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O governo arrumou com a questão do poder na TAP, ficando com 72,5% da empresa e prepara-se para injetar até 1200 milhões de euros de capital. O primeiro-ministro já reconheceu que a reestruturação que se avizinha pode implicar despedimentos. O que é que se pode esperar da TAP nestes novos tempos e que empresa é esta que, na última década, em apenas um ano, deu lucro? Eu sou o Vítor Rodrigues Oliveira, comigo está o Paulo Ferreira. O nosso convidado é, há três anos, presidente não executivo da TAP SGPS, o grupo que detém a companhia aérea, foi também deputado pelo PSD e presidente da AICEP. Miguel Frasquilho, muito obrigado por ter vindo aos estúdios do Observador. A partir de agora, está sob escuta.

Obrigado eu pelo convite.

Como está neste momento, a TAP é viável?

Vamos lá ver. A TAP tem vindo a ter um crescimento que se consubstanciou em muitas melhorias operacionais, numa renovação e ampliação da frota e claramente estava preparada para um mundo onde não existia esta pandemia. Essas transformações operacionais, que foram muito importantes e que foram positivas, não tiveram, infelizmente, nem em 2018, nem em 2019, a correspondência que nós esperávamos em termos de resultados. Os resultados não foram positivos, foram negativos, na casa dos 100 milhões de euros em cada ano.

Mas foram negativos nessa dimensão, apesar das expectativas positivas. Eu recordo-me, Miguel Frasquilho, que há cerca de um ano, em 2019, ainda esperava em maio, resultados positivos para 2019.

Por isso eu digo que o plano estratégico, que vai terminar no final deste ano, embora tenha sido atropelado pela pandemia, é um plano que foi cumprido em várias vertentes, mas também houve várias vertentes que não foram, de facto, correspondidas, que não foram cumpridas e os próprios acionistas, quer o acionista Estado, quer os acionistas privados, o reconheceram. Ao nível dos resultados, ficámos, de facto, aquém daquilo que era expectável e é por isso que os capitais próprios se deterioraram em cerca de 200 milhões de euros, de 2017 para 2019. Como em todas as companhias aéreas do mundo, o momento que a TAP atravessa é um momento bastante delicado. É um momento que tem a ver com esta pandemia, que atingiu brutalmente o setor do turismo e o setor das viagens, e em particular o setor da aviação. E, portanto, como em todas as companhias do mundo, a TAP vai ter que ser objeto de um ajustamento para esta nova realidade, que é uma realidade que ainda por cima vai mudando todos os dias. Tem um dinamismo que eu nunca vi. Nós estamos a aprender todos os dias a lidar com esta situação. Os fatores de risco são muitíssimos, não só ao nível da própria saúde, mas ao nível das restrições, ao nível de fronteiras, de mais ou menos restrições em aeroportos, etc., que no fundo condicionam muitíssimo a atividade.

Com os dados que têm agora, e temos que trabalhar com eles, não sabemos como vão ser os próximos. É inevitável, por exemplo, que este ano a TAP sofra um agravamento de prejuízos?

Sim, é inevitável.

Estamos a falar de 400 milhões no primeiro trimestre.

Mas o primeiro trimestre costuma ser também o pior trimestre para as companhias aéreas do hemisfério norte. E a TAP está cá e costuma ser geralmente o pior trimestre em termos de resultados.

Mas quanto é que espera que a TAP possa perder este ano?

Essas estimativas eu gostaria de não as revelar. Será certamente um prejuízo avultado, na linha daquilo que acontecerá com todas as companhias aéreas em todo o mundo. Nós enfrentamos as mesmas condições e estamos nas mesmas condições das nossas concorrentes, das nossas parceiras companhias aéreas. Não anoto nenhuma diferença nesse particular.

Como é óbvio, o contexto é diferente e estamos com a pandemia. Mas como é que se explica que no espaço de uma década, um grupo como a TAP apenas consiga lucro num único ano? É certo que o negócio da companhia aérea, TAP SA, tem dado lucro.

Eu vou um bocadinho atrás. Em 40 anos, o grupo TAP teve resultados positivos em dois anos.

Sim, mas eu refiro-me, nomeadamente aproveitando esta fase de crescimento que tivemos nos últimos anos, a TAP SGPS apenas saiu do vermelho no ano em que a economia portuguesa cresceu 3,5%.

Foi em 2017.

E apenas com um lucro marginal de 21 milhões de euros.

