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Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio do podcast "Somos Todos Malucos", um podcast agora nas plataformas do Observador, mas também continuo no YouTube, no Spotify, no iTunes. Podem ver, podem escutar no trânsito, em casa, enquanto passam a ferro, a correr, a fazerem outras atividades até menos próprias, estão perfeitamente à vontade para escutar onde quiserem. O tema de hoje é um tema que eu, como muitos outros, já queria trazer aqui há algum tempo, porque eu também não sei muito bem lidar com ela. Com ela o quê? Com a intuição. O que é a intuição, meus amigos? É o quê? É algo mais esotérico ou é algo que pode ser explicado e usado pela ciência? E como é que os malucos, pessoas como eu e como vocês que estão desse lado, que não confiam nas suas próprias decisões, podem usar a intuição a seu favor? O Filipe Loureiro é formado em Psicologia Social e das Organizações, é professor, é um estudioso desta área da intuição e mecanismos de tomada de decisão. Muito obrigado, Filipe, por teres aceite aqui o convite de te juntares a nós nesta conversa. E era como eu estava a dizer, é um tema que eu acho muito curioso alguém dedicar o seu tempo a estudar a intuição e acho que começamos exatamente por aí. Afinal, o que é a intuição?

Obrigado, António, pelo convite. Antes de mais, é mesmo um prazer estar aqui, ainda por mais, para falar sobre um tema que me fascina tanto como é esse da intuição. E na verdade, eu tenho perdido muitos anos já a estudar isto da intuição. Começas pela pergunta mais óbvia.

Claro, sim.

Óbvio. Mas neste caso, nem sempre a pergunta mais óbvia vai, neste caso, dar origem à resposta mais simples, como em tanta coisa na vida, mas principalmente aqui na intuição. É uma pergunta que me fazem várias vezes, na verdade, o que é intuição? Eu costumo ter uma de duas abordagens. Ou dou a resposta científica, mais crua e objetiva, ou, havendo tempo, tento embarcar quase aqui numa reflexão sobre o que é isto para uns, para outros. E sendo essa abordagem, que eu penso também que queres adotar, podemos olhar um bocadinho mais para este lado mais subjetivo da intuição, necessariamente do que as definições dizem.

Mas agora fiquei curioso. O que diz a definição científica da intuição?

Indo muito direto ao assunto, é um processo cognitivo que é inconsciente, em primeira instância, e que é rápido, surge automaticamente na mente, que tem uma componente que é emocional, ou seja, baseia-se nos teus feelings sobre as coisas e depois também olha para a informação como um todo. Ou seja, baseia-se em padrões de aprendizagem, vai desenvolvendo ao longo da vida com treino e depois de forma relativamente automática, quando identificas pequenas pistas, consegues, de certa forma, implementar, lá está, sem pensar, de forma rápida e até com base nos feelings. Só que a investigação e a ciência nos diz com base em, hoje em dia, milhares de definições, por lá está sendo um tema também algo trabalhado multidisciplinarmente, dá origem a muitas definições. Essa é consensualmente a definição.

Então, teoricamente, uma pessoa quanto mais velha fica, mais intuitiva fica.

Depende da área. Depende das áreas específicas.

Vai adquirindo mais experiência e teoricamente, lá está, essa informação é analisada como um todo, com mais dados.

É isso. Que depois, com base na tua experiência, nos teus padrões de aprendizagem, consegues simplesmente implementar, mas depende da área na qual estás a trabalhar. Pode haver pessoas mais novas, mas por estarem 24 sobre 24 a trabalhar sobre as mesmas coisas, então desenvolve uma expertise, uma experiência e depois intuição, que outras pessoas, por muito mais velhas que sejam, possam não ter.

Mas para usares a intuição na vida, então sabes teoricamente quem é mais velho.

Em teoria, sim, até porque sendo mais velho, já passou-

Já passou, se és mais velha, por isso é que eu já não tenho paciência para determinadas merdas. Então eu já uso a intuição e percebo: "Isto não vai dar nada."

Ou apenas quero olhar para os dados.

Nem vale a pena eu chatear-me com isto que eu já sei onde é que isto vai parar. Isto é intuição?

Depende. Falta de paciência, não tanto, mas já passaste por tantas situações em que: "Ok, eu no passado, lembro-me que isto aconteceu, eu ignorei a intuição, eu segui a intuição e correu bem", chegas a uns pontos em que consegues confiar mais facilmente nesses teus primeiros impulsos, digamos assim.

Ok, sim. Então e desse ponto de vista mais filosófico, o que é a intuição?

Há centenas de anos, os próprios filósofos já pensavam nisto, o que é intuição. Mais do que isso, até, é interessante pensar do ponto de vista subjetivo para cada pessoa, o que é a intuição. Um tópico de investigação que me tem movido, até nos meus primeiros trabalhos de doutoramento, foi o que é a intuição para as pessoas. Ou seja, para ti, António, o que é a intuição quando tu dizes que usas a tua intuição, o que para ti significa utilizar a intuição?

Para mim, o que é a intuição? Usar a intuição. Pois, o problema é esse. Porque eu diria que a intuição é isso que tu também referiste, é um feeling. Por exemplo, tens duas coisas para escolher e não sabes qual é a que hás de escolher, mas algo te diz para escolheres uma. E eu não sei definir o que é esse algo.

Esse algo.

Mas se eu pensar, nem estou a falar de um ponto de vista de experiência, de algo de trabalho que me leva, tipo: "Ok, eu acho que isto vai funcionar melhor." Não é bem instinto, acho que se mistura sorte também aqui.

Ok.

Mistura-se uma data de coisas.

Mas isso é o que acontece. Esta foi uma pergunta que eu fiz a centenas de pessoas, no início do meu doutoramento, e tive respostas super variadas. Agir com base naquilo que parece bater certo ou evitar aquelas coisas que parecem não bater tão certo ou agir com base nos meus sentimentos, não pensar muito sobre o assunto e agir automaticamente.

Sim, às vezes eu acho que também se pode definir, de alguma maneira, como a primeira sensação.

A primeira coisa que te surge na mente. Sim.

Ou a primeira tomada de decisão. Imagina, acontece alguma coisa e tu dizes: "Não, vou escolher isto". E isto, para mim, já é mais baseado na intuição. Porque depois começa-se a ter uma data de processos, no meu caso, lidando com a perturbação obsessiva compulsiva, a partir rapidamente daqui escala para: "Isso não sei o que é", e torna-se super racional e já não vai dar porra nenhuma.

Pois, e depois até é difícil às vezes distinguir.

Pois, claro.

O que é minha intuição, o que é-

Exato, por isso é que eu te tinha dito que fazia muito sentido para mim esta conversa, que até o meu psicólogo diz que às vezes é boa a intuição, e eu assim: "Mas eu sei lá o que é que é intuição, se eu estou sempre a pensar em porcaria, como é que eu consigo definir os meus medos?" Por exemplo, o medo: "Não vais para aquele sítio". Isto é baseado no medo ou é baseado na intuição?

Essa é uma boa questão. Eu vou me refugiar aqui um bocadinho na minha área, que é social, organizacional.

Sim, mas lá estás tu bem.

E dou a minha opinião, como pessoa até que se identifica com o que você está a dizer. É muito difícil, por vezes, para pessoas que experienciam esse tipo de percepções, de conseguir distinguir uma coisa da outra, e a linha fica muito tênue. Entre o que é intuição ou o que é um medo mais exagerado ou uma ansiedade mais generalizada. É difícil. O que eu posso devolver um bocadinho é que tipicamente a intuição desenvolve-se com base naqueles padrões de aprendizagem, tu vais desenvolvendo ao longo dos anos e consegues perceber: "Ok, no passado houve determinadas alturas em que eu experienciei determinadas intuições com base em determinados padrões, que eu agora consigo identificar." Por outro lado, outro tipo de percepções têm uma base mais de distorção cognitiva, em que tipicamente até é possível identificarmos algumas ameaças onde nem sempre elas estão, mas é difícil distinguir.

