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Quando falo, descubro mais sobre mí e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Somos Todos Malucos", um podcast sobre saúde mental, autoconhecimento, conversas que eu espero que acrescentem algo numa nova temporada, que já não sei em quantas é que vai. Eu simplesmente, quando me apetece gravar, gravo. Essa é a liberdade de não ter patrocinadores. Se bem que eu preferia, porque eu farto-me de largar dinheiro nisto. Mas já chega dessa conversa, que eu já abordei aqui muitas vezes, porque eu hei de continuar a fazer este podcast, porque eu gosto de fazer isto e, sobretudo, não só pelo feedback, mas pelas conversas que tenho aqui e que trago. E hoje voltamos a um tema que me diz muito, que é a perturbação obsessivo-compulsiva, para conhecer uma história, mas, sobretudo, para podermos entender como é que nós podemos usar as nossas pancadas, como eu gosto de chamar, a nosso favor. Não quer dizer, obviamente, que isto traga um processo de cura completa e que fique necessariamente curado, mas ao menos encontramos alguma utilidade e estamos a fazer algo com aquilo que muitas vezes não controlamos. E a Rita resolveu fazer algo com a costura. Olha que espetacular! Costura e POC. Quem diria? Rita Sofia.

Olá.

Olá, tudo bem?

Tudo bem.

Rita, tu já me contaste há alguns meses largos.

Sim.

Esta conversa já estava a acontecer há muito tempo.

Exato. Sim.

Eu até já me estava a sentir mal, pensava: "A Rita-"

Eu também já me estava a sentir mal.

"A Rita deve achar que eu não estou ligado nenhum." Mas, na verdade, às vezes é muito difícil coordenar aqui as conversas.

Sim.

Mas a tua história foi muito curiosa, porque tu partilhaste o facto de seguires o podcast, de lidares também com uma perturbação obsessivo-compulsiva desde os teus 13 anos, e que tens um projeto, que já lá vamos abordar também, que liga a costura e a saúde mental. Primeiro de tudo, tu foste diagnosticada com a perturbação obsessivo-compulsiva aos 13 anos. Qual é a tua história?

Antes de mais, muito obrigada por estar aqui.

Sempre às ordens.

Eu quando estava na escola, tive a sorte de ter uma psicóloga com quem tive uma relação incrível e que acabava por ser ali quase que a nossa melhor amiga. Ela estava lá a fazer um estágio.

Na escola preparatória, não era preparatória básica?

Eu estava no oitavo, sétimo, oitavo. E tive sorte, e digo mesmo que foi sorte, porque ela estava lá por acaso a fazer, acho que era o estágio para a tese, era assim qualquer coisa para depois ela fazer a tese e apresentar. E ela tinha um consultório onde nos recebia.

Mas por que tu ias lá? Ou disseram assim: "Olha, está aqui uma psicóloga e vocês agora vão ter que ir lá"?

Primeiro eu ia lá porque ela era superfora da caixa. Ou seja, ela não era aquela psicóloga com quem tu te sentavas numa cadeira, numa mesa superformal, e depois tinhas aquele certo constrangimento. Não. No consultório dela, nós estávamos em pufes, tanto ela como nós, e falávamos de uma forma superaberta das coisas.

Numa conversa.

Sim. Ela na altura já devia ter perto dos 20 e tais, quase 30. Acho que isso também ajudava que ela tivesse uma aproximação conosco, mas acho que acima de tudo também tem muito a ver com a forma de ser dela e com aquilo que ela queria fazer lá na escola. Inicialmente, ela começou por ir às turmas abordar certos temas de sexualidade, coisas que na altura, claro que havia sempre aqueles risinhos, aquelas coisas, mas ela logo aí conseguiu chamar-nos muito a atenção. E a mim, especialmente, porque eu sentia muita necessidade de falar e senti nela um porto de abrigo, senti que podia confiar nela. E já tínhamos uma relação muito boa e entretanto, lembro-me que depois a escola acabou, foram as férias de verão, e naquele verão eu comecei a ter sintomas muito mais fortes. Ou seja, eu sinto que desde pequena que sei que tenho qualquer coisa, assim uma pancada.

Exato. Ou várias.

Ou várias. Mas sinto que desde pequena que sabia o que era.

Sabias que havia algo que não era igual aos outros.

Não era igual aos outros, mas ao mesmo tempo, como eu tinha muita vergonha de falar disso, porque achava que era maluca, que acho que é uma coisa, infelizmente, que acabamos sempre por sentir, então eu não partilhava isso com ninguém. Só que aquilo chegou a uma altura, nesse verão, que eu estava a começar, eu tinha 13, já ia fazer 14 em dezembro, aquilo estava a começar a me estressar muito.

Qual era a tua cena?

Eram várias, mas começou por ser pancas com os números, ou seja, por exemplo, eu ia muitas vezes com a minha mãe ao supermercado e eu tinha uma pancada gigante com o número dois. Nós não podíamos trazer duas vezes a mesma coisa, aquilo deixava-me ansiosa.

Tipo dois pacotes de batatas fritas?

Não, não podíamos.

Tinha que ser três?

Ou um ou três. Dois não podia ser.

Múltiplos de dois.

Quatro acho que não cheguei a tanto. Já não me lembro, porque já foi há algum tempo, mas lembro-me muito bem dessa pancada que eu tinha com o dois.

Mas o que isto te fazia sentir?

Fazia-me sentir ansiosa.

Porque às vezes a questão, as pessoas dizem, também já deves ter ouvido isto, que é: "Eu não gosto do número dois", "Eu tenho que comprar sempre coisas em dois". Não há problema nisso, se isso não causar ansiedade.

Sim, desde que isso não impacte a tua vida de uma forma negativa.

E impactava a tua vida.

Impactava, sim. Inclusive, também depois cheguei a uma altura em que comecei a contar os azulejos, por exemplo, no chão, não podia tocar naquelas partes que tinham cor. Comecei assim com essas coisas. E depois, para tentar apaziguar a minha ansiedade, comecei com compulsões. Pronto, isto é um ciclo vicioso.

E o que eram as tuas compulsões?

Eu lembro-me que quando eu ia dormir, eu tinha uma compulsão superparva. Lá está, as compulsões são parvas, não é?

Exato.

Eu tinha que olhar para o meu cotovelo antes de dormir e depois deitava-me. Se eu, por alguma razão, acordasse e não conseguisse adormecer, abrisse os olhos, eu ia ter que olhar para o meu cotovelo e ir dormir outra vez.

Isso é que eu acho supercurioso, que é: por que o cotovelo?

Por que o cotovelo?

E por que não?

Não sei. Tinha compulsões dessas. Isto numa fase muito inicial, onde eu depois já sabia mais ou menos aquilo que eu tinha, mas que ainda estava a tentar controlar, ou seja, a tentar perceber que as compulsões não eram o caminho, tentar um bocadinho contrariá-las. Mas cheguei a ter essa parte dos rituais fortes. Por exemplo, lembro-me de estar a escrever mensagens e apagar as mensagens duas vezes, depois voltar a escrever, depois voltar a apagar e voltar a escrever.

É como se fosse um disco riscado.

Sim.

Mas a cena era: não conseguias parar esses comportamentos ou achavas que acontecia alguma coisa de mal?

Achava que acontecia alguma coisa de mal.

Pois, é porque pode haver as duas perspectivas. É muito difícil explicar isso para quem está de fora, mas pode ser uma sensação de não estar correto, de desconforto. Parece que isto não está bem assim, até teres esse conforto, ou pode ser a coisa de: "Não, eu tenho que fazer isto bem, tem que estar mesmo certo, porque senão vai morrer alguém".

Exato. Sim, completamente.

Quem é que morreu na tua família?

A minha mãe e o meu irmão, que são as pessoas mais importantes da minha vida. Desde pequenina que sempre tive isso, de ter medo que eles morressem. Eu ainda hoje falo disso com eles. Claro, de uma forma muito mais controlada e muito mais leve, mas eu digo-lhes mesmo: "Eu tenho medo que vocês morram", constantemente. E eles ficam a olhar para mim: "Ok, nós percebemos". Não, ou seja, isso é ótimo, porque tenho uma à-vontade muito grande para falar com eles.

Tu podes falar disso, sim.