Tal como 2018 e 2019 foram piores em termos de resultados do que tinha sido antecipado, 2017 foi ao contrário, foi um ano superior em termos de resultados do que tinha sido antecipado.

Como é que explica?

Vamos situar-nos em 2015, quando houve a privatização. Se não tivesse havido a privatização, a TAP acabaria. Não havia sequer, na altura, liquidez para salários no mês seguinte. E portanto, a entrada dos acionistas privados, David Neeleman e Humberto Pedrosa, foi essencial para providenciar os fundos que a TAP necessitava para sobreviver, mas não só. Foram os fundos necessários também para que a TAP, que era uma companhia que tinha uma frota que estava desatualizada, antiquada, se pudesse começar aos poucos a modernizar, a ampliar, e portanto, isso era essencial para garantir o futuro da empresa. E portanto, a entrada dos acionistas privados e do senhor Neeleman, também, foi positiva desse ponto de vista.

Foram eles que salvaram a TAP, de tal maneira.

Sim, repare, não era possível ao Estado Português injetar como única acionista, não era possível injetar fundos face às regras europeias num grupo que sistematicamente apresentava resultados negativos. As pessoas não têm ideia, mas o último ano em que o Estado português tinha injetado fundos na TAP foi 1998. Portanto, essa ideia de que o Estado todos os anos injeta fundos na TAP não é verdadeira. Deixe-me dizer mais uma coisa: nós vamos agora, e digo "vamos" porque o acordo foi atingido, mas os papéis ainda não estão assinados. O senhor David Neeleman deixará de ser acionista da TAP, mas não só foi importante nesta altura da empresa, como foi importante também, por exemplo, a expansão da nossa atividade nos Estados Unidos em 2019, dado o conhecimento e a influência que ele tem, que é um visionário na aviação. Mas a importância que ele tem e o conhecimento que tem do mercado norte-americano foi muito mais favorável pra TAP fazer a expansão nos Estados Unidos com David Neeleman a bordo do que se David Neeleman não estivesse conosco.

Que não estivesse. E nesse sentido, e o papel que ele teve, a TAP fica uma melhor empresa com ele fora ou era melhor se ele continuasse dentro?

Eu acho que as coisas não se podem pôr assim. A verdade é que já antes da pandemia sabíamos, porque era público, que decorriam negociações entre David Neeleman e a Lufthansa, para que a Lufthansa pudesse tomar a posição David Neeleman na TAP. Portanto, era conhecido também a vontade de David Neeleman.

Acha que essa teria sido uma boa troca?

Repare, a Lufthansa é uma referência mundial do setor. Faz parte da família Star Alliance como a TAP. E, portanto, acho que era uma parceria natural, até porque a rede da Lufthansa e da TAP, em certa medida, são complementares. Nomeadamente no que toca a África e América do Sul, nomeadamente Brasil, e teria sido muito interessante. Infelizmente, fomos todos atropelados pela pandemia e, portanto, nunca saberemos o que é que teria acontecido. Mas isto tudo para lhe dizer que já se notava uma vontade de David Neeleman de deixar a sua posição de acionista na TAP.

Chegados aqui, que garantias é que pode dar de que a TAP não se vai tornar um novo banco ou num BPN?

Eu não vejo nenhuma razão para que isso possa acontecer e nós vamos trabalhar para que isso não aconteça. Desde logo, estamos agora numa fase em que se sabe que vão acontecer alterações na TAP. Ao nível da gestão. Estamos a aguardar que o acordo possa ser consubstanciado, que possa ser assinado para que as alterações ocorram e a partir desse momento nós estaremos a trabalhar num plano estratégico, plano de reestruturação, que apresentaremos à Comissão Europeia, eu diria, no prazo de três, quatro meses. Temos até o final do ano, mas queremos, obviamente, apresentá-lo antes disso e é aí que as contas vão ser todas conhecidas.

Já vai apresentar o plano.

As projeções vão ser todas conhecidas, mas não vejo que haja razões para que esse cenário, que seria muito negativo, possa acontecer.

Miguel Frasquilho, mas olhando pra trás, pra história do país, nunca ninguém, em momento algum, sobre estas empresas que falámos e estes bancos, também nos disse que iam ser um sorvedouro de dinheiros públicos. Portanto, estas coisas são feitas com a melhor das intenções, por vezes.

Vamos lá ver uma coisa.

E não se avisa, não é?