Sim, ou seja, é como se tu fosses pelo método estatístico, quantitativo. A maior parte das vezes, isto pelo qual eu passei ou às vezes até pode ser, estava aqui a pensar se isto faz sentido, experiências emocionais e não físicas. Ou seja, situações pelas quais tu passaste, que tu não te recordas mesmo, mas que te despertaram determinadas emoções e que correu tudo bem. E em situações parecidas, a tua intuição diz que vai correr tudo bem porque tens essa memória.

Sim.

Isto faz sentido?

Faz sentido. E muitas vezes, apesar de a intuição ser um processo altamente inconsciente e com base na identificação de padrões de forma rápida e automática, pode haver alturas em que consegues identificar conscientemente os padrões com base nas tuas experiências passadas. Estás, de certa forma, a dar uma conotação mais consciente à intuição, a racionalizá-la, deixa de ser uma intuição no seu estado mais puro, portanto a verbalizá-la e a consciencializá-la, mas é uma intuição na sua base, na mesma, portanto conseguimos identificar esses padrões de forma consciente. Mas é difícil distinguir umas coisas das outras, até porque podem evocar sensações semelhantes, mas a sua origem e as suas consequências definitivamente acabam por ser bastante diferentes. Diria que aqui é mesmo tentar o trabalho de autorreflexão e de olhar para dentro, acaba por ser muito importante para tentar distinguir aquilo que são inputs e processos mais intuitivos, que são mais fluidos e mais confiáveis por natureza daquilo que são ansiedades e medos, que nem sempre derivaram da experiência, porque na maior parte das vezes, e isto também falando por experiência, nem sempre se concretizaram. Logo, não podem derivar necessariamente da experiência da qual a intuição também deriva.

Por que tu começaste a estudar a intuição?

Essa é uma grande questão.

Tinhas falta de?

Sabes, eu achava-me uma pessoa intuitiva, até começar a estudar intuição. E de repente deixei de saber o que é intuição. E essa é outra coisa com a qual eu tenho lidado hoje em dia quando perguntam o que é intuição. Passo anos a estudar intuição e de repente perguntam-me o que é, e o meu objeto de estudo de repente é difícil experienciá-lo subjetivamente, porque racionalizo. Eu também sou uma pessoa altamente racional. Portanto, tenho essa dualidade. Sou muito racional, sou muito intuitivo, mas depois fico misturado no que é isso da intuição para mim. Comecei a estudar intuição, eu adoro pensar sobre a forma como as pessoas tomam decisões e se movem nas diferentes decisões que tomam ao longo da sua vida.

Seja profissional, na vida.

Definitivamente, sim. Nas diferentes esferas. E esse campo da tomada de decisão sempre me fascinou e acabou por guiar-me um bocadinho para aquilo que tem sido um tema emergente, porque a intuição é efetivamente um tema emergente. Na verdade, tem sido ao longo de muitas décadas, embora de diferentes formas e diferentes focos. Antigamente, a preocupação era que a intuição leva-nos a tomar decisões muito más, enviesamentos, e não é bom. Hoje em dia, o foco tem sido complementado por: "A intuição até pode ser boa. Em complementaridade com a análise, pode nos levar a melhores decisões." E é isso que eu também tenho-

Só que não achas que, pelo menos a ideia que eu tenho, é que a intuição hoje em dia também é muito usada num plano mais esotérico e holístico pelos coaches como sendo algo que te liga espiritualmente ou o que quer que seja. E eu também, de alguma maneira, tenho essa crença, mas há uma grande base científica na intuição.

É verdade que os coaches, principalmente na área do desenvolvimento pessoal e estas-

Ou seja, eles dão uma visão espiritual a algo que afinal é mundano e que sempre existiu.

Depende.

Pois, claro.

Aquela resposta mais-- No sentido em que a intuição depende Tem uma base de conhecimento que deriva em grande parte da experiência.

Sim.

E, nesse sentido, vai ser diferente de pessoa para pessoa e das suas diferentes experiências em determinadas áreas até. E nesse sentido, ela é altamente subjetiva e individual a cada um de nós. Por outro lado, a ciência, baseia-se em métodos mais objetivos.

Mais empíricos.

Mais empíricos, mais replicáveis, contrastam com a forma mais subjetiva como a intuição nos surge e de certa forma, como nos guia. Não sendo necessariamente algo científico, a intuição, ou com uma base científica, não deixa de ser vista como algo relativamente válido para mim, no âmbito que são as minhas experiências e naquilo que são os meus diferentes domínios da minha vida, pelos quais eu me posso guiar para tomar decisões. Agora, a base científica da intuição, ou seja, a sua validade científica, isso é um stretch, é um bocadinho maior. Não quer dizer que ela própria não possa orientar a ciência.

Mas há estudos feitos sobre a intuição?

Há muitos estudos feitos sobre a intuição, sim. Na forma como ela se manifesta em diferentes-

Que dados curiosos é que tu tens e que sabes sobre a intuição?

Por exemplo, imagina, tu queres tentar perceber onde é que a intuição pode funcionar melhor, em que contexto é que ela funciona melhor. Ou que tipo de pessoas costumam utilizar mais a intuição, mais a análise. Nós aí temos uma série de investigação relativamente a diferentes tipos de pessoas e as diferentes preferências que elas têm relativamente a tomar a decisão. Há pessoas que são mais intuitivas, confiam nas suas intuições, há pessoas que são mais analíticas, confiam mais nas análises, mas não são mutuamente exclusivas. Como eu disse, eu sou uma pessoa que é altamente intuitiva, altamente analítica e, nesse sentido, tenho ambas, intuição e análise. Agora, existem muitas medidas e evidências científicas que demonstram que as pessoas efetivamente têm estas diferenças relativamente ao quão intuitivas são, quão analíticas são. Apesar de haver essas diferenças, não quer dizer que as pessoas sejam insensíveis aos contextos nas quais têm de tomar decisões. E aí existe muita investigação que procura demonstrar que preferências é que as pessoas têm para tomar a decisão de forma mais intuitiva ou mais analítica.

Ou mais racional.

Exatamente. Por exemplo, quando é para escolher parceiros amorosos, a maior parte das pessoas vai ser intuitivo. Não quer dizer que não haja diferenças individuais.

Embora há muita gente que seja racional nesse processo, quer arranjar determinada pessoa que tenha estes gostos. Eu tinha um amigo meu que dizia: "Não posso namorar com uma pessoa que gosta de uma certa coisa." Sim, uma coisa superespecífica.

Gosto de música.

E eu falava com ele sobre isso e eu dizia assim: "Mas imagina, tu estás apaixonado por ela e sentes coisas", e ele: "Não, só gosto desta ou não."

É muito doido. Isso é altamente interessante, é quase uma checklist. Esta pessoa não cumpre ou tem um threshold, um limite. Não cumpre cinco destes 10, se calhar não está elegível. As pessoas, efetivamente, apesar de tudo, tendem a ser mais intuitivas nesse tipo de decisões mais subjetivas.

Ok.

Ou mais simples, também para as quais têm mais experiência. E tendem a ser mais analíticas, por consequência, para decisões mais complexas. E o que é interessante, e falando em investigação, é que apesar desta preferência que as pessoas têm por tomar a decisão mais intuitiva para escolhas simples e analíticas para escolhas complexas, é que uma série de estudos têm demonstrado que se pedimos às pessoas para tomarem decisões de forma mais analítica para decisões complexas e mais intuitiva para decisões mais simples, as decisões não são tão boas como se pedimos às pessoas para se basearem nos seus feelings para decisões mais complexas e para se basearem nas suas análises para decisões mais simples. Isto porque quando nós pedimos a uma pessoa para tomar a decisão de forma analítica, com base em contextos muito complexos, em que tem que analisar muita coisa, é muito difícil. As pessoas ficam completamente sobrecarregadas e não conseguem tomar a melhor decisão.

