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Bem-vindos ao "Sob Escuta". Temos conosco Graça Freitas, rosto incontornável do combate à pandemia, em fim de ciclo à frente da Direção-Geral da Saúde. Obrigado por ter vindo. Acabou de ser condecorada com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito. Que Graça Freitas acha que vai ficar para a história? Como é que gostaria de ser lembrada, pelo menos?

Eu nunca pensei em ficar para a história. Eu tenho que ser muito sincera. Eu fiz a carreira que, de um modo geral, as pessoas sabem, fui funcionária pública durante toda a minha vida, gosto mais até de dizer servidora pública, e não tinha nenhum objetivo nem nenhuma meta de ficar para a história. E fui fazendo coisas que eu acho que foram interessantes em defesa da saúde pública. Houve alturas em que gostava de ter havido alguma projeção maior, por exemplo, para o Programa Nacional de Vacinação, não por mim, mas pelo programa, pelas pessoas que trabalhavam nele e, sobretudo, pelos que se vacinam e que contribuem para o estado de saúde do nosso país. Mas eu propriamente nunca tive esse pensamento.

Mas a história acabou por encontrar-se consigo, pelo menos.

Bom, a história, pelos vistos, como disse, encontrou-se comigo e eu agora tenho que me habituar a essa ideia desse encontro, porque não é tão instantâneo como isso nós passarmos uma vida inteira a trabalhar quase no anonimato. Eu sabia que quando fosse diretora-geral da saúde não ia ser anônima, mas estava a pensar ter um grau de exposição médio, controlado, quando fosse necessário. Vinha do doutor Francisco Jorge, que era um diretor-geral, como sabem, muito mediático e, portanto, pensava que ia ter uma comissão de cinco anos, comunicar o que fosse necessário, mas sem nenhum tipo de projeção muito importante. E, portanto, se me perguntasse se eu estava a pensar ficar na história, não. Quando muito, pensava que no final de 42 anos de serviço, o Ministério da Saúde provavelmente me daria uma medalha de mérito profissional. Não mais do que isso, porque é o ministério que costuma atribuir a carreiras longas e úteis essa condecoração. Nunca pensei ficar para a história. E mais, não sei se vou ficar para a história, porque isto é tão efêmero tudo que é duvidoso que permaneça durante muito tempo.

Esta pergunta está relacionada com uma outra que tínhamos preparado, porque recentemente, em entrevista ao "Expresso", admitiu que sentiu, em alguns momentos, a ausência de defesa e em que se sentiu mais pressionada. Esperava que, no caso, o governo também tivesse sido mais solidário consigo?

Eu não esperava que o governo tivesse sido mais solidário, nem creio que o governo não o tenha sido. Aliás, é muito claro que o meu lugar esteve sempre à disposição e que eu faço parte de uma estrutura do Estado. A minha direção-geral é um órgão direto do Ministério da Saúde e, portanto, eu mantinha com a minha tutela posições, a da tutela é de outro nível e de outra responsabilidade, a minha é muito mais técnica, obviamente, mas uma posição de alinhamento, de negociação, de concertação. E eu não esperava nem mais nem menos do que aquilo que o governo fez, que foi uma atitude correta em relação à minha situação.

Mas então em que momentos é que se sentiu desamparada?

Eu senti-me, e disse isso ao "Expresso", o desamparo foi mais no sentido, houve, de facto, uma altura em que fui muito criticada, e isso é normal. É normal haver críticas, eu acho. E nessa altura senti, sobretudo, por parte daquilo que eu chamo os meus pares, as pessoas que me conheciam, que tinham trabalhado comigo, que foram meus colegas, que lidaram em alguma fase da minha vida comigo. Algumas delas tinham acesso a meios de comunicação, todas tinham acesso a redes sociais. Eu nessa altura, aí sim, senti não as críticas tão fortemente, mas senti que algumas das pessoas podiam ter tentado contrabalançar as críticas. Foi um período relativamente curto. Eu também reconheço que esse período não demorou muito tempo, mas de qualquer maneira, na altura eu senti-o assim. Não quer dizer que tenha continuado a sentir isso ao longo do tempo, não. A pandemia, que ainda existe, mas aquela fase mais crítica, teve vários momentos, e esse foi também facilmente ultrapassado. Portanto, aquela fase de maiores críticas, mais inicial, mais na altura em que tínhamos dúvidas, que possivelmente, provavelmente os cidadãos também estariam mais angustiados, mais reativos, também não durou muito tempo.

Precisamente. Disse nessa mesma entrevista que teve proteção policial. Teve ameaças à sua integridade física?

Olhe, eu vou ser-lhe muito sincera. Eu um dia, no início da pandemia, estava no Ministério da Saúde e pediram-me, depois de uma conferência de imprensa, para não sair, para esperar um bocadinho e para entrar numa sala onde eu não era habitual entrar. Era uma sala do Ministério da Saúde, uma sala de trabalho, e estavam dois senhores sentados, uma secretária, pediram para eu me sentar, e um dos senhores comunicou-me que eu ia passar a ter proteção policial e o que é que isso significava. E significava uma coisa tão simples como isso, que eu não podia sair da porta do meu apartamento, da minha casa, sem que do lado de lá já estivesse um agente da PSP, das forças que fazem este trabalho, e quando regressasse a casa, esse agente faria exatamente a mesma coisa: por-me-ia à porta, esperaria que eu fechasse a porta, e depois sairia. Aquilo foi tão para além do que eu conseguia conceber, de uma cidadã normal como eu. Eu considerava-me uma cidadã absolutamente normal, uma funcionária, uma servidora pública, que eu vou lhe ser absolutamente sincera: não perguntei os motivos.

Pois, era precisamente o que eu ia perguntar.

Limitei-me a dizer-

Nunca lhe disseram que grau de ameaça era esse.

Não, mas eu também não perguntei. Foi uma coisa de que eu me admirei sempre, ao longo do tempo, como é que foi possível ter ficado tão estupefacta que não fui capaz de perguntar: "Mas por quê? O que é que se passa? Como é que souberam? O que isso significa?" Não disse nada. Disse: "Pronto, está bem. Então, o que eu faço amanhã?" E o senhor disse-me: "Pronto, agora vai dar os seus dados, vai dizer que horas é que sai de casa e amanhã já não abra a porta se não tiver lá uma pessoa dos nossos serviços". Disse-me quem eram as pessoas que iam estar comigo, os nomes dos três agentes, era uma senhora e dois senhores. E eu fiquei absolutamente sem dizer nada. É uma coisa que ainda hoje me causa alguma estranheza, eu não ter perguntado.

Doutora-

E depois achei que não valia a pena perguntar, depois de já tudo ter acontecido.