Não, obviamente. Eu há pouco disse que o processo de ajustamento da TAP ia ter que ocorrer e ia ser uma realidade. O tráfego caiu a pique, o número de passageiros também. É claro que esperamos uma recuperação, mas não esperamos uma recuperação em V. Eu diria, e passe a publicidade, que poderá ser uma coisa parecida com o símbolo da Nike. Houve uma queda abrupta e depois uma subida lenta. E a nossa operação, mesmo com todas as incertezas associadas, tem estado a esse nível. Estamos neste momento, em julho, com cerca de 20% da operação que estava planeada face ao orçamento. Em agosto estaremos a cerca de 25%. E depois a ideia é ir subindo paulatinamente. Repare, nós neste momento ainda estamos com cerca de 75% dos nossos colaboradores em layoff. E é um layoff que certamente não irá terminar este mês, até pelos números que lhe tenho vindo a referir. E nós temos que entrar com todas estas variáveis e todas estas informações quando elaborarmos o plano de reestruturação ou plano estratégico, como lhe queira chamar, porque vai ser até 2024. E é esse plano que, quer a TAP, quer o governo português, irão discutir com a Comissão Europeia.

Já iremos a esses detalhes. Eu pergunto se se justifica ou não uma auditoria à empresa, como sugeriu Marques Mendes.

Não me compete fazer comentários sobre isso. É uma decisão que não vai depender de mim.

Mas acha que há razões pra haver dúvidas públicas sobre as contas da TAP, de alguma maneira? Uma auditoria tem a ver com isso. E tem a ver com as relações também dos acionistas com a empresa.

Mas as contas da TAP são contas auditadas, como sabe, por entidades que são credíveis, são reputadas. Mas no que toca à divergência entre acionistas, eu sinceramente acho que isso é natural. Vamos lá ver, quando há dois, três, quatro acionistas, até quando há duas ou três pessoas, é natural que haja opiniões que são divergentes. Elas não têm que ser coincidentes e até é saudável que não sejam coincidentes. Agora, o que é preciso é saber gerir essa divergência. Eu digo-lhe, por exemplo, entre os meus colegas ao nível do conselho de administração, nós não temos sempre a mesma opinião. Agora, temos que saber atuar para que essas divergências possam ser ultrapassadas. E temos feito isso, e digo-lhe, sempre no interesse Da TAP no interesse do país e, no caso dos administradores nomeados pelo Estado, também defendendo os interesses do acionista Estado.

De todas as soluções que estiveram em cima da mesa nesta última negociação, e falou-se desde a nacionalização até deixar cair a TAP, fomos aos extremos todos, qual era a sua preferência para o modelo ideal para a TAP em termos de composição de capital? E é disso que estamos a falar.

Repare, eu não tenho que ter preferência. Eu sou presidente do Conselho de Administração e tenho que trabalhar com as condições que me são dadas para trabalhar e exercer o melhor que posso e sei o meu mandato nas condições que me são fornecidas. Claro que todos os gestores, e eu não fujo à regra, gostam de ter o máximo de graus de liberdade possível para exercer o seu mandato. Mas eu tinha um acordo parassocial que ainda está em vigor e é nesse contexto desse acordo parassocial que eu exerci o meu mandato. E sabia que entre as diferentes soluções que estavam sobre a mesa, dado o contexto que nós já abordamos aqui, de resto, dentre essas soluções, eu acho que tivemos a melhor solução possível. Acho que ninguém queria a nacionalização. E o cenário de insolvência, havia quem defendesse o cenário de insolvência e abrir uma companhia ao lado.

Foi feito em vários países.

Foi feito em vários países há 20 anos, num contexto que não era minimamente comparável com este que estamos a viver agora. E repare que foram países como a Suíça e a Bélgica, estou me a recordar de dois, onde uma companhia foi substituída por outra. Portanto, não foram companhias de bandeira, entre aspas, que foram deixadas cair e apareceu uma coisa qualquer ao lado. Não, toda mundo continua a identificar a Swiss com a Suíça e continua a se identificar a SN Brussels com a Bélgica. Mas enfim, esse não foi o caminho que foi tomado. A nós compete nos trabalhar para garantir que o dinheiro que os contribuintes portugueses vão injetar na TAP, e é disso que estamos a falar, seja, de fato, um dinheiro que produza resultados positivos para a TAP e para o país. E deixe-me dizer-lhe, a TAP é extraordinariamente importante para a nossa economia. Eu posso dar-lhe aqui três ou quatro indicadores que comprovam isso mesmo. Olhe, por exemplo, imaginemos que a TAP desaparecia. Havia um conjunto não despiciendo de rotas que desapareceria também. Algumas poderiam ser substituídas também.