Engraçado.

E eles têm feito isso em alguns estudos. Apresentam-te um carro, por exemplo, com quatro características que são predominantemente boas ou más, ou com 12 características que são predominantemente boas ou más. Depois dizem: "Toma uma decisão sobre o melhor carro, quão queres o carro ou quanto queres o carro, de forma mais baseada nos teus feelings ou com base na análise de todos os detalhes." As pessoas que têm 12 características, se se basearem numa análise mais analítica, ficam sobrecarregadas de tanta informação.

É engraçado, por isso é que muitas vezes, se calhar, eu estou a ver a minha experiência, mas acredito que seja uma coisa até transversal. Pelo menos a minha mulher diz-me muito, quando eu estou a escolher coisas, eu chego a uma altura, digo: "Ok, para."

Isso.

Porque já não há diferença na tomada de decisão. Ou seja, eu já estou ali demasiado afundado.

Neste momento já nem sei o que é que era um e o que é que era outro.

Exato, eu já não sei qual é que eu estava até de forma inicial, já não sei qual é que é o-

Fica difícil.

É engraçado, pois é.

Tentar: "Ok, qual foi a minha primeira impressão sobre as opções?"

Então nós todos devíamos escolher parceiros de forma analítica.

Eu não disse isso, atenção. E há diferenças individuais. Depois, também a investigação mostra que nós somos mais analíticos, se tomamos decisões analíticas, vamos nos sentir melhor com a nossa decisão depois. Ou se somos mais intuitivos e tomamos decisões intuitivas, vamos nos sentir melhor depois com a decisão. Também temos que ter isso em consideração.

Tu achas que as pessoas se sentem melhor com as decisões analíticas ou intuitivas?

E muita investigação sobre isso, também. De uma forma geral, e não-

Não respondas, deixa-me adivinhar.

Força.

Eu acho que as pessoas se sentem melhor com as analíticas.

Por quê?

Porque têm uma justificação se a coisa correr mal.

Isso é um facto. As pessoas têm uma justificação que não depende da sua subjetividade para justificar. No entanto, se perguntar às pessoas quando é que se arrependem mais, e podemos fazer este exercício, imagina, tens uma intuição muito forte. Ok? Ignoras. Ignoras a tua intuição, segues outra via e a intuição estava correta e a decisão correu muito mal. Essa é uma opção. Ou tens outra que é: analizas os dados, os dados apontam numa direção, mas tens uma intuição que é forte. O que fazes é ignorar os dados e segues a intuição, e a decisão era má. O que te custa mais, o que te faz arrepender mais? Ter ignorado uma intuição forte-

Ter ignorado a intuição

É isso. E alguns estudos que também tenho feito no meu laboratório têm mostrado isso, é que as pessoas têm mais arrependimento de ter ignorado algo que é mais intrínseco, mais seu por natureza, e não necessariamente derivado dos dados mais objetivos.

Isso porque parte, se calhar, também daquela ideia de quando a coisa corre mal, quando a pessoa vai pela intuição e a coisa corre mal, as pessoas lidam melhor?

Lidam melhor.

Porque é aquela ideia de "se eu não tivesse experimentado, não sabia".

Isso.

É um bocadinho brega.

E se era boa e eu não fiz, eu ignorei. Caramba, ignorei algo que era meu, que não derivava dos dados, que é intrínseco a mim, da minha natureza, e acabei por ignorá-lo. Isso vai, pelo menos segundo os dados, ter mais peso do que se eu tiver ignorado os dados que apontavam numa certa direção, mas eu tinha uma intuição forte, decidi escolhê-la, arrisquei, não correu bem. Os dados apontavam numa direção. Óbvio que isto não é linear, depende de pessoa para pessoa também e de contexto para contexto, mas de uma forma geral, é isto.

E há estudos, há alguma base neurológica ou neuroquímica na intuição? Há estudos que mostram alguma mudança no cérebro?

Sim, existem estudos que mostram algumas ativações em zonas específicas do cérebro. O córtex pré-frontal é uma dessas zonas, que é responsável por funções como tomar a decisão, planeamento, controle emocional. Existe um estudo também interessante, é um estudo clássico, foi realizado pelo António Damásio. Eu vou falar de estudos porque é aquilo com que eu me sinto mais-

Eu vou atrás e ainda trago o António Damásio aqui.

Isso era uma grande ideia.

Pois é, já ando atrás dele. Tem que ir aos Estados Unidos.

Então, se calhar, depois deixava para ele falar. Tu falas desta experiência e depois ele-

Não, não, não vale. A minha intuição diz-me que ele está ocupado e não vem aí.

Então pronto, eu falo aqui um bocadinho sobre essa experiência, depois se estiver completamente errado, ele depois corrige-me.

Exato.

Então ele apresentou a pessoas, já digo as características que estas pessoas tinham, mas dois decks de cartas. Um deck tinha cartas que tinham valores de prêmios muito elevados, imagina 100 €, mas também tinham cartas que tinham penalizações muito altas, tinha de devolver valores muito elevados. E depois no outro deck, tinha cartas que tinham prêmios mais baixos, 50 €, mas também, consequentemente, tinham cartas que tinham penalizações mais baixinhas. E eles recrutaram dois tipos de pessoas: pessoas com cérebros saudáveis, sem lesões no córtex pré-frontal, e pessoas com lesões no córtex pré-frontal. O que aconteceu foi muito interessante no sentido em que as pessoas com cérebros saudáveis, ao longo das diferentes alturas em que iam escolhendo cartas de diferentes decks, foram escolhendo progressivamente mais cartas do deck bom, mesmo sem conseguir conscientemente identificar a lógica que estava por trás dos diferentes decks.

Mas elas sabiam qual é que era ou não?

Sentiam. Não sabiam.

Não sabiam qual é que era o deck que tinha-

Não sabiam. Portanto, no longo prazo, há um deck que é bom, nos vai dar mais ganhos, no longo prazo há outro deck que é mau, que nos vai dar menos ganhos.

O que essa experiência estava a replicar é a tal ideia de repetição de experiências.

Exatamente.

Ou seja, quase de forma inconsciente, as pessoas iam tirando sempre do mesmo deck sem repararem. Lá está, a emoção e o reconhecimento da recompensa maior aqui. Ok, faz sentido.

Mas conscientemente não conseguiam dizer o porquê, tinham um feeling, lá está.

"Aqui estão cartas melhores".

"Aqui estão cartas melhores", e no longo prazo vão olhando para as quantias que vão somando e tirando, consoante a carta que vai saindo, e vão-se apercebendo inconscientemente que há ali um deck que é melhor. Isto nas pessoas com cérebros saudáveis. Nas pessoas que tinham lesão no córtex pré-frontal, o que aconteceu foi que as pessoas não conseguiram desenvolver esta intuição relativamente aos decks que eram melhores. Não adotaram nenhuma estratégia em função daquilo que até podiam inferir de forma inconsciente.

Foram tirando ao calhas.

Sim. Não conseguiram.

Mas as pessoas que tinham lesão, eram lesões de quê? Há referência do que era esse tipo de lesões?

Lesões derivadas de acidentes. No fundo, eles lesionaram as pessoas.

"Venham aqui três cabeçadas, depois sentem-se aqui na mesa."

E eles receberam muito dinheiro por essa experiência? Receberam, não. O que aconteceu foi: eles identificaram pessoas que tipicamente já tinham tido acidentes que causaram lesões nessas áreas e puseram-nos na mesma condição experimental, mas identificaram estas diferenças. Depois, lá está, das principais conclusões é a importância que essa área tem, do cerebral, para tomar a decisão mais intuitiva, de reconhecimento de padrões.

Sim, isso é muito curioso. A intuição é a mesma coisa que o sexto sentido?