Olhando para trás, consegue identificar o seu maior erro na gestão da pandemia? Tem algum arrependimento nas decisões que foi tomando?

Olhe, eu digo, e digo sinceramente, porque faço esse exercício em relação à minha vida de um modo geral. Eu só me arrependo daquelas coisas que fiz com algum caráter, e não foram muitas, de premeditação, porque achei que fazia uma coisa determinada e era com determinado fim. Fiz muito poucas desse gênero, com aquilo que eu digo, com dolo, com premeditação. E, portanto, durante a pandemia, posso ter cometido omissões, posso ter transmitido pior em algumas situações, posso não ter comunicado tão bem, posso ter sido veículo de algumas coisas menos corretas para hoje, com o que nós sabemos hoje, mas isso não foi feito com uma intenção dolosa, portanto, eu não me arrependo.

Dormiu sempre de consciência tranquila.

Sim, dormi. Se me perguntar hoje se eu gostaria de voltar ao dia 27 de março e dizer aquilo de uma forma diferente, provavelmente sim, teria dito de outra forma, mas não há o caráter do arrependimento. Não quer dizer que eu não fizesse, se soubesse o que sei hoje, se as circunstâncias fossem diferentes, de forma diferente. Na altura, com as circunstâncias que eu tive, tenho a noção que fiz o que pude. E é essa a tranquilidade que eu tenho. Obviamente, podia ter feito melhor com outras circunstâncias.

Há muitas pessoas que lamentam o número de mortes associadas à Covid-19. Acha que era possível fazer mais e melhor?

Olhe, eu acho que as mortes são mesmo para lamentar, porque foram pessoas das nossas relações, das nossas famílias, todas aquelas pessoas que faleceram com Covid-19, provavelmente tiveram o momento da sua morte antecipado por uma causa que não existia antes. Iriam morrer, como todos, mais tarde, provavelmente, e essa morte ocorreu prematuramente em relação àquilo que seria o expectável sem a Covid-19. E portanto, eu quando falo nestas mortes, falo em pessoas que morreram, porque foram, de facto, pessoas que morreram. Na altura, as estatísticas eram dadas o número de mortos, o número de casos, mas eram, de facto, pessoas que morreram. Era muito difícil ter evitado a maior parte destas mortes. Por quê? Porque uma das grandes medidas que eu creio que foi tomada, e começam a sair estudos sobre isso, não sobre Portugal, mas sobre os países todos, é que de facto, perante uma ameaça imprevisível, com um vírus que não se conhecia, com uma dinâmica de transmissão desse vírus que também não se sabia, com uma gravidade também desconhecida, que termos tomado medidas como o confinamento foram de facto um travão ótimo, um travão eficaz para que não acontecessem mais casos naquela primeira onda. E note bem que nós naquela primeira onda não tínhamos armas terapêuticas, não tínhamos vacinas, não tínhamos antivirais, não tínhamos anticorpos monoclonais, que não têm um valor por aí além, mas que eram alguma coisa. E portanto, foi muito importante o que a maior parte dos Estados europeus fizeram, que foi o movimento de isolar os seus cidadãos com todos os custos sociais, mentais, econômicos que isso teve.

Fez-se o que se podia, é isso.

Fizemos o que nós podíamos naquela altura. E fizemos nós e fizeram a maior parte dos países. Portanto, foi recorrer a uma medida drástica, mas também perante uma ameaça que nós desconhecíamos e também não tínhamos armas conhecidas de prevenção eficaz.

Logo no início da pandemia, fez uma afirmação que viria a marcar também a sua imagem como uma das gestoras da pandemia. Era que o vírus não estaria cá tão cedo, que esse era um cenário que parecia improvável. Teme ser recordada por essa afirmação que depois não se verificou?

Eu creio que essa afirmação já foi repetida muitas vezes. Eu lembro-me da altura em que a disse Lembro-me até do contexto. Obviamente, eu não disse essa informação assim a seco. E mais, eu disse a informação que na altura era aquela que a Organização Mundial de Saúde também nos transmitia, porque a própria Organização Mundial de Saúde, no início da pandemia, não tinha estudos científicos, não se sabia o R e o RT do vírus, não se sabia o período de incubação, o período de transmissibilidade, a contagiosidade. Portanto, a própria Organização Mundial de Saúde tinha um conjunto de peritos de variadíssimos países que os ia pondo a par do que eles achavam que era a situação. Ainda não estávamos na fase dos estudos, nem na fase de conhecer o vírus, nem a forma como ele se propagava. E, portanto, o que eu fiz foi, no fundo, veicular o que era o pensamento da Organização Mundial de Saúde nessa altura. E também gostava aqui de deixar claro que provavelmente nem a Organização Mundial da Saúde, nem nós comunicaremos da mesma forma, porque aprendemos lições com esta pandemia, mas de um modo geral, muitas vezes por ano, nós recebemos informação de vírus, sobretudo vírus, que adquiriram mutações que os tornam potencialmente ameaças. Eu recordo aqui para todos que nós em 2003 tivemos a SARS e na altura a SARS não se chamou SARS-CoV-1, porque nós não sabíamos que ia haver a SARS-CoV-2. Se hoje pudéssemos andar para trás e batizar a SARS, ter-se-ia chamado SARS-CoV-1. E essa SARS, a pneumonia atípica de 2003, foi provocada por um coronavírus. Coronavírus que circulam no nosso inverno habitualmente e dão-nos constipações, já estão em equilíbrio conosco e, portanto, há coronavírus em circulação no ambiente todas as estações e durante todo o ano, que nos dão uma vulgar constipação. Houve a SARS em 2003, há o coronavírus do Médio Oriente, que passa a barreira das espécies, passa de um camelo, de um dromedário para pessoas, mas depois não se transmite eficazmente entre pessoas, por isso é que não deu, até à data, nenhuma epidemia global ou nenhuma pandemia, portanto, está contido ao Médio Oriente.

Portanto, não houve preocupação de esconder a gravidade da doença, mas à data da afirmação que proferiu, não havia, de facto, conhecimento, é isso?

Isso. Vamos lá ser absolutamente claros. Eu sou absolutamente pela transparência e pela verdade, que é conhecida à data. Portanto, tal e qual como eu acho que não devemos desinquietar ou angustiar as pessoas para além daquilo que é estritamente necessário, também não devemos ocultar a verdade. As pessoas são adultas, têm um comportamento, de um modo geral, responsável e, portanto, a verdade deve ser sempre dita. Na altura, a Organização Mundial e até por comparação com outros coronavírus, naquela fase, durou muito poucos dias aquele período em que se pensava que de facto não havia um grande risco e depois muito depressa se percebeu, em menos de um mês, que não iria ser assim. Portanto, a Organização Mundial de Saúde, ela própria, reviu a avaliação do risco que foi feito na altura e começou a considerar o SARS-CoV-2 uma ameaça.