Dá exemplos de rotas dessas?

Várias rotas intercontinentais acabariam por não ter o seu hub em Lisboa, passariam, por exemplo, aqui para o lado.

Para o lado, que é ligações ao Brasil, eventualmente Estados Unidos.

Por exemplo, Estados Unidos, mesmo África, poderiam passar aqui para o lado em Madri. Seria indesejável que isso acontecesse. Depois, a TAP tem, neste momento, cerca de 10 mil colaboradores diretos. E indiretos é um número que pode ser nove a 10 vezes superior. Portanto, está a haver o montante de empregos diretos e indiretos que são criados por força da atividade da TAP. A TAP, durante o ano passado, comprou cerca de mais de 1,2 mil milhões de euros a fornecedores portugueses. Cerca de um terço dos passageiros nos aeroportos portugueses são transportados pela TAP. É uma das maiores exportadoras nacionais e a maior exportadora de serviços e pesa cerca de 2% no Produto. Portanto, tem um contributo muito grande também para a economia portuguesa e para as contas externas. E deixe-me dar-lhe mais um dado ainda. No ano passado, entre impostos e contribuições sociais, foram cerca de 330 milhões de euros. Eu acho que isto comprova a importância que a TAP tem para o tecido empresarial português. E no fundo, repare, a TAP acaba, com a sua atividade, por tornar Portugal maior do que aquilo que é, porque projeta a nossa imagem para o estrangeiro e faz a ligação do país com o exterior.

Sendo que as estatísticas são essas, a grande questão é: se a TAP eventualmente fechasse e falisse, esse espaço não ficava vazio. Esse espaço de operação seria seguramente ocupado por outras empresas ou eventualmente por uma nova TAP que pudesse aparecer ao lado.

Pois, mas o problema é que não seria toda e não seria na parte que mais nos interessa, que tem a ver com o longo curso.

Não é rentável o longo curso.

O longo curso é rentável.

Outras companhias não poderiam aparecer a desenvolver esses voos.

Mas não seria feito em Lisboa. Seria feito em outras cidades, ou seja, em outros hubs. O que aconteceria é que deixaríamos ter voos diretos para muitas zonas do mundo que hoje temos, e isso é muito importante também para o nosso tecido económico e empresarial. Eu sei, até pela minha experiência passada como presidente da AICEP, o que os empresários me diziam sobre a TAP. E criticavam muito a TAP, é verdade, mas eu também sentia e pude aperceber-me disso, que sempre que possível, os empresários viajavam na TAP para os destinos que a TAP servia.

A questão está então, qual é o preço, até onde é que estamos dispostos a pagar para manter essa empresa estratégica, é isso?

E é nisso que nós vamos trabalhar no plano de reestruturação/estratégico, que vai ser começado a elaborar. E, portanto, é prematuro eu estar a avançar agora com números sobre um trabalho que vai agora começar a ser elaborado e que vai ser elaborado com a seriedade que, obviamente, um projeto destes tem que ter.

Falaremos precisamente sobre essa reestruturação na segunda parte deste "Sob Escuta". Vamos para um breve intervalo e já voltamos.

Segunda parte. Hoje "Sob Escuta" está Miguel Frasquilho, o presidente não executivo da TAP. Miguel Frasquilho, como é que se gere uma empresa que tem tanta gente a dar opiniões sobre as rotas que deve ter, que não deve ter, os voos que deve fazer?

Sabe que isso acontece porque, e eu sinto isso muito E o que eu vou dizer pode não ser entendido por toda a gente da mesma forma, mas eu acho que a TAP se confunde um pouco com o país. A TAP é inequivocamente uma bandeira de Portugal lá fora. Acho que os portugueses em geral gostam da TAP e por isso criticam tanto a TAP, porque só alguém que verdadeiramente aprecia é capaz de criticar como nós somos criticados. E temos que reconhecer que há ocasiões em que, de fato, cometemos erros e não temos o serviço que devíamos ter. Os horários não são cumpridos, umas vezes por responsabilidade nossa, outras vezes não é responsabilidade nossa, mas no fim do dia o cliente viaja conosco e, portanto, acha que é sempre responsabilidade da TAP, quando algumas vezes não é. Mas isso acontece porque, de fato, a TAP se confunde um bocadinho com o país.