Porque para eles é do género: "Ok, é só a Rita a ser a Rita". Mas sim, era muito nessa onda de: se eu não fizer isto, algo de mal vai acontecer. Portanto, era muito nessa onda, depois de falar com a Patrícia, que era a minha psicóloga na altura, que trabalhava lá na escola. Depois de falar com ela, foi um processo muito complicado e ao mesmo tempo foi muito apaziguador. Por isso é que eu aí já sabia mais ou menos o que é que tinha. Eu lembro-me de ver uma entrevista na televisão em que eles falavam de pessoas com POC. Só que eram pessoas que já estavam num nível de rituais e num nível da POC muito avançado. Ou seja, eram pessoas que perdiam horas a fazerem os rituais. E era tudo muito à volta da organização, da limpeza. E eu sempre senti muito esse estigma de: "Ok, uma pessoa que tem POC é uma pessoa que é obcecada com as limpezas e com as arrumações". Não, eu sou superdesarrumada e eu tenho POC. Eu sou muito organizada, mas na minha vida pessoal, eu sou superdesarrumada.

Sim, vais ver a minha secretária, a minha secretária é um caos todos os dias.

Exato.

Mas depois há outras coisas.

Pronto. Eu sabia que aquela entrevista que eu estava a ver, aquilo dava-me imensa ansiedade, porque isso foi antes de eu começar a falar daquilo que eu tinha com a psicóloga, ou seja, com uma pessoa que sabia explicar-me melhor que ninguém o que eu tinha. Mas eu lembro-me que aquilo me deu muita ansiedade, porque era do género: "Eu vou ser assim".

"Eu vou chegar a este nível".

"Eu vou chegar a este nível", exato. Eu tinha muito esse receio. E como naquele verão, eu sinto que os meus pensamentos e as minhas ansiedades, aquilo culminou ali tudo, as hormonas, o estar a crescer.

Exato, a adolescência.

Horrível. Se eu pudesse voltar a ser adolescente, não. É aquela coisa mesmo que para mim foi muito difícil.

E foi essa psicóloga, então, que te disse: "Olha, eu acho que..."

Consulte.

É a tua psicóloga ainda ou não?

Já não. Agora tenho outra, só tive duas. Tive a Patrícia, agora tenho outra há cerca de dois anos, mas ainda estive com a Patrícia durante muito tempo, mesmo depois de sair da escola, porque ela depois começou a dar consultas no consultório privado dela, e foi ela também que me começou a ajudar quando eu comecei a ter ataques de ansiedade, que foi mais tarde.

Tu lembras-te de alguma compulsão que tiveste quando eras miúda, que tu hoje olhas para trás e dá-te vontade de rir ou de chorar, na realidade, que te tenha marcado?

Eu acho que esta do cotovelo dá muita vontade de rir.

Essa dá vontade.

Esta do cotovelo, sim. Por acaso é engraçado, porque na altura eu partilhava o quarto com a minha mãe e eu lembro-me que ela via-me a ter estas compulsões, ou seja, ela via-me a fazer isto e não julgava.

Tu tens que idade, desculpa?

26. Portanto, já lá vão 13.

Sim.

Depois também me lembro de ter que repetir as coisas, palavras, ou seja, repetir duas vezes uma palavra ou não repetir duas vezes uma palavra. Também me lembro que cheguei a esse nível.

Eu tinha uma cena de organização. Eu tenho educação católica, fiz o crisma, fiz tudo, dei catequese eu.

Deste catequese?

Sim, só dei um ano.

Ok.

Depois mandaram-me embora. Mas dei catequese.

Não bate a azada sua.

Pronto, mas vê como é que são engraçadas as coisas. Eu tinha que rezar sempre na mesma ordem. Eu acho que já falei disso aqui, já devo ter falado. Quando enumerava os santinhos todos nas minhas orações, eu tinha que fazer de uma determinada ordem e às vezes tinha que repetir se a ordem não estivesse bem. E era essa sensação de organização.

Sim.

Tinha essa pancada. Depois tinha as que me lembro mais de limpeza, que eu também já falei aqui, a extrema foi tomar banho com detergente para a loiça

Tu sentias os germes?

Não. Como é que eu vou te explicar? Eu demorava tanto tempo para tomar banho, uma hora à vontade, para tomar banho. Às vezes a minha mãe desligava o esquentador.

Ok. Mandava um aviso verbal.

Mas tu, se calhar, fizeste no gozo.

Sim.

Não, a minha mãe era mesmo já no desespero.

Entendo.

E eu tomava banhos tão longos que um dia eu pensei: "Se eu tomar com detergente para loiça, vou demorar menos tempo, porque o detergente para loiça é mais ativo".

Ok.

Mas claro que não funcionava.

Exato.

Porque a cena é outra.

Sim, exato.

Sim, eu lembro-me sobretudo destas de esconder facas. Escondia as facas.

Ai, também passei essa fase das facas.

De achares que matavas alguém.

Sim.

Ou que ias fazer mal a alguém.

Os meus pensamentos sempre foram muito no âmbito catastrófico.

Deixa-me pensar. Se eras sonâmbula ou alguma coisa, não?

Não.

Era tipo...

Não, era tipo: e se eu me passar e fizer alguma coisa?

Pois.

Então passei essa fase das facas também.

Para vocês verem, agora reparem como estão aqui duas pessoas que nunca se conheceram e que tiveram exatamente a mesma pancada. Estão a perceber como é importante nós falarmos das coisas.

Sim, e é engraçado que eu estou me a lembrar de algumas que já não fazem tanto parte da minha vida. Por exemplo, não sei se tinhas essa, que era fazer caminhos sempre do mesmo lado da rua. Imagina um caminho que eu fazia para a escola, eu tinha sempre que fazer o caminho igual.

Sim.

Na mesma rua, tudo igual. Ou seja, eu podia ir por outra rua ou podia fazer de outra forma.

Eu tenho uma aqui na medida. Essa não, mas eu tenho uma e que eu não abandono, e que eu não me preocupo em abandonar, porque me traz conforto. É muito estranho eu explicar isso, porque é de organização, que é: eu quando vou no carro, a conduzir, e eu tenho isto desde puto. É uma cena super estranha. Imagina, eu vou no carro a conduzir e na estrada vai a dar... Isto é muito estranho.

É sempre estranho.

Sim, mas é engraçado, porque tem a ver com organização. Na estrada, vai a dar a sombra. Então tu tens parte de sombra e tens parte de luz na estrada, normal, ou das árvores. Eu imagino que o carro salta nas sombras.

Ok.

Não sei explicar isto. É muito estranho. Eu imagino que o carro salta nas sombras, e é uma cena que eu tenho desde puto. Eu, quando era puto, era a minha imaginação, imaginava como se fosse um carro de super-heróis, que saltava. Vocês não são do tempo do Michael Knight, o Justiceiro, que era um carro que andava sempre a saltar. Pronto, imagino que o carro saltava as sombras e só pousava nas partes de sol.

Então tu só pousas nas partes de sol.

Mas é uma coisa só mental.

Que não te dá ansiedade se ficares à sombra.

Nem me dá ansiedade se eu disser: "Não vou fazer mais isto".

Ok. Isso é só uma cena.

Mas é de organização e é obsessivo-compulsivo, mas não me preocupa. Mas tem este padrão de organização, porque eu ao imaginar aquilo, não te sei explicar, mas aquilo traz-me conforto. Grande pancada esta.

Estou a te ouvir e estou a ter uns resquícios também de coisas assim da minha infância.

Se calhar, por que eu me lembrei disso? Porque tu estavas a dizer a cena dos azulejos, de pisar só em determinados sítios. Olha, eu vou explicar uma coisa. Nós estamos aqui a conversar, mas fora do plano, está aqui o Paulo, que é o convidado da semana passada. Se quiserem, vão ver, que ele está aí. Tu tiveste alguma coisa dessas, Paulo? É específico de quê? De sombras, cores, pisar determinadas coisas, de organização. Eu acho que não. Ele diz que não. Eu fui muitas vezes ali ao Loja Shopping. Sim. E aquilo tinha uns padrões no chão. E eu, quando era puto, andava sempre em certos padrões. Pronto, é os padrões, ele está a dizer. Eu não sei se se ouve ou não. Ouve-se o que o Paulo está a dizer ou não? Mais ou menos. Pronto. O que o Paulo diz é que no Loja Shopping havia padrões no chão e obviamente fazia aquela coisa de putos, que é pisar só os determinados padrões.

Sim, acho que isso não.

Sim, é de organização mental.

Sim.

É a tal questão, quando isto começa a impactar a nossa vida, que nós não conseguimos senão fazer isto, é que é preocupante.

É o que eu digo às pessoas, porque às vezes as pessoas vêm ter comigo e dizem: "Não, eu também sou."

"Eu também sou."

Mas é uma coisa mesmo com eles.

E qual foi a coisa mais bizarra ou engraçada que já tiveste de fazer por causa de uma compulsão?