Mas em relação às máscaras, por exemplo, já havia alguns países a tomar a medida de implementar as máscaras e cá ainda falávamos do receio de uma falsa sensação de segurança. Como é que explica isso?

Esse foi, de facto, também um fator que foi muito discutido no início. A utilização das máscaras também não foi unânime em todos os países. Aliás, se repararem, a maior parte dos países adotou medidas diferentes em diferentes etapas. E depois, no final, nunca chegamos a perceber quem é que teria feito a melhor escolha possível em cada momento. Eram aprendizagens e havia, de facto, e há, e aconteceu, e acontece. A distância social, na altura, era considerada a melhor medida, era social, e depois até deixamos de dizer social, porque as pessoas podiam socializar e dar-se bem à distância física. Verdadeiramente era a distância física. Para um contacto que se imaginava, sobretudo por gotículas, portanto, passando pelo espirro, pela tosse, pela fala de uma pessoa para a outra. E, portanto, se esse fosse o método mais eficaz, o que interessava era que nós estivéssemos distanciados. E há, de facto, um fator que é uma tentação de nos aproximarmos mais quando estamos com uma máscara. É normal, é intuitivo. Primeiro, temos mais dificuldade em expressar-nos verbalmente, em falar, e depois, havendo o método barreira, nós tendemos a aproximar-nos uns dos outros. Portanto, tudo isto eram, de certa forma, medidas empíricas que estavam a ser experimentadas. E estas movimentações entre utilizar distância física e mais nada, ou utilizar máscara com menos distância física. Portanto, mais uma vez, era o que nós sabíamos na altura.

Mas reconhece que na altura não havia máscaras, nem capacidade instalada para-

E também não havia assim tantas máscaras.

Não teria sido mais franco dizer: "Não temos máscaras suficientes"?

Também não havia máscaras suficientes, mas podiam-se ter recomendado seletivamente nalgumas circunstâncias, como se recomendava já para os serviços de saúde. Mas mesmo em países que as tinham, como lhe digo, o calendário de adotar máscaras foi muito diverso nos diferentes países. Houve países que foram muitíssimo assertivos em introduzir as máscaras, tal qual como foram muito assertivos depois a abandoná-las também. Portanto, as medidas de saúde pública muitas vezes carecem de um tempo também para ser avaliadas a sua efetividade. E, portanto, olhe, foi na altura com o que sabíamos, com o que tínhamos, a decisão que foi considerada a mais equilibrada. Hoje, voltando a ver tudo o que diferentes países fizeram De facto, a pandemia lançou-nos um desafio terrível. Foi tudo muito rápido, muito concentrado no tempo. Era preciso agir muito depressa e o grau de incerteza era muito grande e tudo aquilo foi muito intenso, até do ponto de vista emocional. E portanto, foi tudo de uma intensidade que é quase difícil nós dizermos que somos completamente racionais perante um fenómeno tão intenso, tão rápido, tão diferente todos os dias como foi esta pandemia. E depois, como eu lhe digo, nós aprendemos muito com a ciência, com os estudos científicos, mas também aprendemos muito com a experiência uns dos outros. Os países comparam-se muitas vezes, mas neste caso era difícil. Dificilmente um país estava com as mesmas medidas ao mesmo tempo.

Uma dúvida, doutora. Estava-me a dizer há pouco que procurava sempre transmitir com franqueza todos os dados possíveis à população. Somos todos adultos. Mas a certa altura também havia muitos dados e uma realidade que prescrevia muito rapidamente, os dados tornavam-se desatualizados muito rapidamente. Hoje em dia adotaria outra estratégia de comunicação?

Uma grande lição foi que, de facto, a comunicação é fundamental, com ou sem pandemia. Nós temos que comunicar, temos que comunicar de forma proativa, temos que comunicar em tempo útil e de forma clara. E se calhar, às vezes essa clareza não era tão percepcionada por nós, que tínhamos que comunicar, que sabíamos muita coisa de comunicação dos livros, mas não somos especialistas em comunicação. E, portanto, foi um movimento difícil. A questão dos dados e da desatualização é de facto difícil, porque para nós, as pessoas da ciência, nós sabemos isso. Nós conseguimos dizer que de acordo com um estudo inglês publicado na semana passada, mas por outro lado, de acordo com o que se passa nos Estados Unidos, nós vivemos com esta incerteza e com esta ambiguidade. Mas como é que isso se transmite aos cidadãos que, no fundo, angustiados, com medo, porque nós tivemos medo da pandemia no início. Como é que se transmite esta incerteza? Porque as pessoas querem, de facto, mensagens claras, as pessoas querem mensagens que lhes deem tranquilidade. A questão dos números, eu às vezes tinha a noção que no exato momento em que eu estava a anunciar um número, esse número já estaria desatualizado. A questão tecnológica, a infraestrutura tecnológica que criamos ao longo da pandemia para nos dar números em tempo real, é muito mais robusta hoje em dia do que era no início da pandemia. Portanto, tudo isso foi uma máquina que se foi montando muito depressa, mas que não estava completamente montada no início.

E outra das questões também que causou até muito debate público, foi a abertura ou o fecho das escolas. Foi muito controversa, com opiniões muito fortes de um lado e de outro. Disse-se repetidamente que a escola não representava o mesmo risco de transmissão do vírus, até que as escolas depois foram efetivamente fechadas. Foi um dos casos em que a política se sobrepôs à ciência? Sentiu-se de alguma forma ultrapassada nessa questão?

Eu creio que o papel da ciência é mais limitado à ciência. Ou seja, nós trabalhamos com base em estudos que nos dizem que uma determinada medida é segura, que uma determinada medida é eficaz, que um determinado medicamento faz um efeito X ou Y. Portanto, trabalhamos muito nesta base. As pessoas que trabalham na política têm outro nível de responsabilidade incomensuravelmente maior e têm que pensar em várias peças ao mesmo tempo. Têm que pensar na questão sanitária, na questão da ciência, na questão da propagação, da transmissão, tudo isso. Mas também têm que pensar no impacto na aprendizagem, no impacto na saúde mental, no impacto económico, no impacto social. E, portanto, o puzzle da política e dos governantes é muito mais complexo, porque é muito multivariado. Aliás, como deverão saber, no final do segundo ano de pandemia, começa a surgir insistentemente o termo "Sindemia" como significado de fenómenos que sendo de saúde no seu início, sendo sanitários, depois têm tantas facetas, tantas interações sociais e económicas que acabam por ser mais do que pandemias, são sindemias, são constelações, são uma conjugação de fatores em que uns impactam nos outros. Nós nunca mais olharemos para uma crise deste gênero, apenas como uma crise sanitária, sendo que à saúde compete tentar travar os impactos negativos.

