos começar a perceber que de fato isto funciona muito com trabalho em cima do joelho. Nos contatos que temos estado a fazer com alguns elementos da PSP e da GNR pra perceber os timings de cada momento, um dos desabafos que eu ouvia era: "Isto não está treinado. Nós pensamos que um dia pode haver uma fuga, mas o que é que se faz nesse momento? Quais são os passos exatamente a seguir? Não está treinado". E portanto, quando a coisa acontece, é um bocadinho em cima do joelho, manda-se uns WhatsApps. É literalmente assim. Isso é uma coisa grave.

Só faltam mesmo as cores pra terminar esta-

Eu dou vermelho a isto tudo, nomeadamente ao silêncio da ministra da Justiça. Sim, um vermelho pra esta comunicação do ministério.

Há pouco estavas a falar, Pedro-

E do próprio governo, desculpa.

Do próprio governo. Estavas a falar também dessa questão de como é que estão os serviços prisionais, nomeadamente aqui também essa reação do diretor da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, Rui Brilhosa Gonçalves, ele que recusou demitir-se. E temos várias pontas soltas. Lá está, 40 minutos pra ser detectada a fuga, uma a duas horas pra avisar a GNR, PSP e PJ. Este caso vem, de facto, destapar aqui alguma descoordenação.

Sim, há pouco estávamos a falar da conferência de imprensa que acontece no domingo e da posição. É natural que o diretor dos serviços prisionais, desculpa, eu não sei a sigla toda de cor, mas o diretor dos serviços prisionais é confrontado com a questão: acha que tem condições pra continuar no cargo, tendo em conta aquilo que aconteceu? E o doutor Rui Brilhosa Gonçalves disse: "Não, eu fico, não é do meu perfil, não é do meu tipo desistir, etc." E o que eu me questiono, e estivemos a falar com ele hoje outra vez, já depois de sabermos que há uma conferência de imprensa convocada pra amanhã, e a posição mantém-se, é de que enquanto a tutela quiser, eu ficarei. A questão que eu coloco é: eu não acho que as coisas se resolvam Só porque se demite um responsável, só porque rolam cabeças. Isso por si só, muitas vezes serve para seguir em frente, é o passo em frente e até a próxima situação de crise. O que eu me questiono é, e não estou aqui a defender a demissão ou a permanência de ninguém, é só o processo mental, o que se pensa tendo em conta que se é confrontado com uma situação em que há uma fuga de cinco presos perigosos, há um responsável dos serviços prisionais que conhecia a realidade da falta de recursos humanos. Vamos lá ver, eu já disse isto, são 500 a 600 reclusos para 15 guardas por turno. Portanto, são 15 elementos dos guardas prisionais a fazer o controle de 500 a 600 homens numa prisão. E há pouco, a Renascença recordou uma entrevista que o diretor dos Serviços Prisionais deu no final de 2023, portanto um ano depois de ter assumido funções. E uma das coisas que ele dizia é: há uma grave depauperação dos recursos humanos. Tinha se passado um ano e qualquer coisa desde que ele tinha assumido funções. Passam-se mais uns meses, quase mais um ano, e há uma fuga de uma prisão, sendo que podemos colocar a questão sobre se o facto de haver 15 guardas para 600 reclusos não terá alguma coisa a ver com isso. O que é que de mais grave pode acontecer para que sejam tomadas decisões, para que sejam apuradas responsabilidades, para que haja consequências? Quer dizer, o que pode acontecer de mais grave do que isto? É preciso um motim numa prisão?

Sendo que, como sabemos, não será um eleitorado que dá votos e daí talvez esteja um pouco fora do radar.

Precisamente, por isso é que se fala tão pouco do universo prisional, das condições de muitas prisões neste país. Têm se feito reportagens, têm se publicado notícias sobre as condições, em alguns casos, desumanas das prisões em Portugal. Neste caso, não são necessariamente as condições desumanas, é a falta de segurança. Alguém escrevia que a determinada altura há uma caldeira que se estraga naquela prisão e é preciso levar um caminhão para fazer um reabastecimento e os portões ficam escancarados durante algumas horas. Aquela gente só não saiu porque não quis, porque de facto não havia guardas que os apanhassem. E, portanto, a minha questão é esta: tendo em conta o que a ministra já sabe que aconteceu, tendo em conta o que o diretor dos Serviços Prisionais sabe que aconteceu, o que é que falta?

E é com essa pergunta precisamente que terminamos este Semáforo Político. Estamos a aguardar esses esclarecimentos da ministra da Justiça, Rita Alarcão e Judy, se vai fazê-lo esta terça-feira, amanhã, às 17h.