Eu acho que se calhar essa do supermercado, de eu ter que levar duas coisas. Porque eu tinha que chegar ao pé da minha mãe e dizer-lhe: "Mãe, tem que ser assim."

E a tua mãe compreendia, não?

A minha mãe aceitava. Eu acho que ela na altura não compreendia, mas aceitava muito, acolhia muito e tentava sempre, de alguma forma, fazer-me sentir melhor. Mas acho que sim, acho que talvez essa questão do supermercado, que era uma coisa que eu não tinha qualquer tipo de controle, simplesmente ia com a minha mãe às compras.

Ou seja, acredito que já te começava a fazer ansiedade ir às compras com a tua mãe.

Sim.

Quando ela dizia: "Vamos às compras."

Sim. Não, e eu depois até cheguei a uma altura, comecei a pensar: "Então nós temos o nosso corpo e temos a nossa alma, então são dois, então é o número dois". A minha mente ia ali para uns sítios um bocado estranhos, muito estranhos mesmo. Mas sim, eu acho que talvez essa questão do supermercado e às vezes, por exemplo, estar a andar e ter que ir sempre, por exemplo, pelo mesmo caminho e se alguém viesse comigo, como é que eu ia contornar isso? Mas felizmente, hoje em dia Acho que a parte das compulsões realmente é uma coisa que são muitas as compulsões que eu hoje em dia rio-me e penso: "Que ridícula, que parva". Ridícula, não, mas que parva, como é que fazias aquelas coisas?

Como é que isso fez sentido naquela altura?

Exato, naquela altura.

Isto também é muito curioso, tu olhares para trás, porque às vezes, malta que lida com essas questões, também pode cair naquele pensamento, que é perfeitamente natural, de: "Isto nunca mais vai desaparecer, eu vou estar a minha vida toda a pensar nisto". E de repente essa pancada passa, ou porque aparece outra, ou porque resolvemos isso. Passa e é tão estranho eu conseguir explicar-vos que pode literalmente passar de um dia para o outro. E vocês olharem e pensarem: "Como é que eu ontem ou há dois ou três dias eu estava em pânico com isto e hoje não me diz nada?". É muito curioso.

É, sem dúvida. E tudo isso para mim na altura foi muito impactante, foi muito difícil. E hoje em dia eu olho e fico: "Ok, é só o número dois". Já não tenho que repetir as coisas um certo número de vezes, já não tenho essa compulsão de ir dormir e olhar para o cotovelo e deitar-me.

Tens outras ou não?

Sim, eu acho que hoje em dia aquilo com que eu luto mais são os pensamentos intrusivos, ou seja, que temos sempre, mas que depois acabamos por ter as compulsões para tentar colmatar. Eu reparei que se calhar, a questão de lavar as mãos, que eu ando de transportes públicos e sinto uma necessidade muito grande quando chego a casa de lavar as mãos. Eu quase que consigo sentir os germes nas minhas mãos.

Sim.

É estranho.

Sabes o que é que tens que fazer para lidar com isso? É lamber as mãos. Isso era o que dizia o meu psicólogo, de certeza.

A sério?

É possível que ele me dissesse isso.

Não, mas tenho reparado que me faz uma certa confusão.

Mas o que tu fazes com isso? A cena é: eu compreendo.

Eu lavo as mãos.

Lavas as mãos. Mas ficas lá quanto tempo? Essa que é a questão.

Não fico assim muito.

E tens que lavar a seguir outra vez?

Não.

Então. Acho que é esse o jogo que a gente tem que fazer.

É isso. Às vezes temos que saber escolher as nossas guerras. Às vezes temos que tentar decodificar.

Às vezes, eu, por exemplo, que ainda lido muito com as minhas questões, muitas vezes pensar isso é: que guerra é que hoje eu estou disposto a lutar?

Exato.

E se eu sei que vou obedecer a uma compulsão, tentar minimizar.

Sim.

Ok, vou lavar as mãos. Lavei duas vezes, já vou para a terceira: "Malta, ok, terceira não vai".

Sim.

Vou ficar por aqui, sei que vou ficar desconfortável, mas também sei que vai passar.

Sim, porque tu às vezes também ficas ansiosa só por estares a fazer a compulsão, que era o germe cedi.

Claro. Sim, depois já é o sentimento de culpa, vêm essas coisas todas.

Sim, eu lembro-me também de passar muito por isso.

Quando veio esse diagnóstico, foi há 14 anos, para aí, talvez?

Entre os 14, sim. Foi quando eu voltei para Portugal.

Trouxe um alívio, não? Como é que foi?

Para mim trouxe um alívio, porque finalmente estava a falar com uma pessoa e sentia-me compreendida e tive a coragem de falar com essa pessoa, mas foi muito complicado entender que eu ia ter que lidar com aquilo para o resto da minha vida. E vinham muito aquelas perguntas de: "Por que eu? Por que eu tenho que ser assim?" Quer dizer, na altura não pensava com esta clareza, mas já não me basta estar a passar pela adolescência e pelas mudanças e por querer provar quem eu sou, porque nessa altura é muito isso, nós queremos provar quem somos, queremos provar que somos os mais fixes, que temos as roupas melhores, que fazemos as coisas melhores. E ao mesmo tempo eu estava a passar por aquilo, portanto, trouxe-me um alívio, mas ao mesmo tempo foi uma luta interna muito grande durante a minha adolescência e ainda alguma parte da minha idade adulta.

E se calhar, não sei, em termos de autoestima, teve impacto em relação com os teus colegas, com as tuas colegas?

Sim, eu lembro-me que eu na altura tinha um grupo de amigas e a Patrícia, que era a tal psicóloga. Vê lá a pancada. Eu disse-lhe: "Olha, Patrícia, explica-lhes, por favor, o que eu tenho, mas eu tenho que sair, porque eu não posso ouvir, porque se eu ouvir, eu vou ficar com a pancada que tu disseres", por exemplo. Ou seja, ela ia dar um exemplo de uma pancada.

Mas tuas, provavelmente.

Não, podia ser uma outra pancada. Só que se eu ouvisse aquela pancada na altura, eu ficava com aquela pancada e acabou, e já ia ficar mal por causa daquilo. E eu lembro-me dessa situação, de eu lhe pedir: "Olha, por favor, tenta explicar o que eu tenho, porque eu não sou capaz". Eu acho, coitadas, elas dentro também das suas próprias coisas, das suas vidas, tentaram acolher da melhor forma. Mas é complicado. Tu ainda te estás a conhecer, tu não sabes nada. Quer dizer, ainda não és um adulto, não és uma criança, estás ali numa fase muito estranha. Então foi muita coisa para assimilar, foi difícil, foi um alívio, mas foi uma luta interna e eu tinha muita vergonha. Eu tinha muita vergonha de falar disso.

Sim, porque é o chavão, não é, de ser maluco, ter uma questão. Tu chegaste a tomar medicação, não?

Sim, já cheguei a tomar medicação.

Esse Sertralina?

Sim.

Porque é isso.

Essa questão da medicação também.

A medicação ainda vem trazer mais a cena do maluco.

Exato, ou seja, já tens aqui um diagnóstico. Estás a tomar medicação, pronto, esquece. Tens um rótulo para o resto da tua vida, digamos assim.

Como é que tu lidaste com isso? Como é que tu ultrapassaste isso?

Eu acho que foi fazer muita terapia e acima de tudo, trabalhar muito na minha autoestima Eu acho que isso ajudou muito a perceber quem eu sou e a tentar distinguir o meu diagnóstico daquilo que eu sou enquanto pessoa. Claro que é tudo um bolo e eu acabo por ser um bocadinho dos dois, mas eu não sou apenas a POC. Eu tenho a minha personalidade, tenho as minhas características e tentei sempre pensar, desde muito cedo: "Ok, eu tenho isto, mas eu vou usar isto a meu favor". Eu sou obsessiva nalgumas questões, eu sou controladora, quero tentar sempre chegar a todos os lados e controlar tudo para também reduzir um bocadinho a minha ansiedade. E hoje em dia também estou a trabalhar isso na terapia, porque isso depois chega a um ponto que não é saudável. Mas foi muito nesse sentido, de tentar perceber que isto tem as suas coisas más, mas eu posso tentar puxar um bocadinho isso e fazer coisas boas. Foi muito nesse sentido.

E a ansiedade aparece de onde? Tens ideia?

Eu sinto que tenho ansiedade desde muito pequenina.

Sim, realmente as coisas andam uma com a outra. Aliás, a perturbação obsessiva compulsiva, até há pouco tempo, pertencia no mesmo quadro da ansiedade.

