Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Intermédios". Hoje num cenário completamente diferente, pra quem está a ver isto no YouTube. Estou num quarto em Fafe, no Hotel Fafeense, onde tive espetáculo ontem num belo teatro e foi uma bela noite de regresso deste "Volte Já". Agora será dia 10 de outubro, em Viseu, na Alamagna, e depois Alamagna de Lisboa, dia 7 de novembro. Malta de Lisboa, vai ser o único espetáculo em Lisboa e arredores. Portanto, aproveitem. Depois o espetáculo só vai regressar de janeiro a março, aí sim, por uma data de salas pelo país e encerrar este tema do "Volte Já". Boa semana pra todos vocês que estão aí desse lado. E eu gostava de começar este "Intermédios" com uma partilha que, digo-vos, se eu dissesse isto nas revistas, era capa. Capa ou pelo menos um quadradinho cá embaixo. Vocês sabiam que eu estive para não nascer? É verdade, eu estive para não nascer. Digo-vos mais, a minha mãe esteve para não nascer, o meu tio Joaquim Pedro, irmão da minha mãe, também esteve para não nascer. Isto por quê? Vou socorrer-me aqui do meu telemóvel. Por que eu estive para não nascer? Porque eu descobri que o meu avô materno foi batizado em, "in", vou ler-lhes, é uma expressão em latim, foi batizado in articulo mortis, ou seja, em perigo de vida. Naqueles tempos, se uma criança parecia estar prestes a morrer, não se esperava nem pelo padre, nem pela cerimônia normal na igreja. Até um leigo poderia fazer este batismo, desde que recitasse a fórmula correta. Mas no caso do meu avô, chamaram o padre, que foi à casa dos meus bisavós, na Vidigueira, para batizar e dar a extrema-unção ao meu avô. O meu avô nunca teve uma saúde de ferro, pois, na realidade, o meu avô, que eu nunca cheguei a conhecer, morreu aos 40 anos. Como é que eu sei isto? Ou como é que eu descobri isto? Vou beber aqui o meu cafezinho. Eu descobri isto através do Luís Varela, que tem um projeto que se chama "A Minha Família" e faz a árvore genealógica. Eu fiz a minha árvore genealógica há cerca de três anos, mas resolvi agora falar sobre isto, porque eu penso muitas vezes neste tema. É muito curioso, nós às vezes ignoramos tanto. Quer dizer, temos a vida tão atarefada, andamos de um lado pro outro, que ignoramos a nossa própria história. E ignoramos a importância que aqueles que vieram antes de nós têm para a nossa história. Porque, na realidade, se o meu avô tivesse morrido no dia em que nasceu, eu hoje não estava aqui. Agora podemos entrar aqui numa outra discussão. Podia estar eu? Ou podia estar outra pessoa, mas com este meu entendimento da realidade, com a minha consciência? Isso já não sei. Mas, de forma pragmática, se o meu avô tivesse partido realmente naquele dia em que nasceu, eu não estava aqui, não estava a minha mãe, não tinha estado o meu tio, e acabaria uma linhagem ou seria outra linhagem completamente diferente. Eu acho interessante e de alguma maneira, até importante, vocês conhecerem a história da vossa família, porque isso dá densidade. Traz densidade e traz profundidade àquilo que vocês estão hoje aqui a fazer. Nós percebermos que para estarmos aqui, pra eu poder estar aqui, houve uma data de gente que teve que vir antes de mim, lutar pela sua vida, lutar para sobreviver, criar uma história, e é através da sua própria história que eu consigo criar a minha. Eu quando penso nisto, quando penso nesta história do meu avô e quando penso também na história de outros familiares meus, que eu já vou partilhar aqui convosco, tem aqui coisas muito engraçadas. Quando eu penso nisso, há um sentimento não só de responsabilidade, mas de agradecimento e de compreensão. Graças. Eu acho que nós não damos valor suficiente ao fato de estarmos vivos. O simples fato de estar vivo. Vocês já imaginaram o que foi preciso pra nós estarmos aqui? A história que tem que vir antes, o que teve que acontecer antes pra vocês, ou eu, estarmos todos aqui. Há aqui pormenores muito engraçados. Este do meu avô é muito curioso O meu avô materno, Francisco António Caramba, foi batizado in articulo mortis. E estes