Mas com a informação que tem hoje e feito esse diagnóstico, teria sugerido ou defendido que não se encerrassem as escolas tal como aconteceu?

Houve alturas em que acho que foi importante, eu continuo a achar que houve alturas em que foi importante pôr os dois pratos da balança. Porque quando nós não fazemos nada, a inação não é neutra. Portanto, eu digo sempre isto: não tomar uma medida, o efeito não é neutro, é outro efeito. E portanto, se não fechássemos as escolas, nós naquela altura teríamos aumentado a propagação do vírus, inevitavelmente, porque quanto mais pessoas se juntassem, independentemente da velocidade com que o vírus se propagasse e da gravidade da doença em diferentes grupos etários, o certo é que quanto mais pessoas infetadas houvesse num determinado momento, mais outras se infetariam. Isso faz parte da dinâmica. E, portanto, eu encaro que o encerrar escolas foi o equilíbrio possível. Em determinadas alturas, nós não tivemos as escolas sempre encerradas, até havia o movimento encerra e não encerra. Em determinadas alturas Foi importante para reduzir a velocidade de propagação comunitária do vírus, pois aqueles alunos iriam para suas casas.

E garantir que os hospitais tinham capacidade para atender.

Isso, os hospitais tinham que ter capacidade.

Foi sempre essa a bitola?

Era uma bitola importantíssima, nós termos capacidade de atender as pessoas. E não se esqueça, e de atender as pessoas em domicílio. É que nós tivemos conhecidos, notificados, mais de seis milhões e meio de casos. A maior parte desses casos, a grande maioria desses casos, ficou no domicílio. Foi atendida remotamente, por telemedicina. Tivemos que construir plataformas de atendimento. Eu tive Covid antes da vacinação, ainda nem a vacina tinha chegado ao nosso país, e todos os dias uma médica me ligava para casa para ver os meus parâmetros vitais, para saber se eu estava bem. E o meu marido, que era meu contato e que não adoeceu, também recebia do grupo da saúde pública, chamadas para saber se ele próprio estava bem. Houve necessidade de criar uma máquina enorme, porque nós também aprendemos com a ciência no início, que a maior parte dos casos, felizmente, não ia ter a gravidade que nós pensávamos, mas ia precisar ser acompanhada. Nós não podíamos dizer às pessoas: "Ficam em casa" e não lhes dar nenhum tipo de acompanhamento. Até para haver alguma monitorização dos sinais e dos sintomas, porque todos sabíamos que houve ondas antes da vacinação em que podia haver um agravamento, uma doença aparentemente benigna, em pessoas aparentemente saudáveis e bem, podia sofrer um agravamento. Uma vez que nós estávamos, aquilo a que nós chamamos, naïves, estávamos completamente virgens em relação à nossa imunidade contra o vírus.

Por falar nisso, doutora, na pandemia, a doutora Graça Freitas representava a ciência, a ex-ministra Marta Temido representava a decisão política. Em que momentos os dois mundos andavam desencontrados?

Os nossos dois mundos não andavam totalmente desencontrados. Nós tínhamos uma visão, às vezes, diferente, porque os olhos da ministra eram os olhos políticos e os meus eram os técnicos, e às vezes podíamos ter o desencontro do timing. Aqui também além das medidas, perguntou-me das escolas, é quando é que essas medidas vão ser aplicadas.

Consegue identificar algum momento em que isso tenha acontecido?

Eu não consigo isolar particularmente o momento, mas houve, de facto, esses momentos, mas nunca houve nenhum momento inultrapassável que não se tivesse resolvido com aquilo que nós estamos a fazer neste momento, que foi conversar, porque nós conversamos imenso ao nível do Ministério da Saúde. Reunimos imensas vezes, tínhamos briefings diários entre o ministério, a parte política, e todas as instituições do Ministério da Saúde, as centrais e as regionais, as administrações regionais de saúde, que depois operacionalizava ao nível das regiões, com os seus hospitais e com os seus centros de saúde, as medidas. E, portanto, houve muita oportunidade para diálogo, para debate, para contraditório.

Portanto, em nenhum momento sentiu na necessidade de pôr o seu lugar à disposição por discordância profunda com a linha que estava a ser seguida.

O meu lugar, por natureza, esteve sempre à disposição. Por discordância, nunca se chegou a esse ponto. Nós falávamos muito frequentemente, não só a Direção-Geral da Saúde com o Ministério da Saúde, mas a Direção-Geral da Saúde com o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, com a Infarmed, que foi um parceiro extraordinário, e o Ricardo Jorge também, com a SPMS, com os outros parceiros, e obviamente tivemos que afinar muitas posições.

Tiveram de afinar alguma coisa no Natal 2020, doutora? Aquela onda a seguir aconselhou prudência ao governo, na altura.

O Natal 2020, eu olhando agora para trás, é fácil. Creio que coincidiu com uma coisa que também nós aprendemos com esta pandemia. Para além do governo, para além das instituições técnicas, para além dos comentadores, existe uma coisa que se chamam os cidadãos e a sociedade. E quando as pessoas chegaram àquele Natal, as pessoas estavam, de facto, cansadas de não verem as suas famílias, de não verem os seus amigos, de termos tido o confinamento inicial, depois termos tido aqueles confinamentos que se lembrarão, que não passávamos de uma freguesia para outra ou de um conselho. Isso dividiu, de alguma forma, as pessoas. E portanto, quando nós chegamos a um momento especial da nossa vida coletiva, que é o Natal, porque é, de facto, um momento especial na nossa sociedade, as pessoas estavam também ávidas, eu diria, e naturalmente ávidas, e bem, de encontrarem os seus familiares, os seus amigos, aqueles de quem se tinham mesmo distanciado ao longo da pandemia.

Então foi uma questão de saúde mental, abrir-se um pouco o país no Natal?

É uma questão do que a sociedade também está disposta a aguentar. Nós nunca podemos ir, e isso acho que aprendemos, o que uma sociedade está disposta a aguentar, ou vou utilizar o termo em sentido lato, a pagar por determinado nível de saúde e de segurança. E temos sempre que contar com a sociedade e aprender. E são um parceiro, e vocês viram, quando algumas medidas, até noutros países, não tanto em Portugal, foram implementadas contra a vontade da sociedade, daquilo que a sociedade estava disposta a aceitar, não correram muito bem, porque ou houve mesmo movimentos contra ou houve depois resistência passiva às medidas. E portanto, eu creio que o que aconteceu foi um movimento social como resposta a um período muito longo de isolamento de uma sociedade que é extremamente afetiva.

