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À boleia do TGV, paramos hoje no semáforo político à porta da Global Media. O Bruno Vieira Amaral, é ele que vai andar de comboio, tem hoje a companhia da editora adjunta de economia do Observador, a Ana San Lés. Ana, começamos por ti. Tens aqui duas cores de semáforo. Queres sinalizar aqui os trabalhadores da Global Media e as audições no Parlamento do ex e atual CEO do grupo e também do ministro da Cultura.
Sim, tem sido um dos temas dominantes da atualidade, sobretudo hoje, que se cumpre um dia de greve na Global Media. E claro que queria deixar aqui esta nota e este sinal verde para os trabalhadores, um verde de esperança, espero eu. Essa réstia de esperança acendeu-se ontem, precisamente no Parlamento, quando o atual presidente da Comissão Executiva disse que o fundo que detém a Global se mostrou disponível para, na próxima semana, fazer uma transferência para pagar os salários de dezembro que estão em atraso. Também se terá mostrado disponível para analisar a criação de um fundo ou de fazer um plano para ajudar a Global. E se podemos tirar alguma coisa de positivo nisto, é este vislumbre desta regularização dos salários de dezembro, que é realmente uma situação desesperante para os trabalhadores. O meu verde vai exclusivamente para isto, porque de resto, tudo o que se está a passar é um sinal vermelhíssimo. Hoje de manhã tivemos mais uma audição no Parlamento sobre este caso, o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva. Eu não sei se um leitor, um ouvinte comum percebe tudo o que se está a passar, porque realmente é tão complexo, mesmo para nós. Agora, o que está no centro desta confusão toda é a Lusa, a compra da participação na Lusa. E Adão e Silva disse que realmente a compra pelo Estado da participação da Global Media na Lusa falhou porque o PSD não deu o aval. Eu continuo sem perceber por que o PSD tinha que ter participado nesta decisão. Sei que os media são um setor especial, uma concorrência especial, mas nem o argumento do governo estar em gestão me parece sólido o suficiente para justificar este falhanço, que também, diga-se de passagem, não teria sido a salvação da Global Media. Talvez pudesse ter ajudado a resolver alguns problemas mais imediatos de tesouraria, como isso também tem sido dito. Mas também agora dá ao governo o argumento de que os despedimentos e as indemnizações não estão a ser pagos com dinheiro público. Ultimamente é moda, quando alguma coisa não acontece, é culpa de alguém que não quis e não de alguém que tinha a capacidade de decidir, como era este caso. Ficamos a saber aquilo que para mim também é um novo mistério, que terá havido uma contraproposta da Global para comprar as ações do Estado na Lusa. Confesso que aqui a minha cabeça deu um nó total. Essa proposta não terá sido levada a sério, mas não deixa de ser intrigante por que isso aconteceu, por que desta intenção, com que dinheiro, se não existe para salários. Hoje a Iniciativa Liberal já veio admitir uma comissão de inquérito. Não sei se se justificará, apesar da evidente gravidade da situação. Mas realmente é tudo muito estranho. A audição de ontem do presidente da Comissão Executiva foi, e perdoem-me a expressão, um lavar roupa suja, um passa culpas, uma sessão de name dropping. Tudo aconteceu por culpa de alguém no passado. Certo é que não creio que alguma destas audições tenha ajudado a perceber o que está mal, o que se passou com o patrimônio daquela empresa, quem realmente são as pessoas por trás do fundo ou da gestora do fundo. Hoje o Jornal Público dá-nos alguma luz sobre isso. Tem uma notícia sobre as dúvidas das autoridades europeias em relação à gestora de investimentos. Os seus fundadores estarão referenciados, supostamente, nos Paradise Papers, nos Bahamas Papers. E estamos aqui com uma situação muito complicada, lá está, novamente a sobrecarregar os trabalhadores que não recebem salário. Isso também veio levantar a questão antiga e muito preocupante, problemática do financiamento dos meios de comunicação. Mais Estado, menos Estado, mais privados, mais mecenato, mais benefícios fiscais. Via que o Rui Moreira há pouco dizia que as autarquias podem vir a ter posições.
Sendo a intervenção das autarquias.