Aqui entramos numa zona mais exotérica. Falando assim da ciência, muitas pessoas, e é verdade que quando eu fiz aquela pergunta à pessoa sobre o que é a intuição para ela, há pessoas que vão dizer isso, de uma forma mais supersticiosa, ou um lado mais paranormal de absorver informação. E por agora, não há evidência de que nós temos uma antena no nosso cérebro que nos permita absorver informação que anda por aí solta no ar. Ou seja, o que a investigação demonstra é que, efetivamente, existe uma intuição que deriva da experiência e identificação de padrões, não necessariamente um sexto sentido derivado de algo mais do que isso, em que somos sensíveis a estímulos, como às vezes falamos, antena. E a mesma coisa com o instinto, porque também existem pessoas que dizem: "Intuição é seguir o meu instinto."

E o que é o instinto?

E o que é o instinto?

É o meu sexto sentido. E o que é o sexto sentido? Sei.

E neste caso, há diferença, porque a forma como se manifestam até pode parecer semelhante. São respostas automáticas e rápidas, intuição e instinto. Mas lá está, e assim que estou a reforçar demasiado este aspecto da aprendizagem, dos padrões, mas é isso que caracteriza aqui a intuição. Logo, é algo que nós podemos treinar também, e que depende da nossa experiência em diferentes áreas. O instinto, não tanto

Sim.

Tem uma base mais...

A intuição, de alguma maneira, se tu começares a ter consciência disso, do que é a intuição e dos processos da intuição, pode-se também tornar algo mais consciente?

Pode-se tornar. Tu podes ter determinados inputs intuitivos com base na tua experiência e tu consegues consciencializá-los, ou seja, verbalizá-los e dizer: "No meu passado, houve determinadas alturas em que isto aconteceu". Tu consegues explicitar os padrões, mesmo que eles fujam necessariamente aos dados objetivos para aquela situação.

Tem uma pessoa quando muda de trabalho. Imagina uma pessoa que está no ramo e que sempre teve um sonho de fazer outra coisa que não tem nada a ver com o seu trabalho. Quando ela muda e ela assim: "Não, eu vou mudar." É o quê? É instinto, é intuição, é sexto sentido?

Quando a pessoa, ok.

É álcool?

Depende do quão impulsiva foi a decisão.

É o quê? Porque aqui estou a presumir que a pessoa não tem experiências anteriores de mudança de trabalho. Às vezes acontece. Pessoas que fazem isso, estão numa área e têm o sonho de desenvolver um projeto. E escolhem desenvolver esse projeto. Isto é o quê?

Cada caso é um caso.

Claro, sim, cada caso é um caso.

Aí, diria que entra em jogo uma série de coisas. Primeiro, a pessoa para ter decidido mudar de área é porque provavelmente ou desde sempre, ou pode ter acontecido alguma coisa que tenha desencadeado essa procura, e esse desejo de aproximação de uma determinada área. Depois, pode até coincidir com as experiências que a pessoa tem tido na área onde está atualmente. Podem ser menos positivas.

Sim.

E então isso pode, de certa forma, até quase como os pratos na balança: "E o que é mais importante para mim?" E eu ou decido analiticamente ou decido intuitivamente. Eu diria que aqui é mais uma questão de intuição, na verdade, não necessariamente um sexto sentido ou um instinto, até porque um instinto seria um reflexo mais biológico.

É mais animal, o instinto é mais animal.

É quando nos apontam as lanternas e a gente fecha o olho e não necessariamente deriva da aprendizagem, em que ao longo do tempo que foram apontando uma lanterna, eu fui aprendendo a fechar o olho para não ficar encadeado.

O reflexo de Pavlov.

Exato, não depende da aprendizagem, digamos assim. E neste caso, esse contexto da tomada de decisão relativamente ao mudar de emprego, ou mudar da área e ficar na área onde estava, tem todos esses aspetos que podemos considerar. Se a minha experiência com a minha área atual, com o desejo, ou sempre desejei mudar para aquela área específica, o que eu posso dizer é que não depende do instinto e se depender de um sexto sentido, depende da forma como eu estou a olhar para esse sexto sentido. Se para mim a intuição for um sexto sentido, mas é na forma como ele emerge em mim, com base em padrões e não necessariamente o facto de eu ter uma antena que absorve informação que me diz: "Aquele é o caminho", quase como uma voz interna, que é outra definição que as pessoas dão, uma voz interna que eles têm. Diria que poderia ser mais intuição do qualquer uma das outras.

Se nós formos pensar bem, a própria ciência evoluiu muito com a intuição.

Definitivamente.

Mas aqui já está desenvolvida também a aprendizagem, ou seja, mesmo intuição, porque se calhar muitas das descobertas que se fizeram partiram de perguntas disruptivas, não é? E se em vez disso for isto, ou algo me diz que é por aqui.

Sim.

É porque já tem toda a aprendizagem para trás. Ou seja, não é sorte.

Não, definitivamente. Aliás, há bocado dissemos que intuição não é ciência. Porque a ciência depende dos métodos objetivos, replicáveis. Não quer dizer, no entanto, que um cientista não possa intuir determinadas associações entre determinadas variáveis com base naquilo que são as suas aprendizagens. Às vezes os dados nem sequer apontam explicitamente nessa direção.

Sim, mas às vezes é aquilo que tu ouves, muitas vezes é um pormenor que desperta a atenção.

Sim.

Algum valor. Acontece muito isso na descoberta de vacinas ou de moléculas, seja o que for, é muito aquela ideia de: "É que estava à procura de uma coisa, mas dá-me este resultado, vou ver o que é este resultado".

Com base nesses pequenos desvios e com base numa intuição, nós podemos ir atrás dessas novas questões, digamos assim, porque a intuição pode dar origem a novas questões, a novas hipóteses, que podem não parecer super claras à partida, mas que nos, de certa forma, permitem ir testar coisas que à partida podiam não fazer tanto sentido. Nesse sentido, pode ser uma espécie de motor para novas descobertas.

Pois é.

Isso aconteceu várias vezes no passado.

Tem exemplos assim que lemos?

O próprio Einstein, uma série de hipóteses que ele ia propondo eram muitas vezes intuitivas. Óbvio que ele tinha alguns dados que lhe permitiam fundamentar algumas hipóteses, mas muito do que ele testou, de um ponto de vista teórico, e muitas das hipóteses que ele propôs, não podiam ser testadas na altura. Ou seja, são coisas que ficaram e que hoje em dia vamos corroborando com base em novos dados, ou até vamos refutando, mas na maior parte das vezes vamos corroborando hipóteses que intuitivamente, e com base em padrões de aprendizagem que ele próprio ia desenvolvendo, colocou. E lá está, não sendo um método científico, pode alimentar o método científico através da geração de novas hipóteses e novas ideias testáveis.

Eu estava aqui a pensar: será que existe intuição coletiva?

Intuição coletiva, no sentido em que temos um grupo de pessoas?

Eu vou te explicar por quê. Já ouviste falar certamente do inconsciente coletivo? A ideia de que há uma rede de informação, porque há pouco tu estavas a falar da questão da antena. Eu já ouvi falar duas ou três vezes deste estudo e depois eu acho que já o encontrei mesmo. Houve um estudo que se fez com praticantes, não sei o número, mas imagina, estavam 200 ou 300 praticantes de meditação e mais 200 ou 300, o mesmo número de pessoas que não iam praticar meditação. E todas estas pessoas foram ligadas com eletrodos para analisar as ondas cerebrais e as pessoas que estavam a praticar meditação entraram no registro de ondas, todas mais ou menos no mesmo registro, e passado pouco tempo, as outras pessoas que estavam a ter outras atividades, entraram em concordância com estas ondas cerebrais. Isto foi muito interessante, eu já ouvi falar Já ouvi falar disso várias vezes e eu tenho ideia que já encontrei este estudo. Ou seja, é a intuição coletiva quase no sentido de um campo morfogenético que existe e que permite que um determinado povo, pessoas ou família tomem o mesmo tipo de decisões. Estás a perceber?