Hoje, com o que sabe hoje, não teria aconselhado para que houvesse maior abertura nesse Natal em concreto? Com o que sabe hoje

Com o que eu sei hoje, é facílimo dizer a tudo o que seria perfeito.

Porque foi um momento muito complicado, até porque esteve na origem da terceira vaga.

O preço a pagar depois tornou-se ainda maior, talvez.

O preço a pagar, pois. Mas nós voltamos sempre à mesma questão. Nós, na altura, não sabíamos. E eu também tenho, sem estar a tirar nenhum peso da minha responsabilidade, até porque eu sou a responsável, mas não sou sozinha. Eu tinha uma casa, a minha DGS, a minha Direção-Geral da Saúde, que tinha vários dirigentes de altíssima qualidade e técnicos fabulosos. Não era eu a diretora-geral, era a Direção-Geral da Saúde. Havia pessoas com responsabilidade para continuarem a manter as coisas na Direção-Geral, para além de mim, mas eu tenho desse período uma ideia menos clara do que qualquer outro período da pandemia, porque correspondeu exatamente à altura em que eu própria tive Covid. E portanto, eu estava mais na situação de doente, de facto, do que de profissional.

Mas houve outros momentos relacionados até com grandes eventos. Recordo-me, por exemplo, da final da Liga dos Campeões, que resultou num grande aglomerado de adeptos. Talvez não tenha sido avisado aceitar aquela abertura.

Nessa altura, nós já tínhamos as pessoas vacinadas, nós já sabíamos que as pessoas mais novas e mais saudáveis não teriam doença grave. Nós já sabíamos que os nossos hospitais estavam preparados para aguentar uma subida do número de casos e portanto, aí já era um risco mais calculado. Também não podíamos continuar completamente fechados. Nós tivemos que ir abrindo e houve muitas alturas em que fomos abrindo de forma controlada e eu dou alguns exemplos: as questões do futebol, que foram abrindo, as questões das peregrinações a Fátima, os grandes eventos como a Festa do Avante ou outros. Foram momentos muito importantes, mas em que havia um risco já calculado. Nessa altura, nós já sabíamos mais. E já sabendo mais, é mais fácil tomar decisões equilibradas, não estou a dizer que perfeitas, equilibradas, em que por um lado, se abria à vida social e, por outro lado, sabíamos que íamos ter um aumento no número de casos, mas esse aumento no número de casos era aceitável do ponto de vista da gravidade. Isso foi um grande momento de viragem, quando nós, já com a vacinação, percebemos que podia haver muitos casos de doença, que foi o que aconteceu com a onda Ômicron, que tivemos aqueles picos enormes de doença e que já não tiveram reflexo nos internamentos, nas unidades de cuidados intensivos e na mortalidade, porque tínhamos um sistema imunitário já preparado.

Mais robusto. É médica de formação e um dos momentos politicamente mais delicados da pandemia, na parte da gestão política, deu-se quando Marta Temido sugeriu que os médicos eram pouco resilientes. António Costa também foi gravado a chamar cobardes a médicos. Como é que sentiu isso? Foi difícil para si, enquanto médica, ver aquelas declarações?

Eu falo pela ministra Marta Temido, que eu conheço. Eu creio que foram declarações apenas e só menos felizes, porque aquilo não corresponde, de facto, ao que a ministra Marta Temido pensa e faz. E aliás, tenho que lhe dizer que a ministra Marta Temido foi absolutamente exemplar na forma como se dedicou ao combate à pandemia. Teve, de facto, uma capacidade e uma resistência louváveis e teve até uma imensa capacidade de ouvir os outros, ouvir os seus órgãos técnicos, que eram muitos. Como eu digo, diariamente, nós reuníamos no ministério e portanto, não senti de modo algum essas palavras como alguma coisa sentida e que refletisse o íntimo e o pensamento da ministra Marta Temido, de todo.

Falemos de uma outra personagem também incontornável na gestão da pandemia, o almirante Gouveia e Melo. A certa altura, foi importante também conduzir e dar um novo ímpeto ao processo de vacinação. Sobre o desempenho, Gouveia e Melo disse o seguinte: "Calhou ser o almirante Gouveia e Melo o condutor dessa máquina logística e fê-lo bem. Se tivesse sido outra pessoa com as mesmas aptidões ou parecidas, creio que também o teria feito". A sua frase, é interpretação nossa, parece demonstrar alguma frustração pelo excesso de protagonismo que Gouveia e Melo acabou por receber. É assim? A aura sebastiânica de Gouveia e Melo ajudou também a esbater o que a senhora doutora e Marta Temido também fizeram na gestão da pandemia? Acabou por ficar com a melhor parte e vocês com a parte mais ingrata.

Não, eu acho que à altura era vice-almirante, agora é almirante Gouveia e Melo. Isso que eu disse corresponde ao que eu penso. Eu também creio que eu e a direção-geral, e o professor Valter Fonseca, a quem eu presto aqui a minha homenagem, e a comissão técnica de vacinação, tiveram um papel muito importante na vacinação, mas também creio que outros, com os mesmos conhecimentos e circunstâncias que nós, o teriam feito. Eu não tiro nenhum mérito ao senhor almirante.

Não fica um amargo de boca por de repente haver uma pessoa quase elevada a herói nacional e duas outras que se esforçaram tanto.

Essa parte do ser elevado a herói nacional, creio que o senhor almirante não terá pedido às pessoas que o elevassem a herói nacional. Isso são as coisas que acontecem na vida. Eu acho que ele, de facto, teve um papel importante em todo o processo de vacinação. Aliás, tenho aqui que lhe dizer que acho que o processo de vacinação foi exemplar exatamente porque muitas instituições e muitas pessoas tiveram papel importante e perceberam que nós fazíamos parte de um todo. E portanto, acabamos todos por reconhecer os papéis de cada um e de ser nessa complementaridade que nós nos organizamos para fazer uma campanha que eu considero excepcional, e é, a nível mundial, absolutamente excepcional. E foi essa compreensão que todos tivemos Qual era o nosso papel naquele desígnio, que foi um desígnio nacional, e tentamos fazer o melhor possível. Obviamente, aqui o senhor almirante tem uma palavra de apreço e importante, porque coordenou uma fatia muito importante deste processo. Todos os outros parceiros, eu recordo aqui e não posso deixar de o fazer, o Infarmed e a União Europeia foram duas instituições, ainda hoje estivemos a falar disso, o Infarmed fez 30 anos, a União Europeia com os mecanismos que criou em tempo recorde, e a Europa que fabricou vacinas, a Europa desenvolveu vacinas ótimas para todo mundo, teve um papel absolutamente extraordinário, porque sem vacinas, não há vacinação. E foi graças aos mecanismos europeus a que a Europa funcionou e devemos estar satisfeitos como europeus. Foi graças ao nosso grande negociador e representante neste fórum, o Infarmed, que nós conseguimos trazer milhões de doses de vacinas para Portugal num tempo muito curto. E, portanto, temos que dar aqui a todos nós que participamos neste processo. Fizemos o melhor que sabíamos, porque acreditávamos que estávamos a modificar a história da pandemia. E isso foi o mais importante de tudo. Pela primeira vez, com as vacinas e com o processo de vacinação, tivemos a sensação que nós podemos, de alguma forma, controlar esta pandemia, que acabaria sempre por ser controlada ao fim de algum tempo, com a imunidade natural, isto é a vida. E teria durado mais tempo, mais vítimas, mais internamento e mais mortes. Tínhamos ali uma arma fantástica.