Vamos à última polêmica pública que houve, que foi muito sonora, quando a TAP apresentou um novo plano de voos, ainda não havia epidemia. Críticas do presidente da Câmara do Porto, do Primeiro-Ministro, do Presidente da República.

Exato. Acho que a sociedade toda, em uníssono, criticou esse plano de retoma da TAP. Desde o Presidente da República, passando pelo governo, oposição, autarcas.

A TAP errou nesse plano.

O tecido econômico e social, foi toda gente.

Esse plano de rotas foi errado da TAP.

Esse plano de rotas foi desenhado pela Comissão Executiva. E eu posso dizer também, o Conselho de Administração, não tendo competências, porque competências que estavam delegadas na Comissão Executiva, advertiu que numa ocasião em que a TAP iria necessitar dos fundos dos contribuintes portugueses, da injeção de capital patrocinada pelos contribuintes portugueses, para sobreviver e ultrapassar esta fase. Nos parecia que a TAP poderia ter uma contribuição mais harmoniosa e equilibrada para a retoma que todo o país vai ter que ter. E portanto, isso poderia dar-se onde a TAP tem operação. E onde é que a TAP tem operação? É nos aeroportos do país. E portanto, nós avisamos ao nível do Conselho de Administração. Avisamos algumas vezes que este plano não deveria ser tão desequilibrado, embora depois há todas as questões técnicas associadas à retoma, que têm que ver com o nosso hub, e o nosso hub é Lisboa, isso não há nenhuma dúvida sobre isso. Mas poderia ter havido uma atenção maior a outras zonas do país, nomeadamente ao norte, que é, de fato, essencial em termos econômicos, em termos exportadores. Tem um peso brutal em termos do tecido empresarial, e foi aí que as críticas foram, de fato, mais sonoras. Depois, o que aconteceu é que houve uma emenda, tentou-se emendar a mão e eu acho que se conseguiu emendar a mão. O meu colega Bernardo Trindade foi mandatado pelo Conselho de Administração para conseguir chegar a reuniões, a entendimentos com os nossos parceiros em cada região do país onde a TAP tem operação. E neste momento já tivemos as reuniões todas com o Norte, com o Algarve, com Madeira e com os Açores. Eu próprio estive em todas essas reuniões e o que notamos foi uma recetividade muito grande e o objetivo com que nos comprometemos a trabalhar para o atingir era repor a proporcionalidade de destinos servidos face a Lisboa, sobretudo no norte, face ao que acontecia antes do Covid. E posso lhe dizer que em agosto vamos atingir esse patamar.

Mas a questão é se isso é uma forma correta de gerir uma empresa como a TAP.

Ouça, nós não estamos numa fase óptima. Deixe-me dar-lhe a minha opinião. Nós não estamos a viver tempos normais. E também não é normal que a TAP tenha que pedir auxílio. A TAP ou as outras companhias aéreas, vale a pena lembrar, para percebermos do que estamos a falar, que a Lufthansa vai ter uma injeção de dinheiros públicos do Estado alemão superior a 9 mil milhões de euros. A Air France, cerca de 7 mil milhões de euros do Estado francês. A KLM, cerca de 4 mil milhões de euros do Estado holandês. Nós aqui estamos a falar de até 1,2 mil milhões. É certo que é uma companhia com menor dimensão do que estas que estamos a falar, mas esta é a realidade um pouco por toda a Europa. Acontece o mesmo na Bélgica, na Suíça, na Inglaterra, etc. Estes tempos que estamos a viver são tudo menos tempos normais. E não sendo tempos normais e indo a TAP precisar destes fundos para sobreviver, parecia-nos a nós lógico que a TAP pudesse também contribuir para a recuperação das regiões do país que ela pode servir, que é onde há aeroporto. E, portanto, é disso que estamos a falar. Se calhar daqui a seis meses ou nove meses, quando analisarmos determinadas rotas, e isto é muito dinâmico, se calhar temos que chegar à conclusão que há rotas que não resultaram e há outras que resultaram. E aí tomaremos as medidas adequadas.

E nestes tempos não normais, como diz, vamos passar a ter um governo mais interventivo na gestão da TAP, nas rotas, por exemplo?

Não me parece. Não acho que isso seja.

Eu digo isto porque o próprio ministro Siza Vieira disse no Parlamento que a TAP deve começar a explorar novas rotas e inclusivamente o assunto está a ser tratado com o Turismo de Portugal.

Mas isso, ouça, se há um apoio e um interesse por parte das entidades públicas, nomeadamente o Turismo de Portugal, e se isso é bom para a TAP e é bom para o país, eu não vejo porque nós não tínhamos que o fazer.