pormenores são muito curiosos. Ele foi batizado e dada a extrema-unção. Basicamente, é como quando vocês recebem as encomendas e têm que devolver. "Não, esta vamos devolver". Então vocês têm que pôr a morada certa outra vez, que é para devolver diretamente à fonte e vocês terem a certeza que chega lá. Por isso é que até um leigo poderia fazer este batismo, desde que recitasse a fórmula correta, que era para ter a certeza que ele voltava à fonte. Reparem neste pormenor, diz o Luís Varela, que é o investigador da página "A Minha Família", que fez um trabalho espetacular, diz o seguinte: "A minha família", neste caso, eu vou ler: "A família atravessou várias mudanças de regime. Há antepassados nascidos durante o período liberal, iniciado em 1820, há pessoas nascidas durante a monarquia constitucional, outras que atravessaram a Primeira República, que viveram o Estado Novo e eu já nasci depois do 25 de Abril. O apelido Raminhos está documentado pelo menos até 1826". Agora, um pormenor que eu não sabia, porque eu não cheguei a conhecer: "A minha bisavó, Feliciana Rosa, foi abandonada logo que nasceu e deixada na roda dos expostos da Vidigueira, às 06h00 de uma noite fria, a 21 de dezembro de 1867, há quase 160 anos. Um começo de vida atribulado e só no seu batismo estavam presentes o padre e o sacristão da igreja, que à falta de qualquer familiar ou amigo da família, assumiu o papel de padrinho". E eu sou capaz de imaginar essa noite fria e ver um bebê. Estas rodas dos expostos eram algo que existia, que vocês podem encontrar ainda em algumas igrejas, e penso eu que talvez conventos. Basicamente, numa das paredes da igreja havia um buraco onde havia uma espécie de guichê, onde as mulheres que não podiam tomar conta dos seus filhos ou que de alguma maneira não os quisessem, deixavam lá a criança. Aquilo rodava, portanto, deixavam a criança de um lado. Vocês estão a ver quando vão pagar a gasolina à noite e metem a carteira debaixo daquela coisinha, depois ela vira e a carteira vai pro outro lado, pra senhora receber o cartão Multibanco? É basicamente a mesma coisa, mas em tamanho grande. Eu consigo imaginar este início de vida e imaginar esta criança nessa noite fria. E ao mesmo tempo, pra ela ser minha bisavó, esta mulher que nasceu e que foi abandonada à nascença, criou a sua própria história e é uma das responsáveis por eu estar aqui hoje também. Não é do caraças isto? "Tenho antepassados espanhóis. A minha quinta avó, Margarida Francisca, é de Barcelona". Há aqui um pormenor curioso desta investigação que o Luís fez. Ele diz assim: "Mas não era só de plebeus na família. Existiam ligações a gente importante. O padrinho do trisavô José Maria Janeiro Raminhos, era o ilustre doutor Justino Máximo Baião Matoso, conselheiro de Sua Majestade Fidelíssima, deputado da Nação, par do Reino e administrador geral e governador civil do distrito de Beja". Basicamente, isto era algo que a minha mãe já me falava, que eu sou de origens humildes e muitas vezes famílias pobres tinham padrinhos ricos pra dar algum nome à criança. Eu acho que o padrinho da minha mãe também era uma pessoa na Vidigueira que tinha alguma importância. Eu não sei se estou a contar a história bem, mas eu acho que a minha avó trabalhava na casa deste senhor e quando a minha mãe nasceu, ele tornou-se padrinho da minha mãe, exatamente por ser uma pessoa com posses e com alguma importância. Não é que isso depois alterou muito da vida da minha mãe. Não fiquei rico por causa disso, nem a minha mãe, muito longe disso. Mas o que eu acho curioso é nós termos a oportunidade de saber a nossa história. Por exemplo, o meu tio, o meu avô, que morreu com 40 anos, o marido da minha avó, que foi a única avó que eu conheci. Também conheci o pai do meu pai, portanto, o meu avô paterno, mas eu lembro que ele morreu quando eu devia ter cinco, seis anos. Mas isso muda muito a história da minha avó. Eu tive uma relação conflituosa com a minha avó e a minha avó teve problemas de demência, questões de demência, e era uma mulher rija. A minha avó ficou viúva