Doutora, falemos um pouco mais de si como pessoa e como mulher. Combateu um cancro enquanto estava em funções na DGS. Como é que soube que estava doente?

Em funções, mas eu vou dizer uma coisa muito importante. Eu continuo a tê-lo comigo. É uma doença crônica, neste momento, que está controlada. A fase aguda já aconteceu há uns anos e eu soube de forma absolutamente tranquila e inesperada, e depois não foi nada tranquilo tudo o que aconteceu a seguir. Eu estava a trabalhar e faço rastreios. E eram 14h45 e o sítio onde eu faço os rastreios é muito perto da Direção-Geral da Saúde e por volta das 14h45, eu estava numa reunião e disse: "Olha, até já, porque eu vou fazer a minha mamografia que está marcada para as 15h, mas não acabam a reunião sem eu voltar". Pronto, foi assim que eu soube. Foi assim que eu soube. Foi um choque imenso, porque até as circunstâncias eram estas. Eram umas circunstâncias de: "Olha, vou ali fazer o rastreio". E entrei de uma maneira e saí de outra. Portanto, em poucos minutos, entrei saudável e saí com grande peso em cima.

Estava, naturalmente, numa posição mais frágil a partir desse momento. Por que continuou a trabalhar?

Achei sempre que devia trabalhar. E eu tenho aqui que falar de uma outra circunstância da minha vida. Nós tínhamos o Francisco Jorge como nosso diretor e ele tinha duas subdiretoras, eu e a Catarina Sena. A Catarina Sena era uma mulher absolutamente extraordinária, tinha a área da gestão e a Catarina Sena foi diagnosticada antes de mim, muito mais nova do que eu. Eu, apesar de tudo, já tinha alguma idade, tinha 50 e tal anos. A Catarina estava na casa dos 30 e poucos, e portanto ela foi muito nova e teve um diagnóstico muito precoce e muito agressivo. E a parte mais difícil de lidar com tudo isto foi estarmos as duas doentes. E a Catarina, quando soube, quando eu voltei, eu voltei de fazer a mamografia muito abalada e sentei-me numa cadeira do meu gabinete e ela apareceu e perguntou: "Então, o resultado?" E percebeu que alguma coisa tinha acontecido. E a Catarina chorou, e depois chorei eu. Choramos as duas. E a Catarina disse uma coisa extraordinária. Ela morreu já e eu nunca esqueci o que ela me disse. Ela disse: "Graça, ocupe a cabeça". E a melhor forma que eu encontrei para ocupar a cabeça foi trabalhar, porque de fato, todas as outras ocupações não eram suficientemente importantes para que eu me esquecesse que tinha uma doença grave. E a Catarina disse-me: "Ocupe a cabeça". Eu tomei a decisão, sempre que pudesse, todos os dias em que eu pudesse, eu ia trabalhar.

Teve medo alguma vez?

Bastante. Não posso dizer que não tivesse. Eu pensava que era uma pessoa saudável. Eu tinha abandonado todos os meus maus hábitos de vida. Eu tinha fumado durante 20 anos, tinha deixado de fumar porque eu não queria morrer cedo, eu queria cumprir a minha esperança de vida. Portanto, como achava, não sei por quê, mas achava que ia ter um problema cardíaco ou cardiovascular, tirei todos os fatores de risco cardiovascular.

E em particular durante a pandemia, estando na condição em que se encontrava, o risco era maior.

O risco de?

O risco de contrair o vírus.

Sim, mas na altura da pandemia eu já não estava tão debilitada, eu já não estava na fase de imunodepressão. Eu já estava a fazer terapêutica, mas não estava a fazer terapêutica que levasse à imunodepressão. Apesar de tudo, tendo uma doença de base, obviamente que o risco era maior e também tive medo durante a pandemia. Eu não tive medo só na outra doença, tive medo durante a pandemia. Até porque foi na altura em que as pessoas começaram a ir para intensivos, foi quando começou exatamente aquela vaga e portanto, tive mesmo medo, não oculto. Eu monitorizava os meus sinais vitais, tinha oxímetros, tinha termômetros, tinha tudo em duplicata para não haver enganos. Eu vivia focada nos sintomas e nos sinais. Tive um medo muito grande, que era o medo de transmitir a doença ao meu marido. Eu tinha o sentido da responsabilidade de eu ser a transmissora, porque ele estava em casa, em teletrabalho, portanto, quem vinha da rua era eu. Houve ali uma divisão total de espaços, de contactos, de tudo. Mas tive medo, sim.

Deve criar ansiedade. Sentiu ansiedade como o comum dos mortais?

Senti ansiedade. Eu acho que senti mais do que o comum dos mortais, porque eu sabia, no fundo, a evolução da doença. Eu até sabia em que dia, mais ou menos, a doença podia passar de aparentemente mais benigna para um cenário pior. À medida que esse dia se aproximava, a evidência científica disto vale o que vale, mas na altura havia muito essa ideia que por volta do sétimo dia podia haver uma viragem e piorar-se. Eu que estava a ter uma evolução relativamente benigna, à medida que passou o quinto dia, o sexto e aproximava-se o sétimo, eu comecei a ficar ainda mais ansiosa e preocupada. Eu tive medo. Até porque muito poucos dias antes de mim, o Celso, que era um grande amigo nosso, de casa, amigo com quem viajávamos, contatávamos, morreu com o Covid. E eu só soube depois que ele estava doente. Eu nem sequer tinha sabido que ele estava doente. Tive medo, fiquei ansiosa. Fiquei muito aliviada quando finalmente o episódio se resolveu e ainda mais aliviada quando me vacinei.

E com o volume de trabalho que tinha, alguma vez esteve à beira de um burnout, por exemplo?