Mas esta não seria uma competência exclusiva do Conselho de Administração da TAP, essa definição de rotas?

Mas a TAP pode trabalhar com os seus parceiros, e um parceiro muito importante é o Turismo de Portugal. Assim como nós ouvimos do norte do país as necessidades e aquilo que o norte, ao nível empresarial, ao nível associativo e ao nível social, ao nível autárquico Nós ouvimos as necessidades que o Norte entendia que devia ter, no fundo, aquilo que precisava, que entendia como correto e adequado por parte da TAP. Ouvimos tudo e tentámos ir ao encontro daquilo que nos foi transmitido. Foi por isso que vi com grande surpresa a providência cautelar por parte da Associação Comercial do Porto, porque digo-lhe, foi uma entidade com que nós também reunimos e o ambiente não podia ter sido mais construtivo e mais positivo.

Ficou surpreendido com isso?

Bastante.

Mas nessa gestão, que é difícil, há aqui talvez dois objetivos em conflito. Um são as necessidades que essas comunidades locais ou que o governo do país entendem que devem ser as rotas da TAP e outra coisa é a rentabilidade das rotas. Quanto às rotas políticas, deixe-me chamar-lhe rotas políticas, as rotas que a TAP tem, que não são justificadas por motivos comerciais, que eventualmente dão prejuízo, mas que são feitas precisamente por causa do papel estratégico que a empresa tem.

Não há rotas políticas na TAP. O que houve nesta fase que estamos a viver, foi a definição, até atendendo às regras e às fronteiras que foram estabelecidas pelo governo português dos destinos que a TAP podia servir até esta altura. E isso foi definido. Eram os países de língua oficial portuguesa, onde existem comunidades portuguesas no estrangeiro. E mesmo assim, nem essas nós podemos cumprir na totalidade, sabe por quê? Olhe, o espaço de Angola ainda continua fechado. Já éramos para estar a voar para Luanda, não podemos. É uma das nossas rotas mais rentáveis. Moçambique, e daí deem aspas. São Tomé e Príncipe, também. Brasil, estamos a voar para Rio e São Paulo. Estados Unidos, estamos a voar para Newark e para Boston. Mas ouça, há rotas que, por exemplo, nós vamos ter agora e que são uma novidade, que nunca fizemos e que entendemos que são interessantes, porque não só os números mostram isso, mas entendemos que do ponto de vista dos nossos passageiros, elas também podem ser interessantes. Dou-lhe dois casos. Vamos começar em breve a voar a partir dos Açores, de Ponta Delgada, para Boston e para Toronto.

A SATA já voa nessa rota.

Pronto, mas os números mostram que há um interesse grande em que estas rotas possam ser efetuadas e a SATA é também uma parceira da TAP.

O Miguel Frasquilho já disse há cerca de duas semanas, creio, que não lhe passava pela cabeça que o trabalho nesta reestruturação passasse por cortar rotas ou destinos. O que eu pergunto é se tendo em conta a gravidade da situação na empresa, se tem a certeza que a TAP vai poder continuar a operar com todas as rotas.

Espere lá. O que eu terei dito é que não me passava pela cabeça que os cortes pudessem ser muito grandes, de grande dimensão, porque isso amputaria a TAP do seu valor estratégico, até para o país.

Portanto, admite que haja rotas que possam cair.

Admito que a TAP tenha que ser ajustada à realidade que nós estamos a viver. Mas ouça, admito-lhe isso para os próximos tempos, tal como lhe admito que depois num futuro não tão próximo, não para os próximos meses, possa haver novamente uma subida de atividade. É normal, é isso que vai acontecer em todas as companhias aéreas. E isso implicará um ajustamento em todas as vertentes da companhia, como é evidente. Agora, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Tal como o governo português e o grupo de trabalho que foi criado para esse efeito, defendeu sempre os interesses da TAP e de Portugal nas conversações que teve com a Comissão Europeia, para a Comissão Europeia autorizar este auxílio de até 1.2 mil milhões de euros, e isso aconteceu agora em maio e junho. E não pode haver nenhuma dúvida sobre isso. O governo português, obviamente, defendeu a TAP perante Bruxelas do primeiro ao último minuto. É também o que irá acontecer, aí já com o governo, com a própria TAP, ao nível da diplomacia e ao mais alto nível, é o que acontecerá quando tivermos que conversar com a Comissão Europeia, quando tivermos o nosso plano estratégico/de reestruturação pronto. Isso é o que vai acontecer.