Exatamente, não uma nacionalização, mas que as autarquias possam ter uma posição nos jornais. Não sei se será esse o caminho. Também queria dizer que vem aí um congresso dos jornalistas e dentro de alguns dias acho que vai ser um bom palco também para discutirmos isto e termos finalmente soluções, em vez de andarmos a arrastar esta discussão há tantos anos como andamos.
É uma discussão que é preciso fazer. E falando nessa questão do financiamento público dos órgãos de comunicação social, Bruno Vieira Amaral, tens aqui um vermelho para essa perspectiva, eventualmente, de uma nacionalização das empresas de comunicação social.
Um vermelho muito vivo para essa ideia que tem circulado, tem sido avançada por algumas pessoas, algumas que fazem parte deste mundo da imprensa, da comunicação social, da nacionalização, neste caso em particular, da Global Media. Essa, no quanto a mim, não é uma solução para os problemas do jornalismo, não é uma solução para os problemas de independência da imprensa, não é uma solução quando aquilo que uma democracia precisa é de uma comunicação social, de facto, que faça esse escrutínio do poder, tenha essa independência e tenha essa autonomia.
Sendo que já existe a RTP.
Exatamente. E que já existe, e eu acho que cumprem também um papel. Agora, não se pode nacionalizar tudo ou todas as empresas de comunicação social que estão em dificuldade, porque a comunicação social é fundamental para a democracia, mas nós também temos que nos perguntar se esta comunicação social, se os órgãos de comunicação social chegam às pessoas, estão a cumprir esse papel de escrutínio e vigilância e por que estão em crise e por que dentro do mesmo grupo há Órgãos que funcionam e que até provavelmente têm lucro, outros que não funcionam, que perderam completamente a relevância, porque há aqui situações muito diferentes. Eu quero deixar de parte a situação pessoal dos trabalhadores e manifestar toda a solidariedade com aquilo pelo qual eles estão a passar neste momento, que é uma situação muito difícil em termos pessoais, familiares, mas quero desviar-me dessa situação e concentrar-me no próprio modelo de gestão deste tipo de negócios. Saber também quem é que entra nesses negócios, com que intuitos o faz, à procura de lucro, de vender outro património dessas empresas. Isso também é preciso apurar. E não é depois quando os grupos estão em crise que vem o governo salvador nacionalizar. Já agora, nacionalize-se então todos os órgãos de comunicação social que estão em dificuldades e assim garantir-se-ia, à partida, ou aparentemente, essa pluralidade, mas essa pluralidade não é assim que se conquista. E aí também é preciso formação. Formação não é só de quem trabalha, é também dos leitores, dos consumidores de informação. E é preciso pensar isso tudo, e esse trabalho não é de um dia para outro que é feito. Os jornalistas são os principais, os primeiros interessados nessa avaliação e também pensar nesses novos caminhos, mas é um trabalho muito longo e que não se resolve com esta bala de prata da nacionalização.
E é por isso que na próxima semana há o Congresso dos Jornalistas. Também será um dos temas deste congresso, que já estava marcado ainda antes desta crise. Permitam-me também um verde para os camaradas de profissão, para a luta que estão a travar com esta greve e com este protesto. Ainda um verde também, só para terminar, Bruno, para o TGV.
Sim, muito rápido, o nosso TGV, que é o TGV mais lento do mundo. António Costa ontem estava muito contente, quase aos saltinhos, mas não devia, porque esse tempo todo para se avançar com o projeto é incompreensível. Ninguém percebe como é que isto se arrasta, para usar aqui uma expressão até de Pedro Nuno Santos, arrastar os pés é arrastar os carris tanto tempo para que este projeto avançasse, não se compreende como é que demorou tanto tempo. Agora, finalmente, parece que vai avançar. E demorou tanto tempo, ainda por cima, quando assistimos à degradação da ferrovia, dos serviços ferroviários, que servem muito mal a população. Voltamos aqui à questão de a quem é que estes serviços servem. Apesar de todos os esforços de propaganda do antigo ministro, a verdade é que o serviço funciona mal e era muito importante para aquilo que ele pretende também, Pedro Nuno Santos, esse país inteiro, que a ferrovia funcionasse. Vamos ver se é desta vez. Finalmente, avançou. Pode ser que daqui a uns 10 anos tenhamos TGV.
Pode ser que sim, pode ser que não. Logo veremos. Vamos desligar o Semáforo Político. Estamos de volta amanhã.