Olhe, isso é um dos grandes mistérios da pandemia, porque isso eu não tive. Não me pergunte por quê. Mesmo com as questões de saúde, esta e não só, pela idade que eu tenho, já tenho alguns problemas de saúde. Ainda hoje me sinto espantada, porque não estive à beira do burnout. Dormia pouco, alimentava mal, não tinha nenhum tipo de distração, mas à beira do burnout, não. Houve dias em que estava muito cansada, de fato, mas nunca me senti à beira da exaustão total. No entanto, tive colaboradores na DGS que tiveram mesmo crises de exaustão, até bastante mais novos do que eu. Nós trabalhamos muito, de facto, durante aquele tempo e houve pessoas que tiveram mal. Eu tive imensa sorte. Acho que é quase um milagre, porque não cheguei a essa fase. Não sei por quê, porque dormia, de facto, como lhe digo, mal, alimentava mal, só trabalhava.

Mas acha que é a mesma pessoa ainda? A pessoa que era em dezembro de 2019 é a mesma pessoa que temos agora?

Não. Eu estou muito mais sábia, aprendi muitas coisas. Aprendi imensa coisa durante a pandemia. Aprendi a trabalhar mais com as outras instituições. Aprendi a ser ainda mais solidária do que era. Aprendi a ser mais humilde. Aprendi até a ler mais depressa o que a ciência me dá, porque não tinha muito tempo. Aprendi muitas coisas e portanto, não sou a mesma pessoa que era antes da pandemia. Aprendi isso que vocês falaram no início, em vez de ser uma pessoa de segunda linha, tive que aprender a ser uma pessoa que é reconhecida na rua e a viver com isso sem nenhum problema. Não sou a mesma pessoa. No meu íntimo, no meu âmago, naquilo que são os meus princípios, as coisas em que eu acredito, os meus pilares estão lá, não mudei. Agora, em muitas outras coisas, nos meus métodos, digamos assim, isso sim, mudei.

Doutora, a oposição pediu há uns tempos os relatórios dos grupos de trabalho sobre a mortalidade infantil e a mortalidade materna. Por que ainda não há esses relatórios? Onde é que eles andam?

Uma coisa é aquilo a que nós chamamos a epidemiologia descritiva, a dos números, em que se diz 18, 24, 35, 27%, 40%. Isso é uma coisa. E dá-nos grandes pistas. De facto, é por aí que se começa a perceber um fenômeno, é por métodos quantitativos. Outra coisa totalmente diferente é começar a entender as causas. Quando uma coisa sai daquilo que é o esperado, nós em epidemiologia temos muito a comparação entre o que é esperado e o que é observado. Quando nós ouvimos falar no excesso da mortalidade, não é mais do que isso. Nós temos uns intervalos onde para cada mês do ano, para cada época, porque não se morre da mesma forma ao longo do ano, nós esperamos um determinado valor da mortalidade. E quando esse valor, nesse período, se excede, nós falamos em excesso de mortalidade. Nós temos as linhas de base com as quais nos comparamos e fazemos estudos descritivos, numéricos da situação. E depois quando alguma coisa ocorre, que é diferente do padrão que se espera, ou no número total, ou na idade em que um determinado fenômeno acontece, ou agora falando em doenças que abrangem ambos os sexos, ou em fenômenos que abrangem ambos os sexos, ou por sexo, ou por região, se há uma diferença, nós temos que perceber O que é que aconteceu? E o que está a passar agora com a mortalidade é isso mesmo. Houve um aumento, todos sabemos isso, e agora estamos a investigar, a tentar perceber as causas desse aumento.

Há algum resultado preliminar que nos possa avançar?

Eu vou dizer-lhe algumas coisas, mas queria só dizer quão complexo isto é, porque isto implica que uma equipa de médicos e de enfermeiros se desloque a cada hospital ou a cada sítio onde ocorreu a morte e com todo o sigilo e com toda a confidencialidade e todo o cuidado que estes processos merecem, e com os profissionais que lá estão, consulte os processos destas pessoas que morreram. E a partir daí tem que reconstituir todo um percurso. Por exemplo, a mortalidade materna não é a que ocorre durante o parto, ocorre durante qualquer momento da gravidez e ocorre até 42 dias depois do dia do parto. E neste tempo, o percurso das mulheres é vastíssimo, quer o percurso delas enquanto cidadãs, que vêm de países diferentes, vão para outros sítios, como o percurso delas nos cuidados de saúde. Passam por vários níveis de cuidados, e tudo isto tem que ser visto, porque não podemos tirar conclusões simplistas e dizer que há apenas uma causa. Nós conhecemos e sabemos que a idade em que as mulheres têm filhos hoje em dia é uma idade mais avançada do que era no passado. E isso tem repercussões, porque as pessoas à medida que envelhecem, obviamente, adoecem mais. Outra coisa que também sabemos é que mulheres com patologia grave, já de novas, arriscam mais uma gravidez nos dias de hoje do que no passado, porque há mais confiança na ciência, mais confiança nos serviços de saúde. Voltamos às constelações de fatores que vão no fim, e ainda estamos a fazer visitas, porque às vezes é preciso fazer novas visitas e ainda estão as equipes a ir visitar processos, e só no fim é que outros peritos, outros especialistas, que não são os que vão fazer as visitas, ficam a analisar os resultados desses relatórios e a tentar perceber o fator ou o conjunto de fatores que mais influenciou aquele desfecho negativo. Não é uma tarefa fácil, pelos motivos que eu já lhe disse, da confidencialidade, do respeito, do sigilo, mas também pela variedade de pequenos fatores ou grandes fatores que interagem entre si para, enfim, todo o desfecho.

Vamos tentar perspetivar um pouquinho o futuro, estamos a chegar ao fim da nossa entrevista. O futuro não só o seu, mas também do Serviço Nacional de Saúde. Já defendeu publicamente que a grande lição que fica da pandemia é de que a infraestrutura de saúde pública tem de ser reforçada, as equipes têm de ser reforçadas, não só em número, como do ponto de vista tecnológico. Com as recentes alterações que têm sido na saúde e na gestão da saúde, tem visto essa preocupação efetivamente vertida em políticas concretas do governo?

Há alguns sinais, e eu creio que o governo está também a elencar a questão das equipes de saúde pública, das pessoas que fazem saúde pública no nosso país neste momento. Eu estou a falar das equipes afetas ao Ministério da Saúde, porque há pessoas que sabem de saúde pública fora do ministério. Estou a falar dos médicos de saúde pública, dos técnicos de saúde ambiental e todas as outras pessoas que constituem essas equipes. Eu creio que está a ser contemplado essa atenção. E uma das provas é que abriram bastantes vagas até para a carreira médica de saúde pública neste último concurso, pois se se está a investir em formação médica e se à volta dessa formação médica, depois há todos os outros parceiros de outras profissões que trabalham com as equipes de saúde pública, eu estou em crer que aquilo que eu disse, que de fato é preciso reforçar a infraestrutura de saúde pública no nosso país e em outros países, para esta ou outras crises quaisquer, e para a gestão corrente da saúde, porque no fundo é a defesa da saúde pública, não é preciso haver uma crise. Sim, estou convicta que o governo vai estar atento a essa questão e que, de fato, é preciso aqui, não só uma melhoria das condições tecnológicas, porque hoje é óbvio, tudo passa por uma grande transição digital, com uma modernização dos sistemas de informação que nos servem de base para fazer aquilo que eu considero que em saúde pública são as três funções principais.