Sim, para mim a ansiedade anda sempre de mãos dadas com a POC. Eu lembro-me de quando eu comecei a ter os meus ataques mais fortes, foi com 17, 18 anos. Foi quando comecei a entrar na minha vida adulta e comecei a ter aqueles sintomas de o coração muito acelerado, as palpitações, uma sensação no peito muito forte, horrível. Eu comecei a sentir isso naquele intervalo em que deixei de estar na psicóloga, porque depois comecei no décimo ano, depois fui para outra escola, depois a vida a acontecer e, entretanto, nessa altura não tinha consultas. E então quando estava no secundário, começaram a vir os sintomas dos ataques de pânico, da ansiedade, e cheguei a ter ataques de pânico fortes, só que eu não sabia o que era aquilo.

Pois.

Então eu voltei outra vez a ter consultas com a Patrícia, já noutro espaço, já não na escola. E basicamente aquele trabalho que nós fizemos durante dois, três anos, foi super importante, porque ela realmente ensinou-me a olhar para a ansiedade de uma forma completamente diferente, porque o que eu fazia era: "Eu estou-me a sentir ansiosa, então vou sair de casa para deixar de me sentir ansiosa e ter outras coisas para me distrair".

Sim.

Só que depois eu chegava à casa-

E voltava.

E voltava. E, na verdade, nunca saía, de verdade. Estava lá sempre o bichinho, mas acabava por estar distraída e parecia que estava mais ou menos controlado. E eu lembro-me da Patrícia falar comigo e de me dizer: "Tu não podes tentar esconder isso saindo e não resolver. Tu tens de tentar perceber de onde é que isso vem". E nós fizemos um trabalho em conjunto muito importante e que eu acho que me ajudou muito a lidar com a ansiedade, com os ataques de pânico, porque eu não sabia o que era um ataque de pânico.

Pois. Foste parar ao hospital também?

Não, não cheguei a esse ponto.

Foi aquela história de achar que estás a ter um ataque cardíaco.

Sim, parece que vais morrer. Eu senti que ia morrer. Era muito difícil. E na altura, parece que isto já foi há montes de tempo, mas há 13, 14, 15, 10 anos não se falava tanto destas coisas. Não se falava e eu já tinha aquele medo de falar da POC. Então depois trazer mais esta camada da ansiedade. Além de não saber, depois comecei a aprender, depois comecei a perceber e comecei a conseguir lidar com isso. Porque eu depois também me percebi, a ansiedade não é uma coisa que tu tomas um Victran e ficas bem. Não, a ansiedade é uma coisa que tu tens que aprender a lidar.

Sim, tens que aprender a lidar, a integrar, a aceitar.

Exato. É todo um trabalho, é quase como se fosse uma segunda fase de um trabalho que eu já estava a ter, vem mais uma camada. Depois comecei a conseguir combater e hoje em dia tenho ansiedade, não uma ansiedade constante, tenho ansiedade em certas alturas e há certas alturas em que a POC vem com mais força e os pensamentos intrusivos vêm com mais força.

Os pensamentos intrusivos é de quê? É violência ou daquelas coisas tipo: "Não prestas, não vais conseguir".

Eu lembro-me que comecei muito com aquela onda catastrófica de: "Vai tudo morrer, vão todos morrer". Depois, entretanto, entrei muito numa onda existencial: "O que eu estou aqui a fazer? Porque eu estou aqui?"

Sim. Qual a razão disto tudo?

Qual a razão, se isto não for real?

Sim, isso é muito curioso, essa perspectiva.

Estamos num videojogo. E se isto é tudo tipo uma simulação?

É muito curioso, porque tu lês isso e se calhar tu pensavas isso e pensavas: "Como é que é possível eu achar isso?" E isso é algo que está muito bem documentado na psicologia, na perturbação obsessiva compulsiva, entre os tipos de pensamentos que tu podes ter. É muito curioso.

Eu tenho que te falar mais sobre isso. Desde pequena que eu lembro-me de ter um pensamento, mas eu depois cheguei à conclusão, na terapia, que isto era um bocadinho uma questão de desassociação. Ou seja, quando tu estás a passar por uma situação muito difícil, depois acaba por se tornar uma situação traumática.

De te afastar.

De te afastar. E eu fazia muito isso, porque tive algumas situações na minha infância complicadas, então eu fazia muito isso de me desassociar e pensar: "Ok, isto é só o meu corpo. Eu estou só aqui, mas isto não me afeta".

Muito engraçado como nós procuramos lidar com as coisas.

Sim, e a minha psicóloga de hoje em dia, que é a Anabela Que é fantástica, que eu adoro. Ela hoje em dia diz-me: "O nosso corpo é fantástico, o nosso corpo protege-nos". Ou seja, o que o teu corpo está a fazer é proteger-te. O corpo sente ali uma ameaça e tenta de alguma forma ajudar-te a lidar com aquilo. Eu comecei muito com essa questão da dissociação, e na altura isso fazia-me sentir bem. Eu lembro-me quando estava muito bem, de repente começava a pensar nisso e isso fazia-me sentir superbem. Hoje em dia e mais tarde, quando eu começo a ficar mais velha e a começar a realmente pensar: "Ok, o que eu estou aqui a fazer? Qual é o sentido disto tudo?" E não no sentido de não querer estar aqui, eu gosto de estar aqui, mas é muito estranho. E depois a pessoa entra num loop de pensamentos: "E o que eu estou aqui a fazer? E se isto não for real, e se isto for uma simulação?" Mas depois também, uma coisa que eu tenho que trabalhar muito com a Anabela é: leva o teu pensamento ansioso até ao fim, dá respostas. Ou seja: "Ok, e se isto for uma simulação?"

Ir até ao limite, até não teres mais para onde fugir.

Exato.

Sim, isso é uma coisa que o meu psicólogo também aborda muito. Quando eu não consigo simplesmente aceitar o pensamento e deixá-lo estar lá, sem me relacionar com ele. É o de: "Ok, então vai até ao fim, porque vai chegar uma altura que o teu cérebro vai dizer: ya.

Ya, não sei. Exato.

Já não concebe mais. O que é que te hei de dar?

É isso. E isso ajudou-me muito, eu fiquei do gênero: "Ok, se isto for uma simulação, o que eu posso fazer? Vamos fazer disto a nossa simulação".

É o simples.

Exato. É isso e aquele medo muito grande das pessoas à minha volta morrerem.

Ou seja, não é relacionado com a tua morte? Ou é mais com a minha morte.

Já passei fases em que eu ficava: "Tenho medo de morrer". Depois já passei fases em que: "Who cares?" Ou seja, lá está, pancadas que em certos momentos são muito fortes e muito limitativas e noutras alturas é tipo, ok. Há dias que eu acordo e que eu lembro-me de certos pensamentos e é do gênero: "Isto não me afeta".

É engraçado, é conforme a gente se conecta.

Exato.

É muito curioso.

E depois há dias que parece que há ali um gatilhozinho, eu sinto uma coisa na barriga e pronto, já foste.

Eu é aqui. Eu sinto aqui. Às vezes qualquer coisa que ouço ou que vejo, e eu sinto aqui.

E tu também não sentes quando estás mais frágil, que ir ler coisas sobre a POC às vezes te pode dar triggers?

Se eu estou com uma pancada que nunca tive ou algo muito aflito, eu já fui ler sobre o tema. E a maior parte das vezes relaxa-me até um certo ponto, porque há ali um limite. É como tu ires ao Dr. Google.

Ah, sim, o Dr. Google.

O Dr. Google, tu vais só ao início e percebes: "Ok, estes sintomas disto. Ok, não tenho nada", mas tu continuas à procura, vais encontrar. E aquilo que eu entendo, e é claramente óbvio, imagina que eu tenho uma pancada qualquer e eu percebo isto. Como eu já tive comportamentos que não me lembro, coisas desse género.

também tenho essa, se eu disse alguma coisa, se eu fiz alguma coisa. Sim.

E já li sobre isso. E eu lembro das primeiras vezes que tive isso, eu pensei: "Isto parece-me ser obsessivo ou compulsivo". Mas como eu nunca tinha ouvido falar, fui investigar e percebi. E pus-me a ler. Até um certo ponto é informativo e é bom, mas chega uma altura que pode ser carga para a parvoíce.

Eu sinto isso também.

Portanto, hoje em dia eu já consigo limitar: "Ok, estou confortável, não vou ler mais sobre isto". "E se descobrires?" "Não quero saber, isto agora é o que me interessa e tento ficar por aí".

Sim, porque eu acho que às vezes há certos pontos em que já não estava a ser saudável, que aquilo já me disputava mais.