Como por se elas estão definidas alguns grandes números sobre aquilo que há de ser a TAP pós apoio estatal.

Não. O que nós vamos fazer é trabalhar para desenhar um plano que tem que ser sólido, tem que ser credível para poder ser apresentado à Comissão Europeia. E nesse plano, obviamente, uma das vertentes fundamentais é preservar o valor estratégico da TAP para o nosso país.

Mas que vai implicar sempre um emagrecimento da empresa.

Eu já disse que este processo não vai ser um processo isento de sacrifícios e dor. Infelizmente, será assim. Mas eu recordo que a dor e os sacrifícios já cá estão. O que é o layoff? É um processo em que já há dor. O que é a renovação, infelizmente, a não renovação dos contratos a prazo? É um processo em que já há dor. Infelizmente, todos gostaríamos que não fosse assim, mas a verdade é que a dor e os sacrifícios já cá estão.

Mas há uma fase seguinte que pode passar por despedimento.

Os despedimentos não são inevitáveis. Terá que haver ajustamento, teremos que ver qual é o ajustamento que poderá ser feito. E eu quero aqui deixar também uma mensagem muito clara. Nós vamos fazer isto ao nível do Conselho de Administração. É esse nível que o plano de reestruturação/estratégico será desenhado, mas queremos fazer isto trabalhando com os nossos colaboradores, trabalhando com as forças sindicais que são fundamentais. Eu tenho tido um contacto próximo Com as forças sindicais e posso lhe dizer que há, notei da parte de todos os sindicatos da TAP, uma grande consciencialização de que as dificuldades existem e elas vão ter que ser enfrentadas e vão ter que ser superadas. E será, obviamente, melhor que todos trabalhemos em conjunto e na mesma direção. Se estivermos desalinhados, as coisas obviamente correrão pior. Agora, é um processo, e isso ficará claro, é um processo que terá, obviamente e infelizmente, sacrifícios e dor.

Deixe-me insistir nisso, até porque o primeiro-ministro parece que foi um pouco mais longe a falar sobre a inevitabilidade da perda de postos de trabalho. Disse que não é inevitável isso.

Postos de trabalho já têm vindo a ser perdidos.

De pessoas que têm vínculo mais precário na empresa.

Exatamente. Isso já está a acontecer.

Mas das pessoas que fazem parte do quadro da empresa, pode haver ou não despedimentos coletivos negociados, rescisões amigáveis?

Eu não me quero pronunciar sobre isso nesta fase em que ainda não começamos a elaborar o plano estratégico/de reestruturação. O que eu infelizmente tenho que me comprometer, porque sei que é essa a realidade e é o contexto que enfrentamos, é que é um processo que vai ter sacrifícios e vai ter dor. E é um processo que nós gostaríamos que não existisse, mas infelizmente vamos ter que lidar com ele, porque a realidade que nós estamos a enfrentar é outra, e é uma realidade que não é melhor do que aquela que nós vivíamos até a pandemia. Portanto, sim, vai haver sacrifícios, sim, vai haver dor. Mas repare, nesta altura, temos cerca de 70 e poucos por cento dos nossos colaboradores que continuam em lay-off. Lay-off implica uma quebra de rendimentos de um terço. Bom, isso é uma dor grande.

É substancialmente diferente de ser despedido.

É, claro, é uma dor diferente, mas tudo isto é uma dor diferente, não deixando de ser dor. Mas é precisamente porque nós tínhamos que gerir a empresa neste contexto que lançamos mão de todos os instrumentos, todos os instrumentos que foram colocados à disposição do tecido empresarial português pelo governo, e o lay-off é um deles. Portanto, isto já está a acontecer, a dor e os sacrifícios estão cá e infelizmente vão continuar.

Esta reestruturação passará necessariamente pela manutenção do Brasil, que tem sido um dos maiores fardos da TAP SGPS? Ou por uma venda da parte dessa manutenção?

Não, vamos lá ver. 2019 foi o primeiro ano que as contas da TAP Engenharia e Manutenção no Brasil não pesaram negativamente nas contas da TAP.

Isso significa que...

Isso significa que não está previsto que voltem a ter um contributo negativo para os resultados do grupo. Portanto, houve um trabalho que foi sendo feito ao longo de muitos anos, em que pesaram negativamente, mas a verdade é que o ano passado foi o primeiro onde isso não aconteceu.