Estou a perceber a ideia. Eu não conheço esse estudo.

Sim.

Mas a forma como acabaste por descrever, que tem a ver com o facto de pessoas que partem de um mesmo contexto, particularidades semelhantes relativamente às situações nas quais têm vivido, do ponto de vista do que a gente sabe, poderá vir a fazer sentido na medida em que, tendo passado por situações semelhantes e tendo absorvido experiências semelhantes, podem desenvolver mecanismos de resposta automática e às vezes até mesmo afetiva, que são partilhados entre os diferentes elementos. Portanto, quanto mais próxima for a ligação entre estas pessoas e mais semelhantes forem as experiências de desenvolvimento dessas pessoas, em teoria, maior seria a probabilidade de poderem intuir de forma semelhante.

Sim.

Isto com base nesta resposta mais objetiva e com base nos dados que temos. Eu não conheço esses dados neurológicos da forma como mencionas, na mesma frequência. Seria interessante poder perceber se, do ponto de vista neurológico e dos sinais neurológicos, pessoas que estão da mesma família ou dos mesmos meios, expostas a situações semelhantes, se vão produzir os mesmos padrões de resposta cerebrais, mais do que até as próprias decisões que tomam, mas se os padrões cerebrais seriam semelhantes. E é possível que sim.

Agora, a intuição é sempre boa para ti?

Intuição? Se é sempre boa, ou seja, se leva sempre às melhores decisões?

Sim.

Não.

Obrigado e boa tarde. Está feito.

Não. Há estudos que têm trabalhado isto, a intuição enquanto um enviesamento. E é verdade que a intuição hoje em dia tende a ser também um pouco explorada como complemento positivo e o ingrediente em falta para uma melhor tomada de decisão. Mas é verdade que às vezes a intuição também nos pode deixar relativamente cegos sobre outros aspetos que são importantes para a decisão.

Lá está, nessa questão da mudança de profissão. A pessoa pode ter um sonho, mas esse sonho até nem é ser muito lógico.

E aí convém a pessoa não ficar completamente cega aos seus feelings e ter em consideração dados que podem ser importantes para essa decisão em específico. Há um exemplo que eu te posso dar sobre a forma como a intuição nem sempre nos leva a boas decisões. Imagina uma cidade que está infetada por um vírus, de zumbis.

Pode ser.

Pode ser zumbis?

Pode ser zumbis.

Ok. Então temos uma cidade que todos os dias duplica a população de pessoas zumbis.

Ok.

Todos os dias duplica. A cidade fica, ao oitavo dia, completamente cheia de zumbis. A questão é: quando é que ela estava pela metade? Ou seja, coberta de zumbis ou infetada de zumbis pela metade. Portanto, ao oitavo dia, ela fica completamente—

No quarto dia?

Quarto dia. Essa é a resposta intuitiva.

Sim.

Agora, a resposta correta é o sétimo dia. Porque nós desenvolvemos intuições ao longo da nossa vida e desenvolvemos este padrão que nos leva automaticamente a reconhecer que a metade de algo corresponde à metade do tempo decorrido. Essa é a intuição que a gente desenvolve. E às vezes as intuições são muito úteis, e se elas existem e se vão verificando ao longo do tempo, é porque elas são úteis de alguma maneira, mas às vezes tornam-nos cegos a pequenos detalhes, que são: a população de zumbis duplica a cada dia. Se a cidade, ao oitavo dia, estava totalmente cheia, ela podia estar metade preenchida ou cheia de zumbis exatamente no dia anterior, porque ela duplica todos os dias. Portanto, se ela estava completamente coberta de zumbis ao oitavo dia, ao sétimo ela estava pela metade, porque a população duplica todos os dias.

Sim, ok. Pois é. Duplica, exatamente, já estou a perceber. Ou seja, porque tu fazes a conta a partir do dia inicial, da duplicação do dia inicial, mas na realidade tu estás a duplicar. Ou seja, ela está cheia, duplica, exato, sim.

É isso.

Já percebi.

Agora, intuição: oito dividido por dois é quatro, é metade. Porque isso é a nossa intuição, o nosso padrão de aprendizagem.

Ou seja, se eu não fosse zumbi e dissesse: "Malta, ao quarto dia a gente ainda consegue sair daqui. Ao terceiro dia ainda conseguimos sair daqui." Talvez não.

Não. E ao sétimo já é muito difícil.

Já não dava.

Metade, já está metade, já é muito difícil. E no fundo, podes pensar a intuição como aquele amigo que às vezes tem ideias geniais, que tem ideias completamente fora da caixa, mas depois outras vezes vai tentar montar um móvel sem olhar para as instruções, sem olhar para o manual. É útil, mas às vezes não vai conseguir. Vai ter que olhar para o manual, para os dados.

Então o melhor para uma pessoa é misturar as duas coisas.

É. Até porque, às vezes, o manual é péssimo.

Pois, mas tens que misturar, tens que encontrar um equilíbrio nessa mistura, porque é aquilo que estávamos a falar. Se eu for demasiado analítico, vou me perder na informação toda e vou chegar a uma altura que não vou tomar uma decisão.

É isso.

Então onde é que uma pessoa encontra o limite?

O limite, onde é que eu abandono os dados, onde é que eu me baseio na intuição.

Onde é que eu digo: "Ok, tomei a minha decisão."

Onde é que eu defini o sítio onde tomei a decisão?

Sim, como é que eu defino-- deixa eu tentar te explicar, porque enquanto estávamos aqui a falar, eu estava a pensar em casos pessoais onde eu usei a intuição de alguma maneira. E vou te dizer, por exemplo, eu quando era jornalista, eu era jornalista, depois deixei de ser jornalista e comecei a entrar na comédia, atuar em bares, etc. Ganhava uma porcaria, mas estava a fazer esse caminho E há um dia que eu recebo uma proposta para ir trabalhar para uma produtora de televisão como jornalista. Ou seja, voltava a ter uma vida segura sendo jornalista. E eu conversei com a minha mulher, com a Catarina, e o que eu lhe disse foi: "Eu acho que deves ir tu, porque eu estou neste caminho." Ela tinha um trabalho seguro, mas também não estava muito satisfeita. Este trabalho novo era um mês à experiência, mas o que nós vimos entre nós foi: "Olha, vais tu e vamos arriscar, porque é quase como o Tiririca, pior do que está, não fica." Houve aqui uma decisão que acho eu que esteve muito baseada na intuição, mas também de uma forma analítica, porque é: "Ok, eu estou a ganhar algum. Se tu saíres daqui e consegues regressar ao anterior trabalho, vamos arriscar."

Sim.

Há aqui um bocadinho de cada, na realidade. Porque se eu fosse só no modo analítico, se calhar tinha ido eu, porque é seguro, vou voltar ao meu trabalho e vou fazendo comédia de vez em quando. Vá-se.

Sim. E esse equilíbrio é mesmo o melhor. É tentar encontrar o ponto em que nos sentimos confortáveis o suficiente para conseguirmos seguir esse feeling, a forma como a decisão nos faz sentir, mas termos algum suporte, alguma almofada onde cair que seja suportada pelos dados. Eu tinha estes dados, que me apontavam numa determinada direção, tinha este feeling relativamente à minha decisão e poder conjugar as duas, normalmente, é o que leva a melhores resultados. Isto do ponto de vista da investigação também, nos contextos mais pessoais, mas também em contextos mais organizacionais de investimento, por exemplo, que é onde esta investigação está a ser desenvolvida. E é precisamente esse equilíbrio que se propõe hoje em dia nesses contextos, é quase um modelo de iceberg. Partimos de uma análise mais à superfície, daquilo que os dados que estão mais à superfície, que são mais objetivos e mais fáceis de analisar, o que é que nós temos, mas depois descendo para um nível mais profundo e olhando para a informação como um todo, como é que eu posso interpretar aquilo que não está à superfície, mas que eu sinto relativamente a estes diferentes padrões, às minhas experiências de vida, relativamente à forma como posso vir a sentir em relação a isto, e fazer esta análise, lá está, que tem em consideração tanto os inputs mais intuitivos e uma análise mais analítica.