aos 40 anos. Teve que educar dois filhos a partir dos 40 anos, num Portugal profundo, numa Vidigueira, portanto, dos anos 20, provavelmente, por aí. Anos 30, vá. Teve que educar duas crianças sozinha, uma mulher, naqueles tempos. Isto não é passar um pano branco, porque obviamente, depois todos nós nas nossas famílias, naturalmente temos pessoas menos boas ou que fizeram as coisas menos bem Mas também todos esses que estiveram antes de nós assumem um papel de extrema importância para nós estarmos aqui. E nós às vezes desvalorizamos isto. Desvalorizamos esta importância, e acho normal, não é nada que é feito de propósito. É normal, porque nós seguimos as nossas vidas construindo o nosso caminho pensando nas nossas questões, nos nossos medos, nos nossos problemas, e é quase como se não tivéssemos tempo para estes faits divers. E daqui a uns anos, provavelmente daqui a uns séculos, eu espero que seja alguém a lembrar-se de mim, a lembrar-se da importância que eu tive para eles próprios estarem aqui, nem que seja eu como trisavô. E quando eu for trisavô, vejam então a dimensão da história, porque quando eu ver os meus trisnetos, se se lembrarem do seu trisavô, vejam a geração que já vai para trás, os séculos de história, de enredo que se teve que criar para chegarmos até aqui. E esta busca do Luís teve coisas muito interessantes. Há um dia que o Luís liga-me e diz-me assim: "António, eu estou aqui no registo. Eu vou te mandar o documento, não deixa de ser estranho. Eu tenho aqui a certidão de óbito do teu irmão". Eu tive um irmão que morreu em 1979, eu nasci em 1980, mas com um pormenor. Eu chamo-me António José Raminhos e o meu irmão chamava-se António José Raminhos. Então o Luís, muito atrapalhado, mandou-me o documento, que é uma certidão de óbito com o meu próprio nome. Só não bate certo é o ano, como é óbvio, mas não deixa de ser estranho ver lá António Raminhos. E o papel era estranho. Mas esta questão tem um bocadinho a ver com a própria ancestralidade. E eu acho que se vocês tiverem a oportunidade de fazer essa viagem, seja com o Luís Varela, seja com outras pessoas, é muito engraçado. E também é engraçado porque o próprio Luís refere isso, quando há a possibilidade de nós podermos juntar depois a família, porque o Luís depois faz uma espécie de apresentação, onde vocês veem a árvore genealógica, e juntar a família, e a própria família conhecer a sua história. E de certa maneira, há ali também um momento de união, em que para alguns de nós aquilo é um pedaço de história, para outros é só uma curiosidade e se calhar para outros, como eu, assume alguma importância e também agradecimento. Era apenas uma partilha curiosa que eu gostava de vos deixar hoje e com mais uma. Esta também dava capa de jornal. Vocês sabem. Deixem cá ver se eu encontro isto. Onde é que está? Eu tive um trisavô chamado João Baião. João Baião, nascido a 23 de junho de 1834. O meu trisavô chama-se João Baião. Obrigado, malta. Até para a semana. Espero que tenham gostado deste episódio de "Intermédios", que foi um episódio diferente, foi uma partilha e já sabem, quarta-feira temos um novo convidado. Vai ser um episódio curioso este quarta-feira, porque também vai sair um bocadinho do normal, mas foi uma conversa muito divertida. Vocês depois vão perceber porquê. Todas as semanas um convidado novo às quartas-feiras, segundas-feiras "Intermédios", partilhem estas conversas. Estou nas manhãs da RFM, portanto acompanhem também esta nova rubrica que eu tenho lá, se for do vosso interesse. Acho que esta primeira semana foi agradável, foi bastante divertida. E se tiverem curiosidade, vão explorar um bocadinho a vossa história. Não é passar um pano sobre as pessoas que fizeram as coisas menos bem, porque na minha família, segundo percebi, às vezes falando com os meus primos e malta mais velha, havia malta que tinha feito porcaria, como é óbvio. Mas não deixa de ser curioso, porque também dessa a minha vida dependeu para eu estar aqui. Não deixa de ser curioso. Muito obrigado por estarem desse lado e até para a semana.