Porque depois é a mesma coisa que tu estares a falar com alguém à procura desse reassguramento. Como tu dizias à tua mãe: "Eu tenho medo que vais morrer", e a tua mãe diz: "Eu não vou morrer". E tu ficas, mas depois perguntas: "Mas como é que tu sabes?"

Pois, exato.

Ou seja, não tem resposta.

Sim.

E vais sempre dar a porcaria. Agora diz-me uma coisa, como é que a costura entra nisto tudo?

A costura foi uma coisa que surgiu, não era um sonho que eu tinha desde pequenina. A costura surgiu num trabalho que eu tive em 2018, 2019, em que eu trabalhava numa empresa de cerrimónia noivas, trabalhava na parte do back office, e comecei a fazer o trabalho de receber os vestidos, de recepcionar a mercadoria. Comecei a entrar muito nesse mundo e lá no ateliê tinha uma costureira com quem eu trabalhava diretamente e começou aí o meu encanto.

Isto com que idade?

18, 19.

Tu tens 26, não é?

26.

Então há sete, oito anos.

Sim. Depois, em 2019, comprei a minha primeira máquina.

Tu disseste: "Como é que se faz isto? Como é que se faz aquilo?"

Sim, sempre fui muito vaidosa. A minha mãe é tipo Maria Rapaz e eu sou o oposto, ou seja, sou tipo o pesadelo. Ela está sempre a chamar-me pirosa, mas não com uma conotação negativa. Ela diz: "A minha filha é tão pirosa". Mas com sentido positivo, porque somos mesmo completamente diferentes, é mesmo da minha personalidade. Sempre fui assim, mas tive um impulso de comprar uma máquina de costura. O que acontece? Tive esse impulso, mas eu não fazia a mínima ideia o que era a costura, nunca tinha mexido numa máquina de costura. Usei-a umas duas ou três vezes, não consegui encher a minha Romeu.

Isto pareceu com os meus pais há tempos.

Pois, foi assim mesmo. Mas depois veio o nosso amigo Covid

Tiveste muito tempo pra costurar.

Muito tempo pra costurar, muito tempo pra pensar. Comecei em 2020 e nunca mais parei. Comecei com costura criativa, ou seja, bolsinhas.

Mas o quê? YouTubes e coisas?

Sim.

Portanto, és autodidata.

Na altura do Covid, sim. Depois, entretanto, fiz cursos e estou a ter formações, mas na altura do Covid foi muito ir ao YouTube, ver como é que se fazia, aprender no livro de instruções como é que se faziam as coisas, e começar a tentar e fazer. Tentativa e erro. Depois também houve aquela altura das máscaras. Comecei por fazer máscaras. Foi muito aí. E depois ganhei o gosto, e depois de fazer algumas formações, porque lá está, ser autodidata é fixe, mas eu acho que até um certo ponto. Mas na minha perspetiva, sim, acho que é bom termos alguma formação pra depois também nos sentirmos mais confortáveis a fazer as coisas.

Isso é engraçado, tu não tens ninguém na tua família que era modista, costureira, nada.

Não tenho essas histórias bonitas. A minha avó fazia tricô. Tenho só esta, que é a Lourdes, que era a costureira que trabalhava nessa empresa, que foi a pessoa que me deu essa paixão e que uma vez me sentou na cadeira dela e disse: "Tenta lá costurar, vê lá como é que é isto". E eu na brincadeira e na parvoíce. E ela: "Ah, isso até ficou bem direitinho". E eu: "Olha, ok".

E sentes que fez alguma coisa pela tua saúde mental ou não?

Muito. Sinto que a costura pra mim é onde eu entrego os meus demônios e eles vão. A costura é terapêutica, não é terapia, é terapêutica. E trouxe-me também a possibilidade de eu exteriorizar muito a minha parte criativa. Porque eu tenho muitas ideias, o meu cérebro está sempre ativo. Por exemplo, no WhatsApp, tu tens aquela coisinha que aumenta a velocidade. O meu cérebro é tipo vezes dois, senão vezes três, que não existe. E então eu consigo exteriorizar muito a minha parte criativa na costura. Não imagino a minha vida sem a costura.

Engraçado.

Porque não é só a costura. Tu tens que imaginar na tua cabeça os moldes, tu tens que fazer contas, tu tens que fazer desenhos. É muito mais do que só estar na máquina de costura.

É curioso, porque parece que ao mesmo tempo é como se tu tivesses direcionado as tuas obsessões pela organização pra costura.

Sim, muito provavelmente, de uma forma bastante inconsciente, mas quando eu dizia pra mim mesma, ainda sem saber que ia costurar, que eu queria fazer alguma coisa dessas minhas características, a costura ajudou muito nesse sentido. Hoje em dia, na terapia com a minha psicóloga, ela diz: "Nós temos que pôr aí um travão na questão da costura, porque a costura está se a tornar algo, porque até certo ponto é bom."

Já se está a tornar obsessivo?

Já se torna um bocadinho obsessivo.

Em que aspecto?

No aspecto de ser o centro do meu mundo e de eu só querer fazer aquilo. Porque é assim, eu quando estou a costurar, quando estou num projeto, eu sou muito obsessiva. Sim, faz sentido. Eu fecho-me e não quero saber de mais nada.

Olha, mas eu vou te dizer uma coisa, a minha mãe era costureira.

Isso é muito giro.

Modista. Ela dizia que era modista. E fazia.

É, sim. Há um termo mais chique.

Sim, mas ela fazia e também desenhava.

Pois, é isso. Não é uma costureira de arranjos.

Exato, ela não fazia só arranjos, ela desenhava.

Exato, era isso, como eu.

E é engraçado, porque eu lembro da minha mãe na sua Singer, lá em casa.

Que fofo. A minha também é uma Singer.

E eu lembro de olhar pra minha mãe e ver naquilo, de alguma maneira, um processo meditativo, quase.

Sim, sem dúvida.

Sabes o estar ali . Em volta . Aquele barulhinho, que a minha mãe tinha uma máquina elétrica, mas tinha outra a pedal.

Sim, exato.

Tinha aquela antiga, da roda, muito engraçado.

Cada pontinho que tu fazes é uma pedalada.

E pesa que uma merda aquela mesa. Mas eu lembro de ter as duas máquinas. E tu diz isso, que só pensas na costura. A minha mãe ficava, por causa de encomendas ou às vezes a minha irmã pedia-lhe um vestido, havia um casamento, era três dias que eu não via a minha mãe.

É bom tu perceberes. É, porque as pessoas não percebem isso. Tu viveste isso na pele sem querer.

Sim, eu percebo que há uma parte obsessiva, mas a minha mãe tinha que acabar aquilo, e não podia deixar o processo a meio, porque depois era estar a atrasar e aí metia-se outras coisas pelo meio, não sei mais o quê, e já não se lembrava se fosse preciso das medidas e tinha que estar a rever tudo outra vez. Então era três dias que estava agarrada àquilo até de madrugada. Eu lembro-me perfeitamente disso.

Sim, acontece-me. Ainda por cima eu trabalho em casa, portanto tenho a oportunidade de poder literalmente fazer as coisas quando eu quiser e parar quando eu quiser. Portanto, sim, é complicado. Eu quando começo uma coisa, eu tenho que acabar aquela coisa. Se eu paro a meio, porque tenho que parar, porque a vida acontece, aquilo deixa-me um bocadinho nervosa.

Tu também tens que aprender a gerir isso.

Sim, tenho que aprender a gerir isso.

É isso que a tua psicóloga também te diz então. Não deixar que a perturbação obsessiva-compulsiva ganhe espaço no trabalho.

Exato, no meu trabalho. É engraçado, porque eu só reparei nisso agora. Eu estou com ela há dois anos, eu só reparei nisso quando comecei a ter terapia com ela. Eu não tinha essa noção que isso poderia tornar-se pouco saudável. Mas isto acontece com outras colegas de profissão. Portanto, não é só de mim, das minhas características obsessivas. Eu acho que isto acontece a todas as pessoas que estão no mundo da costura. Tu chegas a um ponto em que estás a ouvir uma pessoa, estás a falar com uma pessoa e estás a pensar nas medidas e nos desenhos. O teu cérebro já não está cá. Tu estás a dizer que sim, mas tu não estás cá. Acontece muitas vezes de as pessoas estarem a falar comigo, a minha mãe estar a falar comigo e eu: "Mãe, está tudo bem." E eu: "Sim, estou só a pensar o que é que vou ter que fazer." Porque o nosso cérebro já é tão naturalmente acelerado. Então eu entro ali num loop.