Outro bom exemplo, que eu acho que aqui tem muito a ver com intuição e sobretudo experiência, é: eu trabalho numa área super volátil, porque eu não tenho um trabalho fixo, e não tenho um patrão. E eu antes aceitava tudo que era trabalho. E eu hoje em dia não tenho problemas em não ter trabalho, porque a experiência diz-me que ao longo destes 16 anos que eu faço isto, eu nunca tive falta de trabalho. Isto é intuição baseada na experiência.

Exatamente. Se por um lado até poderia levar à ansiedade.

E leva, e levou durante algum tempo.

Claro, e obviamente, e provavelmente ainda hoje.

Eu claro que ainda penso, obviamente. Às vezes dizem-me assim: "Tu há tanto tempo não apareces na televisão", e eu tenho rejeitado algumas propostas, portanto aceitava tudo. Mas agora eu olho para coisas e falo: "Isto não me faz sentido". E não aceito. E as pessoas às vezes dizem-me isto e eu sinto aqui um certo desconforto, mas depois penso: "Não, eu estou bem, financeiramente tenho trabalho, estou a fazer coisas que gosto."

E a experiência tem demonstrado que isto tem funcionado.

Sim, mas pode correr mal também.

Pode, mas tem corrido bem.

Pois.

O padrão, até agora, o padrão de-

Como diz o Rúben Amorim, isso corre bem.

Isso corre, pois.

Agora não está a correr bem.

Não está a correr, mas há de correr. Também não correu muito bem inicialmente.

Exato. Ele, se calhar, também tem muita intuição ali baseada.

E é interessante que ele também diz ter muita sorte, o que também pode levar a que interpretemos a forma como as situações se vão desencadeando à nossa forma, como tendo um significado maior, porque ele também diz, acredita que tem muita sorte. Isso também pode influenciar, e há pessoas também, lá está, quando descrevem intuição, também refletem sorte. Um processo de tomada de decisão que se baseia um bocadinho na sorte, intuitivo. Algumas pessoas pensam dessa forma. Isso também pode acabar por alimentar um bocadinho a forma como as pessoas acabam por confiar mais ou menos nas suas intuições. Não estou a dizer que o Rúben Amorim é super intuitivo, estou a dizer que é algo que curiosamente também disse, tem muita sorte e também tem essa crença de isso corre bem. E é preciso acreditar, às vezes, que as coisas podem correr bem.

Depois há aqui outra questão, que é que pessoas que lidam com questões de ansiedade ou outras perturbações relacionadas com a saúde mental, a intuição aí torna-se mais difícil de usar, principalmente numa altura em que estejam fragilizadas. Será que aí devem ir para um aspecto mais analítico?

É uma questão importante. Eu refugio um bocadinho na minha área, e é algo que eu já tinha partilhado consigo há pouco. Torna-se difícil distinguir uma da outra, até porque essas percepções, ansiedade, medos excessivos, podem, de certa forma, mascarar aquilo que é intuição. É difícil depois até distinguir uma da outra. O que é definitivamente muito importante é, numa primeira instância, trabalhar no bem-estar psicológico, o bem-estar emocional, e depois fazer esse trabalho de conseguir identificar o que é que são padrões que eu identifico derivados da minha experiência, e a forma como identifico estas intuições, às vezes, que surgem de forma mais fluida e mais confiável, mais natural, de outras percepções que não derivam necessariamente da experiência, mas podem decorrer de mais distorções cognitivas que nem sempre se verificaram, lá está, que levam a que eu identifique ameaças onde elas realmente não estão. Agora, independentemente de ser para começar a usar a intuição ou para começar a utilizar dados com mais confiança, ter mais confiança na forma como encontro a informação objetiva que eu preciso, o importante é, numa primeira instância, ter uma base segura.

Sim, estar bem emocionalmente.

E depois, se for para eu utilizar mais a intuição, mais os dados Importante é estar primeiro num sítio bom, do ponto de vista psicológico e emocional, para depois poder investir em utilizar a intuição, como outros mecanismos, como ferramentas úteis, que são para poder tomar decisões. Mas é importante haver essa base.

Sim. Aliás, há alturas em que se eu estou superansioso ou estive mais desequilibrado, eu tinha clara consciência que não podia procurar usar muito a intuição, procurava ser o mais pragmático possível. Exatamente porque não era com medo tanto da decisão, mas se calhar porque me ia baralhar mais. Estás a perceber? Acho que é mais por aí. Essa questão do equilíbrio entre a intuição e a análise pragmática é aquilo que estavas a dizer, o ponto mais difícil de atingir. Como é que tu fazes na tua vida, por exemplo? Como é que tu procuras fazer?

É difícil, principalmente para aquelas pessoas que tendencialmente são mais intuitivas ou mais analíticas, exclusivamente.

Sim.

Isso é algo que se tem demonstrado: seguir exclusivamente uma ou seguir exclusivamente outra, não leva a boas decisões. Acabo por ser facilitado, no meu caso, quando eu me sinto altamente racional, tal como me sinto intuitivo, apesar disto, que é intuição para mim, ser um bocadinho área cinzenta neste momento, o que eu procuro fazer é, pessoalmente, perceber qual é a minha primeira reação relativamente a determinado estímulo.

Lá está, a primeira sensação.

Exatamente. E que às vezes é difícil, porque o que foi? Era intuição ou o que foi uma ansiedade? Como pessoa que também é ansiosa. Começa logo aí um trabalho que é um ponto zero, antes de partir para o ponto um, que é: qual é a minha primeira reação relativamente a isto? Mas seria esse o primeiro ponto, qual é a minha reação inicial relativamente a isto, como é que eu me sinto em relação, que sentimentos é que me invoca, o que a experiência também me diz relativamente a isto. E depois olhar para os dados. O que os dados me dizem neste momento relativamente a esta decisão? Será que existe evidência muito forte, que depois nesse lado da racionalidade, pontos práticos, na balança, me dizem que é mais seguro adotar determinada decisão?

Sim.

Pôr depois essas coisas todas em cima da mesa e chega a um terceiro passo, que é: se eu tomar uma decisão intuitiva e ela correr mal, quanto é que isso me vai custar? Ou se for analítica, quanto é que me vai custar?

Sim.

Muitas vezes eu acabo por ter que tomar uma decisão ou mais intuitiva ou mais analítica. E depois de pensar nas diferentes formas como sinto relativamente a ambas, intuição e análise, é pensar: como é que eu me vou sentir melhor depois? Porque as coisas às vezes vão correr mal, às vezes vão correr muito bem. O que eu me tenho apercebido ao longo do tempo é que, pelo menos para mim-

O que tem mais influência é como é que tu te sentes depois.

Exato.

Porque isso vai influenciar as tuas próximas decisões.

Também. E depois acaba por ser um ciclo que se alimenta. Óbvio que eu vou aprender muito desta decisão.

Eu acho que isso é importante, tu disseste, quando tu usas a intuição, também pensares: "Ok, se eu tomar uma decisão pela intuição, o que é que isso me vai prejudicar? Ou o que é que me vai trazer?" Olha, acho que um exemplo porreiro é: tenho um amigo meu que está a pensar ir para fora do país. E não é muito tempo, três meses. E ele diz: "Eu gostava de ter esta experiência, mas depois se calhar perco algum trabalho cá. Lá não vou ganhar dinheiro, mas vou ganhar experiência e a experiência de lá também me pode trazer depois trabalho em Portugal". Gosto imenso e eu perguntei-lhe primeiro: "O que é que tu sentes quando pensas ir para esse sítio, o que é que tu sentes?" E ele: "Eu adoro aquilo." Eu: "Ok, e achas que três meses é o suficiente para a tua vida descambar assim totalmente?" E ele: "Acho que não." E eu: "Então acho que tens a tua decisão tomada."