O ministro Pedro Nuno Santos, há uma semana, quando anunciou o acordo a que tinha chegado com os acionistas privados e o novo modelo de capital na empresa, também avançou com a mudança da liderança executiva da empresa, que procedesse já com a saída dos acionistas, e depois deixou para um momento posterior a contratação de uma nova empresa. Quando é que vai haver um novo CEO?

De uma nova empresa, não.

Peço desculpa, uma nova equipe de gestão executiva, obviamente. Até a entrega a uma empresa de headhunters que vá buscar pessoas capacitadas sobre o setor.

Num cenário internacional.

Sem dúvida. Sobre a questão mais imediata, quando é que vai haver um novo CEO da TAP?

Essa é uma questão que deve ser colocada aos acionistas. Temos dois acionistas de referência, o acionista Estado, que é agora claramente maioritário, e o acionista Humberto Pedrosa, o grupo Barraqueiro, que é uma referência do setor dos transportes em Portugal, e será com eles que essa questão será colocada.

Mas está por dias?

O entendimento foi alcançado na semana passada, tanto quanto sei, há alguns detalhes ainda a limar até que haja as assinaturas que consubstanciem o acordo e, portanto, estamos numa situação de compasso de espera.

Mas foi consultado ou vai ser consultado para esta nomeação, claramente.

Esse é um assunto que eu não gostaria de abordar. Tem essencialmente a ver com os acionistas. Claro que compete ao chairman, ao presidente do conselho de administração, um contato grande e numa base muito frequente com os acionistas, obviamente que sim.

Esta solução será transitória, como o próprio ministro anunciou. Lá está, à espera da tal equipe que será contratada depois. Tem alguma ideia do prazo que tem este plano para vir essa tal equipe e a forma como vai ser contratada?

O que eu sei é que o mandato dos atuais órgãos sociais termina no final do presente ano, portanto, o exercício de 2020. Ou seja, com a apresentação das contas de 2020, algures entre abril e maio de 2021, esse mandato estará concluído. É tudo o que lhe posso dizer.

Portanto, será nessa altura que essa mudança vai ser feita.

Repare, isso é uma matéria que não me compete a mim decidir, compete aos acionistas, como já competia aos acionistas que ainda existem na TAP e que continuam a ser responsáveis.

Houve uma polêmica recente também sobre prêmios atribuídos à gestão e a vários quadros da empresa referentes a 2019.

Não, referentes a 2018. Os prêmios referentes a 2019 não existiram.

É verdade, porque só agora é que estamos a conhecer as contas, há pouco tempo.

Exatamente.

Referente a 2018. Como é que vê também esta interferência, de alguma maneira, da tutela sobre uma questão que é de gestão de uma empresa? Digo isto porque houve críticas públicas.

Vamos lá ver uma coisa. A TAP até agora não tinha tutela, era uma empresa juridicamente privada e tinha e tem acionistas. O acionista público, que é o Estado, que é um acionista especial, todos o reconhecemos, e tinha um acionista privado de referência, tinha e tem, que é a Atlantic Gateway. Houve um acionista que manifestou o seu desacordo com a política de rendimentos no que toca a prémios e que por acaso foi uma opinião que foi por nós, administradores designados pelo Estado, também partilhada em sede de conselho de administração. É o que lhe posso dizer sobre o assunto.

Prêmios agora, em termos de horizonte temporal, muito cedo não se falará na TAP, talvez.

Pois, eu tenho ideia que seja assim e parece-me lógico que seja assim.

Miguel Frasquilho, muito obrigado por ter vindo ao "Observador".

Deixe-me só dar uma última palavra. Não queria perder esta oportunidade, aqui na Rádio Observador, para agradecer aos dedicados colaboradores da TAP. Eles têm sido extraordinários, têm feito uma jornada longa. A TAP existe há 75 anos para servir o país, para servir os portugueses, projetar o nome de Portugal no mundo e isso só é possível com o profissionalismo, a dedicação e o empenho de todos os colaboradores do grupo TAP, todos os trabalhadores do grupo. É com eles que nós queremos trabalhar para que o futuro da TAP possa ser um futuro risonho e para que possamos ultrapassar esta fase muito difícil que todos estamos a viver. O meu muito obrigado a todos e a esperança num futuro melhor para a TAP, que será também um futuro melhor para o nosso país.

Está feito esse sublinhado, então. Miguel Frasquilho, mais uma vez, obrigado por ter vindo.

Obrigado.

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