E como é que trabalhas isso? Estás a trabalhar?

Estou a trabalhar, estou a tentar. A terapia é a resposta para tudo. A costura ajudou-me muito a lidar com a frustração, porque eu sou muito perfeccionista e tinha muito pouca tolerância ao erro comigo, ou seja, não com os outros, sempre comigo.

Isso é muito curioso, porque é uma coisa universal.

Acho que sim.

Eu já não me lembro onde é que eu li, ou se li ou se ouvi em algum lado, mas faz muito sentido, que é: se tu tens um amigo teu que está a sofrer, por alguma razão, aconteceu qualquer coisa, tu vais ter com ele e geralmente o que é que tu fazes?

Vais dar colo.

Vais dar colo, vais abraçar, vais dizer: "Está tudo bem, faz parte." Então por que não fazemos isso connosco?

Exato.

É aquela observação tão óbvia.

Sim.

Não é suposto nós sermos os nossos melhores amigos?

Sim, é suposto. Mas eu acho que isso também tem muito a ver com nós sabermos aquilo que somos capazes. E então como nós achamos que somos capazes de certas coisas e depois não conseguimos ou por alguma razão não corre bem, lá está, vem a frustração. Quando são os outros: "Está tudo bem. Pronto, não conseguiste agora, consegues para a próxima." Quando é comigo: "És mesmo estúpida, és mesmo parva. Como é que fazes isto há tantos anos e fizeste isto mal?" Mas estou a trabalhar nisso, estou a trabalhar nesse discurso interno.

Que não é limita, mas que chateia.

Chateia muito. Se chegar ali a um nível muito complicado, eu acho que depois pode travar muito a tua vida e pode fazer com que tu tenhas problemas com a tua autoestima e no geral. Ou seja, se tu tens um discurso interno extremamente negativo e estás sempre a dizer que não consegues, que não és capaz.

Sim, agora que encontraste essa tua paixão, tens que aproveitá-la da melhor maneira.

Sim, mas ajudou-me muito, porque ao início, e mesmo hoje em dia, nós estamos em constante aprendizagem, vão haver coisas que não vão correr bem.

Claro.

Vão haver coisas que mesmo que eu já tenha feito 500 vezes, por alguma razão, naquele dia, as coisas não estão a dar certo. E nem sempre é fácil. Então, nessas alturas, um mecanismo de defesa que eu arranjei foi parar. Parar, literalmente, porque quanto mais eu estiver ali naquilo, pior.

E vais fazer o quê? Nada.

Vou fazer outras coisas. Às vezes posso ir ver televisão, posso ir passear, posso ir lavar a loiça, mas sair daquele ambiente e ir fazer outra coisa.

Isso tu aprendeste na terapia?

Foi sozinha. Foi um bocadinho nos dois. Eu cheguei a um ponto em que eu já estava a ficar tão frustrada com uma coisa, que se eu continuasse ali, aquilo ia ser uma bola de neve, só ia estar mal. Então acho que arranjei muito esse mecanismo de defesa do sair do espaço e ir fazer outra coisa, ou mesmo parar naquele dia e depois voltar no dia a seguir. E depois no dia a seguir ou passado uma hora, duas, já tudo corria bem. Então arranjei muito esse mecanismo.

Na realidade, isso é um mecanismo que a gente deve usar em qualquer situação.

Eu acho que sim. E podendo parar.

O ganhar distanciamento, parar.

Sim, sem dúvida, acho que isso me ajudou muito, esse mecanismo de defesa, porque sendo uma pessoa já muito negativa comigo mesma, muito mázinha às vezes, e ter que depois estar a lidar com uma profissão que envolve muitas coisas que às vezes não estão no teu controle, tu tens que arranjar mecanismos de defesa.

E que é muito minuciosa.

E depois lido muito com a crítica. Ou seja, o meu trabalho depende muito do que os outros gostam ou não.

Mas aí já tem o gosto pessoal.

Sim.

Tu fazes uma peça para uma pessoa. Essa pessoa, em princípio, vai gostar, porque foi trabalhada com essa pessoa.

Sim.

Se os outros não gostam, mas aí já é uma questão de gosto pessoal.

Sim. Às vezes as pessoas são complicadas.

Mas isso sim.

Pessoas a serem pessoas. Eu adoro as pessoas, mas ao mesmo tempo eu odeio as pessoas. A sério, a parte do meu trabalho que eu mais amo e mais odeio são pessoas, porque podem ser fantásticas e maravilhosas.

Porque depois tu metes um vestido qualquer ou um fato qualquer, "Isto é muito feio. Que horror essa cor".

Tudo o que tu possas imaginar. Imagina, fizeste alguma coisa.

"Isto faz-te mais gorda".

Imagina, fizeste um arranjo e a pessoa afinal chega à conclusão: "Afinal não é isto, depois afinal não é aquilo." Porque às vezes as pessoas não sabem o que é que querem.

Mas isso é engraçado, já viste como não, ao mesmo tempo, tu vais escolher uma profissão que te obriga a trabalhar esse perfeccionismo todo.

Sim, estou em constante-

Essas, exato.

Estou em constante terapia.

Olha, mas agora explica-me, tu contactaste-me porque tinhas um projeto em que ligava a costura mesmo à APOC, que eram umas T-shirts com frases relacionadas com a APOC e com a saúde mental.

Sim.

Aliás, tu tens uma camisa que tem uma dessas frases que é: "E se eu tiver um ataque de pânico?"

Sim, é a minha frase.

É a tua frase favorita?

É uma das minhas favoritas, porque me identifico muito com isso. Sim.

Essa frase é uma frase que quem já teve um ataque de pânico, sobretudo, já pode pensar muitas vezes.

Sim, exato.

Mas como é que surge essa ideia?

Eu sempre tive uma vontade muito grande de fazer alguma coisa com isto, ou seja, de poder falar mais disso e trazer isso para cima da mesa e acima de tudo, tentar tirar um bocadinho aqueles estigmas que as pessoas normais têm sobre a POC, ou seja, que é só sobre as limpezas e sobre as arrumações. E conforme a costura entrou na minha vida, eu quis tentar juntar de alguma forma. Primeiro surgiu uma ideia das T-shirts com as frases. As frases, eu escolhi, acho que são nove ou oito frases, tem: "E se eu falhar?", "E se eu tiver um ataque de pânico?", "E se eu morrer hoje?", "E se eu fizer mal a alguém?" Tem várias frases neste sentido e são frases que eu quis que fossem fortes e impactantes, ou seja, queria que fossem impactantes para que as pessoas olhassem para aquilo e ficassem meio que indignadas, tipo: "O que é isto?"

Sim, e curiosas.

E curiosas. E ao mesmo tempo, ajudar também pessoas que lidam com pensamentos intrusivos e que não têm necessariamente a POC, ou seja, há muitas pessoas que lidam com pensamentos intrusivos e com a questão da ansiedade.

E há pessoas que têm a perturbação obsessivo-compulsiva e não sabem.

E não sabem, exato.

E se calhar ao lerem isso, tipo: "Eu já pensei nisso. De onde é que vem isto?"

Sim, ou seja, ativa ali um gatilho e portanto, foi muito nesse sentido. A primeira coleção que eu lancei foi o ano passado, foi com as tais T-shirts e na altura, eu não estava a gostar muito do lettering, não estava a gostar muito do design, então continuei com essas T-shirts, mas este ano quis fazer uma coisa diferente, ou seja, quis dar um bocadinho mais de personalidade, fazer uma coisa mais a meu gosto e também que seja vendável, obviamente, e que seja mais usável, digamos assim, porque eu acho que as primeiras T-shirts que eu fiz, pareciam muito-

Era quase tipo um protótipo.

Sim, ou seja, pareciam muito como se fosse uma associação. E eu não queria dar essa imagem.

Que queres que seja uma peça de moda.

Exato. Queria juntar muita coisa numa coisa só.

Essa camisa é uma peça de moda.

Pronto, exato.

A camisa foste tu que desenhaste também ou é uma camisa-

Sim, a camisa fui eu que fiz, foi tudo feito por mim.

Isso é linho?