E olhando para o Serviço Nacional de Saúde como um todo, acredita que o governo está, de alguma forma, a conseguir responder aos problemas que têm vindo a afetar ou que se têm vindo a avolumar no Serviço Nacional de Saúde?

Eu creio, e sabem todos, que se está a trabalhar numa reforma do Serviço Nacional de Saúde.

Que vai no bom sentido, na sua opinião?

Estou convicta que sim. E convicta não só como profissional, convicta também como cidadã. E continuo a considerar que se há, de fato, algo que foi importante na vida de nós, do nosso povo, de nós enquanto país, foi de fato o Serviço Nacional de Saúde, porque considera aqui duas coisas que para mim são fundamentais, que é o acesso a cuidados de qualidade e Combatendo, e isso é outra tarefa grande, combatendo sempre as desigualdades ou as grandes assimetrias que ainda persistem, apesar de tudo. E, portanto, eu estou convicta que esta equipe atual, dirigida pelo professor Fernando Araújo, vai trabalhar nesse sentido, que há de surgir uma reforma e que obviamente não será de um dia para outro. Nós não vamos adormecer num paradigma e acordar no outro, mas que vamos fazendo esse percurso para melhorar de facto o acesso a cuidados de qualidade e com menores assimetrias entre regiões, entre sexos, entre classes sociais.

Doutora, como e quando é que tomou a decisão de sair da DGS e de não renovar o mandato?

Olhe, eu talvez, não sei se pela doença, não sei. Ou não. Ou porque apesar de tudo, comecei a trabalhar muito cedo e vou ter tempo de profissão suficiente para me reformar. E, portanto, comecei a equacionar o que eu queria da minha vida nos últimos anos, ainda bastante ativos da minha vida, e comecei a pensar que o manter-me a trabalhar até aos 70 anos, nas minhas circunstâncias particulares, e depois ter passado também pela pandemia, que foi muito intensa, não me fazia muito sentido. Fazia mais sentido que eu deixasse lugar a outros e que fosse fazer outras coisas que deixei de fazer na minha vida.

Como o quê, por exemplo?

Que me interessam. Eu tenho três paixões na vida. A primeira é a leitura. Eu dizia que durante a pandemia, a grande luta do meu dia a dia, além da laboral, era quando finalmente chegava à cama, decidir se dormia logo ou se lia. Portanto, era vou ler ou vou dormir, era a grande paixão que eu tenho pelos livros e que ficou abandonada. Obviamente, também tenho uma grande paixão, mas que não me ocupa assim tanto tempo, não sou assim tão boa, que é dedicar-me às plantas e ao seu cultivo, mas tenho, de facto, uma incomensurável curiosidade e por isso gosto muito de viajar. E portanto, espero ainda ter capacidade física para fazer umas grandes viagens nos tempos próximos. E isso foi também um dos grandes motivos que me levou a pensar que, do ponto de vista físico, há uma janela de oportunidade que não é assim tão longa e que eu teria que a aproveitar. E, portanto, é isso que eu vou fazer. Espero.

Que perfil deve ter a pessoa que a vem render? Tem nogen em mente, já agora, também?

Não, eu costumo dizer, eu fiz tão poucos planos para a minha vida, quanto mais para a vida dos outros. Vocês, eu lamento dizer isto, mas eu planeei tão pouco a minha, muito menos planeio a dos outros. Portanto, não tenho nenhuma pessoa em vista.

Mas deve haver características que são importantes procurar.

Há uma única característica, que é a que eu penso para mim própria, e era uma frase que foi dita há muito tempo pelo professor Sá e Claros, que foi nosso diretor-geral da saúde, que é dizer às pessoas, eu disse isso aos alunos, eu também dei aulas durante muito tempo, dizia de outra forma, não dizia de uma forma tão poética, que é pôr o ouvido no chão. No fundo, é ouvir aquilo que o mundo nos diz, que o mundo nos conta, e incorporar as necessidades e as expectativas das pessoas, porque é para isso que a saúde pública trabalha, é para conseguir concretizar necessidades, mas também expectativas que uma determinada população num determinado território tem. E, portanto, é pôr o ouvido no chão, não tenho mais nada a dizer, eu não planeei a minha vida.

Uma última questão: sai com a sensação do dever cumprido?

Saio. Obviamente que sim, eu acho, já disse, que fiz o que pude. Agora, se me perguntar se poderia ter feito mais. Se calhar sim, eu acho que todos poderíamos sempre, olhando para o passado, pensar: "Poderia me ter superado ainda mais um bocadinho, podia ter ainda estudado um bocadinho mais, trabalhado um bocadinho mais, comunicado um bocadinho melhor". Mas, de um modo geral, saio com essa sensação de a vida foi muito boa para mim nos últimos anos. Eu saio muito grata com tudo o que vivi nestes últimos anos e, de um modo geral, durante a minha carreira, com o que aprendi, com as pessoas que conheci, com a gratidão com que a maior parte das pessoas me trataram ao longo deste tempo, porque também fui muito bem tratada pelo cidadão normal. Isso é preciso que se diga. Eu fui muito bem tratada, e sou, pelas pessoas normais. E, portanto, eu saio com tranquilidade. A sensação do dever cumprido, sim, também, mas sobretudo saio tranquila. Eu hoje estou tranquila, estou de bem comigo. Estou muito orgulhosa da Direção-Geral da Saúde. É, de facto, para os meus colegas e colaboradores da Direção-Geral da Saúde, que eu gostava de dizer as últimas palavras. Excederam-se completamente. Nós somos muito poucos, muitíssimo poucos. Ao contrário do que se possa pensar. E esses muito poucos não só se superaram eles próprios, como encontraram à volta deles colaborações e colaboradores e essa capacidade de trabalharmos juntos foi também uma grande aprendizagem da pandemia. Nós sozinhos, primeiro sem a população, mas mesmo sem os outros parceiros, não teríamos conseguido de todo fazer o que fizemos. E, portanto, também por essa capacidade de nos termos unido, eu aí sinto-me orgulhosa como portuguesa e como cidadã deste país. Também para os não portugueses que aqui vivem, que tenho a mesma palavra para uns e para outros.

Graça Freitas, muito obrigado por ter vindo ao Observador.

Obrigada, doutora.