É isso.

Ou seja, é aqui um equilíbrio, claro que se ele dissesse: "Acho que vai correr bué mal, vou ficar sem trabalho e vou ter que reconstruir a minha vida toda", então se calhar aí constrói uma base melhor e pensas isso mais tarde outra vez.

Sim, faz todo sentido. E vai mesmo ao encontro do exemplo que eu estava a dar também. Vai mesmo ao encontro.

Às vezes até coisas tão simples como escolher um restaurante.

Essa aí. Esse é um contexto que é muito utilizado na investigação.

A escolha de um restaurante.

A escolha de um restaurante. Como contexto, por quê? Porque ele tem um cadinho desta componente mais subjetiva. Para já, essa comida vai ser boa ou não?

Emocional.

Tem emocional e tem racional. Será que a comida é boa? O que é que as reviews dizem? Depois tem a componente: como é que eu me senti? Essa aí fica mesmo numa zona no meio.

Exato.

Que as pessoas tendem a preferir mais a intuição para esse tipo de contexto mais-

Eu já me dei mal com a intuição nos restaurantes.

Tu vês.

Mas lá está, não fiquei arrependido.

Lá está, é isso mesmo. Escolheste com base numa intuição, era o que fazia sentido, era um fit para aquela situação.

Sim, e foi tipo: "Olha, já sei que não volto aqui." Pronto.

E tiras a aprendizagem. Está feito. E a seguir segues para outro. Está feito.

Exato, eu acho que é nestas decisões simples do dia a dia. Porque eu lidando com as questões da ansiedade e da perturbação psicancompulsiva, eu racionalizo muito. E então as decisões de restaurantes às vezes podem ser supercomplicadas, porque eu quero ir ali. "Mas se ali, não sei o quê. Ah, então vou a outro, mas estava-me a apetecer ir ali". E depois vou a outro e afinal é uma grande bosta. E na maior parte das vezes eu: "Eu quero ir ali, vou ali". Pronto.

E depois, logo se vê.

Sim. E às vezes até é sítios que eu já fui, que sei que são bons. Mas entro nesse processo. Hotéis, a mesma coisa. Na escolha de um hotel, que às vezes vês reviews, e não sei o quê. Às tantas, tu chega uma altura: "Não vou ler mais críticas, porque há duas boas, uma má, uma mais ou menos, tem não sei quantas estrelas, parece-me bem, ok. Se for uma bosta..."

Azar.

Exato.

Mas é difícil, porque hoje em dia tu tens montes de informação. Queres ir a um restaurante na proximidade e filtras por este aqui, com 4,5 para cima de estrelas. E de repente tens muitas opções, depois procuras por mais filtros e ficamos completamente assoberbados e overwhelmed pela informação que temos. E no Booking então nem se fala. Portanto, muitas vezes temos que acabar por Decidimos também um pouco em relação ao que nós sentimos em relação à informação como um todo. É aquela questão de há bocado: temos tanta informação que se formos tentar pensar analiticamente sobre tudo que está em cima da mesa, às vezes nem sequer vamos tomar a melhor decisão.

Eu acho que há decisões que podem ser completamente intuitivas se forem inócuas, no sentido, lá está, que não te vão prejudicar a vida. Escolheres um restaurante só baseado na intuição.

À partida, não.

A não ser que apanhes uma.

Era isso que eu estava agora a pensar.

Sim, é verdade. Mas também é azar. Imagina que é um restaurante que tem uma boa cotação. Uma coisa é tu teres um 4,6 e um que tem 2,0, e tu dizes: "Não, a minha intuição diz para ir ao 2,0". Aí ele, se calhar, já vês: "Estás a pedir para ficares sentado o resto do dia na sanita". Eu nunca faria isso, mas já metes aqui um processo mais analítico. Mas se calhar há certas decisões mais pequenas, de roupa: "Vou vestir isto ou vou vestir aquilo? Hoje não, está mais fresco, vou vestir isto".

É isso. E para decisões mais simples, é isso. Tendencialmente, as pessoas vão mais atrás da intuição e quando corre mal, também não tem um peso assim tão grande.

Agora, quando elas têm, de alguma forma, um peso importante, é tentar encontrar esse equilíbrio.

Sim.

E tu podes treinar a intuição?

Podes. Lá está, não sendo um dom mágico, o que alguns autores e abordagens sugerem é que nos podemos, de certa forma, expor às complexidades das situações reais como elas são e, dessa forma, conseguir adquirir alguma expertise, alguma automatização da forma como reagimos a determinadas situações. Depois podemos até, segundo propõem, generalizar outras situações. Desde que haja algum grau de semelhança entre a situação dentro da qual fomos expostos a estes padrões de aprendizagem e a nova situação e o novo contexto. Se houver algum grau de semelhança entre estes diferentes contextos, até podemos generalizar.

Sim.

A intuição é a expertise num determinado momento para outros momentos. E não sendo um dom mágico, é possível.

Mas há alguma área específica em que as pessoas sejam mais intuitivas? Área profissional, alguma área profissional que as pessoas sejam mais intuitivas? Ou tipos de pessoas?

Tipo de pessoa?

Se há algum tipo de profissão onde as pessoas sejam naturalmente mais intuitivas, por exemplo.

Há tipos de contextos profissionais que invocam, de certa forma, respostas mais espontâneas, menos tempo para pensar, têm que reagir mais no momento. De certa forma, isso vai enfocar tipos de decisões mais intuitivas. Outras pessoas têm mais tempo para pensar, ou até quando trabalhando com dados, existe a expectativa que se baseiem nos dados e não tanto na intuição. O atendimento ao público é algo que exige mais resposta intuitiva, um trabalho mais analítico por natureza, vai exigir mais trabalhar com os dados e não ignorar tanto os dados. Não quer dizer que não possa basear na intuição, e não possa até identificar padrões escondidos no meio dos dados. Mas é isso, há diferentes contextos que, pela sua instabilidade e pela sua natureza de incerteza, vão enfocar mais por tomar a decisão mais intuitiva e as pessoas podem acabar por se sentir mais à vontade tomando decisões intuitivas nesses contextos.

Sim. Estava aqui a pensar se, por exemplo, os atletas, os desportistas serão mais intuitivos.

A intuição no desporto é uma área que está também em grande desenvolvimento. Nesse caso, o que acontece é: existe uma tentativa deliberada de automatizar sistemas e os processos, e colocá-los várias vezes nas mesmas situações, de forma precisamente a automatizar as rotações em campo, tudo. Existe uma componente definitivamente racional em alguns momentos do jogo, tal como tem de haver. Mas na sua base, a intuição no desporto tende a ser trabalhada e promovida expondo os atletas a situações específicas de jogo, de forma a poder automatizar a resposta dentro de campo, porque lá está, dentro de campo é difícil atender às várias variáveis que estão a decorrer.

Sim, eu vejo se calhar a intuição deve ser muito usada nos desportos de combate, tipo no boxe, por exemplo.

Sim.

Onde tu tens que usar muito os reflexos. Não é?

Sim.

Se calhar são desportos que tu tens que ser muito intuitivo.

É. Ou seja, aquela ação que se torna automática relativamente ao: dás um murro, voltas imediatamente para trás e trocas a posição em função do que vais automaticamente detetando no movimento do adversário, isso quanto mais automatizado se tornar e quanto menos no momento, na tua cabeça, tiveres a analisar "ok, ele agora virou, eu tenho que virar". Porque é isso que acontece inicialmente quando-

Sim, quando estás a aprender, sim.