É linho, sim. O lettering e a parte, eu não sei se está para ver na câmera, isto tem um padrão. Como é que isto aconteceu? Eu conto que tenho uma amiga que é designer gráfica, e eu basicamente disse: "Olha, eu tenho estas ideias, eu quero trazer cor, eu quero trazer vida e ao mesmo tempo quero que isto seja algo sério". E ela conseguiu trazer-me isso através dos padrões, ou seja, eu tenho só dois modelos de camisas, tanto para mulher como para homem, e tenho três padrões, e esses três padrões tentam refletir o ruído que nós temos mental, ou seja, são rabiscos, mas tentam refletir o ruído e os pensamentos e a confusão mental que nós podemos sentir. Mas como eu sou muito colorida, mesmo a nível pessoal, eu sou uma pessoa colorida, eu disse: "Ok, mas eu quero cor, ou seja, não quero que isto seja só cinzento", porque nós queríamos e tínhamos esse objetivo de trazer leveza, mas ao mesmo tempo, mostrar que isto é um assunto sério.

Sim, deixar as pessoas a pensar.

Deixar as pessoas a pensar. Mas acima de tudo, também ajudar as pessoas a perceberem que os seus pensamentos não as definem, que são só pensamentos e que nós podemos aprender a lidar com eles.

Também era uma boa frase essa.

Sim.

Não tem o "E se", mas o "são só pensamentos".

São só pensamentos. Há tanta coisa.

E as frases são todas pensadas por ti ou estiveste com pessoas que lidam com POC?

Não, as frases foram todas pensadas por mim e o "E se" foi muito, eu queria que tivesse o "E se", porque o "E se" é a base da POC.

É a frase mágica. A pergunta mágica.

É. Então eu queria muito que tivesse o "E se". Escolhi estas frases porque me identificava com as frases. Também tenho uma frase que é o "E se falhar?", do "E se morrer amanhã?"

"E se não sou boa pessoa?"

Por acaso essa esquecei não. Mas tem "E se eu fizer mal a alguém?" Ou seja, são tudo coisas que até mesmo pessoas que não têm POC, mas que pensam, porque as pessoas pensam. Portanto, foi muito nesse sentido e esta coleção ficou muito mais do meu agrado. E depois também teve aqui um toque especial, porque o vídeo que eu fiz a apresentação foi com um grupo de dança, porque a costura é a minha profissão, mas ao longo destes anos eu abracei a dança, que foi uma coisa também que me ajudou muito a nível pessoal e também foi muito terapêutico. E pedi ajuda a uma coreógrafa, que tem um grupo que se chama Alma, ela também passou por fases muito complicadas de depressão e ansiedade. Então ela fez uma coreografia para o lançamento e fizemos uma coisa muito gira, fomos para a praia, estávamos todos com camisas, cada um escolheu a sua frase e fizemos uma coreografia e foi muito especial porque aquilo é um grupo, foram alguns elementos desse grupo, e foi mesmo muito especial porque estávamos todos ali muito para o mesmo e eu quis mesmo que eles escolhessem as suas próprias frases, ou seja, as frases que fizessem sentido. E ela, por exemplo, não tem POC, mas escolheu uma frase que é: "E se eles não gostarem de mim?"

Sim.

Que é uma coisa tipo-

Que é mais comum, mas que pode ser mais comum nas pessoas. Qualquer pessoa pode pensar nisso

Sim, e depois pode chegar a um ponto em que já é do gênero: "Meu Deus, e se eles não gostarem de mim, e se eu fiz alguma coisa, e se fui eu?"

É um poço sem fundo.

É.

Já tiveste feedback do projeto?

Sim, já tive, inclusive, porque eu depois também contactei a Portuguese OCD Foundation, que tu deste esse input pelos e-mails, e eu contactei-os e falei com eles, eles foram espetaculares e também fizemos algumas parcerias. Tive um feedback muito positivo deles e mesmo de alguns membros e mesmo de pessoas que eu, à partida, acho que não têm POC, mas que quiseram comprar e que se identificaram com a mensagem que eu queria passar, que é realmente de: é ok tu teres pensamentos estranhos, é ok tu passares por situações menos agradáveis e também tentei muito abordar a questão da depressão e da ansiedade, porque estão sempre ligadas com a questão da POC. E infelizmente ainda são muito vistas como leveza, como preguiça.

Mania.

Como mania, como fraqueza. Sinto que nós estamos sempre a bater na mesma tecla e as pessoas que acham que é só uma coisinha, vão sempre achar que é só uma coisinha.

Sabes o que eu te digo?

Mas temos que ir fazendo o nosso trabalho.

Sim, mas o que eu digo é que também essas pessoas, eu tenho amigos meus que compreendem, tenho outros que gozam comigo. Sinceramente, eu rio-me hoje porque eu sei que há coisas que eles têm, que eles estão a passar, que para mim me dizem zero.

Pois.

E que não me causam problema nenhum. O que eu quero dizer com isto não é do gênero: "Tu também tens merdas que são estúpidas."

Sim.

Não é nesse sentido. O que eu digo é: eu entendo que ele não compreenda e que para ele não faça sentido, tal como ele terá os seus medos e ansiedades ou questões, e se calhar vai-me dizer e aquilo para mim, tipo-

Passa-te ao lado

...passa-me completamente ao lado.

Sim.

Eu acho que essa questão da aprovação, ainda há pouco tempo partilhei um post sobre essas questões. Eu acho que a questão da aprovação já foi mais importante para mim.

Percebo.

De necessitar da aprovação e a validação dos outros.

Sim.

Acho que a única validação que tu precisas é a tua.

Mas isso é preciso já ter uma estrutura mental muito forte.

Não sei. É assim, claro que eu também a sinto, às vezes, mas eu já consigo ter um distanciamento maior.

Sim, tens já uma.

E se calhar, quando as pessoas me dizem: "Tens muita coragem em falar das tuas coisas." Eu não sinto isso como coragem. Eu sinto que para mim é um processo natural.

Sim. E ajuda.

Porque eu não estou à procura da validação. Eu quando partilho as minhas coisas, não é à espera que as pessoas digam: "Coitadinha", nada disso.

Sim.

É mais na perspectiva de: há gente que se vai identificar com isto.

Sem dúvida. Sim.

Tal como a conversa que nós estamos aqui a ter e percebemos que temos pancadas iguais.

Sim, exato.

É nessa perspectiva, porque a validação dos outros vale o que vale.

Sim, nesse sentido, ou seja, no sentido da questão da POC, para mim também, ao início, foi muito difícil eu falar disso abertamente.

E isto tem-te ajudado o projeto.

Tem-me ajudado imenso. Sim. E eu sei que há pessoas que já viram o projeto, mas eu tenho noção que vão haver pessoas que vão ficar espantadas, do gênero: "Tu tens POC? Pareces uma pessoa normal, quem diria?" Tenho certeza que vão haver pessoas que vão pensar isso, porque eu não me apresento e digo: "Olá, eu sou a Rita, sou costureira e tenho POC." Mas hoje em dia falo disso de uma forma muito mais aberta e o meu maior objetivo na coleção foi de chegar a pessoas que se possam identificar com isto, porque eu sinto que fui sortuda por ter tido alguém nos meus 13 anos que me deu confiança para eu falar, porque eu tenho a certeza que se não tivesse havido a Patrícia, não posso dizer com certeza, mas ia ser muito difícil eu abrir-me, porque eu tinha tanta vergonha, eu tinha medo. É tão difícil, e mesmo tu, pelo que eu também já ouvi, também demorou algum tempo até tu seres diagnosticado.

Sim.

Ou seja, quer dizer, eu não consigo imaginar como é que teria sido a minha vida se eu não tivesse tido esse diagnóstico e não tivesse tido esse apoio. Custa-me muito pensar que há pessoas que têm 27, 28, 30, 40, 50 e passaram isto a vida toda e nunca tiveram a oportunidade de falar, de falar abertamente.

Sim, eu acho que esses projetos, assim como o teu, é uma porta de entrada.

Sim, é isso.

Para pensarem, descobrirem.

Só a sementinha, só as pessoas pensarem ou fica ali qualquer coisa, mesmo que: "Lá vêm estes falar da saúde mental e não sei o quê." Mas fica lá qualquer coisa. E o meu objetivo é esse, é se eu puder de alguma forma chegar a alguém e a pessoa pensar: "Ok, se calhar eu também posso fazer alguma coisa."

Olha, mas a vida de costureira não é fácil.

Não.

Já pensaste desistir?

Já. Já pensei várias vezes, até porque infelizmente, venho de origens humildes, portanto tudo aquilo que eu tenho foi muito fruto do meu trabalho e também da minha mãe, que sempre nos ajudou, a mim e ao meu irmão. Mas é muito inconstante.

Pois.

Ou seja, e isso mexe logo aqui com as minhas inseguranças, porque tu nunca sabes o que é que vem. Tu não sabes, não é como um trabalho normal, que ao fim do mês tu ganhas aquele valor e pronto, e está feito. Não, é muito ir à procura e hoje em dia, com a questão das redes sociais ainda mais, que é do gênero tentares Eu lido muito com a questão de querer tentar muito chegar a pessoas e quero que as pessoas me conheçam, mas isso causa-me ansiedade até certo ponto, porque é do gênero: "Esta semana não estou a chegar a tantas pessoas. Por quê? O que eu estou a fazer de mal?" E depois é muito um limbo entre muitas vezes eu tenho que estar literalmente a costurar e não posso estar a fazer nada, mas ao mesmo tempo quero gravar coisas e conteúdos e coisas engraçadas para chegar a mais pessoas. Aquilo fica uma questão complicada de digerir.

Mas tens levado a coisa para frente.

Sim, mas já pensei em desistir, mas o meu amor pela costura é maior.

Se calhar, no meio desse processo, ainda descobres outras coisas que podes fazer com a costura.

Sim, é assim. Lá está, eu comecei com costura criativa, agora estou com confecção por medida, porque tem-me levado para esse lado e é realmente o que eu gosto. Não é uma profissão fácil. Mas tenho a sorte de poder dizer que faço uma coisa que realmente gosto e há muitas pessoas que não têm essa possibilidade.

Pois, e às vezes, se calhar, enquanto isso for o mais importante e que te permita viver com alguma estabilidade, é o melhor, não é?

Sim, estabilidade dentro da instabilidade.

Sim, se calhar instabilidade a nível monetário ou económico, mas estabilidade mental.

Mental, sim, sem dúvida.

E a estabilidade mental. Ainda ontem estava a falar com um amigo meu. Estava a falar com a Fátima Lopes.

Com um amigo meu.

Estava a falar com a Fátima Lopes e eu estava a lhe dizer que já não me preocupava. Eu tinha muita ânsia de fazer coisas em televisão e de procurar televisão. E eu hoje em dia percebo que não vale a pena. Eu vou apresentando os meus projetos, vou sugerindo as minhas ideias. Gostam, gostam, não gostam, não gostam. Eu sigo a minha vida. Não posso viver dependente disso e tentar respeitar um bocadinho uma coisa que eu também não sei fazer, que é parar. Tenho muita dificuldade.

Sim, percebo.

E parar é não estar a fazer nem sequer merdinhas para as redes. É muito difícil para mim.

Percebo.

E tenho que tentar respeitar mais isso, porque obviamente a estabilidade económica é muito importante, mas a mental-

A que custo, não é?

Exato, a que custo?

Sim, eu percebo perfeitamente.

Onde é que tu vês, olhando para o futuro, o que é que tu queres para ti e para a tua marca e para esta mensagem?

Para mim e para a minha marca, eu quero que chegue ao maior número de pessoas possível e quero tentar fazer mais coleções, mais coisas minhas, a meu gosto. Também, obviamente, confecção por medida, mas tentar fazer mais coleções, coisas que eu pense e que eu acho que vão resultar. Depois também tenho aqui uma nova vertente, que é a parte das aulas. Estou a começar a dar aulas também.

De costura?

De costura, sim. Aqui para o negócio é bom e descobri que é uma coisa que eu gosto muito. Porque acho que, às vezes, tu podes gostar de uma coisa e não necessariamente gostar de ensinar. É extenuante, mas é muito bom, eu gosto muito, é engraçado.

E eu, por acaso, ia te dizer isso. Se já tinhas pensado dar aulas. E a questão da saúde mental também pode ser interessante, fazeres as duas coisas.

Sim, exatamente.

Falar sobre as duas coisas.

Sem dúvida. E é completamente diferente eu estar fechada a fazer as minhas coisas e estar numa sala com pessoas. É engraçado que as pessoas estão ali a entregar-se a mim e aos meus ensinamentos. Isso para mim foi superespecial, que é do gênero: "As pessoas pagam para eu lhes ensinar?" Isso é bué especial.

E depois já começam a fazer partilhas de histórias, não é? E tu começas a perceber que aquilo é muito mais do que costura.

Exato, sem dúvida. Depois começamos a falar de coisas que não têm nada a ver e as pessoas abrem-se e aquilo quase que fica uma comunidade. Eu até estou a pensar em ter aulas regulares, tipo turmas regulares, que é para ter mais essa ligação com as pessoas. Porque lá está, eu odeio pessoas e eu adoro pessoas.

Tu odeias partes de pessoas.

Partes de pessoas, exato. E de mim também.

Claro, tu também és uma pessoa.

Exato. Sim, portanto, aqui a parte das aulas, que realmente é uma coisa que eu descobri que gostava muito e depois também ajuda muito no nosso ego e na nossa confiança, quando as pessoas dizem: "Gostei tanto, aprendi tanto." É um bocadinho egoísta, mas-

Não é nada egoísta

...mas ajuda também na minha confiança. E depois aqui a parte da coleção é muito isso, é dizer literalmente às pessoas que a depressão, a ansiedade, a POC, são limitativas, mas não são preguiça, não são leveza, não são uma mania, são coisas sérias, são coisas complicadas, mas que é possível ultrapassar.

E viver com elas e integrá-las.

Exatamente, é isso. É muito isso, é integrar, ou seja, faz parte de ti, tu tens que aceitar. E o "tens que aceitar" não é necessariamente teres que fechar aquela porta e pronto. Eu acho que é um trabalho para o resto da vida. Eu sinto que fiz esse trabalho, que faço esse trabalho, que vou continuar a fazer esse trabalho e tenho plena consciência que vão haver alturas em que eu vou estar pior. Mas é engraçado, porque cada vez que eu estou pior, é menos difícil, porque eu vou ganhando mais ferramentas.

Sim.

Isso é muito interessante. Portanto, façam terapia, se puderem. É muito importante e eu sei que infelizmente há muitas pessoas que não têm possibilidade. A terapia é caro e se puderem fazer, eu aconselho vivamente.

E encontrem algo que gostem de fazer.

Sem dúvida. Sim, ou seja, não só a costura. Por exemplo, eu fui para a dança, porque sentia que precisava de mais coisas que me preenchessem, e eu acho que isto é Qualquer pessoa pensa isso, que é se nós nos focarmos, por exemplo, nós temos uma vida em que só nos focamos no trabalho. Se nos tiram o trabalho, tiram-nos o tapete do chão e tu não tens nada.

Quem és tu para além disso?

Quem és tu? Eu adoro a costura, a costura é das coisas mais importantes da minha vida, mas eu quero ter outras coisas, porque nós não sabemos o dia de amanhã e eu preciso de ter tapetes, eu preciso de ter coisas onde me agarrar, preciso da dança, preciso de passear, eu gosto de ler, das pessoas que são mais importantes para mim. Isso é uma coisa que eu também tenho trabalhado muito em terapia, que é: se não fazes a dança, se está mais parada na dança, tenho que fazer exercício físico, tenho que fazer alguma coisa. É isso, é fazer coisas que gostamos e ir experimentando, porque eu fui para a dança assim um bocado à toa e até foi uma coisa que eu gostei. Mas se não gostar, tentar fazer outras coisas.

Procurar.

Sei lá, artes marciais. Sei lá. Tanta coisa.

Artes marciais é bom, eu gosto. Porque eu treino quase todos os dias e é uma hora que eu estou ali a tentar não morrer.

E tu não sentes falta quando não fazes?

Sinto. Ao mesmo tempo, sinto falta, mas custa-me muito ir para lá.

Sim, o ir para lá.

Custa muito ir para lá e pensar: "Ai".

"Lá vou eu."

Já disse isso aqui, não há um único dia que eu saia e que não pense.

"Ainda bem que eu fui."

Ainda bem que eu fui.

Tal e qual.

Por fim, uma mensagem que tu, se pudesses voltar aos teus 13 anos e falar contigo mesma, que mensagem que tu darias? Está uma cena bué sentimental.

É, parece. Eu diria que o futuro não é tão assustador como parece e que vais conhecer muitas pessoas com pancadas parecidas com as tuas e vais sentir-te muito melhor com isso e vais aprender a lidar com isso.

E curiosamente, esta mensagem para a Rita de 13 anos serve para todos nós, em qualquer questão. Muito obrigado, Rita.

Obrigada.

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"Casa Feliz".

"Casa Feliz", "Bom Dia, Portugal" é outro. Na "Casa Feliz" com o Baião, falar só sobre a costura. Portanto, sigam-na. Muito obrigado por estarem desse lado também. Venham aqui aos comentários, partilhem as vossas ideias, os vossos hobbies, aquilo que vos ajudou na vossa saúde mental e continuem a acompanhar não só o projeto da Rita, mas como este projeto. Muito obrigado e até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.