Desportos de combate, inicialmente, nós pensamos: "Ok, ou seja, no taekwondo, karate, ele acabou de mudar a posição das pernas, quer dizer, eu tenho que mudar também. Ok, ele vai emissar, eu tenho que dar uma, depois vou logo a seguir." Quanto mais automatizado isso se tornar, melhor nós conseguimos depois dar resposta a pequenos detalhes que surgem no momento, de forma a conseguirmos literalmente atacar a situação.

Sim.

E sim, é um ótimo exemplo também da forma.

E quem que é mais intuitivo, homens ou mulheres?

Olha, a investigação, isto são sempre temas sensíveis. A investigação tem demonstrado ao longo do tempo, existem uma série de meta-análises que demonstram que, de uma forma geral, são as mulheres que confiam mais nas suas intuições.

Nas emoções?

Emoções e intuições.

Sim. Mas será por isso? As mulheres terem uma ligação mais enraizada, de uma forma generalizada, como é óbvio, mas uma ligação maior às emoções?

Essa é uma das explicações. Sim. Tem a ver com o fato também das expectativas que existem relativamente à forma como homens e mulheres podem tomar decisões, e isso depois tem consequências na forma como homens confiam mais ou menos nas suas intuições, e mulheres. Lá está, isto é o que a evidência empírica e científica tem mostrado ao longo de várias meta-análises. São tópicos que carecem de mais investigação para tentar perceber o porquê. Não é?

Sim.

E não necessariamente demonstrar que as médias são maiores num grupo do que no outro, perceber os processos que explicam.

Sim, é perceber o-

O porquê.

E as crianças? Devem ser, sobretudo, intuitivas.

O que é paradoxal, porque existe evidência que mostra que as crianças também se baseiam em algumas heurísticas e algumas intuições, não têm tanta experiência. No entanto, existem alguns padrões que demonstram que mesmo em idades mais precoces, as crianças também incorrem, também derivado de alguma aprendizagem, naquele tipo de heurísticas que eu te mostrei, dos 18 dias dos zumbis e a metade, porque isso também transmite.

Ser analítico. Sim.

E mesmo em crianças já existe esta intuição. Existem estas intuições, que depois conforme o avançar da idade, se vão consolidando também fruto da experiência e aprendizagens.

Pois, mas curiosamente, ao mesmo tempo que as crianças usam, eu acho que mais do que a intuição, as crianças usam a vontade. Por alguma razão, a nossa mãe quando nós estávamos na praia e a maré estava cheia e ela estava sempre a dizer: "Não vás para dentro da água", porque a intuição e a razão dela sabia que o mar está perigoso, esse cara vai se enrolar todo ou vai se aleijar, mas os putos lá vão todos contentes, como se não tivessem noção do perigo, porque realmente não têm.

E não há grande intuição, realmente. É a experiência. E depois a intuição da próxima vez. E depois não é explícito. Ele não tem uma experiência ou qualquer trauma.

Não corras. E ele corre.

Pois.

Porque ele não tem intuição nenhuma, simplesmente vai atrás da vontade apetece-me correr.

Mas também é importante depois passar pelas coisas.

Sim.

Se eu deixar eu cair. Depende da situação, é obvio.

Até porque, se calhar, por exemplo, na educação de uma criança, quando tu limitas a sua aprendizagem, também estarás a limitar a sua intuição. Ou não?

Por consequência, no sentido em que se há aprendizagem, há uma automatização de processos, de padrões, de conseguir perceber causas e consequências. Se não deixamos a criança passar por determinadas causas e consequências e automatizar processos, não vai acontecer. Não vai desenvolver determinados tipos de intuições, aqui falando de intuição como resposta.

Exato, de um ponto de vista mais científico. Então, Filipe, que conselhos ou que ideias é que tu gostavas de deixar a estas pessoas que têm dificuldade em entender o que é intuição e como podem usá-la?

Podemos pensar aqui em três conselhos gerais, pensar até em três Cs. Primeiro, cultivar a experiência e a aprendizagem, pelas razões que até temos estado a falar, até porque a experiência alimenta muito a intuição. E nesse sentido, as pessoas exporem-se a situações e aprenderem e adquirirem expertise de coisas que são da sua área ou áreas que gostem. Portanto, cultivar essa experiência, conhecer os seus limites também, porque a intuição é muito útil, não é infalível. Conseguimos perceber isso. Também existem aqui algumas limitações associadas à forma como às vezes nos tornamos cegos aos dados, que é importante ter em conta. Portanto, conseguir treinar esse equilíbrio relativamente à intuição e análise, conseguir compreender o que é para nós a intuição, compreender de onde é que ela surge para nós e conseguir, porque a intuição vai se manifestar de diferentes formas para diferentes pessoas, e conseguimos mais facilmente identificar: "Ok, isto é uma intuição minha, isto é um feeling meu", e de certa forma trabalhá-lo e utilizá-lo nesse sentido, tendo por base também tudo o que falamos relativamente ao primeiro, de querer apostar no meu bem-estar emocional e psicológico. E diria que esses três são base, sendo provavelmente aquele bônus é como é que eu me vou sentir depois. Eu vou tomar a decisão e como é que eu me vou sentir se tomar a decisão intuitiva ou se tomar a decisão analítica, pondo tudo em cima da mesa, como é que eu me vou sentir depois? Do que é que eu me vou arrepender mais ou o que é que vai alimentar mais a minha decisão neste momento?

Sim, acho que é tentar navegar nesse equilíbrio. Tu tens, por exemplo, em relação aos anos que tu estudas isto, tens te tornado mais intuitivo?

Tenho procurado escutar mais a minha intuição, distingui-la de outras perceções.

Da ansiedade, por exemplo, etc.

Sim. Não ignorar completamente os dados, porque, por vezes, é importante. Tenho tentado ser sensível tanto à forma como sinto relativamente às decisões, como também em relação às diferentes circunstâncias e aos diferentes dados e o que a situação invoca relativamente à forma como eu devo utilizar os dados. Algo que eu não gosto e não faria, não recomendaria, seria tomar exclusivamente decisões com base em intuição ou só com análise, ou seja, tentar manter estas duas.

Tentar pôr aí um equilíbrio.

Sim, e é isso que eu tenho tentado fazer, mas é um equilíbrio difícil. É um equilíbrio difícil, tendo em conta tudo o que também descrevemos relativamente à linha ténue que separa intuições de outras coisas. Mas é possível.

És casado?

Não.

Nunca te cases, senão ficas sem intuição.

Ok, obrigado pelo conselho.

É o que diz a minha intuição.

É? Obrigado pelo conselho.

Estou a brincar, malta. A malta que se vai casar, orientem a vossa vida.

Claro.

Foi a melhor decisão que eu tomei. Fui casar-me até se eu for pensar bem. Eu não me casei, eu fui viver junto primeiro com a minha mulher, porque fomos ver se corria tudo bem.

É o que faz sentido. Antigamente era diferente, se as coisas davam certo.

A minha mãe não gostou nada dessa ideia, porque antigamente a malta tinha que se casar primeiro.

Exato. Mas é isso, primeiro experimentar, ver, derivar da experiência e depois a minha intuição disse que sim.

Depois a minha intuição disse: "Casa-te". Depois casei-me e disse: "Merda". Obrigado, Filipe.

Obrigado eu, António. Foi o mesmo prazer.

Muito obrigado por teres vindo e nos teres ajudado a esclarecer. E é um tema muito curioso, muito interessante. Se quiserem acompanhar o trabalho do Filipe, vão ao ISPA.

Digam qualquer coisa.

Exato, vão lá bater à porta do gabinete do Filipe. Quanto a vocês, continuem a acompanhar o podcast aqui no YouTube, iTunes, Spotify, nas plataformas do Observador e voltamos, se tudo correr bem, segundo a minha intuição diz, que voltamos para a semana com uma nova conversa. Até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.